XV
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Os choques, que Thereza e Philippe receberam, exaltaram a paixão. Absorviam-se longas horas, todos os dias, abrazados, soffregos, na alegria do amor. Sentiam-se movidos por uma fatalidade bemfazeja, que lhes dava o enthusiasmo de viver, a força de esperar e a intensa confiança na libertação. A esta alegria transcendente, Thereza juntava a satisfação profunda, entranhada, de haver arrancado Philippe ás outras mulheres e a tudo que não era unicamente ella. Devorava-o de caricias, queria absorvel-o em seu corpo e o seu desespero era não poder realizar integralmente esta voracidade, que a allucinava. Na paixão exclusiva, o dominio e o paraíso de Thereza. Os seus olhos reluziam o prazer, que desafia. Philippe era a sua carne e o seu sangue. Para possuil-o, os dentes mostravam-se em um riso de triumpho. Para defender a sua posse, mostravam-se em uma raiva de ataque e destruição. Nesta magia o ser de Philippe dilatava-se gloriosamente. Elle não era somente a posse de Thereza. Era o seu dominador. A sua energia, a sua intelligencia, o seu encanto, o seu amor, transfiguravam Thereza na amante incomparavel, que lhe dava o perpetuo deslumbramento. As forças do universo, nas suas expressões puras e absolutas, sublimavam-se no ser adorado. A luz, a côr, a vegetação, o som, o calor, o perfume, o sabor, dynamizavam-se na mulher e, nesta concentração da natureza, abysmava-se a eternidade de Philippe.
Philippe separara-se das contingências familiares e sociaes. Tudo o que não interessava ao seu amor deixara de existir para elle. Foi com grande esforço que sua mãe poude obrigal-o a prestar attenção aos negócios da familia. Ha algum tempo, o tio de Philippe, Salvador Corrêa de Sá, resolvera aceitar uma proposta americana para a compra da fazenda em São Paulo, na qual D. Isabel e os filhos tinham a quarta parte. Ultimamente Salvador de Sá reclamara a presença de Philippe para a avaliação da propriedade e realização da venda. Os compradores eram esperados dos Estados Unidos a todo o momento. A chamada a esta realidade restricta atordoou Philippe. Era a separação de Thereza, o exilio do perpetuo encantamento, o desterro das caricias immortaes, o desespero, a agonia. Philippe não teve animo de informar Thereza da dolorosa ameaça á bemaventurança, em que esperavam a libertação. Recusou-se a partir. D. Isabel exasperou-se com a negligencia do filho e entrou a exprobal-o e a responsabilizal-o pelos prejuízos, que ella e Leonor soffreriam pelo abandono daquelle, que devia ser o protector, o amparo da familia. Este debate rancoroso e implacável martyrizava Philippe. A sua razão pratica justificava as queixas e os desabafos da mãe, que se tornava feroz pela ambição de um grande negocio, que seria ainda melhor, se Philippe o acompanhasse de perto, zelando pelos interesses communs. Rompendo as camadas de santidade de uma vida beata, os impulsos ancestraes da descendente de conquistadores mostravam toda a ganância e todo o império da raça. D. Isabel commandava Philippe e enfurecia-se por não ser obedecida. O seu instincto não se demorou em descobrir que os pretextos de negócios forenses, allegados pelo filho, eram tênues ou falsos e que somente o amor o retinha e impedia de cumprir o dever, e esse amor só podia ser por Thereza. Em D. Isabel a devota alliou-se á ambiciosa e aquelle amor, que aceitara e abençoara como a emanação sublime do coração do filho, representava-se agora para ella como um nefando peccado. 0 ódio gerado pelo interesse e pelo egoísmo a fez sahir da sua circumspecção. Nas discussões com Philippe, D. Isabel não tinha pejo de insultar Thereza. Nada podia ser mais deprimente para Philippe. Por algum tempo teve forças para esconder de Thereza a sua miseranda attribulação e a presença da adorada produzia o sortilegio do esquecimento dessas misérias. Mas um dia a pressão do tio fora violenta. Escrevera a irmã que os Americanos tinham chegado a São Paulo e esperavam Philippe para irem juntos á fazenda. 0 tio declarava que, se Philippe não comparecesse, elle não realizaria o negocio, pois tinha escrúpulos de o fazer, sem a presença e a fiscalização dos associados. Armada desta carta, D. Isabel irrompeu no quarto de Philippe. A devota esbravejava. — Leia e veja o crime, que você com a sua semvergonhice está commettendo. Por causa de um peccado infame, vamos ficar na miséria, deixamos de ganhar um dinheirão... Você não tem piedade de mim, nem da sua irmã. Pobre Leonor, tão santa, condemnada a viver na pobreza por causa de um irmão relapso. Foi para isto, que lhe dei a vida? Foi para isto, que lhe criei com tanto sacrifício? E tudo por causa de uma descarada, que não tem religião e está no inferno da luxuria... Miseráveis... Porcos... Philippe ficou acabrunhado e não respondeu. Aquillo era sua mãe. Monstro de cupidez, de ódio, de brutalidade. Quando, á tarde, elle se encontrou com Thereza não teve mais força de occultar o desespero. Thereza ouviu aterrada a narração desse drama mesquinho da cobiça e do rancor e viu a tragédia de mais este circulo infernal, que se abria para envolver e suffocar o seu amor. O espanto mudou-se rapidamente em cólera. A surda e inexplicável antipathia, que a separava de D. Isabel, justificava-se agora. Thereza vociferou a sua raiva contra a mãe de Philippe. Vendo-o calado, sem acompanhal-a no seu ódio, Thereza exprobou-lhe, sarcástica, a reserva, que era pudor e que ella considerava covardia. Philippe deixou passar o insulto e os sarcasmos. Docemente, com grande firmeza, affirmou-lhe a sua revolta contra a cupidez e o despotismo da mãe e a resolução, em que estava de tudo abandonar para não se afastar da adorada, que era a sua vida e a sua paixão. Insistiu para que se libertassem naquelle mesmo instante. A sinceridade e a decisão de Philippe commoveram Thereza, que amolleceu e se agarrou a elle, amparándo-se. Pouco a pouco serenou. O instincto pratico da mulher foi esclarecendo-a. Comprehendeu que ainda não era o momento de desapparecerem. Deviam lutar para assegurarem a gloria do amor, sem torturas, sem misérias. Ella faria o sacrifício de toda a sua fortuna para conseguir a libertação. Seria o preço do consentimento de Radagasio. Era necessário que Philippe, do seu lado, realizasse a independência para elles. Thereza não aspirava para Philippe uma existência de preoccupações materiaes. Ella o queria livre para se absorverem exclusivamente na magia do amor. — Vaé, meu Bem supremo, disse Thereza. Faze esta terrível viagem. A tua amante soffrerá muito, muito. Será um desespero sem nome. Mas ella é forte, e se mostrará digna de ti. É bello soffrer pelo amor... Coragem e esperança. É duro, mas é preciso e eu não quero que, por um acto nosso, irreflectido, sofframos no futuro. Este será maravilhoso..Façamos tudo pela gloria do nosso amor. Ella disse e chorou soluçando, desesperada, no peito de Philippe. D. Isabel e Leonor não esperaram Philippe para jantar. Elle faltara á hora estabelecida e nenhuma condescendência lhe fizeram. Quando elle chegou muito atrazado, teve um grande desdém pelo rancor, com que a mãe o tratara. Beijou-a e a irmã e recolheu-se. Custou muito a despir-se. Sentia-se no vácuo. Rápidas vertigens o tonteavam e ás vezes um suor frio o innundava. Uma dor surda apertavalhe o peito. O cérebro ora vasio, exangue, ora congesto, febril, não tinha força para coordenar os pensamentos embrulhados. Assim, ora adormecia, ora espertava atordoado. De manhã, as palavras de Thereza actuaram sobre elle beneficamente. Philippe escreveu ao tio avisando a sua partida por aquelles dias. Quando desceu do quarto, encontrou a mãe e a irmã na sala de jantar. Communicoulhes a sua decisão de partir. D. Isabel olhou, victoriosa, para Leonor, que sorriu beatamente aquella concórdia. Philippe deixou-as. D. Isabel retomou a compostura devota, foi ao oratório, accendeu uma vela para os seus santos, orou dando graças por seu filho estar se libertando do peccado mortal e sobretudo por lhe ter obedecido. Foi-lhe impossível a concentração piedosa. O dinheiro distrahialhe alegremente os pensamentos. Foram dias ardentes e dolorosos aquelles, que precederam a partida de Philippe. Os encontros amiudavam-se. Elles se viam em todos os momentos de liberdade. Thereza, no sacrifício, engrandecia-se. Desprezava as fúrias de Radagasio, as espionagens da negra e desprendia-se da filha. Thereza era o amor e a sua maravilha. A esperança de que tudo se ia cumprir para a conquista do paraíso a fortalecia e a extasiava na grande dor. Esta força sobrenatural de Thereza communicava a Philippe o desejo de vencer e a ânsia de combater pela libertação. Faria tudo para realizar a venda da propriedade aos Americanos. A parte em dinheiro, que lhe coubesse, elle separaria dos quinhões da mãe e da irmã. Ficaria com fortuna própria, livre emfim da indivisibilidade, em que permaneceram durante a longa communhão familiar. Para esta finalidade, elle empregava toda a sua energia, dominando as torturas da separação. Na manhã do domingo, véspera da partida, Thereza e Philippe passearam longamente. Era tarde, quando Thereza deixou Philippe na cidade, onde elle resolvera almoçar, fugindo á familia. Depois do almoço, andou sósinho pela velha cidade. Rompia o silencio com os seus passos nas estreitas ruas commerciaes, por onde entrava de longe a claridade da bahia. Outros passos de caixeiros em folga juntavam-se aos delle. As portas de ferro das horríveis casas trancavam tudo e impunham a quietude. No largo da Carioca havia o canto tumultuoso da passarada, que só se ouve aos domingos. Philippe entrou pela Avenida, onde se encontrou com o movimento festivo das musicas barulhentas dos cinemas/ com os bondes que se enchiam, com a infinidade de automóveis, com as gentes ávidas de prazer. Caminhou na tarde quente até ao outeiro da Gloria. A porta da rua da casa de Vieira estava entreaberta e Philippe foi entrando sem bater. No silencio, em que tudo se entorpecia, os cantos melosos da patativa e da graúna fluiam uma frescura florestal. Philippe chegou á sala de jantar, que a facha de luz, vinda da janella, cortava em duas zonas escuras. Á direita, no sofá, dormia Aracy. Á esquerda, em uma esteira, no chão, Ritinha dormia com a cabeça nas pernas da velha Andreza, que, cochilando, lhe cocava os cabellos desfeitos. Philippe veiu devagar sentar-se junto de Aracy. Deixou-se invadir pela quietação e o seu pensamento, desprendido de toda a materialidade, vogava livre no irrealismo do sonho. Scisma de amor, de paixão infinita, sonho do paraíso na união mystica e immortal com Thereza. O sacrifício, que ia fazer da privação da presença real da adorada, devia ser cumprido para a conquista do bem supremo. E Philippe o desejava agora com violência, com ansiedade, para precipitar a libertação. Elle sorria, deslumbrado, para a gloria do amor e na penumbra esquecida proseguia a scisma da evasão. Na porta apontou Aristides Vieira, que veiu vindo dentro da facha de luz. Lia um livro. Parava. Suspirava. Gesticulava. Atirava os olhos para o céo, que se via da janella. Philippe levantou-se e foi ao seu encontro. Vieira deu um grito: — Quem és? Espirito bemfasejo ou espirito mau?
Philippe apiedou-se do desvairado e obrigou-o a reco- nhecel-o. — Você não faça mais isto, obtemperou Vieira tremulo. Não se brinca com espiritos. Veja como fiquei alagado de suor. Ninguém sabe quem é encarnado ou desencarnado. Ainda não sei se você está na materialidade humana, no que os obsecados chamam vida, ou se é o seu espirito, que tomou a sua fôrma para me annunciar alguma cousa. Diga, eu o conjuro em nome da Fé, da Verdade, da Caridade, você viu Jujú? ' O berreiro de Aristides Vieira despertou as dorminhocas. Correram para elle, espantadas da presença de Philippe. Andreza, que ouvira falar em espiritos, começou a engrolar um padre-nosso para as almas do outro mundo. Vieira, na presença da gente de casa, recahiu na torpe realidade dos humanos e sereno ouviu as explicações da visita de Philippe. Quando Ritinha soube da partida para São Paulo, teve uma pena calada e profunda de Thereza. Interessou-se pela viajem, pela demora e, com extranha ternura, pediu a Philippe, que voltasse logo. Elle comprehendeu que ella falava por Thereza e af firmou a brevidade, com que levaria os negócios para se ver livre de tudo, de tudo, repetia para se animar e se exaltar. Perguntou pelos rapazes. Estava ansioso por ver Pedro, que fora solto naquelles últimos dias. Ritinha correu a chamal-os. Vieira foi avisar D. Calú. Philippe, só com Aracy, perguntou-lhe: — Então que é isto? Dormindo a esta hora? Por um domingo destes? — Pois é. Ando agora em uma lombeira, que tomou conta de mim. Depois daquella encrenca tudo desandou nesta casa e para mim, então! Ficamos suspeitos. Ninguém mais me quer... Pois é. Foi um azar damnado. Está em que deu a revolução de vocês. Estamos todos pesados... — Que bobagem, Aracy! Deixe de fatalismos e bruxarias. Tudo vae se recompor. Você deve reagir contra a depressão. Saia deste torpor e volte á alegria. — Alegria, alegria. É o que você sempre prega, Philippe. É muito bom de dizer, mas quando a gente se vê abandonada, desprezada, quando todos fogem da gente, como da peste... Alegria, alegria. Cacete. — Não se faça de infeliz exageradamente, rapariga. Vença tudo, toque para adeante. Viva indifferente, domine... Aracy não se importou com estas palavras vagas. Philippe foi mais preciso. — E os seus amigos? O Léo? Aracy não respondeu. Teve vergonha de confessar que o Léo lhe fugia e que raramente se encontrava com Zilda. Pedro e Manuel entraram, correndo para Philippe. Abraçaram-se como resuscitados, deslumbrados de voltarem á vida. Dominaram a commoção. Zombaram dos martyrios soffridos, das perseguições e das misérias passadas. — Elles te deixaram ainda a pelle e os ossos, observou Philippe, examinando Pedro. E escapaste da Clevelandia. Deves fazer uma visita de agradecimentos. — Veiu chupado, mas deixou gordissimos milhares de percevejos, que se banqueteavam com o sangue dos hospedes da Correcção, continuou Manuel. Os olhos gaseos de Pedro faiscavam eas ventas do nariz felino moviam-se ágeis. A bocca escancarava-se para rir, emquanto falava. — Que deliciosa aquella vidóca, seu Philippe! O cubiculo era no alto, numa galeria do terceiro andar, elevada ás honras de prisão de estado. Oitenta e oito degráos para subir e descer todas as vezes, que tínhamos de ir ao banheiro e á privada. O espaço reduzido para dois presos, estava entulhado de camas de ferro, com colchões de palha, travesseiro de capim duro, cobertor vermelho e lençol de algodão. Na parede, uma mesa microscópica. O meu com,, A VIAGEM MARAVILHOSA 251
•panheiro de cubículo era um pardavasco assassino, que matara para roubar e á noite me divertia debatendo, em pesadelos, os seus ódios ou os seus remorsos. Durante o dia, soturno, feroz. Levava a mirar-me com os olhos vidrados e a cocar a barba negra. Comiamos juntos a nossa boia, um feijão encroado, um angu visguento e uma carne de sola. Mas havia gente divertida em outros cubículos nesta galeria, destinada aos presos politicos. Vinham gargalhadas do corredor, que se propagavam estridentes, gostosas. Os assassinos, os ladrões, alegravam-se comnosco e das grades brincavam, chalaceavam. Devia ser interessante, para quem pudesse ver, o espectaculo de todas estas horríveis caras esparramadas nas grades de ferro, a rir, a gritar as zombarias, no palavreado obscuro da giria das prisões. Eu só via alguns cubículos na minha frente. — Perdemos esta fita, Philippe, commentou Manuel. Quem sabe? Ainda chegará a nossa vez. Não desanime mos. — Mas tu estiveste dois dias na geladeira da policia. Que horror, hein? perguntou Philippe, já sem vontade de caçoar. — A Correcção, nesta promiscuidade infame com os criminosos communs, com a porcaria inaudita, com o acabrunhamento das tenebrosas galerias, com os percevejos, as pulgas, baratas, ratos, era o paraíso para quem sáe da geladeira... — E aquelles canalhas, que me prometteram que tu não serias maltratado, rompeu Philippe. — Ora, continuou Pedro. São sempre os mesmos. Promettem e depois se ninam. Quando viram que não me arrancavam nada nos interrogatórios, puzeram-me na geladeira para me vencerem. Estúpidos. — Ah! minha Nossa Senhora, que malvados, cortou Ritinha. É preciso um castigo, Philippe. Um castigo terrível. Faça alguma cousa, que acabe com estes miseráveis. A imprecação de Ritinha morreu melancólica no silencio de Philippe. que não pertencia mais á revolução e de Manuel, que buscava outra cousa, que não era unicamente a luta pela liberdade politica. Pedro não prestou attenção ao desespero de Ritinha, soffrego por contar as suas experiências. — Qual, quem não passou pela geladeira, não sabe o que é bom. — Muito frio, Pedrinho? perguntou tremendo Ritinha. — Esta Ritinha é boba, interrompeu Aracy, zangada e curiosa. Deixe elle falar. — Frio era o de menos. Não te conto nada, Ritinha, gracejava Pedro, gosando em espantal-a. A geladeira é em baixo, na Policia Central. Na entrada o carcereiro. Em torno delle um monturo de trapos, papeis sujos, garrafas vasias. Depois um portão de grades de ferro. Quando o abriram para mim, empurraram-me na sala, que é a tal geladeira, que tem uma altura de três metros com um cumprimento de cinco e uma largura de quatro. O chão é de azulejo, escorregadio com a humidade, que vertem as paredes. Água para beber só da latrina. Comida nada. Com muito engodo, muita energia, podia-se conseguir, comprando os guardas, um pouco de café. Para deitar, era uns sobre os outros no lagedo sujo, gelado. Não se pode dizer toda a sujeira. Os corpos fediam ainda mais que os esgotos pútridos. As barbas cresciam nas caras tumidas, famelicas. A luz era baça. Mas os olhos aguçavam-se e viam os monstros horrendos, que cada um era para o outro. D. Calú entrou vagarosa, de roxo, embrulhada em um chalé de lã preta, gemendo a sua desgraça, seguida por Vieira, macilento e aluado. — Ah! meu Philippe. Você por aqui nesta pobre casa... Muito obrigada. Philippe a abraçou e ensaiou confortal-a com as palavras de inútil animação. D. Calú não ouvia e proseguia nas lamentações. Quando Pedro, febrilmente quiz continuar a narrativa, D. Calú não permittiu.
— Não, não, meu filho. Basta. Poupe sua mãe, que morre de dor. Jujú é o mais feliz de todos nós. Está na gloria de Deus... E vocês? nas garras do tyranno... E sem meios de reagir. Eu já disse, agora acabemos com isto, deixemos que façam o que quizerem. Os que se levantam contra o governo são poucos e logo esmagados e martyrizados. Se vocês têm piedade desta pobre mãe, renunciem, renunciem pelo amor de Deus. Esta covardia humilhou os filhos. Philippe olhou-os com pena e desviou a conversa para a sua viagem. Era elle agora que espalhava a melancolia. Ninguém pronunciou o nome de Thereza, em que todos pensaram. Philippe sahiu daquella casa triste e foi esperar Thereza no pateo da egreja do Outeiro. De lá os olhos se fixaram nas palmeiras, na morada que as andorinhas investiam, no jardim, no mirante, e o pensamento imaginava a libertação de Thereza de tudo aquillo. E quando elle a percebeu ) embaixo na ladeira, caminhando rápida ao seu encontro, bateu-lhe alegremente com a mão. Thereza que vinha apprehensiva, transformou-se com o gesto do enthusiasmo e foi radiosa, que voou pelos degráos da escada e se atirou nos braços de Philippe. Na solidão ardente, por cima da cidade sonora, em face da bahia parada e dos morros concentrados, o êxtase da transfiguração. A volúpia dos beijos, o prazer ineffavel da admiração, a delicia que inebriava todos os sentidos até o da extranha voracidade, excitada pelo desejo profundo e violento, aboliam nelles a lembrança de que fora alli que começara a viagem maravilhosa do amor e nenhum pensamento tiveram para a criança, que, no seu jogo innocente, os ligara gloriosamente. A alegria da paixão elimina o tempo, torna tudo para os amantes, actual, vivo, eterno. Subitamente a ânsia do movimento os tomou e elles deixaram aquelles lagedos escaldados do pateo da egrejinha, desceram a ladeira e vieram á avenida Beira-Mar, tomaram um automóvel e seguiram por entre uma multidão, esbaforida de calor. Encontraram carros pittorescos de romeiros da Penha, restos portuguezes, coloniaes e campesinos na cidade, que se liberta. Foram até Copacabana, ao Leblon, á Gávea. O calor fizera surgir do oceano uma evaporação densa, que escondera o mar, as praias, as montanhas. Nessa muralha espessa, abria-se de vez em quando, no oceano, um disco rubro do farol da Rasa. Os faróes dos automóveis acenderam-se. As luzes corriam no nevoeiro. Thereza e Philippe impregnavam-se deüciosamente naquelle mysterio da nevoa calida. Ao chegarem na ladeira do Russell, deixaram o automóvel. Subiram a pé nas sombras. Veiu-lhes a tristeza da separação. Por mais esforços que Thereza fizesse, ella succumbia de saudades. Philippe animou-a, fortaleceu-a com a esperança. Estimulando-lhe o heroísmo, por sua vez elle reagia contra o desanimo. Thereza admirou o homem forte, beijou-o, reconhecida, e subiu sósinha a ladeira. Antes de perder de vista Philippe, voltou-se para elle. Sorrindo e arquejante, atirou-lhe um beijo com um longo suspiro. Nessa noite Philippe recolheu-se cedo. A sua vigília não foi acerba. A separação, que tanto o acabrunhava, apparecia-lhe como a benéfica fatalidade para attíngir á suprema aspiração do amor. Resignava-se na esperança. Em Philippe, a intelligencia acabava sempre por governar a sensibilidade. O amor dava-lhe a profunda paz por entre a inquietação dos humanos. Também elle e Thereza foram inquietos até se unirem na beatitude da paixão. Inquietos eram todos em torno delles. Os que aspiram ao absoluto e permanecem na relatividade. Os que se revoltam e não são satisfeitos. Os que sonham e não realizam. Os que amam e não são amados. Ritinha surprehendeu Thereza chorando no mirante naquella noite, já desembaraçada do nevoeiro. Thereza quiz dominar-se e não poude. Ritinha beijou-lhe as mãos e procurou instinctívamente consolal-a falando-lhe da sua separação do noivo, o seu Viriato, perdido nos seringaes do Acre. Até este momento ella não ousara alludir ao amor de Thereza. O desespero, em que a via, aboliu toda a reserva. E Thereza contou á matuta humilde a sua historia sentimental. Desfilou os horrores da sua existência com l Radagasio, expoz o seu martyrio, o seu acabrunhamento, o vácuo, em que fora precipitada até a sua resurreição pelo amor. Exaltou-se. Perdeu todo o contacto com Ritinha e disse a sua paixão á imagem de Philippe, que ella via na sombra quente e perfumada pelas orchideas e pelos jasmins. No dia seguinte, Philippe e Thereza procuravam esquecer na alegria physica do amor as torturas da saudade. Depois de longas horas nesse jogo do prazer e da melancolia, separaram-se doloridos, acabrunhados e cheios de esperança. Á noite, Philippe partiu. Á estação vieram Manuel e Ritinha, por quem, Thereza mandara frutas, doces e um chalé de lã. A eterna maternidade no amor feminino. Separado de Thereza, não havia repouso para Philippe. A sua inquietação ajustava-se ao movimento que o arrebatava deslocando, desequilibrando o espaço em uma vibração convulsa e atroadora. Massas de casas illuminadas eram engolidas por sombras desertas, verdes-negras. Voltavam outra vez em uma desforra festiva de musica e gentes e novamente desappareciam na escuridão. Roncos angus' tiosos da locomotiva arfavam na energia de correr, voar, . acompanhados da alegria sonora dos apitos. Uma parada única, uma gritaria confusa, uma partida rápida para deixar a cidade e entrar no matto. Mas a serra pensou tapar tudo. A machina furou a serra, subindo e descendo, subindo até descer para a margem do rio. Ahi parou muito. Philippe, fatigado do movimento interior do seu espirito inquieto, recolheu-se. Encerrado no seu leito, ia por entre a alegria tumultuosa do ferro, do aço e do vapor, ouvindo as conversas dos corredores num vozerio soturno, cadenciado, de frouxas e estúpidas palavras, que davam enjôo. De madrugada, o camarote foi refrescado pela humidade das terras altas. Philippe cobriu-se com o chalé de Thereza e só então adormeceu para acordar, já dia claro. O que veiu aos olhos de Philippe foi uma terra amarella escura, uns campos rasos, seccos e uns horizontes montanhosos. Perdera-se a amenidade da terra carioca e das margens do Parahyba. Entrava-se no sertão. Sobre a aspereza do terreno, o prodígio da cultura. As chapadas cheias de gado. Os campos pejados de plantações. Os morros sustentando nas linhas verticaes o peso das arvores de café. Os trens, os automóveis, os caminhões, as aranhas de um cavallo só, voam pelas estradas parallelas. A terra torna-se mais rubra, as casas condensam-se, a estrada transforma-se em ruas, viaductos, tunneis, o trem entra na estação do Braz. Pouco depois do automóvel, que levava Philippe, se pôr em caminho, uma cancella lhe estorvou a marcha. Agglomeraram-se automóveis, bondes, caminhões, carroças, em um berreiro de klaxons, apitos, campainhas, pragas em varias línguas, até que um trem passou e a cancella se abriu. Foi um avanço desafogado para invadir a cidade. A população, apressada, mexia-se nas calçadas.,; O centro da avenida enchia-se de carroças de mercadorias. Negociava-se, trabalhava-se. Na enorme extensão, que se rasga pela cidade não pairava a doce preguiça tropical. O labor não era doloroso, mas era incessante e ardente. Philippe sentiu-se em um Brasil joven e prodigioso de actividade. Aquelles italianos, syrios, libaneses eram indolentes em suas antigas pátrias. A terra brasileira é velhíssima, a gente estrangeira, de nações velhas. E tudo era alli tão novo. O milagre dó dynamismo espiritual. Força, conquista, trabalho, ambição. E aquelle enxerto e este fermento remoçavam São Paulo. A cidade cresce, varre a melancolia. Trabalho, criação, alleluia. Da janella do seu quarto no hotel, Philippe olhava a cidade em transformação. Os primeiors arranha-céos apontavam o seu atrevimento. Era o signal de partida para a americaniza çã o integral. O rythmo seria accelerado. As velhas casas portuguezas se desmanchariam em pó. Este pó não resuscitaria. Sobre elle, o cimento, o ferro, a pedra, se levantariam, possantes e indifferentes ao passado.
Na quietação da casa, Thereza estava attenta a todos os ruídos. Radagasio sahira para o banco. A negra pageava Lili no jardim. O telephone tocou vivo e Thereza de um salto acudiu. São Paulo a chamava. Thereza, tremula, radiante, medrosa, esperou, esperou. Afinal chamaram de novo e a voz de Philippe chegou. Thereza suffocada, tonta, não percebia nitidamente e interrompia Philippe com mil perguntas anseadas. Entenderam-se na angustia e na saudade e animaram-se um ao outro na esperança. Philippe receberia no dia seguinte a primeira carta de Thereza, já começada naquella manhã. Philippe devia escrever por intermédio de Ritinha. Isto fora resolvido na noite, em que Thereza se confessou a Ritinha. Quando deixaram o telephone ficaram atordoados e longe, longe, do Rio, de São Paulo, da terra. Estavam afflictos. Na espacialidade infinita, que o amor abria, buscavam-se desesperados. Ambos puzeram-se a escrever as suas primeiras cartas.
Nesta tarde Philippe entreteve-se dos seus negócios com os Americanos. Estes indivíduos eram anonymos. Eram seres ephemeros. A vida para elles, como a dos termitas, é uma missão biológica do núcleo nacional, movido pela conquista econômica. Têm a consciência de desapparecer para sempre sem deixar vestígios. Por isso desdenham de tudo, não têm personalidade, são instrumentos t superactívos da massa impulsora. É a af firmação extremada do anonymato, destituído de qualquer finalidade moral. Depois da miúda conversa de negócios, que tiveram com Philippe, os Americanos transformaram-se em meninos. Levaram Philippe a passear de automóvel e gosaram infantilmente, saudáveis e alegres, do que viam. Conheciam São Paulo ha dois annos, mas tudo lhes parecia sempre novo. Não se fatigavam nunca. As cousas para elles, como para os selvagens e as crianças, mostravam apenas a magia externa das cores e das formas. Philippe extrahia dellas o senso de humanidade, de que estavam carregadas. Por toda a parte, uma civilização nova sobrepunha-se á civilização antiga., O que era colonial, ou império, ia sendo eliminado. Os velhos espiritos, jurista e ecclesiastico, desappareciam deante da impulsão violenta do optimismo industrial, criado pelo trabalho e pela riqueza. As fabricas succediam aos conventos, a vertical dos arranha-céos escarnecia das massas horizontaes dos casarões lusitanos, as pequenas casas pueris apossavam-se alegremente das quintas e das chácaras, ou espalhavam-se nas varseas, que foram merencorias á visão jesuíta e hoje vibravam nas cores excessivas e nas formas engraçadas dos bungalows. A cidade cresce possante, eliminadora, rubra, da maior realidade ao maior idealismo. É a ascensão para o domínio, para a gloria. O moderno rythmo brasileiro. A fascinação da energia e da grandeza. Tudo se transforma no Brasil. Não ha desnacionalização, ha mutação de rythmo para exprimir todos os impulsos da nação múltipla, que se projecta, vivaz, para os espaços illimitados, O fecundo sentimento do transitório caracteriza esta época. Constroe-se, produz-se para um momento. Não se busca a eternidade. Todos estão impregnados do espirito da renovação incessante. As construcções por mais sólidas e mais grandiosas são realizadas para durar um instante, o nosso instante. Desapparecerão para virem outras mais sólidas, mais grandiosas, mais actuaes. É a innovação permanente. O espirito do homem está possuído da benéfica magia da actividade. Não se fixa, move-se, prosegfle a sua interminável criação. É a suprema belleza do movimento.
Thereza sorria condescendente para Ritinha, que, para distrahil-a, trouxera o seu corrupião e o estimulava a assobiar.
— Vamos, seu Vivi, assobie aquella modinha da nossa terra, tão doce, que faz o coração chorar. « O meu Bem está longe, tudo ficou tão triste, a saudade não mata, quando o amor resiste. » E Ritinha poz-se a entoar e seu Vivi a assobiar. A melodia simplória, desta mistura de voz humana e canto de pássaro, agitou Thereza. Sahiu da sua immobilidade, poz-se de pé, passando o braço na cintura de Ritinha, que recolhera o corrupião á gaiola. Foi levando-a por debaixo do caramanchão e caminharam em face da bahia enrubescida, beliscada pelas gaivotas loucas. Estavam sós. Radagasio ainda não chegara para jantar. A negra e a menina dentro de casa. Thereza poude falar livremente de Philippe. A confidencia com Ritinha crescia e era um allivio para a saudade de Thereza. No dia seguinte, ella receberia a primeira carta de Philippe. Recommendou a Ritinha que ficasse alerta e viesse logo, logo, entregal-a. A moça maranhense estava radiante de servir ao amor.
Philippe, de volta do passeio, entrou com os Americanos no bar do hotel. Quasi toda a gente era moça. Pela conversa, de dinheiro e de sport, eram rapazes de negocio, fanfarrões e petulantes, rodeados de mulheres, que se exhibiam ruidosas. Estavam felizes na imitação provinciana da orgia cosmopolita. Appareceu nesta promiscuidade tumultuosa o pintor russo, que Philippe vira em casa de Laura Moraes. Acompanhado de dois moços, precipitou-se para Philippe, que os convidou a sentarem-se á sua mesa. Os Americanos aceitaram jovialmente. Os amigos do Russo eram admiradores de Philippe. Imaginavam estar collaborando na renovação espiritual do Brasil. Mas nesta só os interessava o que havia de extravagante e de mórbido. Por isso, fascinados pelo pintor slavo. O mimetísmo de um delles impressionou Philippe. Facilmente se revelava opiomano. O seu aspecto physico, flacido, opilado, molle e planturoso, assemelhava-o a um pançudo e intoxicado chinez. Á apathia deste moço oppunha-se a excitação do outro, nervoso, bronzeado mameluco, de uma loquacidade barulhenta, deformada e paradoxal. Alardeava a sua fortuna e a sua ociosidade. Não trabalhava, não produzia, como os jovens da sua geração, porque tudo era inútil. O Brasil caminhava para a destruição total. E appellou para o Russo, que explicou a Philippe: — Destruição é um modo falso de comprehender a volta á selvageria immemorial desta terra, interrompida dolorosamente pela civilização occidental. É sob este aspecto, que temos de considerar o caso brasileiro. 0 senhor já sabe que, no meu ponto de vista esthetico, o Brasil devia permanecer na sua barbaria e eliminar toda a cultura. Naturalmente a isto se oppõe a imitação do que se chama civilização. O tal progresso material vae extinguindo a maravilha selvagem da vida primitiva. Felizmente este progresso não pode ir muito longe. Elle não pode lutar contra as forças mysteriosas da natureza, que surgiram para embaraçar a civilização nesta terra privilegiada para a solidão selvagem. Para destruir a espécie hybrida, sahida do connubio de tantas raças, as moléstias invenciveis e entre ellas, sobrepujando todas, a estupenda morphéa, que lastra nas terras cultivadas e que, indomável, as tornará abandonadas, voltando tudo á mattaria, que terá a sua desforra. A outra força, desencadeada pela natureza para destruir o progresso, é a broca do café. Ella propaga-se pelas fazendas. Cada homem leva comsigo os germens da devastação. As estradas de rodagem vieram, como caminhos da providencia, favorecer a propagação bemfaseja. Não ha sciencia que a domine. A brocá é uma maravilha. Sinto uma profunda emoção, quando imagino este insecto tãó pequenino, perfurando os grãos de café e se embebendo do filtro doce e inebriante da polpa carnuda, sugando-a deliciosamente e reduzindo tudo ao pó, que leva pelos ares, em milhares de germens, a força da morte.
Vence o homem e a sua obra maldita. Depois do que vi de monstruoso e commovente em Minas, o meu empenho é fixar nos meus quadros esta allucinante decomposição do vegetal, que nutre a loucura brasileira. Os Americanos 'riram gostosamente e deram alegres murros nas costas magras ido Russo. Depois do jantar, Philippe recolheu-se ao seu quarto. Tudo o aborrecia. O seu interesse pela cidade fora passageiro. As suas sensações terminaram em abstracções. Aquella gente era monótona. Os Americanos, estúpidos e vorazes. O Russo, desequilibrado e cacete. O que era grande e forte era anonymo, a synthese da energia collectiva promiscua, impulsionada pelo dynamismo das massas. Os individuos, que vira, eram insignificantes. A mocidade, absorvida nos jogos e nos negócios, indifferente ás questões essenciaes do espirito da nação. Estava á margem da vida brasileira. Philippe pertencia aos ardentes, animados do espirito do sacrifício. E alli, em São Paulo, elle não via o enthusiasmo espiritual, que engrandece o homem, seja pela liberdade, seja pela religião, seja pela solidariedade humana, pela extincção das classes em luta, pelo pensamento, criador de uma nova vida. Nada elle encontraria alli. Tudo accommodaticio, disfarçado, emboscado em puerilidades para escapar ao martyrio. Todos recusaram-se á revolução, quando esta fez o appello supremo. Emquanto isto se passava em São Paulo, outras mocidades affrontavam a tyrannia e batiam-se em todo o paiz, affirmavam o seu espirito de sacrifício, eram emfim humanas, sabiam viver e morrer. Philippe poude libertar-se deste desprezo, que o torturava e o seu pensamento purificou-se em Thereza. Olhava a noite paulista, a terra alta e secca, cortada de luzes paradas, modestas, e de luzes ousadas, que se agitavam e se divertiam em formar annuncios. Em baixo, o jardim, que se afundava na verdura para o repouso e o equilibrio de todo aquelle conjuncto de edifícios volumosos, arranhacéos, viaductos. Tudo isto atirava o pensamento de Philippe para o jardim de Thereza na calma socegada, embalado pelas palmeiras, adormecido nos perfumes das flores, coberto de estrellas, em frente á bahia, sacudida pela brisa. Tudo verde, azul, diamantino. Thereza, sentada no terraço. Ritinha ao seu lado, em silencio. Deste torpor despertaram Thereza para avisal-a que São Paulo a chamava ao telephone. Deu um pulo e correu para dentro. Ritinha seguiu o movimento, mas estacou na porta. Tremia por Thereza e ficou velando pelo seu isolamento. Se Radagasio apparecesse ou a negra surgisse, ella os embaraçaria e daria aviso a Thereza. Ouviu a conversa se ligar entre Philippe e Thereza e não escutava o que Thereza dizia. Os seus ouvidos eram para os ruídos inimigos e os seus olhos dilatavam-se para ver nas sombras do jardim. Philippe narrava o seu dia enervante e confirmava a sua partida para a manhã seguinte. Na fazenda receberia a primeira carta de Thereza. A soffreguidão pelas palavras da sua adorada, o desespero da saudade, o martyrio do degredo, a ânsia da volta. Thereza, por entre lagrimas, falava do vasio, em que fora precipitada, da súbita apatbia que a tomara, da nenhuma vontade de se mover, da exclusividade do seu pensamento, da ansiedade de receber as cartas diárias do adorado e das recommendações, que fizera a Ritinha, do seu ódio exasperado contra tudo que embaraçava o seu amor. Quando chegou o momento de se despedir do amante, a sua voz elevou-se, audaz, para dizer-lhe adeus e cobril-o de beijos. Isto Ritinha ouviu e assustada correu para Thereza, que voltava ao seu encontro, febril, desvairada, com os olhos vermelhos, enormes, a bocca crispada, toda paixão, toda ódio. Foi caminhando rápida para o jardim. Ahi atirou-se a uma cadeira e sem falar, sem chorar, fechou os olhos, para, fora de toda restricção, ver Philippe.