V A Viagem Maravilhosa · Capítulo 5 de 17
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V

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O encontro de Philippe foi para Thereza maravilhoso enlevo. Do que diziam de Philippe ella esperava menos do que sentiu. Dessa impressão lhe veiu um grande respeito, em que se exprimia, confusa, humilde, fervente, a admiração. A sua vida interior começou a gravitar para esse sentimento contemplativo. As palavras, os gestos, os pensamentos de Philippe ella tudo recordava, vivificava, absorvia. Nas suas novas e repetidas visitas aos visinhos, recolhia delles os traços physicos e espirituaes daquelle, para quem ia se modelando pouco a pouco. Aspirava á dignidade excelsa de ser percebida por Philippe e que alegria, quando lhe disseram a sensação ardente que a sua belleza e a magia da mobilidade do seu rosto e do seu corpo causaram ao admirado, parallela á sympathia, que nelle suscitara a sua infrutífera ânsia de liberdade. Thereza exaltou-se. Bruscamente a alegria a invadira. Uma sangüínea actividade lhe transbordara. A sua existência monótona, chata, fora submergida por uma excitação de pensamentos de cousas infinitas e esperanças de felicidade. Buscava uma transcendência de sensações ainda imprecisas e que seriam a extincção de todo o soffrimento. Sem definir o que era a sua ansiedade, Thereza expandia-se no cultivo da sua formosura. Refinava a sua elegância, estudava os seus traços de belleza e os apurava.

Enfeitava-se e enfeitava o ambiente em que vivia. Floria o seu quarto, comprava moveis custosos e tapeçarias finas para o seu uso exclusivo, cercava-se de livros luxuosos. Era o prazer da belleza e da prodigalidade. E obscuramente imaginava que um dia Philippe viria tudo aquillo e a admiraria. A sede por essa admiração a inspirava. Era a sua razão de ser.

Thereza não dispersava a sua actividade na vida mundana. Continuava na sua permanente abstenção, retida pelo vexame da companhia de Radagasio e por amor próprio de não se misturar ás gentes vulgares e inúteis. Os seus movimentos eram para esta finalidade de embellezar a sua pessoa e o quadro, que a emmoldurava, no desejo occulto de agradar a Philippe. Os outros movimentos eram os seus passeios de automóvel, que ella mesmo guiava e nos quaes o espirito solitário vivia a fantasia, que a imaginação excitada pela velocidade ia criando febril e amorosa. Jujú era o seu único companheiro, ao seu lado, na funda felicidade do contacto e da abstracção dos passeios. Uma tarde, como elle demorasse a apparecer para a correria diária, Thereza impaciente galgou de um pulo a machina e desceu veloz para a rua e estacou á porta dos visinhos, klaxonando violentamente. D. Calú veiu á janella, sorridente e atrapalhada, para explicar que o menino estava envergonhado de sahir com Thereza, porque se achava mal vestido. O luxo, a ambição de parecer bem, tinha contaminado o espirito da criança. Thereza socegou-o, prometteu-lhe roupas novas. A mãe protestou, mas intimamente regosijou-se e achou que Thereza cumpria um dever. O automóvel partiu. Na avenida encontrou outros automóveis elegantes com os quaes desceu vigorosamente para a cidade numa grande camaradagem de machinas de luxo, que desdenhavam taxis, caminhões, omnibus ou miseráveis carros de mulas officiaes. Thereza guiava firme e despreoccupada. Havia entre ella e a machina uma identificação perfeita, formando a unidade de um organismo real e imaginário. Os seus pensamentos podiam vagar pelos espaços, os sentidos estavam attentos á direcção e ao mundo exterior. Tinham o instincto do machinismo. O carro tomou pela avenida, que margeia o cáes cycloide. O mar de azul ferrete espumava branco e batia em resaca. As aves marinhas alvoroçadas pescavam em ardentes mergulhos. Á esquerda, o automóvel ia abandonando o panorama florestal de Santa Thereza, que se apresenta largo, completo com as suas vivendas dependuradas, o aqueducto, a egreja, o convento e os volumes montanhosos, espessos de matto e pedra. Se Thereza estivesse reflectindo sobre o que olhava diria « como a cidade é feita dentro do granito! supprimam-se as casas, tudo o que é humano, o resto é pedra e sobre esta, a vegetação. Bravo, valentes fundadores da cidade, que não se apavoraram de todo este amphitheatro de medonhas montanhas pedregosas, que tapam a barra e circumdam as águas. Vencedores do terror, homemsinhos audazes, bravo! » O pensamento de Thereza explodiu de outra forma na direcção de Jujú: — E Philippe? — Que Philippe? Thereza, rápida, secca, o olhou extranhamente e murmurou raivosa: — Idiota! Phii... lii— ppee! Jujú, espantado com aquelles modos, acordou de todo. — Ah! elle vae jantar lá em casa hoje. Mamãe vae fazer sorvete de bacury. — Bacury? que é isto? O menino não respondeu. — Alguma fruta de pharmacia do Maranhão, zombou Thereza. E logo ella pensou em offerecer a Philippe outras frutas, daqui, bem cariocas. Sorriu concentrada. O automóvel deixara os terrenos perpetuamente em preparação á beiramar e enfrentou a cidade. As grandes sombras de junho, que cahiam das arvores, enchiam o chão da avenida. A viração fresca soprava de mar a mar por este largo canudo. Tudo era desigual na feliz desharmonia das construcções e das gentes. Os primeiros arranha-céos, tímidos, espiavam muito esganiçados as bojudas architecturas de operas e bibliothecas. Algumas figuras de bronze divertiam-se em pleno ar, uma puxava raivosa uma espada, anjos trepavam em uma bandeira, que, desfraldada, desafiava o peso, duas bonecas dansando offereciam coroas de immortalidade aos edis municipaes. Negros, mulatos, estrangeiros ruivos ou bronzeados, brasileiros alvos e morenos, mexiam-se tumultuosos ou languidos. Á margem dos arranha-céos os cinemas, os bars exaltavam-se alegres e coloridos pelas roupas vistosas das mulheres. Os cheiros eram saborosos. Os alto-falantes gritavam cantigas e noticias e misturavam-se a todos os barulhos. O alarido era universal, estridente, roufenho, espocante. Thereza continuava pela avenida vagarosamente. Os autos iam se arrastando e buzinando impacientes. A viração agitava as saias curtas das mulheres, que se defendiam sorrindo. Andavam em bandos, vadias e faceiras. Uma pinta de mestiçagem resaltava o brilho da pelle morena, luzia nos escuros olhos rasgados, nas largas boccas pintadas e nos cabellos crespos e densos. Pares de gentes louras, viajantes, mulheres desbotadas, de óculos, admiravam o esplendor feminil brasileiro. Thereza parou deante de uma casa de frutas. Jujú, desapontado, imaginara que iam primeiro comprar a sua roupa. Dentro, a maravilha dos objectos de cores vibrantes e profundas promettia delicias de gosto. Jujú estava electrizado. Queria tocar em tudo, apossar-se de cada cousa colorida e gostosa. A timidez o retinha. Ficara em êxtase. Thereza escolheu pesadas laranjas selectas, tanjerinas mexiriqueiras, abios torneados e cambucás vehementes. Tudo em amarello, do ardente e concentrado ao louro dourado. Tudo solar, tudo carioca. Quando lhe offereceram negros sapotis, verdes pinhas, Thereza repelliu. « Nada de cousas do Norte. » Alegríssima com a desforra, que ia tirar levando aquellas frutas para o jantar de Philippe, Thereza partiu côm ânsia de celeridade. Inútil. O automóvel foi mais devagar empurrando os outros. Jujú devorava uvas e tagarelava mostrando cousas da rua. As calçadas estavam atulhadas de grupos parados em conversa, politicos, jornalistas, mendigos, vendedores de jornaes, de bilhetes de loterias. Havia uma profunda ociosidade, que dava sympathico aspecto bohemio á multidão. Se passavam gentes apressadas era aos empurrões. Thereza attingiu a um grande armazém de roupas de creança. Jujú bateu palmas e pulou do carro. Os empregados não eram portuguezes, como na casa de frutas. Eram nortistas, pequenos, de caras triangulares, activos, rápidos, de voz cantante. Em um segundo Thereza escolheu uma linda roupa de velludo para o menino, que foi transformado em pagem gentilhomem. Jujú, quando se viu no espelho, ficou de olhos redondos. Espanto feliz. Depois fechou os olhos e atirou-se commovido, envergonhado, nos braços de Thereza, que agasalhou aos beijos o « bobinho tão bonitinho ». Compraram ainda dois costumes, chapéos, sapatos, meias. Iam sahindo, quando Thereza se lembrou de Lili. Immediatamente pediu brinquedos. Uma boneca gloriosa, um apparelho, uma mobília para a filhinha e para Jujú um phonographo infantil com discos alegres. Thereza imaginava que Philippe veria tudo isto. Estimaria a sua generosidade e o seu gosto. Thereza exagerava-se. Quanto mais descia a avenida, mais espaço ia encontrando o automóvel. Thereza, reconciliada com Jujú, quiz agradal-o. — Vamos ver os macacos? O menino poz-se em pé, enthusiasmado. O automóvel tomou pela rua Larga, que leva á Villa Isabel. De repente o carro se viu emprensado entre outros automóveis, carroças, bondes e omnibus e foi se arrastando na desordem, na barafunda, na gritaria, nas descomposturas. A rua era um bazar de lojas miúdas, vsapatarias, roupas feitas, joalherias, todas sarapintadas, escancaradas, coloridas, reclamistas a se disputarem a freguezia de syrios, italianos, portuguezes e mulatos, que desfilavam morosos, mirando as exposições extravagantes. Cinemas despeja-7 vam e enguliam as multidões variegadas. Alto-falanteató divertiam-se em entoar maxixes e campan-hias em chamar o povo. Por entre esta promiscuidade indolente e ávida da grande rua, onde se expandiam marafonas, rufiões,. traficantes, transbordados de todas as terras, repousavam™ abstractos, os edifícios do collegio nacional e da politica exterior. Logo que o automóvel passou esta velha casa triste, Jujú pediu para atravessarem pelo parque. Ahi o automóvel foi devagar. A vastidão da praça offerecia um socegado abrigo á immensa área verde. Dentro das grades havia uma transposição espiritual deliciosa. A imaginação alargava os grammados, engrandecia as cascatas, engrossava os fios d'água e criava a natureza pródiga de campos, de florestas, de rios violentos. As cutias, as pacas, os veados, os grous, os mutuns soltos, indifferentes aos homens e á sua mecânica, fortaleciam a illusão da màtta tropical. Thereza divertia o menino, volteando pelas alamedas e parando deante das cutias agrupadas, entretidas em quebrar e chupar coquinhos, que cahiam das palmeiras. De repente ella soltou o klaxon, assustou os bichinhos e deixou o parque. Naquella natureza sentira-se só. Que encanto se Philippe estivesse ao seu lado! Outra rua larga abria-se ao automóvel. Outra população labutava. Eram judeus mercadores de moveis, libanezes tintureiros, minhotos nas vendas, napolitanos de carros de refrescos, italianas de vestidos. campesinos, syrias enfeitadas de contas, ciganas, polacas, uma canalha infecta, piolhenta, a pulular da casaria miúda, cerrada, que corria de par em par pela rua até desembocar no Mangue. Grande tristeza davam as filas das maravilhosas palmeiras ao espaço do amphitheatro encostado nos morros conicos ou poliedricos de casinhas de páo, vermelhas, verdes e cinzentas, e sobre os quaes trepavam egrejinhas atarracadas. O chão era cortado pelas valas de cimento, por onde devia passar a água imaginaria do canal. Seccura tresandando a exhalações pestiferas. Miséria integrada nas ennegrecidas habitações torpes e esburacadas. No fundo, as soberbas montanhas de mattaria verde. Thereza poz o automóvel nessa direcção. O sol estava esfriando, mas tudo reluzia, casas, asphalto, vegetação. Outros bairros álongavam-se burguezes e ricos. Palacetes pretenciosos substituiam as velhas chácaras. Uma extemporânea arrebentação de fingida architectura colonial simulava extranhamente o passado. Habitações familiares separadas por jardins microscópicos marcavam o espirito particularista brasileiro, emquanto as miseráveis massas estrangeiras se aglomeravam nos cortiços ainda remanescentes. Em Vüla Isabel a cidade estava longe. Podem os omnibus, os automóveis de todo p peso correrem, o ruido é no vasio. Thereza sentiu-se novamente muito só, perdida naquelle silencio. Quando ia voando pelo boulevard poeirento e melancólico, tomou subitamente para o lado opposto e disparou para a cidade. Jujú comprehendeu que não iam mais aos bichos e segurou imperioso o braço de Thereza. — Teté, e os macacos? Ella o repelliu. — Larga. Fica quieto. Hoje não tem macaco. É muito tarde. Philippe já deve estar lá! Voltaram pelas mesmas ruas, pelo Mangue já todo sombrio e cinzento. Os morros destacavam-se crus e tristes, a pedreira estava mais pesada, depois que não faiscava ao sol. As multidões, soffregas de recolherem-se, entulhavam as ruas. Quando Thereza deixou o campo de SanfAnna, a rua Larga accendia-se. A illuminação das lojas, dos cinemas, dos cafés, era pernóstica, petulante e ingênua. Vibrante, excessiva, dourava, incendiava a rua de ponta a ponta e ostentava os reclames, os manequins singulares e as mercadorias. As musicas, os jazzs, as prostitutas, os exóticos, os negros, os capadocios, os marinheiros caboclos infantis, os soldados pardavascos, os operários multicores e maltrapilhos, compunham aquella feira carioca. Foi um allivio para Thereza alcançar a Avenida. Passara á outra civilização. Os grandes armazéns, as vastas vitrinas, as sedas, as jóias, os carros sumptuosos, as mulheres opulentas, os homens exhaustos, tudo se ennobrecia na claridade artificial. No fim da Avenida, a praça dos arranha-céos espiritualizava-se na luz electrica. Os edifícios subiam leves. Um tecto aéreo, luminoso, cobrindo a praça encobria o céo. Beira-Mar. Alegria da brisa, das vagas, das luzes. Volumes negros-verdes. Curvas e rectas. « Carecas », perfilados, espocando luz. O horizonte alarga-se para a bocca da bahia, porque dentro a illuminação é um limite visionário. Por entre as mil luzes dos mil carros passou a luz vermelha do automóvel de Thereza, que, ufano, galgou a ladeira do Russell. Dobrou a curva da ruasinha. A visinhança estava á janella. Num arranco Thereza estacou o carro. Vieram á porta e cercaram a machina. Pedro a examinou, acariciando. Thereza atrapalhou-se vendo Philippe e rápida deu as frutas a D. Calú. — Mas que boa idéa! A senhora sempre tão generosa e adivinhou, porque hoje Philippe janta comnosco e com estas frutas esplendidas bancamos os ricos. Obrigadinho. E como Jujú está bonito! Ah! A senhora, a senhora... Jujú triumphava e mostrava a Philippe o phonographo. Alli mesmo na porta os embrulhos foram desfeitos e as compras admiradas. No seu infinito enleio, Thereza buscava o olhar de Philippe, que lhe veiu penetrante e enthusiasta. Era a recompensa. O alarido, que faziam, alarmava o socego da rua. Uma preta velha passava. Deteve-se curiosa. Parou deante da machina.

— Minha Nossa Senhora parece gente! Até respira. Cruz! Credo! Foi seguindo ladeira acima. Philippe interessou-se pelo automóvel e Thereza vivamente, vencendo à perturbação, explicava as maravilhas do seu carro sempre exagerando-se, como para escapar á realidade da sua emoção. Na velha rua colonial, que viu cadeirinhas, palanquins, caleças, houve um silencio de veneração pelo novo idolo. Aracy imaginou-se dentro e supplicou a Thereza: — A senhora quer nos dar um passeio amanhã? — Pois não. A que horas? Aracy, expressiva: — Philippe vem comnosco. Está feito. A que horas? Combinaram para as três da tarde. Thereza, em um impulso alegre, saltou para o volante. Todos lhe vieram apertar a mão. Thereza partiu em uma velocidade inútil e entrou pelo portão escancarado, buzinando violentamente o klaxon. Musica. Alguns minutos depois ella invadia o quarto da filha. Uma luzinha azulada adormecia a menina e a negra. Thereza abriu as outras luzes e a criança despertou já com a boneca e outros brinquedos na sua caminha. A negra, num salto, quiz expulsar Thereza. O quarto refulgia em vermelho, azul e outras cores. Fadas, anões, gigantes, deuses, animaes, pássaros esculpidos nos moveis ou pintados nas cortinas, surgiam das sombras e faziam a corte de Lili. Eram infantis os moveis, com que a fantasia moderna de Thereza povoara nestes últimos tempos de enthusiasmo o aposento da menina. A cama de laça azul alegrava a creança offerecendo-lhe imagens de flores, de aves e de outras crianças. Balançava como um berço, agasalhava como um seio. Thereza beijou a filha, arrancou-a da cama, suspendeu-a nos braços e Lili morria de prazer. A negra foi-se queixar a Radagasio da perturbação, que Thereza fazia aos costumes. Um criado appareceu reclamando-a para jantar. Thereza continuava a brincadeira com a filha. Mas a voz roufenha do marido trovejava grosso e a decidiu a deixar o quarto pueril. Radagasio estava jantando, negro de raiva. Resmungava: — Você não tem mais ordem. Vive na rua, chega tardissimo e ainda vae acordar a menina. Parece um furacão. Não pode continuar. Tudo tem de voltar aos seus eixos... Thereza estava contente em inferneziar Radagasio. Divertia-se com aquella raiva, que o tornava mais hediondo, como ella queria. O homem suffocava de ódio, sentindo o desprezo alegre da mulher. Não podia comer. Temendo a aerophagia, a bocca de kagado, fechada, mastigava trinta e cinco vezes cada bocado e engulia mal. Thereza desforrava-se jantando fartamente. Como seria o seu passeio amanhã? Deviam ir bem longe, aproveitar o mais possível. Que Philippe lhe diria? O coração batia vivaz, o rosto ficava quente, os olhos fulguravam, a bocca sorria para longe. Radagasio estava estupefacto. — Não me sinto bem. Esta maldita azia... A urticaria começa... Levantou-se sem terminar o jantar e foi para o jardim. Tudo lhe era obscuro. Fazia um esforço doloroso para comprehender e não - comprehendia. Queria dominar e não dominava. Queria gosar e não gosava. A impotência de sentir, de entender, de agir e de se satisfazer o exasperava. Thereza era tudo aquillo, cuja plenitude elle não podia ter. Pensou em destruil-a. E quedou-se estupidamente, olhando a bahia até que o espirito rudimentar se foi divertindo com os vapores, que se moviam, e outros incidentes do mar. O sereno o resfriou. Espirrando, recolheu-se rancoroso.

Na tarde seguinte, Philippe esperava Thereza á porta dos amigos. Os seus olhos estavam attentos ao portão, de onde surgiria o automóvel desejado. Nada o distrahia, nem o alarido de Aracy, toda festiva, de vestido vermelhq, ousado, pueril, nem as tagarelices de D. Calú. Elle esperava e imaginava. Todos os seus sentidos queriam Thereza e o seu.pensamento desenrolava, multiplicava as impressões sensoriaes. O pequeno grupo augmentou com o apparecimento do Léo e da irmã Zilda, convidados de Aracy. Não tardou que o portão fosse aberto e por elle atravessasse muito devagarinho o automóvel. Thereza vinha pallida e recolhida. A bocca sorria, entreaberta, meiga. Os olhos infinitos, negros, postos em Philippe, estavam humidos de ternura. Thereza vinha entregar-se. Ao seu lado Jujú, que a fora buscar, sentava-se vaidoso da roupa nova, de flanella branca, collarinho aberto, de onde sahia a esperta cabecinha. Logo o violentou Aracy, obrigando-o a deixar o logar para Philippe. Era estratagema de namorada, pois assim collocou o Léo atraz, entre ella e a irmã. Jujú, furioso, ficou abandonado no banquinho interior. Thereza, despertada pelo instincto mecânico, poz firme, resoluta, o automóvel em marcha. A machina entrou potente na vastidão de ar, de luz, de sol, de cores, de água, de céo alto, de pedras e florestas, que se abria fulgurante á beira-mar..Rastejando silenciosa na promiscuidade de uma multidão de carros, proseguiu para Botafogo. Sobre o cáes, a resaca atirava esguinchos, que vibravam illuminados e cahiam chiando e espalhando um cheiro primitivo e marinho. Thereza cheirava a âmbar. O aroma não lhe vinha do perfume artificial. Vinha-lhe da carne, do sangue, do intimo, do mysterio. O olfacto de Philippe sorvia a encantação aromatica, que tornava mais agudos os outros sentidos. Desse cheiro gerava-se um gosto ardente, que lhe inflammava o sangue e lhe dava uma sede febril. Os olhos maravilhavam-se nas linhas vivas e puras da forma feminina, imaginada ora núa em pleno ar, ora coberta de um tecido de seda da côr desse âmbar, fonte enygmatica do perfume, sobre o qual brincavam os desenhos de fantasia geométrica. Na cabeça os volumosos cabellos estavam guardados no pequeno chapéo de seda colorida. Os braços meio nús estiravam-se longos e polpudos até as i mãosinhas nervosas, de dedos finos e unhas curtas, desenluvadas, tenazes no volante. Sobre esta nudez, os olhos de Philippe mordiam a maciez da carne e sentiam a quentura do sangue moreno. Elles approximavam-se um do outro e as vozes entrelaçavam-se,' fundiam-se no murmúrio, i que se estendia tenuemente entre elles, sob os violentos barulhos do ambiente ultra-sonoro. A voz de Thereza levava a Philippe a alma secreta e ainda não decifrada. Havia a modulação do desejo, o timbre da ansiedade, o enthusiasmo do tom, o rythmo da esperança. Impregnava o homem, arrebatava-o dos seus sentidos e o transcendia á emoção intellectual. Aquella mulher não era unicamente uma impressão de cores, de volumes, de linhas, uma sensação de vida animal, attrahente, imperiosa no seu esplendor. Era uma pessoa humana, um ser vivo, de imaginação, e intelligencia, um espirito, uma alma que desejava e soffria. Era Thereza.

Copacabana sahia, immensa, marulhenta, escancarada e livre, do buraco do tunnel. Jujú trepou no banco, agarrou Thereza pelo pescoço e ferrou-lhe um beijo. Aracy e a amiga, aos gritos, esbordoavam alegremente o Léo, que berrava toadas sportivas. O automóvel, como uma caixa de brinquedos loucos, voou para a praia. — Gosado! gritou Aracy, e arrancou o chapéo. — Gosado! Toda força! accrescentou o namorado. Corriam, corriam. O vento entrava na vadiação e sacudia os cabellos e as roupas. As raparigas deitavam-se para atraz para receber as caricias impudentes e fortes do vento. — Gosado! gemia o Léo de bocca cerrada, olhos vidrados, apertando o braço de Aracy. Philippe ia attento para proteger Thereza das impudicicias da corrida. Outros carros passavam no mesmo enthusiasmo. A alegria transbordava do mar luminoso e do infinito dos horizontes.

No fim da praia, Thereza parou. Desceram do carro, ávidos de marchar. Thereza fechou o automóvel e todos se puzeram a caminhar pela desenrolada calçada zebrina, que o mar arrebenta. Aracy, atrapalhada com as violências mysteriosas do Léo, refugiou-se um instante junto de Philippe. Na frente de todos, Thereza caminhava. A praia era larga e franca. As ondas longas, possantes, coloridas, erguiam-se, dobravam-se, mugiam e afogavamse nas espumas. O volume da immensa massa oceânica vinha rolando sobre a terra, que ostentava as suas pesadas montanhas e o despraiado das areias. As casas numerosas.enchiam de fantasia. e abrigos o espaço glorioso. Thereza caminhava. A sua construcção era de grande sobriedade de volumes, os indispensáveis para os movimentos simples. Havia nella uma synthese de elementos vivos para os múltiplos desenvolvimentos mecânicos. Nada lhe perturbava a funcção da actividade, do equilíbrio, da realização plena. Erguia-se do solo, erecta, de Unhas finas, armadas. Os pequenos e os grandes volumes ligavam-se estreitamente entre si e o movimento do alto completava-se em toda a direcção até em baixo. Todos os seus planos os mais subtis uniam-se, produzindo a superfície lisa e intima, que revela a profundeza. Por toda a parte os movimentos executavam-se schematicos e determinados pela construcção inexorável, patenteando a alegria de uma liberdade transcendente. Thereza era uma maravilhosa machina de viver. As companheiras apressavam-se para alcançal-a. Iam ardentes, ágeis, lançando vigorosamente as pernas retesas e sportivas, a cabeça levantada, o busto franco, o olhar vigoroso. Na actividade permanente o prazer da vida. Pareciam surgir do mar. Exhalavam o cheiro marinho das cariocas. Thereza sentiu-se perseguida, retrocedeu rápida e deixou as raparigas passarem, já em corrida, atropeladas pelo Léo e por Jujú. Thereza juntou-se a Philippe. Elle falou-lhe de tudo o que viam. Louvaram o sol, inebriaram-se na luz, perderam-se no infinito. Tudo o que Thereza ouvia de Philippe transformava-se em musica. 0 som infiltrava-se nos seus nervos, as palavras eram mais sentidas do que entendidas. Ella fitava a bocca, que falava, e desejava essa bocca, ella abysmava-se nos olhos, que a penetravam, e rendia-se. Philippe recebia, como uma aureola, o reflexo deslumbrado de Thereza. Emmudeceram na profunda harmonia do enthusiasmo e do mysterio. — E a sua viagem? murmurou Philippe, emergindo do silencio. — Não penso mais. Como isto é bello, sublime! Sinto que tudo é meu, meu... respondeu vibrante. — Nosso, concluiu Philippe. — Oh! nosso... accentuou Thereza. Mas não nos deixará um dia? Não fará uma viagem? — Não sei. A minha viagem será outra... Ella já começou... Eu viajo em sua alma... Thereza fitou-o espantada, offuscada, aterrada. Muito pallida desviou os olhos, que poz longos no mar... E sem se mover para Philippe, deixou escapar o seu pensamento, que era um desejo: — Pois sim... Como fatigados de um immenso esforço, Thereza e Philippe ficaram mais unidos no grande silencio das águas e do vento. Machinalmente retomaram vagarosos pela calçada até o automóvel. Aracy disse baixo a Zilda: — Thereza estava adivinhando passarinho verde e agora voltou jururú. O automóvel proseguiu para o Leblon. Thereza não percebia bem o que ouvira de Philippe e o que lhe dissera. Havia um súbito nevoeiro em sua lembrança e ella esforçava-se por fixar cada palavra proferida por Philippe e a emoção, em que dera a sua acquiescencia. Viu-se compromettida em um destino, que não procurara e lhe apparecia, fulminante e inesperado. Não ousava olhar Philippe que, sereno e resoluto, a contemplava. 0 automóvel ia frouxamente. — Mais depressa! Toca! berravam os companheiros, sobre a praia descampada, onde os vagalhões mais violentos morriam á distancia, espumando o seu desespero. A friagem marinha ia envolvendo, na evaporação, o deserto de águas e areias. De repente, a garganta de pedra transpoz o automóvel para o orla de Niemeyer, beirando o oceaho por cima de grotas, no meio de arvores, de palmeiras, de bananeiras, trepando pelos lagedos, encostando-se nas montanhas e defrontando os magnificientes e poderosos massiços da Gávea e dos morros inominados, em um resumo violento de floresta, montanha, água e pedra, que são os elementos essenciaes da natureza do Rio de Janeiro. A praia da Gávea é a doçura nesta emphase. Esconde-se do mar descompassado, abriga os pescadores e refresca uma criançada pobre e alegre, que vem dos casebres do pequeno arraial, onde uma arruinada egrejinha é o marco da antigüidade. Dahi Thereza tomou por uma velha estrada. A principio margeava chácaras e roças para depois subir e embrenhar-se na matta. Tudo era abafado na penumbra. Uma perfídia verde e humida entorpecia e transfigurava as cousas. Os semblantes humanos tornavam-se espectraes. Só a machina zombava do velho silencio, do respeito florestal, da densidade verde, dos séculos das arvores. Dominava, roncava, arfava e, célere, voraz, ia galgando a montanha pela estrada encaracolada. Em cima, abria-se uma clareira e o oceano, Copacabana e a Gávea formavam a paizagem inverosimil. Desceram pelo lado opposto e depararam, depois de súbitas voltas, com as chácaras antiquadas, coloniaes, relicarios da escravidão. Uma grande tristeza vegetal emanava do Jardim Botânico, mas, em face, a lagoa dragada, aterrada, trabalhada, cheia de machinismos movendo-se, gritando, buzinando, transformava-se alegremente. Pela recta de uma rua estrepitosa chegaram á bahia de Botafogo. Tudo se illuminara, a avenida, a praça, os morros, os fortes e, lá ao longe, faiscava Nitheroy. As águas estavam opulentas, fartas e já repousadas. Quando da curva do Morro da Viuva se apresentou o Flamengo, appareceram por entre as luzes os dois aranha-céos, que, á distancia, pareciam postados um de cada lado do outeiro da Gloria. Eram dois dynamos,'. que impulsionavam a coluna romântica. Lá estava a melancólica casa de Thereza. Desde então Thereza se sentiu desintegrada. A sua pessoa tinha sido invadida, desmembrada pela vontade de outro ser. O seu atordoamento foi infinito, mas, ao mesmo tempo, a palavra de Philippe communicou-lhe a graça do recolhimento, em que se abysmou, exaltada, transfigurada pela aspiração de se elevar acima de si mesma, na ânsia de que a sua alma, « em que elle viajava » fosse sublime e o encantasse eternamente. Deste estado de beatitude e de inquietação a arrancaram as forças perpetuamente infantis da mulher. Thereza moviase para Philippe, radiante da sua admiração e da sua preferencia. Sentindo-se escolhida, alegrava-se em revelar-se. Não temia mais o olhar, que a penetrava. Buscava esta chamma, que a inílammava e a illuminava. Dentro desta atmosphera vibrante, Thereza era impellida para a ascensão de deslumbramento, a necessidade esthetica da attracção sexual. O seu encanto sobre Philippe desenvolveu-se prodigioso e infinito. Era pela voz meiga e ardente, era pelos olhos venturosos e insaciáveis, pela bocca movei, risonha, fresca e rosea, por todo o seu corpo fino, ágil, glorioso, pela magia das suas transformações,! pela sua alegria, pelo seu enthusiasmo. Philippe recebia maravilhado a seducção, que criara e que vinha sobre elle, como uma dominação. O seu espirito absorveu-se no perpetuo desejo da presença real de Thereza. Buscava-a por toda a parte, na cidade apenas para vel-a passar, ou em casa dos amigos, onde se encontravam. Nada disto apaziguava a sua ansiedade. Tudo era impreciso e fugitivo. Nas conversas geraes, em presença de todos, apenas lograva sentir o encanto de Thereza e afinar as suas idéas com as delia. Este prestigio espiritual accentuava-se poderosamente. Thereza foi adoptando as idéas de Philippe e, inconscientemente, entrou a imital-o. Muitas vezes surprehendiam-se exprimindo os mesmos pensamentos pelas mesmas palavras e, pouco a pouco, o que era impulso inconsciente, se foi fazendo trabalho da vontade. Thereza aspirava a ser a imitação de Philippe. A impaciência de o ver com mais franqueza mortificava-a. O segredo espiritual, que a unia a Philippe, exigia liberdade para a sua ascensão. O gênio infantil a serviu maravilhosamente. Thereza imaginou passeios, viagens no mar, nas montanhas, para onde arrebataria Philippe, longe dos ambientes domésticos. Por instincto ella sentiu que a natureza não era uma separação e se offerecia para a communhão da alegria. Uma tarde estavam no mar. Sobre a água paralysada, a doce e profunda luminosidade ápproximava os horizontes e dava uma gravitação poderosa aos montes, ás ilhas e a todos os objectos. A brisa vinha vivaz do oceano e invadia o ventre da bahia, que se ostentava largo e vasio. Os encouraçados, os vapores, as ilhas, tudo era pouco para encher a vastidão interior, que ia terminar na terra, de onde se elevavam violentas montanhas de cabeça de negro e dedos proféticos. Esta retraeção da perspectiva surprehendeu Thereza, que imaginara uma bahia sem fundo e sem fim, como ás vezes se dilatava na miragem de outra luz. — Só parece que estendendo a mão toco nestas ilhas e na outra margem e naquelles fortes, exclamou para Philippe. Eu quizera as fortalezas menos brancas, refulgentes como besouros. Dir-se-ia que continuamos a colônia, a possessão lusitana dos trópicos. — Mas que importa a deformação humana, se a luz é a perpetua magia e nós estamos na morada da luz... murmurava Philippe, olhando Thereza, magnificamente postada na amurada da barca, em cima, na proa que avançava rangendo na água fulgurante. E as cousas que pareciam próximas não chegavam, iam sempre se afastando. Das ilhas do trabalho vinham gritos de usinas, pancadas metálicas, que arrebentavam no ar. Forjavam-se vapores, emquando os rebocadores iam arfando, arrastando uma ninhada de alvarengas de carvão e os lameiros labutavam para dentro e para fora da barra. Um encouraçado, como collosal brinquedo náutico, estava repleto de uma gente minúscula, que corria na tolda, subia aos mastros, enfileirava-se, simulando marinheiros e guerreiros. Outro dreadnougt estava suspenso na guela metálica do dique negro, que fluctuava nas águas. Vapores bojudos e carrancudos postavam-se no centro da bahia, com o ar de quem espera. Outros vaidosos e pomposos convidavam a viajar, a viajar... Todos carregados de desejos. Thereza escolheu o que devia leval-a para longe. Não seria aquelle soberbo transatlântico a motor, palacial, theatral. Seria aquelle outro, fino, elegante, vadio, prompto para tudo, e que seguramente não levaria destino infallivel. E neste jogo com Philippe, indifferentes aos companheiros, comparsas da sua felicidade, chegaram a Nitheroy. Accommodaram-se todos em dois automóveis e Thereza ao lado de Philippe, dominadores e inteiramente extranhos aos outros. A água, que separava Nitheroy do Rio de Janeiro, dava á cidade provinciana um recuo de larga antigüidade» Era um Brasil acanhado, pobre e monótono, que surgia repentinamente nas ruas domingueiras, sombrias e vasias. Mas esta melancolia não entrou em Thereza, embebida em Philippe. Os outros riam da timidez dos passantes e ostentavam o desdém de cariocas. Quando chegaram a Icarahy, uma grande uncção, vinda do mar, do sol morrente, da vastidão do espaço, os fundiu com a natureza. A VIAGEM MARAVILHOSA 79,

Seguiram absortos á margem da praia. Thereza com os olhos pasmos supplicava a voz de Philippe. Elle falou-lhe das duas paizagens, que se oppunham. Das montanhas de energia, onde se gerou o Rio de Janeiro, dos volumes grandiosos, extravagantes, tumultuosos, fataes e românticos, que se atropelavam do outro lado, emquanto alli naquellas praias socegadas, naquelles saccos mansos, nas nitheroys, nas águas escondidas, a paizagem era antiga e clássica e transporia o espirito para a Attica, se o sol não fosse brasileiro. Um bode persegue uma cabra, uma mulher espavorida semi-núa sae do mar e corre pela praia. Os automóveis iam revelando as vivendas de europeus, casas e jardins, como embarcações, estaleiros de yoles e canoas para regatas, a civilização sportiva ao lado dos amplos, pesados e coloridos barcos de pescadores nativos, baptisados de nomes santos. Alli no sacco de São Francisco, o ambiente com aquellas linhas doces, morros brandos, a água socegada, os barcos rudes, os cuters de velas brancas, os pescadores de pobreza franciscana, era muito evangélico. A imaginação poderia ver o santo thaumaturgo pescar com os humildes devotos e sahirem do mar todos os peixes ávidos da palavra divina, offerecendo-se ao holocausto da pesca. Seria mais um passe do inexgotavel sortilegio franciscano. Thereza absorvia todo o encantamento do jogo da luz e da água até que lá na Jurujuba tudo se tornou descorado e glacial. O sol fora-se bruscamente, apagando o ouro das montanhas e das praias. Sobre a água üvida pousavam as ilhas e as pedras concentradas. Thereza agasalhou-se, recolhida á sombra ardente de Philippe. No forte de São Luiz as montanhas abrem-se e mostram o rasgão do oceano e o Pão de Assucar descobre-se nú e brutal. Na Jurujuba a praia é doce, um tamarineiro ancião adormece a passarada, os velhos barcos repousam, barcos de proa alta, do mar largo. As casas de sopapo e de adobe marcam a miséria cançada e preguiçosa. Os automóveis voltaram do fim da estrada fechada pela pedreira, coberta de gravatas e cardos. Quando Philippe e Thereza atravessaram a bahia, tudo estava scintillando sobre a água e sobre a terra. A lua ficara para atraz. Na amurada da barca, Philippe, fremente de exaltação, mostrava a Thereza a suprema magia das vibrações luminosas da cidade sobre as grandes massas allucinantes, promissoras de vida e de mysterios. As luzes enfileiravam-seá margem da água em linha cerrada. Não se acabavam, continuavam indefinidamente. Cahiam no mar depois de enlaçarem as montanhas, subiam por ellas e perdiam-se na escuridão. Cantavam na água e na brisa. Delírio da luz humana, que espiritualizava o nocturno maravilhoso.

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