VII
VII
O inverno tropical desannuviara o céo, mitigara o sol e a terra fluctuava na atmosphera azul. Da egrejinha do outeiro da Gloria vieram alegres os repiques do sino innocente e primitivo, annunciando meio-dia, como se fosse na natureza a hora da elevação. Thereza, na fresca solidão solar'do terraço, acudiu ao appello sonoro e poz-se a rezar. Nestes derradeiros dias o ímpeto religioso surgira do mais profundo das suas entranhas, como uma fonte de salvação para o delírio do extranho movimento de unidade, de fusão espiritual, que a impellia deliciosamente para Philippe. Approximava-se do infinito pela religião. Uniu-se devotamente a Thereza de Jesus, sua padroeira, e exaltou-se na admiração pelo gênio e pela paixão, que moveram a santa transcendente. Sentia que as suas almas tinham a mesma temperatura mystica. Thereza desejou também amar a Jesus. Amor feminino e sobrenatural. Este amor não lhe veiu. Emquanto Thereza, torturada, rezava procurando a libertação, os seus olhos elevavam-se para o céo e lá em pleno dia, na luz translúcida, no fluido azul, por entre as vagas solares, brilhava uma estrella. Magia. Thereza, maravilhada, abysmou-se extatica no milagre tropical. Aquella estrella diurna era signo de Deus para guia da sua peregrinação na terra, até á sua volta aos céos? Thereza sentiu-se protegida, illuminada por Deus e remida de todo o peccado.
Desde então as torturas se lhe transmudaram em esperança. Acreditou, mysticamente, que uma extraordinária' felicidade lhe viria do mysterio da vida e nesta fé bemaventurou-se. Approximou-se ainda mais de Deus na ânsia de ver realisado o que lhe parecera uma promessa. Na manhã seguinte Thereza decidiu-se ir á missa dominical no mosteiro de São Bento. Ha alguns dias não vira Philippe. Não ousava buscal-o. Impellida agora por uma repentina confiança, não refreou mais o desejo de o ver naquelle recolhimento religioso, aonde habitualmente acompanhava a mãe e a irmã. No meio da nave da Abbadia benedictina estava a sepultura de D. Victoria de Sá, doadora da ordem, fallecida em 1667. D. Isabel Corrêa de Sá, sua descendente, por tradição de familia, frequenv tava a egreja antiga e sumptuosa, que lisonjeava a sua aristocracia e embellezava a sua devoção. Da recta larga, lisa, petulante e agitada da avenida, o automóvel de Thereza penetrou no portão agasalhador e subiu pela ladeira murada até o pateo do mosteiro. Rapidamente a machina fizera esta transposição ao passado. O austero espaço monachal enchia-se de sol e de brisa marinha. A egreja benedictina não ostentava a característica face romana, apresentava-se sob a mascara jesuíta. As massas duras, rectangulares do collegio, de um lado e do outro, as alvenarias tristes do convento empertigadas sobre o morro em cima das águas, repousavam melancolicamente na alegria tropical. Sob o peso deste desequilíbrio, Thereza atravessou pelo chão lageado, parou um instante no pórtico antigo, fitou, atravez das rendilhadas grades de ferro, o mar rutilante, alviçareiro, e afundou-se na penumbra da Abbadia. Antes de perceber com os olhos toda a profundeza sagrada do interior monastico, o cheiro do incenso e dos objectos, quilotados pelos fumos das cêras e dos thurybulos, envolveu-a. Ajoelhou-se mansamente, mas não rezava. Todo o seu instincto era procurar2.Philippe. Ainda não chegara.
Viria? Anseâda, Thereza ia recebendo o que a egreja lhe mostrava, o ouro velho das profusas decorações de madeira, as tribunas resumidas, a nave bojuda, a capellamór, refulgente á espanhola, carregada de alfaias, de castiçaes, de santos, escurecida na base pelas poltronas do cabido, o delírio baroco do altar-mór, com a Virgem de Montserrate de resplendor, em apotheose de vidraça, luz e cores. Em baixo, em altares lateraes, São Bento episcopal e Nossa Senhora opulenta, como uma imperatriz bysantina. A' entrada da capella os archanjos italianos, robustos, gladiadores, athletas, defensores do sacrario. Os collossaes candelabros de prata suspendiam lâmpadas vermelhas, corações mysticos em combustão. Pelo resto da egreja, por entre o pesado ouro das paredes duras, abriam-se nichos para velhos santos monacaes, anonymos, modestos e longínquos. A egreja vae se enchendo da gente da visinhança. Todos exprimem uma grande intimidade familiar com o culto. São marinheiros, são mulatas e negras, são collegiaes e vagos allemães atrahidos pelos benedictinos germânicos. Raras famílias do outro lado da cidade. Tudo se passava muito distante, no circulo reduzido do mosteiro. Os olhos de Thereza, aguçados na escuridão e na ansiedade, receberam extaticos, maravilhados, Philippe, que entrava, descuidado, acompanhando a mãe e a irmã. Passaram além de Thereza e as mulheres ajoelharam-se junto a uma sepultura.. Philippe, de pé, mirava e imaginava. Thereza esperava. Sorria. Quando o olhar de Philippe cahiu sobre ella, o seu rosto suavizou-se transcendente, uma ineffavel doçura a transfigurou e na infinita beatitude recebeu a chamma que a possuía, a illuminava e a divinizava. O olhar de Philippe fundiu-se nos olhos de Thereza e o isolou de todas as cousas. A luz, que emanava daquellas pupillas negras, era a matéria sensível, carregada do magnetismo da vida. As lâmpadas, os dourados, as velas, desprendiam luzes indifferentes, mortas. Philippe, na sua absorpção, não pesava a intensidade da sua surpreza neste encontro. O encantamento abplia a reflexão e impregnava de naturalidade o que parecia imprevisto. Thereza continuo beatificada e, quando o órgão encheu de sons a velha egreja, toda a sua alma foi musica para exprimir o inexprimivel do seu ser extatico. As cerimonias começaram Um frade e seminaristas de sobrepelliz, de cruz alçada desceram da capella-mór, cantando pelo centro da egreja até a porta, onde receberam dom Abbade. A procissão remontou pela nave da egreja, vibrando os cantos gregorianos, impellidos pela força do grande órgão. Vinhammonges de sobrepellizes, velhos frades a que se seguiam noviços de preto, as raspadas cabeças teutonicas e vozes tenorinas. Sob o pallio, o corpulento Abbade, de mitra episcopal, foi conduzido até o throno. Lavaram-lhe as mãos, o vestiram e o defumaram. Das grandes aberturas do tecto cahiam jorros de luz solar, onde dansava a fumaça dos incensos. Durante a missa, Thereza se esforçava por se concentrar nas orações. Os olhos de Philippe, postos nella, não lhe permittiam absorver-se. O pensamento fixava-se em Philippe e estendia-se a D. Isabel e Leonor. O seu primeiro interesse foi descobrir nellas Philippe e alegrou-se, quando verificou traços idênticos,na mãe e no filho. De costas o corpo de D. Isabel era leve, pousando sobre o degráo das bancadas. A attenção era profunda e beata. Bem junto estava a sepultura da antepassada D. Victoria de Sá. Thereza tinha lido o nome da doadora morta, que Philippe lhe havia referido. A imaginação de Thereza vagabundeou pelo passado daquella Abbadia. Fora alli um dos centros da espiritualidade colonial. Daquelle mosteiro expandia-se pela cidade nascente a irradiação civilizadora, que vinha marchando do Oriente, como a desforra das cruzadas, mais venturosas entre os gentios americanos. O mosteiro doutrinava e industrializava os escravos negros e indios. Enriquecera com os donativo» das grandes famílias portuguezas. Os doadores sumptuosos mereciam a sepultura na nave da Abbadia, ou nos terrenos do convento. D. Victoria de Sá procedia dos fundadores do Rio de Janeiro. Devia ser uma piedosa mulher, sustentaculo de São Bento, assídua ao seu culto, brilhando em suas festas, transportada pelos escravos em palanquim de seda e ouro, acompanhada de uma numerosa família e de uma clientela de escravos, negros, mamelucos, caboclos, benguelas, tapuios e de fâmulos minhotos e alemtejanos. Devia ser secca, longa, severa como a sua descendente Isabel, sem a apparencia de doçura desta e a suprema resignação de exilada naquelle mosteiro. Thereza divagava pelo passado, que era o passado de Philippe. São Bento deixara de ser um resplendor lusitano para ser annexado e occupado surdamente, commercialmente pelos frades allemães. Tudo alli se trahsmudara. Onde as festas pomposas e D. Victoria na sua tribuna por entre purpuras, damascos e ouro? Onde as comezainas folgazãs dos frades foliões, dos abbades patriarchaes, nos refeitórios repletos de seus filhos, seus afilhados e de uma recua de parasitas, que devoravam o melhor peixe, a melhor carne e se embebedavam com os melhores vinhos? Eis agora a austeridade teutonica, que administrava o patrimônio e arregimentava noviços para exploração da fortuna monachal. A missa terminou por entre alleluias do grande órgão e os cantos vibrantes dos monges. No peristylo Philippe esperava Thereza. Ella foi alegre, luminosa, risonha ao seu encontro. A mãe e a irmã de Philippe foram avassaladas pelo magnetismo da mulher formosa, que fulgurava na penumbra do pórtico e as illuminava com os seus olhos, sua bocca, suas jóias e suas roupas. — Como a senhora se parece com o seu filho! foi o primeiro grito de Thereza. D. Isabel exultou orgulhosa e beijou a moça lisonjeira. Leonor imitou a mãe e disse a Thereza o enthusiasmo de Philippe por ella.
— E Philippe é difficil e severo, ponderou a mãe. Thereza cortou: — O que eu quero é a nossa amizade. D. Isabel disse gravemente: — Ella nos foi inspirada por meu filho e começa nesta santa egreja. Louvado seja Deus. Estas palavras devotas invadiram Thereza, que ficou subitamente seria e poz os seus immensos olhos em Philippe, buscando o equilíbrio de uma revelação. O olhar de Philippe respondeu, affirmando uma affinidade victoriosa. No pateo do mosteiro, o céo ostentava-se lavado de sol depois das chuvas longas e nevoentas. As casas, a água, as arvores reluziam, como porcelanas. Os espaços nítidos, separadores, alargavam-se entre os objectos, que a luz tornava lisos e metálicos. Sobre o lagedo incandescente o automóvel de Thereza faiscava solitário. A gente pobre, depois da missa, ia descendo a pé a ladeira. D. Isabel e os seus dispunham-se a fazer o mesmo, como sempre, quando Thereza os reteve e insistiu em leval-os á casa. No automóvel, entre a mãe e a irmã de Philippe, Thereza falava e ria expansiva e triumphante. Philippe voltava-se para admiral-a e ella, sentindo-lhe a alegria, mais se exhibia na porfia do brilho. As outras tornavamse communicativas e logo já era Leonor, que despertava para o enthusiasmo, provocando a vivacidade de Thereza. E, rindo infinitamente e exclamando de admiração pelo que viam de maravilhoso, de solar, de vasto e ardente, ligando-se pela alegria, chegaram ás Aguas-Ferreas e entraram no velho largo do Boticário, pequenino, densamente sombreado pela exagerada mangueira e pela folhuda amendoeira. O barulho do automóvel foi excessivo para o torpor, em que tudo jazia. Das casas antiquadas surgiram crianças e mulheres ociosas, que se approximaram do sumptuoso carro, de onde, extranhamente para ellas, sahira a familia visinha.
A' porta da rua, D. Isabel convidou cerimoniosamente Thereza a entrar. Desenvolta, Thereza foi entrando. Na sala de visitas estavam os velhos retratos da familia e quando D. Isabel apontou o de D. Victoria de Sá, a doadora, Thereza enguliu o riso. Ella imaginara uma mulher /ascética, esbelta, secca, austera, que fosse a antecipação de D. Isabel e o que lhe mostravam era uma portugueza nedia, lunar, frascalhona. Vivamente Thereza associou a carnuda minhota aos bojudos monges e, o que devia ter sido devoção mystica, passou a ser bombança de frades e beatas. O terror da realidade agitou-a. Thereza desinteressara-se dos antepassados de Philippe. Só, na sua vibrante actualidade, ella o buscava. Philippe sentiu a inquietação de Thereza naquelle espaço estricto, sacerdotal e disse-lhe: — Como lhe parecerá extranha esta casinha, neste triste largo, aos seus olhos, habituados aos mais bellos horizontes da terra! Leonor referiu o encanto do irmão pelo outeiro da Gloria que cada vez mais o exaltava. — Venham aprecial-o lá de casa, que o seu irmão ainda não conhece. — Imagino a maravilha... interrompeu Philippe. — Venham todos na quinta-feira tomar chá. É o melhor momento, insistiu Thereza. — A senhora é muito amável, acquiesceu D. Isabel. — Venham os três sem falta. Eu os espero ás quatro horas, assim teremos tempo de gosar da tarde, que é tão breve. — Pois bem, iremos. Assim Philippe se distrahirá também um pouco, porque nestes últimos tempos anda pensativo e fechado... Thereza sorriu e fitou Philippe, que enrubeceu e não se explicou. Thereza, palpitante, levantou-se para partir. Não vira o quarto de Philippe, que era em cima. A reserva aristocrática de D. Isabel confinou a visita á sala e, apenas na passagem para a sahida, mostrou o oratório, onde ardia a lâmpada illuminando velhos santos de madeira. Philippe e Leonor acompanharam Thereza ao automóvel. D. Isabel viera á janella antiga, debaixo do balcão de grades, emmoldurada por azulejos portuguezes. Quando o carro esvasiou o largo, Philippe recolheu-se para a sua vida nova.
Na manhã seguinte, Thereza está jubilosa em seu mirante. Brisa fresca, vôo alto dos pássaros, tênue neblina que se evapora do mar e das florestas, água serena e esmaltada. Bom tempo. Tudo se prepara para a festa dos olhos sublimes de Philippe. Thereza agradece á sua padroeira e aquella Virgem do outeiro, bella portugueza morena encerrada em seu oratório juvenil, enfeitado de rosas roseas. Durante o dia, Thereza vem varias vezes ao mirante e á janella e inspecciona o tempo com a desconfiança mulheril. O tempo é louco. Varia e se enfurece. Para socegal-o, a meiguice de Thereza, para segural-o, o desejo de Thereza. Quando Jujú appareceu, sentiu-se desamparado dos carinhos de Thereza. Embezerrou mudo, rancoroso, e a sua ira concentrava-se com a indifferença da adorada. Viu-se abandonado no salão. Thereza partira para o mirante a farejar o vento e o céo. O menino rompeu a chorar. Voltando, Thereza surprehendeu-se daquellas lagrimas e do arremesso, com que Jujú a repelliu. Zangaram-se os dois, 'mas, sem demora, Jujú precipitou-se no collo de Thereza, soluçando. Ella não se commoveu com este movimento importuno do seu menino e proseguiu no impulso interior. Poz-se de pé. Rápida e autoritária, ordenou a Jujú: — Vae lavar esta cara. Nada de choro, seu tolo. Toca para a cidade. Não demoraram em partir no carro, que Thereza, vivaz e alegre, guiava. Na Avenida, Thereza fez compras excessivas. Nesta tarde a casa de Philippe ficou enfeitada e perfumada de frutas.