VIII
VIII
Rio de Janeiro era uma cidade de martyrios, de sacrifícios, de oppressão, de infâmias e delações. Pela corrupção e pelo pavor o governo descobria os núcleos de conspiração. Na escabrosa rua Flack, uma casa foi cercada e os revolucionários defenderam-se á bala e repelliram a policia. 'Uma mulher bateu-se valentemente, assegurando a retirada dos officiaes conspiradores, que escaparam do assalto. Esta aventura exaltou os revolucionários. Mas, sem demora, tiveram de se apiedar da sorte do desventurado Conrado Niemeyer, assassinado pela policia. O homem, probo e altivo, fora precipitado da janella, depois do martyrio, em que o puzeram, para arrancar-lhe uma confissão vergonhosa e delações infames. A policia redobrava as torturas e os supplicios. Os presos eram açoitados, esbofeteados, pisados. As enxovias eram promiscuas. Negros, sodomitas ferozes e sanhaçudos, eram lançados aos prisioneiros num furor bestial e aterrador. Batiam-se, ululavam, em vão. A fome e a sede allucinavam os infelizes. A escala dos algozes vinha desde o presidente até o verdugo, que suppliciava os martyres. Generaes rondavam tenebrosos, perversos, as prisões, instigavam e ordenavam as torturas numa obsessão de servilismo e de ódio. Sob a sua vigilância, os policiaes excediam-se na crueldade. Mas, de todos, os mais cruéis foram o delegado mestiço e o delegado portuguez. A crueldade do mulato era voluptuosa, hypocrita, felina. Os seus olhos raiavam-se de sangue no goso de fazer soffrer as victimas. A crueldade lusitana do outro era brutal, violenta, estúpida. A suas mãos pelludas, tentaculares, estavam sempre promptas a esganar os prisioneiros. Foram estas mãos, que arremessaram Niemeyer da janella da policiat á rua. Foi o olhar do mestiço, que gosòu o estertor da agonia do moribundo. O vento alegre da tarde, que sacudia as ondas e atirava água sobre o cáes, subira ao outeiro da Gloria e espalhara a frescura e o movimento na varanda da casa de Vieira. Debruçados á janella, Philippe e Manuel olhavam taciturnos o espaço luminoso, indifferente. Os seus pensamentos não coincidiam com as imagens, que os olhos recolhiam. — Receio muito pela sorte de Pedro, observou Philippe, interrompendo a scisma. — É. Pedro se tem excedido, ou melhor, Pedro é aquella franqueza e aquella audácia, que vão para adeante descuidadas, disse inquieto Manuel. — Não se pode censural-o, concordou Philippe. É uma natureza generosa e as revoluções precisam dos audazes. Se todos fossem como elle, estaríamos muito avançados. O que é admirável em Pedro não é somente a coragem, é a confiança, o optimismo irreductivel, que inspira o espirito constructor. Toda criação é obra de enthusiasmo. — Ou de estupidez, commentou sorrindo, fatigado, Manuel. Se Deus criou este mundo, foi em um momento infeliz. Manuel deixou a janella e ausentou-se. Philippe comprehendeu que- elle fora para a porta da rua espreitar se Pedro vinha subindo a ladeira. Como uma onda de infecção este sopro de pessimismo agitou Philippe, que reagiu contra estas exhalações mórbidas de desanino. Daquella janella do alto do outeiro, o seu olhar envolvia a cidade, as montanhas, as águas e resolutamente alargou os destinos brasileiros. A energia vital, criadora da nação, exigia o movimento ininterrupto de conquista e de progresso. Dentro das cellulas longínquas e fundamentaes agia o dynamismo propulsor. Desta inconsciencia orgânica, devia surgir a espiritualidade, inspiradora da vontade côllectiva, sua luz e seu guia. A revolução, tornando-se o processo da realização da finalidade nacional, seria o motor espiritual do Brasil. A acção não se limitaria á ordem interior, não viria unicamente purificar a atmosphera politica, substituir governos corruptos e despoticos por administrações justiceiras. A revolução teria de mover os destinos supremos do paiz, segundo as constantes da sua energia. Agir em toda a parte, penetrar as terras, vivifical-as, fundir a força humana na força cósmica. Alargar-se pelos mares e, á energia portugueza, a que criou o Brasil e se exgotou, responder gloriosamente com a vivaz energia brasileira, que absorverá Portugal e manterá no império atlântico a nacionalidade permanente e inversa. Entraram na sala de jantar Manuel e Pedro, acompanhados de um joven, cuja presença causou pasmo a Philippe. Ao abraçarem-se, Philippe dizia, enthusiasmado: — Você é maravilhoso, Monteiro. Como,(se escapou da prisão? — Ora, respondeu o foragido. Muito simples. Vocês sabem, camaradas, que prisão não foi feita para mim. Aturei aquella canalha até o momento, em que deliberei sahir. Foi ante-hontem. Fiquei só, á tardinha, com a sentinella e puz em acção o meu plano. Quando o soldado se afastou para o extremo do pateo, em que me guardava, eu dei um pulo para cima do muro do quartel. — Muito alto? — Uns quatro metros... — Bravo! — Uma vez na rua andei com calma, sem olhar para atraz, mas segurando o revolver, que estava armado, dentro do pyjama, pois foi neste traje, que sahi. Domingo, naquelles bairros tudo está á fresca, em familia. Na rua encontrei um automóvel, que me levou á casa de um camarada, onde me recolhi. Na manhã seguinte vi alguns dos nossos e combinamos as bombas para a mesma noite. Foi um fogo de artificio, de brincadeira, para espantar a carneirada. Ein, Pedro? Gosado! Pedro, alegremente, contou: — Um pagode o susto da negrada da policia. Não sabiam o que fazer, se procurar os bandidos ou fugir. Passaram junto de nós e Monteiro, sempre louco, segurou um delles e gritou, « não corre, camarada, informa primeiro a gente que barulho é este ». « Sei lá, são bombas que esses malvados estão atirando. Não quero saber de historias. Se o negocio é de bombas, não é mais commigo...»« Nem commigo », affirmou outro soldado... E assim desappareceram. — Está ahi, disse Manuel. Se houvesse um grupo de homens resolutos tomaria conta do Rio, porque ninguém quer morrer pelo governo. »' — O que falta principalmente é um verdadeiro chefe, resmungou Pedro. Resolução não falta... — Também chefe não tem faltado, observou Monteiro. Você se esquece do caso do « São Paulo » e do assalto ao terceiro regimento... — Sim, mas o do « São Paulo » falhou por falta de preparo do navio e da insubordinação dos marinheiros. O chefe é um audaz, mas foi trahido. Se tivesse bombardeado o Cattete, onde estaríamos nós hoje?... No terceiro regimento o que faltou foi a coragem, não dos assaltantes batutas, mas do pessoal, que prometteu intervir e não cumpriu. Você sabe melhor do que nós. Philippe ficou impaciente com a discussão e logo interrompeu: — Não vale a pena estarmos discutindo o que se foi.
0 fracasso dessas tentativas ainda não está bem explicado. Aproveitemos as energias para o que deve acontecer. Haja verdadeiro espirito de acção em um grupo numeroso, os chefes surgirão. O que é preciso é mais gente disposta. Se todos fossem como você, Raymundo, que maravilha! Raymundo Monteiro ficou mais rubro do que era. Os seus olhos azues espetaram-se nos olhos de Philippe, emquanto a bocca se abria, feliz, debaixo de um nariz inquieto e trombudo. Passou as brancas mãos descarnadas pelo rosto magro. Impellido pelo orgulho revolucionário, levantou-se como uma espada fina, luzidia, cortante. Andando, febril, Monteiro falava: — A revolução é a minha vida, a minha razão de ser. Que era eu antes de me atirar no movimento? Um errante sem destino. Vocês sabem que eu sou nortista. Sou brasileiro, como ninguém. Sou branco, sou louro, que importa! Para ser brasileiro não é indispensável ser mulato ou caboclo. Estes recentes filhos de portuguezes e de negras não têm a antigüidade brasileira, que eu tenho. Meus caros, aqui neste sangue correm tresentos annos de Brasil. A minha familia, como a tua, Philippe, formou esta nação. O Brasil é mais meu do que de toda esta mestiçagem. Só cedo o passo aos Índios. Aos africanos e seus descendentes, nunca. Vieram depois dos meus antepassados, um século depois... Alto lá. Acabemos com esta petulância. Um sujeito por ter pelle escura e cabellinho crespo não pode ser mais brasileiro, que os brancos. E por ser mais brasileiro, que ninguém, é que me dóe toda esta miséria, em que cahimos. Os outros riram do enthusiasmo arrogante de Monteiro, que, mais picado, vociferava: — A minha revolta não é de escravo, não é uma desforra rancorosa... Não sou revoltoso, sou revolucionário. — Não é a liberdade, é a libertação, concluiu Philippe. — Isto mesmo. Dizes bem, Philippe. É um movimento interior do meu ser, que aspira a um quadro humano para a plenitude do meu espirito universal. Isto que temos aqui é o que existe por toda a parte, a oppressão e a submissão,] o despotismo e o conformismo. Tu me ensinaste estes pensamentos, Philippe. Quando eu te encontrei na minha vida eu era um errante, um vagabundo, sem coordenação das minhas forças e dos meus instinctos. Vinha do Norte. O Amazonas me fascinara com o seu imprevisto, suas tragédias, suas aventuras tenebrosas. Delicia de me achar nos igarapés, nos seringaes, só, sem saber quem eu era, na floresta, nas águas, imbebido no torpor verde, intoxicado de maleita, desvairando. Batia-me com os animaes,,'; matava-os e comia-os. Nenhuma caça mais assanhada do que caçar mulher naquelles desertos. Mulher alli é bicho raro. Quantas vezes não atravessei nú o rio, á nado, sem receio da cobra grande para perseguir uma fêmea, escondida em algum barracão de seringueiro ou maloca de indio. E quanto sangue espalhado. Foi um custo sahir desse encantamento... Mas eu tenho a sina de me libertar sempre e vagar sem descanço. Passei com uns retirantes cearenses para o Nordeste e me fiz vaqueiro. Não me arreceei dos cabras... Eu, homem branco, derrubava qualquer garróte bravo, como um campeiro curibóca. Naquelles sertões, fiz tudo, lavrei algodão, trabalhei nas estradas, toquei violão, fui cantador de desafio e, para minha tristeza, fui professor. Conheci aquellas misérias todas da gente sertaneja, como já tinha vivido a infinita animalidade da gente vegetalizada no Amazonas. Uma grande piedade saturou todo o méu corpo. E os meus cantos eram tristes. Tanto eu cantava, como chorava. Um choro engolido, que se desmanchava em dansa. Choro, dansa, chorado, musica do Norte. Cançado de tanto penar, revoltado contra esta oppressão, vim para o Rio. Vivi obscuro, desesperado, sempre dentro dos soffrimentos humildes, dolorosos e que não eram unicamente brasileiros, mas de todos os escravos esmagados pela riqueza e pela tyrannia. Foi então, que te encontrei, Philippe.
— Tu já eras aviador, Raymundo. A tua audácia me assombrou. Quando eu te vi subir no avião e no ar desenvolver toda uma serie de acrobracias allucinantes e que te atiraste de dois mil metros em um pára-quedas, tive orgulho da energia humana e tu me attraiste para sempre. — Nenhuma audácia vale a tua, Philippe... disse pressuroso Manuel. Tu és o libertador. Tu nos arrancaste de toda esta rede de compromissos, em que estávamos presos e eliminaste o terror dos nossos espíritos. — A mim não foi somente esta libertação, que me deste, continuou Raymundo, deste-me a alegria. Eu carregava commigo toda a tristeza amazônica, toda a melancolia nordestina. Vinham do espanto da terra e dos soffrimentos humanos. Tu soubeste transformar tudo isto em uma força bemfazeja, que me consola e me torna senhor do mundo. Por minha vez quiz ser um libertador dos outros homens. Esta terra soffre e geme. Precisamos eliminar a dor. Onde ha uma possibilidade de insurreição, estou presente. Onde ha uma revolta, o meu espirito sopra para accelerar o movimento. É assim que sou revolucionário. Para dar alegria aos outros homens. Libertação. Philippe e os seus amigos maravilharam-se da energia de Raymundo Monteiro, que vinha a elles do fundo da humanidade, da tristeza mais Ínfima, e se tinha alimentado de todas as misérias e esperanças para se atear nesta chamma de alegria, que espanta o terror e exalta o ser humano. Raymundo continuou: — É preciso agir infinitamente. Não contemplar, não discutir. Que toda acção, que se transforma somente em palavras ou êxtases, seja eliminada. A acção deve ser pura no seu movimento e realizadora inexorável. Nas nossas conversas, Philippe, eu comprehendi o que tu podias exigir de mim, uma actividade incessante, que se concretizasse na revolução politica. Que era eu? Repito: um vagabundo, um homem, que vivera no meio dos outros homens miseraveis, que trazia em si a piedade e o ódio. Pela tua magia, tu transformaste em força disciplinada estes confusos elementos de destruição. Tu me elevaste acima de mim mesmo. Deste-me a soberana impulsão de agir sem rancor, sem desespero, para uma finalidade libertadora. Ao teu lado conspirei para a primeira revolução. Desci ás camadas, onde não podias ir. Incitei os espíritos, organizei a reacção popular, procurando sublevar as massas entorpecidas na escravidão. Na madrugada do movimento, eu estava em Copacabana. Não me bati nó forte, mas quando os inverosimeis desoito sahiram para a morte e para a gloria, eu fui um dos companheiros civis que, armado de fusil, se bateu á sombra dos heróes. Vi o que a bravura humana terá de mais puro, mais doce, mais abnegado. Dentro da luz feita de sol e das cores do mar, do céo e das arvores, elles caminhavam impávidos e fulgurantes. No combate foram sublimes. Avançaram desdenhosos e faziam correr a negrada do exercito e da policia, que, espavorida, atirava á toa. Fugia e morria. Os rapazes morreram ou foram feridos de pé, abnegados, transcendentes. — Foi o santo sacrifício. Não houve na historia do Brasil um momento de heroísmo angélico, como esse, falou Philippe. — Tudo foi perfeito nesta sahida maravilhosa. Partilharam a bandeira nacional, que no mastro da fortaleza espalhava nos ares o espirito da revolução. Cada combatente trazia um pedaço do panno sagrado, como amuleto para a morte e para a vida eterna, continuou Monteiro. — Que gloria a tua, amigo! disse rápido Manuel. Foste ferido... Eu também daria o meu sangue por viver esse instante, que viveste. Sinto que nós, os que não combatemos, somos inúteis, como estes rapazes sportivos ou literatos, imbecilizados nos jogos idiotas. Que valem elles deante de um anonymo combatente da revolução? Este pelo menos faz o acto supremo. — O que é preciso é a acção, observou Philippe. Acção que seja movida por um pensamento superior, por um sentimento que quer viver para o beneficio de todos. Um homem de tal actividade vale qualquer philosopho ou sábio, porque elle realiza em actos a philosophia e a sciencia. — Tu me honras muito, Philippe, replicou gracejando Monteiro. Os miseráveis não te prenderam também, suspeitando o teu prestigio em nossos espíritos? E eu não procuro realizar o teu pensamento? O meu ferimento e o primeiro revez não estancaram o meu ardor revolucionário. Logo que me puzeram em liberdade, continuei a agir. A conspiração fortaleceu-me. Esperamos tenazmente dois annos. O que succedeü, vocês sabem. Fui dos que combateram em São Paulo na desordem, no chãos, no desespero das traições. Tivemos horas victoriosas. Vencemos por alguns dias. Abandonados pela inactividade de todos, que esperavam unicamente do nosso esforço a victoria impossível e que, covardes, não nos ajudaram, fizemos a retirada surprehendente e evitamos a destruição de São Paulo. Foi um sacrifício sobrehumano. No primeiro momento pareceu um erro irreparaval. O tempo mostrou que a nossa humanidade suscitou o fecundo reconhecimento de uma população, que desde então ficou inspirada do espirito revolucionário e resolveu libertar-se por si mesma Não é isto que buscamos, a libertação? Deante daquelle que vivera a guerra, que soffrera, dera o seu sangue, os outros sentiam-se inferiores. O esforço delles limitava-se ao risco das conspirações frustadas, ao ardor do proselytismo. A presença de Monteiro os estimulava a uma actividade mais perigosa e mais profícua. A exaltação do sacrifício os contaminava. Sabiam os trabalhos consideráveis do companheiro, as suas avançadas no Paraná e no Rio Grande do Sul, os seus combates incessantes e a sua collaboração efílcaz na marcha para o Norte, depois da rendição de Catanduvas. — Foi assim que viste todo o sertão do Brasil, rematou Pedro.
— Vi e o vivi. Nada me impressionou nestas infatigaveis peregrinações, em que nos empenhamos, como a miséria sertaneja. Faz dó. Para eliminal-a e salvar aquella pobre gente valia a pena fazer-se a revolução. Para mim, hoje, o seu fim mais concreto é a libertação material das populações do interior. Está-se alli em plena escravidão com fome e moléstia. Que mentira mais lugubre do que esta da riqueza do Brasil, da abastança e da fartura! O que testemunhei foi a exploração do homem miserável pelo patrão, foi a disseminação das gentes pelas mattas e pelos desertos, foi a febre, a lepra, a peste apodrecendo os corpos, foi a fome allucinando e entorpecendo a todos. É preciso ter visto como eu vi, ter vivido como eu vivi esta miséria, para concluir que a nossa revolução não terá mais imperiosa finalidade do que a reorganização da producção e da riqueza no paiz. — Não é somente isto, Monteiro, objectou Manuel. A revolução tem principalmente de restabelecer a liberdade. — A liberdade sem uma base econômica, solida e justa, é uma palavra vã. Onde ha pobres e ricos, ha sempre senhores e escravos. O capitalismo é uma oppressão, respondeu Monteiro. E Philippe o interrompeu: — Não é só o terror do capital que devemos combater. Ha outras funcções do terror. A libertação deve ser integral. — Certamente, disse Monteiro, mas neste momento o que é urgente é uma revolução econômica. Não ha revolução, como nenhum movimento social, que não seja aeterminado por motivos econômicos. A nossa revolução será mais uma tentativa vã de liberdade, se ella não preencher o seu fim utilitário em favor das massas proletárias. — Tu restringes a revolução, Monteiro, disse vivamente Manuel, a uma finalidade materialista. A este materialismo histórico eu opponho as razões mais vastas da sensibilidade collectiva. Ha outros factores, que movem os homens, além dos impulsos da nutrição. Não se pôde explicar phenomenos tão complexos, como os phenomenos humanos, só por uma determinante. Nem pansexúalismo, nem pannutritismo exclusivos. Além destes, ha mil outros impulsos, que nos movem. — Metaphysica, Manuel, cortou Monteiro. Sejamos realistas. O que urge para pacificar o mundo é a communhão da producção e da distribuição da riqueza. Foi testemunhando a insondavel miséria humana dos brasileiros, que me decidi pelo communismo. Comprehendi que jamais seremos um povo feliz, emquanto houver a dolorosa escravidão dos proletários... — Metaphysica por tua vez, pura ideologia, Monteiro, gritou triumphante Manuel. O que te move é a piedade, é o vago sentimento de justiça. Romantismo. Como estás longe da realidade! Como será possivel uma organização communista em um paiz de analphabetos? — E a Rússia não era um paiz como o nosso, de senhores e escravos? objectou Monteiro. — E por isso o communismo falhou... respondeu Manuel. — Não falhou, elle organiza a nação em novos moldes, o bolchevismo triumpha. — Veremos até quando. O facto é que hoje o bolchevismo não é mais o mesmo que foi no começo. Também se adaptou, replicou Manuel. No Brasil, o problema é ainda militar e não operário. Para se estabelecer uma dictadura operaria, seria necessário saber a attitude das classes armadas. Não, camarada Monteiro, a luta não é contra os burguezes e os capitalistas, é principalmente contra o exercito e a marinha. O nosso momento é ainda militar. Depois virá a phase jurídica, a infinita paz do direito e da liberdade. Philippe não dizia nada, mas seguia attento a discussão dos amigos. Pedro interrompeu-os, soffrego de os chamar ao que elle julgava ser a realidade. — Deixemos a liberdade em paz, Manuel, e afastemos,
Raymundo, esta ideologia marxista, que tão generosamente queres experimentar neste paiz de mythologia barbara. O que precisamos é de cultura, de uma disciplina, intellectual, que organize este chãos. O communismo viria augmentar a confusão. Neste paiz de espiritistas e de macumbeiros não se deve augmentar o mysticismo político. A minha revolução é no sentido da cultura. Revoltome contra estes tyrannos imbecis e violentos, que são incultos e selvagens. Quero ver soprando nesta immensidade o espirito constructor, o espirito engenheiro. Não foste tu, Philippe, que disseste que o mundo era uma construcção continua? Pois bem, a consciência deste pensa-, mento exige uma infatigavel actividade do engenheiro, penetrante, eliminador, organizador. A própria guerra, a nossa revolução, deve ser um acto de engenharia. Dominar materialmente a natureza, plantar, produzir, criar cidades, levantar casas, abrir canaes, utilizar águas, sondar a terra, extrair minério e pedras preciosas, atravessar os mares e o ar, tudo, tudo depende do engenheiro, e por toda a parte sopra o espirito constructor com o predomínio do machinismo. A supremacia do engenheiro é cada vez mais accentuada. Este espirito apodera-se do homem e o transfigura. Por elle o homem torna-se o architecto espiritual, que organiza o universo. A conversa parou com a entrada do Léo. Sacudido, vigoroso, foi invadindo a sala de jantar e sem cerimonias perguntou por Aracy. — Até agora não appareceu, respondeu-lhe Manuel. — Vim buscal-a para o tennis do Flamengo. Estamos jogando o campeonato e ella é a minha companheira. Uma batuta, esta Aracy. Para servir uma bola não tem igual. Ha de ser a nossa campeã. — E tu és o campeão? indagou irônico Pedro. — Nãof pretendo. Tennis é cousa mais para mulher. Estou jogando por causa de Aracy. O que me apaixona é o remo, e já estou me treinando no box.
— Vida vagabunda tu levas, disse Manuel, irritado com a presença do intruso. Seria melhor que tu desses a tua mocidade á pátria, que está no desespero, em vez de levares a gastar o tempo em divertimentos. Léo sentou-se á mesa e balançando as pernas começou a rir e a falar. — Que diabo. Não estrilla, Manuel. Vocês estão tiriricas. Hô! sogras! Não me importo com a pátria. Não vou nisto. É bobagem. A vida é gosar e arranjar um bom negocio, que vá me dando uns arames, e toca a divertir. É muito preferível remar, jogar tennis ou fazer box, do que a gente se envenenar com politica e outras complicações idiotas. Vocês estão conspirando. Oh! eu sei, mas é estupidez. Isto de revolução é um buraco. Acaba-se preso, surrado, e afinal se morre, para tudo continuar na mesma... — Imbecil! vociferou Manuel. Tu tens a linguagem dessa mocidade inútil, animal e viciada. Para vocês tudo é dinheiro e pândega. Brutos, sem a menor espiritualidade, e corrompidos. Afinal tu és o Léo Flamengo, um vadio com automóvel, fazendo sport até que te appareça um casamento rico ou mais tarde uma ladroeira. Isto é mocidade? Uma miséria... Léo os olhaVa a todos com o desprezo da sua própria inferioridade. Não achou palavras para replicar. Sentiu-se extranho a elles. Apenas conhecia Philippe e nunca vira Monteiro, cujo nome não lhe deram. Pedro tentou exhortal-o com palavras persuasivas. — 'Olha, Léo, o que tu fazes agora nós já fizemos. Também fomos sportivos. Tu sabes que fui do primeiro team do Fluminense. Mas isto passou. A vida espiritual nos tomou e a nossa intelligencia se esclareceu. Entramos nos estudos e alargamos as nossas idéas. Comprehendemos que ha um mundo maior do que um campo sportivo, que ha gente mais interessante do que os athletas e os jogadores ou remadores. A viagem maravilhosa d
— Mas eu sou moço, tentou explicar Léo. — É o que tu pensas. Ninguém mais velho do que o homem do sport e do dinheiro, porque a animalidade é mais primitiva do que a intelligencia. A ambição do goso e da busca do dinheiro são symptomas da velhice, que é egoista e interesseira. Deixa de te absorver nestas puerilidades e nestas misérias e levanta o teu espirito, rapaz. Tu te deves ao teu paiz, a uma communhão espiritual, ao teu próprio desenvolvimento humano... — Bem cantado, Pedro, mas não me pegas para a tua revolução. Meu lombo não foi feito para cano de borracha, nem estas mãos para palmatória... Deixemos de conversa fiada, e Aracy? É possível que esteja me esperando no Flamengo. Vocês também não prestam attenção a nada. Nem sabem se ella sahiu vestida para tennis. Aqui é só politica, politica. Ufa! Vou-me embora. Deixem de maluquices... Deu um pulo da mesa e, em duas pernadas, atirou-se á porta. Dahi voltou-se. Forçando uma gargalhada, berrou: — Olha a policia! Foge pessoal! A voz irritada de Manuel o perseguiu violenta: — Canalha, Léo Flamengo! Léo Flamengo! — Eis o moço brasileiro, disse Philippe desconsolado. Como elle, milhares. Todos indifferentes, todos viciados na volúpia e ávidos de dinheiro. O scepticismo egoista os move. É a mola interior de cada animal destes. Os que têm a fortuna dos pães consomem o dinheiro na sensualidade e nos vicios. Os que não têm dinheiro acabam em ladrões,. falsários, exploradores de mulheres. E nesta casta a policia recruta os espiões e os ricos têm os seus escravos elegantes. Oh! meus amigos, vocês e todos os semelhantes a vocês, livres, idealistas, homens de intelligencia e sensibilidade superior, são o milagre do Brasil. — Infelizmente são tão poucos, accrescentou Monteiro. O paiz inteiro está ankilosado depois de uma longa escravidão. Nas, nossas marchas pelo interior sentíamos a admiração e a sympathia, que nos envolviam. Mas que medo de nos auxiliar! Não se acredita que uma revolução possa vencer. O governo vence sempre, é a convicção popular. E ninguém reage. Todos estão submettidos. Os mais afeitos pagam com castigos inomináveis a audácia, os que têm bens são roubados pelos legalistas, como penalidade da rebeldia. Isto é o que se pratica do sul ao noite. Acompanhei a columna até o Piauhy. Fazia lastima o pavor do sertão, indeciso em nos ajudar. Todos temiam os chefes politicos e estes temiam os governadores, que por sua vez temem o presidente da republica. É a organização do terror. O curioso é que essas populações nos eram sympathicas e todos viam na revolução a libertação. Mas não se moviam para se bater. Ficavam, como espectadores, torcendo por nós. Não era bastante. A' vista disto fui mandado ao Recife promover o levante da guarnição. Reconheço que, no estado actual da situação brasileira, tem razão Manuel. A única cousa efficiente é ainda a intervenção militar. O resto é por ora hypothetico. Seguramente que o exercito também está indeciso e, com a sua indecisão, fortalece a tyrannia. Mas também é certo que o paiz inteiro está saturado do espirito revolucionário. Estamos convencidos de que um acto de audácia victoriosa arrastará a massa do exercito e da marinha. Eis como se expücam estas subsequentes tentativas. Confiamos que alguma ha de pegar. Falhou a minha tentativa no Recife. Sempre a delação. Por isso vim para o Rio, e estávamos experimentando um golpe, que podia ser feliz. Prenderam-me. Livrei-me pelos meus próprios meios. Já fizemos o bombardeio para amendrontar. Toquemos para adeante. Appareceu na porta D. Calú. Os rapazes ergueram-se para recebel-a. Vinha da cozinha falando, exuberante e expansiva. Ninguém a ouvia, até que exclamou atordoada: — Meu Deus! que susto! Você aqui, Raymundo. Quando chegou? Pensei que estivesse lá pelo Norte. Não. Você é o demônio. Quando menos se espera, você arrebenta Abriu os gordos braços e recolheu o rapaz. — Deus te abençoe, meu filho. Ha quanto tempo não lhe via e quanto tenho chorado por você. Mas Deus é grande e dá sempre a salvação. Philippe, você pode rir, mas Nossa Senhora da Victoria protege a revolução... —• Não rio de nada. Ao contrario admiro a sua fé e só quizera que todos fossem assim. É preciso acreditar em alguma cousa, que nos mova. Quando D. Calú soube da situação de Raymundo Monteiro não socegou, emquanto não o decidiu a refugiar-se alli: — Olhe, aqui tudo é de confiança. A casa é grande e tem estes andares, que dão para o Russell. Ha varias sahidas no caso de necessidade. Depois Deus nos protegerá. O que eu posso fazer pela revolução, por vocês, meus filhos, eu faço. A minha alegria é ajudar esta mocidade, que está salvando o Brasil. Não tenho medo do governo. Se quizerem perseguir que persigam. Entrego tudo a Deus e a Nossa Senhora. Os maus pagarão. E a sua mala, Raymundo? — Não tenho respondeu, rindo, o revolucionário.. Tenho um pouco de roupa em casa de um amigo... — Não tem importância, cortou Pedro. Tu te arranjará! com o que é nosso. Começamos o communismo... Debaixo desta expansão alegre, Philippe deixou a hospitaleira casa da fé e da abnegação. Na rua extremamente tranquilla tomou para o lado da morada de Thereza. 0 portão tinha em algarismos de ferro a data de 1855. Philippe deteve-sé em frente ao muro alto, muro de baluarte amparando a collina. Um vento fresco corria pelo caminho estreito e sombrio e subia para sacudir as palmeiras de cima. Philippe proseguiu lentamente na direcção da egreja. — Amanhã conhecerei todo este mysterio, que me attrae ahi dentro. É a casa de Thereza. Um espirito tão movei em uma morada tão plácida. Thereza finge-se conformada no isolamento. Mas eu percebo a sua ânsia de se evadir. Todos se querem evadir. Sente-se um esmagamento universal. Os meus companheiros batem-se por se libertar. Pesa-nos uma desoladora decepção. O governo opprime, os grupos politicos, os industriaes, o commercio, tudo opprime. Porque se revolta a mocidade brasileira? Contra o que reage? Examinemos bem tudo. No Brasil ha uma grande liberdade social. Não ha a oppressão do conformismo, do puritanismo dos paizes anglo-saxões, nem o peso da rotina e da tradição, como na França, nem o devotismo ibérico. Tudo é tolerado. Não ha medo de ser atheu, todos podem ser revolucionários em religião, arte ou sciencia. Muito bem. Tudo permittido e mesmo admirado até os limites da politica. Não se pode-passar dahi. É o perigo. Soffre-se o constrangimento da gente, que se apossou do poder e que se impoz com abuso, com tyrannia. Durante muitos annos, a mocidade foi subserviente ao governo. Era sportiva e indifferente. Depois da revolução de 22, com o feito de Copacabana, a mocidade começou a se interessar pela causa publica e a se agitar. Percebeu a horrível oppressão, que esteriliza o paiz e se revolta. Alguns, como Léo Flamengo, são retardatarios. Mas outros como Manuel e Pedro são actuaes. Copacabana. Renovação. A revolução desde lá passou a ser um acto de mocidade. Antes, os velhos generaes, os contumazes politicos, tinham o privilegio das revoltas. Elles organizavam e os moços os seguiam. Fracassaram os velhos. Hoje são os moços que organizam e avançam. Os raros homens velhos, que os acompanham, são arrastados pelo espirito joven, que tudo conduz. O instincto estava recalcado. Havia uma humilhação, que consumia a mocidade. Succedeu uma desforra, esta ânsia de libertação, que nos levará á victoria ou á morte. Mas se vencermos? A solução é muito obscura. A dictadura militar? O communismo? O meu espirito liberta-se da preoccupação do que vae succeder. Eu perseverarei no meu ser. Não me deixarei absorver na communhão anonyma, nem a minha personalidade será abolida. Não retrogadarei da intelligencia ao instincto. 0 universo existe pela minha consciência. Ella me separa dos outros homens. Cada consciência, cada universo. E para a fusão no infinito tenho a minha philosophia, a minha arte. E só? Haverá em mim ainda outra força, que me transfigure e me dê a suprema alegria?...