XIII A Viagem Maravilhosa · Capítulo 13 de 17
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XIII

XIII

Praça da Bandeira empesteada dos maus odores de lama, de pó, de restos de feira, de gazolina, de gorduras, de suores a pesarem, na noite densa e na claridade aberta pelos projectores e pelas fachas de fogo dos cafés, das confeitarias e do cinema, rastejando o chão immundo das calçadas movediças de gentes. O parque de diversões também illuminava apagando o céo, onde devia haver estrellas inúteis. Mandava o seu barulho de musica rangedora, de alto-falante, de algazarra infantil e feminina desafiar os ruidos dos bondes estrepitosos, os arquejos dos omnibus e a klaxonaria provocante dos autos. Covardes fugiam, com os seus gritos e as suas luzes, para destinos longínquos, a Penha patusca, S. Leopoldo, Andarahy enygmatico, Caju funerário ou para a poeira pittoresca de Villa Izabel. Mas outros atrevidos voltavam para a cidade e paravam furibundos pela praça, arrebentando sons, barulhos, luminárias. No espaço estreito, furtado á praça, que era o café cafageste da esquina da rua do Mattoso, estavam sentados Raymundo Monteiro e Manuel. A cada passo entravam mulatos, negros, que esbarravam nelles não faltando á cortezia pernóstica de se desculparem: « Com a sua licença, cavalheiro ». Os syrios, os italianos, os portuguezes passavam resmungando, empurrando. Um negro robusto, trancado, de forte peitoril, de cabeça redonda carapinha, olhos pardos, sangüíneos, veiu sentar-se á mesa de Monteiro. Deu-lhes a mão e, pela bocca desdentada, foi dizendo: — Eu estava por alli rondando. Secreta está tecendo na praça, que é um desatino. Cuidado. Aqui não é logar para conversa. Vamos embora, minha gente. Monteiro, que tinha uma razão para escolher aquella praça para o encontro, zombou: — Deixa de medo, Felismino. Medo estúpido, rapaz. — Oh! o senhor é muito afoito e por isso foi apanhado no anzol. Quanto mais, na rede da policia... Manuel queria saber do negro o que elle vinha informarlhes. — Olhe, desembuxe, que é o melhor. Pedro conta com você. De quantos homens você dispõe para uma acção decisiva?... O negro olhou malandro os brancos: — Se é para gritar na rua, fazer banze, pode-se contar com uns mil homens, da estiva e dos frigoríficos. Se é para um assalto, com apoio da tropa, uns cem homens. Se é para fazer o serviço, nós sosinhos sem tropa, uns cincoenta, ou menos. Se é para um trabalhinho de segredo e definitivo, pode-se contar só commigo... Esta precisão prudente de Felismino os fez scismar. Monteiro fitou Manuel e tomou a resolução de dar um pouco mais de esclarecimentos. — Você é um camarada seguro e finório, Felismino velho. Nós queremos aquelles cincoenta homens para o serviço sem a tropa. Queremos cabras decididos. E com você é de virar e torcer. — Quando será? indagou Felismino, alegrando-se e esfregando as mãos imprudentemente. Eu tenho uma continha a ajustar com esse pessoal. Aquellas lambadas, aquella fome, aquella sede na quarta delegacia, tudo isto vae ser pago com lingua de palmo. Espera por mim, vinte e seis!...

— Para breve, cabra bom. Cada um tem a sua desforrasinha a tirar, saboreou Monteiro. Manuel explicou ao negro: — Olha, Pedro está praticando de engenheiro no porto. Como elle te vê sempre, te dará o aviso do que tens de fazer. O preto olhava desconfiado para as portas. E foi cora voz baixinha que affirmou a sua promptidão. Dois sujeitos esganiçados, aciganados, capadocios de cabelleira densa e de olhos esgazeados vinham da rua em direcção á mesa visinha, a única vasia e empurraram propositalmente o corpansil de Felismino. — Desculpe, cavalheiro... O cavalheiro fez um gesto de acquiescencia senhoril. Catucou com as pernas os companheiros e metteu-se a falar alto: — Na roça é que é gostoso. Não tem cinema, é verdade, nem parque de diversão, mas uma noite de sabbado, como esta, é sambar até romper o dia. Não sei porque não estou lá. Vim para espairecer um pouquinho e fui ficando... Os outros entraram no jogo: — Quando você parte para o seu Tinguá? perguntou Monteiro. — Depois de amanhã, se Deus quizer. Fico aqui este domingo, porque tenho um baptisado na Pavuna e, como é forrobodó, a gente não engeita... Continuaram a falar á toa de mulheres e de pagodes. Os secretas foram esmorecendo a attenção e esbrazeados empinavam chops sobre chops. Não tardou que outros indivíduos se chegassem a elles. Não eram da policia, mas gente que corteja a baixa autoridade e a suborna para os seus negócios, suas trapaças e seus vicios. Esquentados, os secretas esbravejavam theatralmente para serem ouvidos por todo o café. — Os mashorqueiros estão tramando. Nós estamos de olho vivo. Seu Marechal deu ordem de metter cano de borracha até matar. Policia agora não. brinca. Acabou-se a pasmaceira de prender nos cubículos. Liquida-se tudo de uma feita. Olha o tal de Niemeyer. Aquillo é que foi uma belleza. Os chefes da quarta se um é tigre outro é onça suçuarana... Os olhos de Felismino fusilavam. — Não lhes conto nada. A cafusa ficou toda enrabichada por mim que nem se fosse macaca por banana. Ella me arranhava, me comia com os olhos. Oh! negra para bolir... Monteiro percebeu Pedro, que da rua lhe fez signal chamando-os. Muito subtilmente respondeu com a cabeça e Pedro sumiu-se. Monteiro propoz que fossem ao parque de diversões. Chamou o criado que não attendia nunca. O café era um chiqueira de cuspo, pontas de cigarros, bebidas entornadas, vasilhame immundo, criados nauseabundos. A torpe clientela de cafagestes, secretas, rameiras, jogadores, sodomitas, ladrões, comprazia-se na solidariedade da crápula e da porcaria. Pedro mostrou-se ao longe e elles o foram acompanhando. Quando o alcançaram, Felismino esbravejou, alliviando o peitoril suffocado: — Arre! que eu já estava esbaforido e sem fôlego de inventar tanta safadagem. Mulatas, cafusas, samba. Nossa Senhora da Purificação. Parecia conversa de bode. Amanhã vou botar uns cobres no milhar da vacca, da cabra e do macaco. Também do gallo, em todos os bichos da gandaia. Minha gente, olha disfarçado para ver se estamos sendo seguidos... Não. Elles estão mas é bêbados. Gambás... que fedor! Tomaram para o mercado da feira livre, que estava vasio e no escuro. No lado da rua, que vem de São Christovão, um homem baixo approximou-se delles. Era o capitão, destemido e ardoroso, que organizara a demonstração das bombas. Pedro apresentou-lhe Felismino. A mascara severa e preoccupada do official foragido tornou-se ainda mais inquisidora. Deixou que os outros falassem. Monteiro, com a sua espontaneidade e o seu tacto de propagandista, tratou de quebrar aquelle primeiro movimento de desconfiança, que fazia femmudecer Felismino. Explicou ao capitão as disposições do estivador e esperou uma palavra de confiança, que não veiu. Como não entravam no assumpto, que os reunia, Monteiro começou a discorrer sobre a situação dos trabálhadoreil — Esta pobre gente está na perpetua miséria. Quanto ganha um homem de carga ou de picareta no cáes do porto? sete mil reis por dia de trabalho. — Não ha meio de fazer uma greve? perguntou o official a Felismino, que ignorava a sua qualidade de militar. — Qual, seu doutor. Já se foi o tempo de greve. Com estado de sitio não ha mais classe operaria. O governo prende todos que reclamam. É um despotismo. Quem reclama vae logo para a policia, como revoltoso. E agora não é só revoltoso, é também communista. De forma que não ha meio de se protestar. Deste modo o governo nada teme dos trabalhadores, que estão esmagados. Os homens ganhavam sete mil reis. Elles queriam dez mil reis, que é cousa muito á toa. Ameaçaram de greve. Veiu pau em cima. Mas sabe qual'foi o augmento que deram? cinco tostões por dia. Agora a diária é de sete mil e quinhentos, seccos. E cabeça baixa, senão chilindró, cano de borracha, fome. Não, seu doutor, não ha mais possibilidade de se fazer uma revolução com a massa operaria. Aquelles que estão nos trabalhos do governo, a gente da Central por exemplo, esta anda murcha e só trata de conseguir augmento por meio de bajulação. Hoje tudo é empregado publico e cuidando de aposentadoria. O senso jurídico de Manuel revoltava-se com esta oppressão e esta corrupção, que destruíam o espirito das corporações, o syndicalismo tão útil ao equilíbrio social. Na sua convivência com Monteiro, deante do espectaculo da miséria dos trabalhadores, as suas reflexões iam modificando a sua ideologia liberal e burgueza. Tocava na ferida do organismo e exasperava-se. — Esta situação tem de acabar, ponderou elle. Este regimen de senzala, em que ha proprietários e feitores de um lado e do outro escravos, é uma infâmia. Estou convencido de que a única solução é a collaboração do trabalho e do capital em uma forma de cooperação. Ou melhor, a organização da cooperativa. 0 capitão cortou o discurso do estudante. — Isto fica para depois. Neste momento do que precisamos é de quebrar a machina da expoliação. — Vamos a isto, concluiu Monteiro. Olhe, aqui o Felismino está prompto a nos ajudar. Elle que é capataz da União dos estivadores, soffreu, apanhou, foi preso e quasi morto. O preto ficou ufano de ser uma victima da tyrannia. Augmentou ainda mais o vasto tronco, enfunado pela vaidade. , Pedro dirigiu-se ao official: — Elle tem elementos. É só você dizer o que elle deve fazer com a gente delle. O capitão não respondeu logo. Indagou ainda mais do ambiente político dos operários eficouconstrangido quando, pelas informações que obtinha, se ia certificando da apathia, do embotamento do sentimento cívico, da covardia das classes, que mais soffrem com a prepotência esmagadora dos ricos, alliados aos governos corruptos e despoticos. Monteiro foi quem revelou a Felismino o plano de acção. O official deixou que elle falasse e se reservou. — Falando serio, Felismino. Nós pretendemos dar um assalto ao Cattete e prender aquelle miserável, que está como um covarde escondido lá dentro e ordenando todo este horror de crimes e ladroeiras. Como a tropa não se move e fica vergonhosamente consentindo em toda esta torpeza, não ha remédio senão agirmos nós mesmos. Somos um pequeno grupo decidido a tudo. Tu não viste o que foi o assalto do terceiro regimento? Pois bem. Falhou daquella vez. Nós vamos repetir o ataque. Precisamos de ti e dos teus homens para nos ajudar na rua junto do palácio, em quanto nós fazemos o serviço. — E a guarda, seu doutor? murmurou Felismino para o official. — Naturalmente, continuou Monteiro, nós faremos isto quando a guarda for nossa. Por isso não ha dia marcado. Vocês estejam de sobreaviso para o primeiro chamado. O negro tirou o chapéo, coçou-se todo. — Homem, seu Raymundo. Não vejo furo neste plano. Vocês estão sonhando. Bem se vê que é imaginação de rapaziada. O palácio está cheio de dynamite e dizem que as grades têm carga electrica. É só abrir o commutadofij e lá vae tudo carbonizado. E nós que ficamos na rua estamos fritos. Vem logo a policia, tropa de linha, bom-, beiros, que sei eu... — Que diabo, estás desanimado, rapaz? Tu que promettes tanto te vingar, interpellou-o, irritado, Pedro. O official sorriu desconsolado e olhou firme para os amigos. O negro, atrapalhado, suava abundantemente. Resfolegando falava com a bocca secca. — Não seria melhor esperar o bicho em uma tocaia? — Mas como, se elle não se arrisca a por o bico de fora? interrompeu impaciente Monteiro. O negro entendeu gracejar: — Mas se elle é passarinho, um dia ha de querer voar. Então ahi, pan! Tiro certeiro. — Deixa de tapeação, Felismino, disse vivamente Pedro. Tu estás é com medo. É natural, neste lombo, neste toucinho, cano de borracha já trabalhou. Já te disse que não queremos assassinato. Queremos revolução collectiva, popular e militar. O que for, mas revolução. O capitão sorriu mais enygmatico. Para elle, o negro, na sua covardia, estava vendo claro. Não havia solução senão eliminar o presidente. Mas elle era talvez o único entre os revolucionários a pensar assim. O official disse baixo a Pedro que se fossem embora, pois estavam perdendo tempo e em voz alta propoz que se separassem, porque a zona era perigosa e aquelle encontro estava muito prolongado. Monteiro explicou que tinham vindo alli, porque era na proximidade do refugio do official e o campo em que elle operava, na visinhança dos quartéis. Seria mais fácil para elle, tão procurado pela policia, mover-se sem maior difficuldade. Toca a separar, concluiu. O official abraçou os camaradas, deu vagamente a mão ao preto Felismino, que estava matutando. — Felismino, disse-lhe Pedro, um destes dias eu te procurarei. Conto comtigo. Olha lá, não me envergonhes. E partiu com o official. Os outros três vieram vindo na direcção do Mangue. Apezar dos omnibus, dos autos, dos bondes, havia uma grande solidão no immenso amphitheatro, que o triste canal corta por entre os renques das espichadas palmeiras meditabundas. Os casebres escuros das largas ruas parallelas tornavam mais altos os morros sangrentos. A pedreira leprosa afugentava da sua peste as casas e as officinas e expunha-se núa e dolorosa. Do outro lado, a vegetação subia da planície para as montanhas, indifferente e fresca, e, sob a claridade nocturna, o bafo indeciso da terra. Os três foram encontrando a população noctivaga fustigada pela lascivia. Mulheres de todas as raças, de todas as cores e edades desfilavam na aspereza do ganho. Os homens tinham sobre ellas a superioridade do desejo. Elles estacionavam aos magotes nos cantos das ruas, onde se enfileiravam as casinhas que eram os alcouces. Monteiro e Manuel absortos, passavam indifferentes, mas Felismino ia cobiçando assanhado aquellas marafonas rubicundas e desdenhando as negras pintadas de vermelho, que eram apanhadas pelos europeus. Nessa promiscuidade não se fecundavam as raças. Era apenas a permuta bestial dos instinctos e da curiosidade. Felismino bem queria permanecer naquella malandragem frasearia, que o divertia' assombrosamente. Os companheiros não se detinham e o negro não teve remédio senão proseguir com elles. Depoii do Mangue, a praça Onze agasalhava os pares, que se mettiam voluptuosos nas sombras das arvores do j ardia, emquanto, sobre o espaço arborizado, cahiam as luzes e as musicas dos orpheões lusitanos e os sambas dos clubs, onde a negrada lasciva dansava frenética. Felismino ahi entendeu que não devia proseguir. O seu instineto caçador estava muito excitado para permittir-lhe a liberdade de ser político e de se oecupar com as cousas remotas e abstractas, em que se exaltavam os companheiros. Pretextou que lhe parecia ter visto um secreta, que os seguia. Achava melhor elle dar o fora, aconselhando a Monteiro que fosse sósinho. Antes de sumir-se, o negro voltou-se para recommendar que Pedro não o procurasse por causa da gente do cáes do porto e que, na quarta-feira á tarde, ás três horas, elle viria ao seu encontro, na praia do Russelbj para assentar tudo. Monteiro e Manuel, quando caminhavam pela rua Senador Eusebio, iam disfarçando os seus pensamentos íntimos com a notação dos pequenos factos exteriores, que lhes passavam pelos olhos. A onda oriental vasara alli nas lojas de portas meio fechadas, nos cafés vagabundos, nos restaurants inverosimeis, as tribus syrias, os equivoco» judeus russos e os immemoriaes chinezes. Eram os tentáculos mongolicos e semitas, que vinham se alongando para o extremo Occidente. E, no meio de tudo, os infalliveis portuguezes, que mantêm a característica lusitana na cidade carioca e infatigaveis procriam mulatos, que se arrogam em legítimos e únicos brasileiros. Foi um descanço, quando receberam a aura verde do Campo de SanfAnna. Com ella, que frescura e que mansidão. Não entraram no parque já fechado, mas aspiravam de fora o bom cheiro daquelle interior, onde passeavam tranquillas as cutias, sorriam os quatipurús e dormitavam os cysnes e os flaminios. A caminhada ia longa. Manuel, desconfiado com a observação de Felismino de que estavam sendo seguidos, e receando por Monteiro, que era um foragido, insistiu em que tomassem um taxi. Dentro do carro trocavam, em voz muito baixa e com disfarce, algumas impressões sobre a lealdade do negro estivador. Não tinham opinião segura. Perceberam as desconfianças do capitão, mas a tactica de Monteiro era sempre experimentar tudo e todos, contando com o imprevisto. Foi esta tactica que o fez progredir e que o perdeu. Valia a pena tentar a experiência com Felismino. Os cinemas da rua Larga estavam se fechando, quando elles passaram. A debandada das gentes enchia as calçadas já apagadas. Na Avenida um vento sul, forte e frio, os recebeu hostilmente. Atravessaram por elle para a terra da alegria e da vadiação luminosa. O vasio era grande, a cidade crescera para dormir. O somno, que sempre era acalentado por um resfolegar rythmado e sussurante das águas, naquella noite estava atormentado pelo desencadeamento tumultuoso do mar. Monteiro e Manuel desceram do taxi ao chegar á Gloria e ficaram absortos, sem nenhum pensamento, tomados totalmente pela violência, que, na sua grandeza, os maravilhava. Os olhos viam as ondas avançando de longe, impetuosas e rápidas. Montavam umas sobre as outras, avolumando-se para a invasão. Cantavam, assobiavam, urravam e arremessavam-se indomáveis sobre as paredes, que eram os muros da defesa da terra. Cresciam sobre o cáes, empinavam-se fogosas, esguichavam.jactos luminosos, atrevidos, e cahiam estrebuchando convulsas, sobre as calçadas e espraiavam-se no macadam. Subiam alto para a escalada. Sobre essas águas entumecidas e agitadas alargava-se a escuridão de um céo de lua nova. A luz, que banhava a amplidão, vinha de baixo para o alto, nascia e espalhava-se das ondas em furor. Os repuxos sobre o cáes recebiam a illuminação dos reverberos e transmudavam-se em jorros de crystal, diamantes, saphiras e esmeraldas. Monteiro e Manuel foram abeirando o parque do Russell abandonando, como os autos, os omnibus e os caminhantes, a avenida á invasão da bahia. Tomaram a ladeira do hotel Gloria, perseguidos pelos estampidos dos vagalhões. De cima, ainda olharam a resaca. Depois afundaram-se na sombra da ruasinha abafada entre casas e muros e que não via nada. Conversaram sobre a conspiração, que era o tumulto dos seus espíritos. Madrugadeira, a velha Andreza, tremendo de frio, procurou na cosinha aquecimento e café. Accendeu o cachimbo de taquara e quando veiu pitar á janella, deu um berro surdo. — Nossa Senhora dos Navegantes, o mar... o mar... Dia de juizo! Perdoae... perdoae... Andreza correu espavorida para o quarto de Ritinha. Abriu a porta com estrepito. Ajoelhou-se no meio da casa e poz-se a declamar o seu pavor. Ritinha despertou assustada e não comprehendeu. Pulou da cama e sacudiu a negra velha. Com difficuldade poude perceber que se tratava de qualquer cousa na bahia. Imaginou naufrágios,;,' explosões de vapores. Não pensou em resaca, que nunca vira. A curiosidade moveu-a e, apezar da resistência de Andreza, vestiu-se e voou para a janella da sala de jantar. Os seus olhos paralyzaram-se de estupor. A bocca cerrouse, abafando ainda mais a garganta secca. Sobre todo o corpo, o tremor do espanto e do medo. As vagas, por entre assobios dos ventos enfurecidos, subiam, arrebentavam, extravasavam na vastidão das praias. O peito de Ritinha arfava violento, o coração desordenava-se, os olhos dilatavam-se para se embeber nas immensas águas revoltadas. Neste êxtase, a encontrou Vieira, que o estampido da resaca despertara. Ritinha agarrou-se ao seu braço e Vieira percebeu-lhe o medo. Sorriu superiormente e tranqüilizou a sobrinha: — Nada de medo. Isto é matutismo. E depois saiba que o Espirito fluctua sobre as águas... — Para mim, disse Ritinha acalmando-se, isto é uma pororoca damnada. — Qual, menina. Não fale em pororoca deante de uma resaca destas. É cousa muito differente. Você viu pororoca do Mearim, cousa á toa. Eu, que vi no Amazonas, sei avaliar e comparar. Os rapazes appareceram enthusiasmados. Entre elles e a resaca, a secreta affinidade da violência e da revolta. D. Calií também veiu e poz-se a exclamar o seu espanto e as suas preces de misericórdia. Aracy surgiu de roupão verde, os seus cabellos ruivos, desordenados, desprendiam os reflexos luminosos, faiscantes, que o sol nascente fazia germinar. A loucura maritima exaltou-lhe a alegria. Gritava, vociferava, dansava, absorvendo com todos os sentidos, o estrondo, o cheiro, o impeto e a luz das vagas em furor, na intimidade profunda, ancestral, como uma gaivota na crista das ondas. Na promiscuidade dos roupões e pyjamas commentavam o espectaculo: Lá cahiu um pedaço do cáes. A água invade a avenida. Oi! Oi! onda tremenda, uns vinte metros. Coitadas das arvores, vae tudo morrer. Nossa Senhora dos Navegantes, misericórdia. O vapor vae ser engulido. Meus Deus! A Lage desappareceu, as ondas lavam-lhe o casco. Lá vae a onda atraz delles, corre, corre, qual, apanhados! Tomaram banho. Que pagode! Vamos lá embaixo? Loucura. Daqui se vê tão bem. — Mas lá é que é gostoso, concluiu Aracy. Estou com vontade louca de me vestir de roupa de banho e receber a onda. — Deixa de bobice, Aracy, ralhou D. Calú. Fica socegada. Só tenho pena de Jujú não querer sahir do quarto.

Contei a resaca a elle, nem cousa. Caladinho, tristesinho, sem forças para nada. Só Vieira prestou attenção a esta tristeza. Tossiu e escarrou. Os olhos ficaram vermelhos. Os outros continuaram a gosar a resaca. Ritinha entrava na alegria. De pés no chão, com as pernas escuras e cabelludas, em maillot, os braços nús, muito músculo e carne dura, o Léo entrou aos berros, alvoroçado e invasor. Aracy ficou deslumbrada e possuída. — Vamos, Aracy. Lá embaixo é que é belleza. De longe é bobagem. Aracy assanhou-se para ir perto do mar. O pae ainda protestou, mas, quando a filha o abraçou pedindo, fraqueou e cedeu. D. Calú apenas queria que não fosse sósinha com Léo. Este affirmou que a irmã era da banda. Aracy disparou para vestir-se. Não demorou em apparecer. Veiu de roupa de banho, cobrindo-se com um roupão felpudo escarlate. Os irmãos achavam uma estupidez bancar o banho de mar na avenida. Ella deu um muxoxo de desdém e apressava-se para partir, quando a curiosidade de Ritinha a deteve. — Deixa ver a tua roupa, meu bem. Deves estar o sueco. Aracy tirou o roupão e mostrou-se. Presos pela touca verde os cabellos apontavam mechas douradas, que dansa vam sobre a testa e no pescoço. O maillot também verde apertava o busto e a cintura, deixando em liberdade um collo farto, uns braços roliços, umas coxas carnudas, tudo branco, roseo e azulado. Ritinha corou e não quiz olhar mais. No Rosário, do Maranhão, as moças banhavam-se nuas nos riachos, nas fontes, nos córregos das fazendas. Era uma frescura primitiva na água pura e no segredo da matta. Aracy fez uma pirueta, embrulhou-se no roupão encarnado e correu para a rua, seguida do Léo. Á porta da casa Zilda os esperava. Veiu de roupão amarello, touca azul e maillot vermelho. Esta mocidade colorida desceu correndo, em risadas, a ladeira. A violência, o arrojo do mar os fascinou. Avançaram para o cáes e, já á beira do largo do Russell, a água espumando banhava-lhes os pés. Toda a avenida estava alagada. Os autos passavam voando, espadanando a água sempre crescente. De longe, cavalgando umas sobre as outras, empurradas pelos ventos frementes, as ondas, numa correria impetuosa, arremessavam-se sobre o parapeito do cáes. Em todo o semi-circulo da immensa praia, esguichavam milhares de columnas altivas, furiosas, elevadas a vinte metros, atravessadas pelo sol. Era a suprema alegria da água. Na sua loucura arrebentava as muralhas e sacudia longe as pesadas lages de cantaria. Pelas brechas, entrava na cidade, arrombava as paredes das casas, inundava as ruas. Os espectadores festejavam a maravilhosa invasão e disparavam a fugir. Outros vagalhões vinham sobre elles e derrubavam os que enfrentavam a indomável fúria liquida. Na avenida e nas ruas transformadas em canaes, appareceram os yoles e os canoes do Flamengo e num delles, o Léo, a irmã e Aracy brincavam com os remos e com as varas, vogando em uma risonha imaginação aquática. Depois do almoço, Ritinha também quiz ir até a praia. A resaca augmentara e a attrahia. Manuel propoz-se a acompanhal-a. Raymundo não se podia apresentar alli no meio de tanta gente e por um dia tão vivo. Pedro ficou acompanhando-o. Antes de descer á beira-mar, Ritinha pensou em Thereza. Desejava a sua companhia incomparavel. No impeto da sympathia,. a matuta não teve pejo de procurar Thereza. Foi rápida e leve, que atravessou a rua, e entrando mansinha pelo portão, subiu a escada, que levava perto do mirante. O silencio estava cheio do ronco do mar revoltado e do ronco de Radagasio, estirado em uma cadeira preguiçosa, de costas para a bahia, a cara tumida, negra, as mãos sobre o tronco, que arfava, em estertor. Sobre as pernas, o Jornal dos Economistas. Thereza viu logo Ritinha e fez-lhe signal para que não falasse.

A matuta elevou-se muito subtil por entre as plantas e devagarinho chegou até Thereza. Os seus olhos estacaram sobre o somno rumuroso de Radagasio, e, vendo o monstro apegou-se a Thereza com um medo desesperado de o despertar. Thereza, em um sorriso de desprezo e libertaçãoi-a socegou. Foi em voz muito baixa, que conversaram. Thereza recusou sahir da sua solidão para divertir-se na praia. Ritinha ficou desconsolada, mas, presa ao encanto daquella mulher e daquelle repouso, esqueceu o mar e a sua fúria. De longe, do alto, a resaca tinha a abstracta transfigu-j ração cinematographica. Thereza não communicava o seu espirito ao movimento das ondas allucinadas na desbragada orgia marítima. Pela manhã, ella estivera com Philippe na Quinta da BoaVista. Impregnara-se da magia do amor na doçura verde. Era domingo e Philippe, que já não acompanhava a mãe a São Bento, passava essas manhãs com Thereza, impossibilitada pela permanência de Radagasio e pela restricção domingueira de encontrar-se com elle durante o dia. Debaixo das arvores do parque quasi deserto e abandonado pela gente conhecida, elles afundavam-se na volúpia, que os envolvia e os narcotizava com os venenos impondera-; veis e violentos. Desse torpor gostoso era tão difficil sahir. Era preciso que o sol viesse forte, ardente, para precipitar a combustão das arvores, dos perfumes e da terra e os queimasse, arrancando-os do magnetismo vegetal. Durante dois dias o pagode da resaca distrahiu a cidade de beira-mar. Na tarde de terça-feira as ondas foram abrandando. O que foi alegria e estupor passou a ser lamúrias sobre as destruições, cálculos dos prejuízos,, ódio do mar. Na quarta-feira ás duas horas, Pedro desceu ao parque do Russell para esperar Felismino. Em cima, na janella, Raymundo Monteiro acompanhava a scena. O parque estava socegado, quando Pedro chegou. Em alguns bancos, criadas vigiavam meninos a brincar e outros a dormir nos seus carrinhos. Dos restos da resaca A VIAGEM MARAVILHOSA. 199 vinham barulhos roufenhos. 0 mais era o ruido dos omnibus, dos autos e dos bondes, que davam rythmo ao silencio.0 tempo estava passando devagar para a impaciência de Pedro, quando afinal vê, ao longe, entrando pelo meio do parque, Felismino, volumoso e escuro. Monteiro observava que alguns homens vinham em sentido opposto ao negro, do lado da Gloria, e hesitavam em descer ao parque. Pedro não podia vel-os e a sua attenção era toda para Felismino. Monteiro via mais que, na avenida, outros homens surgiam, e, ao mesmo tempo, mais outros vinham pela calçada, abeirando as casas do Russell. O seu faro deu-lhe uma violenta inquietação. E que desespero angustioso de não poder avisar Pedro. Um grito não se ouviria. Os olhos de Monteiro viam Felismino chegar-se a Pedro, abraçal-o, falar-lhe sorrindo tão devotado, tão escravo. Os homens partiam de todos os lados na direcção delles. Eram dez. Aproximam-se. Gesticulam furiosos. Pedro dá um pulo para atraz. É contido. Felismino indifferente. Quatro homens empurram Pedro para a avenida em direcção a um automóvel. Felismino os acompanha. Seis homens olham para cima, para a casa de Pedro. Dois partem para a ladeira da Gloria e quatro para a ladeira do Russell. Monteiro arranca-se da janella. Grita por D. Calú. Avisa rápido, brutal, a prisão de Pedro. — Ah! minha Nossa Senhora! exclamou a devota revolucionaria. Aquelle negro miserável nos pagará. Monteiro toma o chapéo. D. Calú chora. Dá-lhe um beijo e vinte mil reis. Ritinha acóde. Dá a sua bolsa, onde havia cincoenta mil reis. Empurra Monteiro para a rua. Espia na porta. Ninguém. Ainda Monteiro dá-lhe papeis rasgados para queimar. É o plano do assalto ao Cattete. Num pulo, Monteiro atravessa a rua. Entra devagarinho no portão da casa de Thereza. Ritinha recolhe-se e corre para o fogão. Quando no jardim, Thereza viu Monteiro, pensou logo que uma desgraça acontecera a Philippe. Sem medo da negra, que pageava Lili e os olhava assombrada, Thereza gritou vindo offegante para Monteiro: — Onde está Philippe? Diga, diga... Monteiro teve um generoso sorriso, que acalmou a angustia apaixonada. Contou o que succedera a Pedro e a sua fuga precipitada para alli, que era o único refugio naquelle apertado momento. Thereza, alliviada por Philippe não estar em causa, examinou com liberdade a situação. Bravamente propoz a Monteiro refugial-o em sua própria casa. Debateram esta hypothese, que Monteiro não aceitou, porque comprehendia os aborrecimentos, que sobreviriam a Thereza. Ella, descuidada e enthusiasmada por prestar um auxilio aquelle companheiro do seu adorado, desmanchou todas as objecções. Falou com desprezo do marido e prometteu que faria tudo sem elle saber, apezar do seu infame systema de farejar e fiscalizar. Monteiro foi firme na sua resistência e pediu apenas que lhe desse passagem do morro da Gloria para o de Guaratiba. Thereza resignou-se a este insignificante auxilio, mas com que altivez poderia dizer a Philippe que estava prompta a servir á causa, que era delle e cuja fascinação ella tanto temia? — É preciso prevenir Philippe do que nos occorreu... pediu Monteiro. A primeira cousa a fazer é descobrir em que prisão metteram Pedro. Esses miseráveis a pretexto de interrogatório occultam os detidos, os suppliciam cruelmente. Infames. Philippe é o único, que tem prestigio para suster as torturas... Mas elle deve andar depressa. Thereza prometteu communicar-lhe tudo sem demora, naquella mesma tarde, e entrou em outras indagações. — Não ha duvida, explicou Monteiro. Fomos vendidos por aquelle negro. Bem o capitão desconfiou, mas nós, sempre soffregos por experimentar tudo e todos, nos entregamos... É uma sina. Terra desgraçada... — Mas não teme pela sua segurança? Que devo dizer a Philippe? perguntou Thereza. L.— Diga-lhe que desappareço por uns dias. Darei signal de vida, quando for possível. Receio pelo capitão e por Manuel. Penso que tudo está desmanchado. Paciência. Recomeçaremos... Esta resignação á tenacidade commoveu Thereza. Era uma força extranha na natureza enthusiasta e erradja de Raymundo Monteiro. — Ah! Se todos fossem da sua coragem e firmeza, que libertação! Eu também sou firme e tenaz. Já fui vacillante. Mudei. Acompanho este rythmo do caracter de Philippe e dos seus companheiros... Lili approximou-se da mãe, que a recolheu ao collo fazendo-a agradar Monteiro. O foragido alegrou-se com os mimos infantis e esforçou-se por conquistar as graças da criança. Não tardou que a tomasse nos braços e se puzesse a correr com ella pelo jardim. Lili estava deslumbrada. Nunca sentira tanto impulso, tanto enthusiasmo, nos que a carregavam nos hombros. Ella deleitava-se, derreada no pescoço de Monteiro, ria em gargalhadas de perder o fôlego. As pernadas de Monteiro eram gigantescas e a menina imaginava-se em um cavallo maravilhoso. Thereza acompanhava o prazer da filha e de pé estimulava aos gritos a correria. A negra cinzenta arrebentava de raiva. O branco duro dos olhos raiava-se de sangue. Os resmungos da cólera não se ouviam por entre as risadas e o alarido, que contaminava os cães e as aves do gallinheiro. Durante longo tempo brincaram esquecidos, até que a negra enfurecida reclamou em gritos a menina, para deital-a. A hora da sesta de Lili estava atrazada. Thereza tirou-a do pescoço de Monteiro. A criança estava quente e alagada. Thereza quiz esconder da negra este excesso e, contra os hábitos, ella mesmo levou a filha para dentro. A negra, batendo pesada os sapatos, seguiu atraz e, quando ia entrando em casa, voltou-se para o lado de Monteiro, praguejou, fez uma cruz com os dedos, beijou-a rudemente e com uma jura de vingança cuspiu na terra, que esfregou com os pés. Monteiro nada viu. Scismava em frente ao mar.

Quando Thereza voltou, elle disse que ia partir. Ella sentiu um aperto no coração. Era o desconhecido, o perigo para o joven destemido, que renunciava ao abrigo seguro. Desespero de não poder guardal-o alli livre de todo o mal. Aquelles instantes de fraternidade na luta contra a oppressão lhes deram ao espirito e ao sentimento uma amplidão bemfaseja, em que se libravam acima de todas as misérias. Apiedou-se de Monteiro. Inquietou-se sobre as privações, que elle ia passar. Correu á casa, emquanto elle a esperou, commovido por aquella avassaladora generosidade. Thereza appareceu carregada de embrulhos de doces, frutas, presunto e pão. -— Está. Ao menos passará a noite hoje sem fome. Como ha de ser amanhã?... Olhe, desculpe. Tome isto para os primeiros dias. Muito rubra, af ogueada, sem fitar Monteiro, apresentoulhe uma carteira. O foragido estremeceu. Ficou triste. Thereza abaixou o braço dadivoso e ficou triste. — Não, não faça isto, supplicou Monteiro, Não posso aceitar, a senhora já fez demais. Perdoe, mas não é possível. Tenho muito dinheiro commigo. D. Calú e Ritinha deramme bastante. Thereza recolheu a carteira. Ficou pensativa. Monteiro não aceitava dinheiro delia e aceitava das outras. Elle marcava a separação que, mesmo no infortúnio e na communhão das idéas, impede a inteira fraternidade. Comprehendeu que era um bem para a sua libertação integral e que ella devia proceder fortemente, mas sempre emancipada de todo o sentimentalismo. Acompanhou Monteiro até o portão dos fundos, que dava para o morro de Guaratiba. Fez-lhe mil recommendações de prudência," prometteu-lhe ver Philippe naquella mesma tarde e foi com alegria e muito livres que se despediram. Logo que deixou de ver Monteiro, Thereza fechou o portão e mandou preparar a sua barata. Poucos minutos depois ella estava á porta dos Vieiras. Nas duas esquinas postavam-se homens, que espiavam os movimentos da rua. Thereza não ligou e entrou firme na casa amiga. Quando D. Calú a viu, foi uma choradeira. Aquella mulher, que tanto esbravejava, cahiu em pfostação, desde que a desgraça a attingiu. Thereza consolou-a, um pouco enfastiada. Ella queria factos e não lamúrias. Ritinha foi que a esclareceu. Os secretas vieram, deram uma busca na casa, á procura de papeis e sobretudo de Raymundo Monteiro, que sabiam estar refugiado alli. Desesperados de nada'encontrar, fizeram mil ameaças contra todos, que seriam chamados á policia e Aristides Vieira castigado por ser revoltoso, sendo empregado publico. E que Pedro, que estava nas unhas delles, havia de pagar por todos. Agora estavam vigiando a rua. — A senhora está se expondo muito, supplicou D. Calú, entre lagrimas. Não faça isto, que pode lhe vir mal. — Que importa? O que está feito, está feito, af firmou resoluta Thereza. Faço o que Philippe desejaria que eu fizesse, concluiu sem temor de expor francamente o seu coração. Contou-lhes a passagem de Monteiro, pela sua casa, os momentos quasi alegres e descuidados, que tiveram, e a promessa que fizera de communicar tudo a Philippe, naquella mesma tarde. — Vamos, Ritinha. Venha commigo ao escriptorio de Philippe e se elle não estiver iremos á casa delle. Arranjese e vamos... — E eu? Fico só? gemeu D. Calú. Nem mesmo Aracy está em casa. Parece um castigo. E Manuel? Ah! procurem por elle também, que não venha para a casa. Ah! eu fico ' floida. Jujú está na espinha. Não tem mais força para se levantar. Parece maluco, coitadinho. E agora mais esta calamidade. — Coragem, D. Calú. Tudo isto passará. Hão de dar cabo deste governo, replicou sem convicção Thereza. — A senhora acha? Qual o que. Elles são muito fortes, compram todo o mundo. Têm dinheiro a bessa. O melhor é a gente abaixar a cabeça e não se metter contra. Não vale a pena. Os que têm coragem e brio soffrem, emquanto os outros lucram... Ah! meu Pedro, meu filhinhol... 0 que estará padecendo? A covardia maternal exasperava Thereza. E foi um allivio, quando Ritinha veiu á sala, vestida com o seu melhor vestido. Thereza apreciou esta liberdade de espirito, que mantinha a faceirice feminina. Deixaram, apressadas, D. Calú. Ao chegarem á rua, um secreta examinava o automóvel. O olhar soberano de Thereza intimidou o pardavasco, que se afastou quasi se desculpando. — Canalhas! disse alto, e exasperada pulou para o volante. Ritinha, contagiada por este desabafo violento, sentou-se ao seu lado e bateu com estrondo a porta do carro. Thereza atirou o automóvel com toda a velocidade em cima dos secretas, que recuaram atordoados. Na Avenida, á porta do escriptorio de Philippe, ella fechou o carro e tomou o elevador. Era a primeira vez que alli entrava, mas instinctivamente tudo lhe pareceu habitual. Quando lhe informaram que Philippe estava só, foi com toda a autoridade, que penetrou no seu retiro. Elle escrevia, mas a sua attenção estava sempre alerta ao mundo exterior. O menor ruido interessava os seus sentidos. Não foi espanto, mas uma ineffavel satisfação que o arrebatou, ao ver Thereza na sua frente. Levantou-se vibrante para recebel-a nos braços e cobril-a de beijos. Ella defendeuse muito subtilmente, fazendo Ritinha mostrar-se. Foi então que Philippe extranhou a apparição de Thereza. Sem demora, com uma vibração, que lhe üluminava os olhos, purpureava o rosto trigueiro e agitava-lhe as mãosinhas enluvadas, Thereza narrou tudo. Philippe, ainda embevecido na admiração, acompanhava mais o rosto, as expressões, o som da voz, o magnetismo do olhar da narradora, do que o próprio assumpto narrado. A intervenção de Ritinha, que accentuou pormenores anteriores aos que se deram com Monteiro, foi obrigando Philippe a prestar attenção ao caso, que angustiava a todos. Repetiram-lhe tudo. Quando Thereza lhe contou-mais minuciosamente todos os detalhes da passagem de Monteiro, Philippe ficou pensativo. Viu Thereza e Monteiro na grande expontaneidade dos sentimentos, na súbita intimidade, que a dôr e a sympathia criam. Imaginou o deslumbramento de Monteiro pela sua Thereza generosa, ardente, enthusiasta. Na sua secreta irritação, o grande desalento, o Ímpeto de deixar tudo, de se evadir, porque tudo era torpe e immundo. Não queria olhar Thereza, que recebera a admiração de um homem em um momento de exaltação e de fraternidade. No extranho silencio, o delírio intimo do ciúme separava Philippe de Thereza, que se viu desamparada e não comprehendia a súbita attitude rancorosa do seu adorado. O instincto velava. Muito de manso a mulher falava ao homem, ostentando um livre desinteresse por tudo o que a commovera e a fizera procurar Philippe. Á principio elle quiz repellil-a, expulsal-a com injurias, mas a doçura da voz, o desprendimento manifestado o foram equilibrando e foi sorrindo que, por sua vez, Philippe se libertou da fúria do ciúme e se poz em profunda harmonia com Thereza. — Vamos já á policia, propoz elle, apertando a mão de Thereza, que suspirou alliviada do pesadelo obscuro e indeciffravel, que a atormentava. Ritinha alegrou-se, sem saber também porque. Quando chegaram á policia, Philippe deixou-as no automóvel e subiu. A rua estava cheia de carros parados. Outros entravam e sahiam do interior do edifício. Thereza ia commentando com Ritinha estes movimentos imaginados por ella como execuções de ordens tenebrosas dos tyrannos do estado de sitio. Os ciganos, que estacionavam nas portas, os negros benguelas, os soldados cafusos, os advogados, os syrios, os portuguezes, os italianos, todos lhes pareciam sicarios, malfeitores, secretas, ladrões acompanhados das rubras polacas excessivas, das negras desbragadas, suas comparsas na crápula e nos crimes. Thereza e Ritinha sentiram o nojo tremendo e a vergonha revoltada. Philippe. demorou muito a vir e o desesperado martyrio, que soffreram, as anniquilava. Veiu. As informações eram escassas. Com muito custo descobriu que Pedro estava incommunicavel e naquelle momento o interrogavam. Felismino, que delatara, tinha apanhado uma surra e ficara preso. — Bem feito, bravo! gritou Thereza applaudindo generosamente os algozes. Philippe resolveu que ellas voltassem para a casa. Era tarde, oito horas passadas. Elle esperaria pelo fim do interrogatório de Pedro e mais tarde levaria noticias á casa de Vieira, onde Thereza o encontraria. Thereza apiedou-se-" da dedicação de Philippe e, temendo pela sua saúde, pediulhe muito que jantasse e se agasalhasse, pois a noite estava humida. No caminho, Ritinha procurou tagarelar falando dos horrores, que viram e que souberam. Thereza não deu trela. Estava absorvida em Philippe e pensava com angustia nas horas, que elle passaria naquella infecta policia, na fome que teria, no frio que iria apanhar e admirava em êxtase a bondade, a energia, a autoridade do seu idolo. 0 amor exagera. Thereza deixou Ritinha em casa e entrou no seu portão vagarosamente, desanimada. Poz o automóvel em marcha para cima. Aquello socego do cheiroso parque adormecido a confrangeu. O seu impulso era voltar e esperar Philippe,-, na ignóbil porta da policia. Quando lhe appareceu a casa, viu Radagasio no alpendre, sob o foco de luz. O homem estava hirto, negro, pavoroso. Thereza abandonou o automóvel e o affrontou. — Deixe de cara amarrada... Vim tarde hoje, porque tive de ver uma amiga doente. Não pude abandonal-a, antes do medico chegar...

Esta mentira exasperou o homem. Riu sarcástico, batendo com as bochechas, com os dentes, fungando desesperado. Quando Thereza ia passando para dentro, julgando-se livre e dominadora, Radagasio agarrou-a pelos braços e berrando: — Mentirosa, safada, traidora. Thereza torceu-se energicamente para se livrar das mãos, que a apertavam com raiva. — Larga, miserável. Tu és um infame que eu odeio e desprezo. Canalha! E cuspiu-lhe na cara. Radagasio empurrou-a contra a parede, esbordoou-a com furor. Na luta o chapéo de Thereza cahiu, o vestido se rasgara. Os criados accudiram. Deante delles, Radagasio largou Thereza e procurou disfarçar: — Não foi nada. Uma discussãosinha á toa... Vamos jantar. Os criados sahiram resmungando, unidos no ódio contra o homem estúpido, violento e falso. A negra não appareceu. Thereza recolheu-se ao seu quarto, humilhada e desesperada por uma vingança, que destruísse o monstro odioso. Como prevenir Philippe? Philippe! Sempre longe, quando ella precisava do seu apoio constante, da sua protecção, das suas caricias, que apagariam todas as máculas, todas as infâmias. Fora obrigada a mentir. Covardia eterna. Escravidão. Nada a humilhava mais do que a mentira, com que se desculpara. Quando a libertação, que lhe daria a coragem para tudo, a harmonia do seu ser com a verdade? Atirou-se na cama em soluços, mordendo de raiva o travesseiro, batendo-se ainda mais, como se merecesse ser ainda mais flagellada pela sua covardia de permanecer alli, naquelle covil, com aquella fera miserável, idiota, nojenta. Não foi jantar. A criada veiu devagar, como se entra em quarto de moribundo, espial-a. Percebendo que não estava dormindo, offereceu-lhe com muito carinho qualquer alimento. Thereza recusou. Pediu-lhe que a ajudasse a tirar o vestido estraçalhado. E foi compassiva que a criada examinava o lindo collo de Thereza com as marcas roxas dos dedos de Radagasio. O rosto escapara á fúria destruidora da belleza. Radagasio jantou só. Procurou mostrar-se calmo deante dos criados. Ficou soturno e mais negro. Depois do jantar veiu ao terraço e caminhou para baixo e para cima, desesperado. Falava só, descompondo Thereza, Philippe e os amigos deste. Jurava vinganças estrondosas. E o seu desespero era não poder falar com Thereza, desabafar aquella cólera. Precisava da mulher para a expansão do ódio e da inveja, que o suffocavam. Não se conteve e foi ao quarto de Thereza. Ella, quando o viu, ergueu-se da poltrona em que se enterrava e o expulsou com violência. — Vim para conversarmos, explicou o marido. Gosto sempre de conversar. Isto da gente brigar sem falar é um inferno. Thereza sentou-se e virou-lhe as costas. Elle de pé vociferava: — Você é muito atrevida. Ha muito que a sua existência me desespera. Você mudou em tudo. Ah! não confessa... Mas também não nega. Olhe, eu estou espiando a sua vida e a delle. Se eu descobrir qualquer cousa, eu os mato... O meu prazer é picar vocês com um punhal. Ou liquidar tudo com um tiro. Olhe, não pense que estou dormindo. Ha tempos que estou fazendo esgrima e praticando tiro de revolver e pistola, porque no tiro de espingarda sou forte. Bom caçador não erra caça... O silencio rancoroso de Thereza exasperava a cólera de Radagasio. O que elle promettera a si mesmo nunca dizer á mulher, porque era a grande arma contra ella, e que seria para a occasião decisiva, no desespero daquelle desprezo, elle desabafou: — Sua canalha, cuida que eu não sei tudo o que se passa aqui na minha ausência. Burra, cabeça de estéreo. Então eu não sei que você, sua ordinária, está mettida em conspirações? A Balbina me contou tudo. Quem é este cafageste, que esteve aqui, fugido da policia e que você deu escapula pelo morro de Guaratiba? Fale, responda. Você está me compromettendo horrivelmente. Eu, um legalista decidido, a receber em minha casa, um bandido revoltoso, um ladrão mashorqueiro, porque, sim, todos estes revolu•cionarios não passam de larápios, assassinos, deshonradores de mulheres casadas... Corja infame... O governo deve surrar todos elles e queimal-os. Responda. Como se chama o tal canalha? Olhe, eu, para me ver livre de qualquer, responsabilidade, vou denuncial-a á policia... Radagasio esperou o effeito desta ameaça. Thereza não respondeu. Continuou na mesma postura de ódio e silencio. Apenas, depois destas revelações, o seu coração batia mais violento, o seu corpo queimava de raiva. A negra Balbina pagaria tudo antes da sua libertação desse torpe Radagasio. As ameaças continuavam inúteis. Radagasio voltou ao jardim. Gritou por Balbina, que dormitava no quarto de Lili. A negra acordou assustada e veiu tremendo. — Ah! Nhonhô. Vosmecê faz logo um barulhão com tudo o que a gente conta. Se eu soubesse, tinha visto e ouvido calada. Bocca para que falaste. — Você fez bem. Você é a única pessoa, que me estima neste mundo, disse humilde Radagasio. Vamos, conte tudo de novo. A negra tranquillizou-se e repetiu o que vira. — Mas como é o typo?... Não ouviu de D. Thereza o nome delle? — Ah! não, meu branco. Ella não disse o nome. Repito a vosmecê que era um sujeito claro, magro, espichado, de um nariz que, valha-me São Francisco... Falavam, falavam. D. Thereza, a principio estava triste, aborrecida com a prisão do filho da visinha. Depois esqueceram tudo, o sujeito brincou com Lili, como se fosse um innocente. E quando elle ia partir, D. Thereza encheu o homem de doces, frutas e lhe deu uma carteira com muito dinheiro... A viagem maravilhosa lê

— Ladra! vociferou Radagasio, sentando-se desanimado num banco. A negra pegou-lhe a cabeça, e começou a alizal-a. Com uma voz suave e sonora modulava-lhe na noite capitosa a sua melopéa: — Nhonhô está triste... Tem de quê. A mulher de Nhonhô está enganando a elle. A mulher é sempre traiçoeira. Esta não estima Nhonhô. Tem vergonha e desprezo. do seu marido. Ah l eu reparo tudo. Quando ella fala com Nhonhô, é com cara fechada, má. Por detraz é um Deus nos acuda. Não tem vergonha de dizer que Nhonhô é estúpido, sovina, mau, um miserável, e repete sempre que casou sem amor, obrigada, e que Nhonhô é ladrão e só vive á custa do dinheiro delia. Uma pouca vergonha. Uma mulher que não respeita seu marido, um homem tão trabalhador, homem de sabedoria, um moço fidalgo que a minha mãe criou, tão bonitinho desde menino e que é um homem importante, cotuba... Radagasio ficou embevecido com a ternura, que o surprehendia e o acalmava. Pegou a mão rugosa de Balbina e a amimou. — Então gostas muito de teu Nhonhô, minha negra tão boa... — Sim, Nhonhô, eu tenho uma adoração por vosmecê desde pequena. Nhonhô não reparou como eu não largava Nhonhô? Eu comia Nhonhô com os olhos. Tinha tanta pena do que Nhonhô soffria nesta casa com aquella mulher ingrata. Ah! Maldita. Baixavam sobre Radagasio a meiguice e a quentura negra. O volume preto pesava sobre elle e das entranhas alvoroçadas vinha o fluido da concupiscencia. Radagasio passou o braço pela cintura de Balbina. A negra, derretida, afundou-se sobre elle e o farejou com as narinas assanhadas. Radagasio apertou com força. A negra arreganhou a bocca e lasciva, babosa, o mordeu nos beiços. Radagasio resfolegava, esfregando a cabeça nos peitos de Balbina:

— Minha nega, meu petisco preto, safada, gostosa... A negra deu um grito abafado e sumiu-se. Vira Thereza surgir no patamar da porta. Radagasio encolheu-se todo miúdo, apagando-se na sombra. Thereza desceu muito firme na direcção do mirante, envolta em um roupãç de seda côr de morango, que lhe fazia resaltar ainda mais a opulenta pretidão dos cabellos.

Philippe referira em casa de Vieira a situação de Pedro. Tinha sido interrogado. Não lhe quizeram dizer o seu depoimento. Continuava incommunicavel para ser acareado com Felismino e depois seria mandado para a Detenção. Não o tinham maltratado. Philippe chegara a tempo de o recommendar a um dos delegados seu conhecido. Felismino tinha levado uma surra e estava na geladeira. Fora o preço da sua delação. Manuel não apparecera. Seguramente tivera algum aviso. Vieira estava acabrunhado com medo do que lhe podia succeder. Já na repartição elle era muito suspeito. Agora justificariam pretextos para o perseguir e abrir a vaga muito cobiçada. Os miseráveis venciam. A tristeza da casa desconcertava Ritinha, que desejava voltar ao seu Rosário", tão socegado, ou ir para o Acre reunir-se ao noivo. Solidão, febres, tudo preferível aquella angustia neste Rio tão bonito e tão mau. Esperaram por Thereza inutilmente. Ritinha offereceu-se para ir saber a razão da sua ausência. Philippe presentia uma violência de Radagasio, furioso com a demora de Thereza naquella noite. Decidiu-se a ir elle mesmo saber o que se passara. Dispensou a intervenção de Ritinha e, recommendando calma, consolando-os com a esperança, partiu. Ia empurrando o portão da chácara de Therezar- quando Radagasio puxava este do lado de dentro. Ambos surprehenderam-se com o encontro. Radagasio acovardou-se e servilmente abriu o portão. — Oh! Que coincidência... pode entrar. Eu ia dar uma volta, a volta do chylo e da meditação. Andar para pensar, é a nossa devisa, dos peripateticos... Sinto muito não ficar na sua companhia. Mas o senhor não é de cerimonia. É de casa. Thereza está lá em cima á sua espera. Que diabo, não andei nada hoje. Veja o meu pedometro. Só três kilometros e eu me impuz na obrigação de andar dez por dia. Por isso, desculpe, vou cumprir o meu dever. É indispensável para a digestão. Quem tem boa digestão tem idéas claras. Mens sana in corpore sano. Suba. Thereza está no mirante á sua espera. Ella saberá entretel-o na minha ausência. A casa é sua... Deu uma gargalhada secca. Empurrou amistosamente Philippe para dentro, fechou o portão. Viu que Philippe subia. Proseguiu, tomando pela ladeira da Gloria. Apertou o passo. Debaixo de um lampeão verificou o pedometro. Qual, não tenho tempo de fazer os kilometros da obrigação. Não tem importância. Ninguém sabe. O aventureiro está subindo com toda a velocidade. Mas não é andarilho como eu. Ando mais que o judeu errante. Sabes quem foi Ashaverus?... Diabo, o vento está fresco e eu sahi sem sobretudo. Volto? Não. Ella está espantada com a chegada do sujeito... Elle agarra ella nos braços. Beijamse. Pouca vergonha. Toca a andar. Emquanto elle subiu dez irietros, eu andei quinhentos... Não pôde commigo.' Já estou aqui embaixo, agora pego a avenida. Elle pega a mão delia, aperta com força, ella conta tudo, deitada no hombro delle. Nina, nina, meu bem, o teu amor... Divertido. Mas quem fez tudo isto? Eu, Radagasio Vianna, o marido generoso, que não tem ciúme e abriu a porta para o amante de sua mulher e veiu andar, andar. Superioridade. Quem faria isto? Ninguém. Todos os maridos, uns canalhas ferozes e ciumentos, sem grandeza d'alma para proteger o amor. Sou um caso raro. Estou suando. É este vento frio. O meu sobretudo... Não volto para buscal-o. Não perturbemos o amor. Ella está damnada a falar mal de mim. Paciência. Não comprehende nada. Cabeça de estéreo... Na primeira oceasião explicarei tudo a Philippe. Ufa, um kilometro e meio. Toca a andar. A tffialçadinha é estreita e toda a gente me empurra. Se um taxi ou um omnibus me mata... Thereza, viuva, elles se casam. Evitemos desastres. Como está desmantelada esta avenida. Que prefeitura miserável... E eu defendo o governo, defendo tudo... É preferível estar do lado do cabo da faca... E metter a faca em Philippe e Thereza. Maravilhoso. O marido que se vinga, o defensor da honra do lar. O lar é a base da vida nacional. Vou contando os carecas até o fim da avenida. A Balbina está escutando para me contar tudo. Sou o chefe dos secretas. O governo me devia aproveitar. Vinte carecas. Vae depressa. Eu na policia, Philippe no cubículo, surra de cano de borracha, depois deportação para o Amazonas. Não devo andar contra o vento. Faz angina de peito. Prudência. A avenida está ficando deserta. Este povo dorme com as gallinhas. E os gallos não dormem... Estão tramgndo o diabo contra mim. Ella está enthusiasmada por Philippe. Sim senhor, o cabra é cynico, vem vel-a sem minha autorização. Deilhe uma lição. Fui eu mesmo que lhe abri o portão e o mandei para cima, para junto de sua Thereza. « Ah! meu Philippe, tu és bravo, não tens medo de Radagasio, que é uma fera valente e terrível, tu vieste socegar a minha afflicção... meu amor, minha vida. » Philippe responde: « Adivinhei que estavas soffrendo o martyrio deste miserável Radagasio, deste cretino, e corri para o teu lado. Não tenho medo! » « Viste o algoz? » « Sim, foi elle mesmo que me recebeu. Estava sorrindo, disse-me que tu me esperavas. Abriu o portão para eu entrar. Estava superior, um verdadeiro gentleman... » Duzentos carecas, ufa, cheguei á zona da Lapa, zona gostosa... Eu arrebento este pedometro de tanto andar... Se houvesse uma corrida de gente distincta para a marcha a pé, eu tomaria parte e, quem sabe, teria o primeiro logar. Seria uma sensação na cidade. Ficaria conhecido. Quem é aquelle? É o Radagasio, o celebre andarilho, que tirou o primeiro prêmio na corrida de homens importantes. E no banco, então? Todos me olhariam com respeito e mesmo com inveja. O presidente me felicitaria. « Sim senhor, meus parabéns, o senhor com os pés honra o banco. Vou referir ao governo o seu heroismo. » Oh! bruta raiva de Philippe... Não é minha culpa, Quanto beijo lá no alto! É um pagode. Miseráveis. Vocês me pagam. A minha vingança é pical-os bem devagar. E a carta anonyma? Não. Isto é indigno de um cavalheiro, que ganhou o primeiro prêmio de corrida a pé dos homens respeitáveis... Beijem-se, beijem-se, aproveitem, emquanto Radagasio é o marido. Oh! diabo! que caça extranha é aquella! Apertemos o passo... Não corre, meu bem, não corre... Oh! que crioula!... Isto é que é mulher... Pelo cheiro deve ser bahiana...

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