IX
IX
Galgavam pausadamente a ladeira, que, da praia do Russell, leva ao outeiro. Pouco a pouco cada passo em ascensão os separava do ruido, da. cidade e os introduzia no silencio. D. Isabel e Leonor voltavam-se incessantes para a bahia. Pesava sobre ellas a fascinação. Philippe alegrou-se quando em uma volta da ladeira desappareceu a paizagem impertinente e entraram na rua apertada entre muros e casas. Do portão da chácara de Thereza atravessaram o velho lagedo do pateo interior e subiram pela ladeira de pedra, bordada de pequenas palmeiras, extranhas e rudes na sua áspera sequidão. Vieram do Amazonas. As raizes, como duras tabocas, muitas dellas, em vez de se enterrarem, projectavam-se confusamente para o ar. Mais adeante três caminhos se offereceram para os transportar para cima. Ou á esquerda a rua larga e asphaltada, ou á direita a estrada de macadam de automóveis, ou em face, no centro, a escadaria estreita, longa, onde as pedras estão enfeitadas de limo variado e colorido. Subiram por ahi e de repente tudo se desafogou. Eis de novo a infallivel bahia, insistente, com as suas ilhas chammej antes, as suas montanhas, a sua barra, de bocca salivosa, por onde passa o oceano. Philippe desdenhava todo esse deslumbramento por Thereza, que os vira e descia para recebel-os. Os pés voavam pelos degráos a baixo, o corpo precipitava-se inclinado para cahir. As pernas finas e enérgicas se retesaram e Thereza, firme, estacou, abrindo mais o sorriso e alargando os grandes olhos alegres. Falavam, falavam e, subindo, Thereza se foi recolhendo em uma súbita angustia. Havia um excesso de felicidade, que a inquietava. Philippe viu a extranha pallidez, que lhe tornavam os lábios frios e violaceos e lhe transfigurava a pelle, que, ainda ha pouco, luzia como ouro e agora desfallecia nocturna. No terraço, emquanto a mãe e a irmã se abysmavam no panorama, Philippe pegou as mãos de Thereza. Geladas. Olhou-a perdidamente nos olhos cheios das lagrimas refreadas, que não caem e voltam ao coração. A voz ingênua de Leonor separou-os: — Que maravilha esta morada. É um sonho. Não me farto de olhar. Nunca vi uma cousa assim. Tudo tão alegre e tão grande. Se eu morasse aqui, passaria a vida mirando esta bahia. Olhe, mamãe, lá vae um vapor, e lá vêm dois, e quanta canoa! Alli está a egrejinha da Boa Viagem, que enfrenta o outeiro. São duas Nossas Senhoras, que se fitam. Isto vem de outros tempos. Tudo tão religioso em nossa terra primitiva. Louvado seja! — Deste logar mesmo, minha filha, os nossos antepassados combateram os huguenotes. Daqui, desta casa, elles bombardearam aquelle forte, Villegaignon, pois era o reducto da expedição franceza. Com certeza as muralhas, que sustentam esta casa e amparam o muro eram do baluarte dos portuguezes. Thereza, interpellada directamente por Leonor, disse rindo a sua ignorância. Achava que tudo isto eram lendas e anecdotas. Nada havia de certo na historia da cidade. — Ah! isto não, replicou D. Isabel, ha muita cousa certíssima. Então não se sabe que a cidade começou na Praia Vermelha? que houve combates aqui neste morro e na ilha, que se chamou depois do Governador? E que Estacio de Sá á frente dos portuguezes repelliu os francezes e seus aluados tamoyos e afinal foi ferido no logar, que é a rua de Paysandú? e morreu do ferimento e foi sepultado no Castello pelo seu tio Men? Oh! Estado de Sá, não é por ser da minha familia, mas fico desesperada de ver a profanação, que commetteram, arrancando-o do seu túmulo e derrubando o morro, que era o monumento sagrado da nossa historia. A cidade ficou mais feia. Em vez do morro, um terreno immundo. Neste paiz tudo é vandalismo. Que saudades do Castello, onde estava o marco da cidade e eu fazia a minha peregrinação ao túmulo do nosso antepassado, á hora das vésperas dos barbadinhos. — Ora, mamãe, acudiu vivamente Philippe. Quantas vezes o túmulo de Estacio mudou de logar? Sentimentalismo. O morro era inútil e uma extravagância dentro da cidade. A engenharia do homem moderno abriu espaços á cidade, que cresce e não podia ficar atrophiada nesse romantismo histórico... Ha mais ar e mais terra para os novos homens e nós veremos a maravilha, que será alli a construcção em marcha. Deixemo-nos de túmulos e frades. Leonor continuava a sua cantilena de exclamações e descobertas. Thereza, enlevada pelo enthusiasmo dos visitantes, mostrava-lhes o jardim, as suas arvores companheiras, o seu viveiro de pássaros cantadores e coloridos. Enfileirados nas gaiolas, debaixo das arvores, no caminho lateral que ia para o interior da chácara, araras, tucanos, cardeaes, um gallo da serra, do Amazonas, e soltos, pelo terreiro, negros jacamins e sombrios mutuns de bicos amarellos ou vermelhos. Isolada, uma coruja, soberbamente vestida de farta plumagem amarella salpicada de preto, os olhava com os seus olhos humanos... Leonor benzeu-se, quando a viu. Deram, por entre canteiros e grammados, a volta pelo fundo do terreno até a sahida para o morro de Guaratiba. D. Isabel lembrou as tradições locaes, os antigos habitantes e as festas do outeiro. Thereza convidou-os para virem no dia de Nossa Senhora da Gloria, que se approximava. Antes de tomarem do outro lado do jardim, passaram pela garage e pelo gallinheiro e os perus os festejaram, acompanhados dos latidos dos cães dinamar» quezes, dos filas portuguezes possantes, e dos rancorosos cães policiaes. — Ai! Meu Deus, tanto cachorro bravo! Para que? exclamou Leonor. Thereza enrubeceu. — É uma mania de meu marido, que receia sempre ladrões. Imaginação, medo de tudo. Rapidamente desviou-os para o seu mirante. As orchideas dependuradas, abertas, exuberantes de formas, luz e cor, balançadas pela brisa. Sobre a balaustrada, as avencas, os tinhorões, as begonias, recolhiam o ar humido, que lhes ennegrecia a roupagem verde lamellar. Dentro do pavilhão, Thereza exclamava: — É a minha gaiola. Parece-me estar suspensa no ar e um medo permanente me dá um tremor, que é gostoso. Daqui vejo tudo socegado e longe. É preciso haver resaca forte, para que a bahia me pareça agitada. A distancia suaviza tudo. Conheço tim-tim por tim-tim cada canto desta vista e acompanho aqui todas as mudanças. Muda a toda a hora. Por muito tempo eu não tinha outro divertimento. Agora penso em outras cousas, depois que me tiraram do meu esquecimento. Dizia e olhava Philippe. A voz cahia doce e grave e impunha silencio. Todos scismavam absortos. Philippe ficava constrangido com a oppressão de não poder dizer o que devia dizer. D. Isabel exprimiu a angustia, que tomara a todos, quando, pegando mansamente a mão de Thereza, lhe disse: — A sua solidão deve ser pesada. Mas porque não se refugia em Deus? Haverá logar melhor para a meditação do que este? E da meditação não sahirá o êxtase? Thereza deixou-se consolar, abysmando-se na doçura da piedade humana e ia falando extranhamente: — Será possivel que eu saia um dia do pavor, que me atormenta e entre na beatitude, que me libertará? Não sei se vencerei ou se tornarei ao' meu anniquilamento. Tudo é tão mysterioso. Do que estou certa é que não me sinto mais a mesma. Estou mais resoluta, mais decidida. Antigamente, ainda não ha muito tempo, eu me sentia esmagada, era uma prisioneira nesta solidão. De repente me veiu uma ânsia de outra cousa, que não é isto. Aqui nada me contenta. — Mas Deus que é o redemptor está em toda a parte... murmurou D. Isabel. — Eu sei e estou com Deus, explicou-se Thereza. Torneime mais devota nestes últimos tempos. Procuro nas orações o socego. Não veiu... Que fazer? Vou sempre á egreja e não posso me absorver. O pensamento está distrahido. Aqui medito, aspiro por um êxtase, como o de minha Santa e nada se concentra. Tudo se move em mim e aspira a uma alegria, que a devoção não me dá. É um martyrio... O rosto de Thereza empalledecia, os olhos fulguravam dentro de grandes olheiras roxas, a bocca morria em um sorriso de inquieta esperança. De repente foi ella mesmo, que sacudiu o torpor da scisma, em que. se calavam. — Não falemos em tolices, ainda não lhes mostrei a casa por dentro. Vamos. E voltando-se para Philippe: — Não se espante dos horrores, que vae ver. Tudo muito idiota, mas a culpa não é minha... Um dia eu lhe pedirei os seus conselhos para reformar a casa, pol-a de accordo com o ambiente. Oh! vontade bruta de derrubar tudo isto e fazer cousa nova, vida nova... Thereza, movei, movia-se ruidosa e expansiva. Sob o trigueiro da pelle, a purpura sombria do sangue. O olhar dansava alegre. A voz alta sacudia o corpo magnético e parecia eleval-o em allucinante vôo. Philippe buscava Thereza, irreal e maravilhosa, nas alturas. Absurdamente a casa se furtava á luz, recolhia-se em uma penumbra desconsoladora. Oppunha-se á paizagem, negando-a em vez de absorvel-a e incorporal-a, e não se abria ao sol, ao mar e ás arvores e não dava aos humanos a magia tropical dentro das paredes pesadas. Os negros moveis de jacarandá misturavam-se aos dourados europeus; A austeridade colonial e o arrebicado rococó. O disparate na riqueza, a mediocridade na profusão. Estavam examinando moveis, tapeçarias, quadros, estatuas, cortinas,, reposteiros, quando na porta da sala appareceu Lili, que duas mãos negras empurravam. Thereza deu um salto» apanhou a filha e, gloriosa, a ergueu. — Eis a minha boneca, a minha Lili!... E apertou a criança por entre beijos estridentes. Emquanto D. Isabel e Leonor festejavam a menina, Philippe entristecera. As suas palavras de louvor foram vagas e distrahidas. Esta reserva desconcertou Thereza, que cessou subitamente o seu enthusiasmo maternal. Leonor apoderou-se de Lili. As duas simplicidades entenderam-se. Philippe quizera partir. Sentia-se intruso naquelle mundo de Thereza, em que se irradiava, como força propulsora e absorvente, a maternidade. O instincto de Thereza procurava conciliar sentimentos oppostos e exclusivos. Approximou-se ainda mais de Philippe, falava-lhe, sorria-lhe meigamente, acariciava-o com os olhos doces e profundos, olhos que tinham tacto para sentir e transmittir a delicia e suppriam o toque das mãos e as antennas mysteriosas da pelle. Philippe sahiu da melancolia do desequilibrio para se alegrar e se abysmar na seducção de Thereza. Não tardou a que elle mesmo buscasse a graça de Lili, a conquistasse com a sua voz, infiltrante e possuidora. Thereza sorriu reconhecida a Philippe, quando viu Lili beijal-o e dar risadas de camaradagem. Para introduzir Philippe na sua intimidade Thereza insistiu em mostrar o seu quarto de dormir. Estava contente que vissem ter quarto separado do marido e queria ostentar os moveis e tapetes modernos, adquiridos recentemente. — Tudo isto é influencia sua... disse vivamente para Philippe. Eu também estou no movimento. E o maior prazer é a raiva do meu marido. Um sueco!
D. Isabel ficava meia tonta com estas exuberancias, comprehendidas por Philippe. Leonor gritou da porta do quarto de Lili: — Mamãe, veja só esta loja de boneca! Que belleza! Olhe a caminha, que balança e é toda azul, este. guarda roupa com figuras de pássaros recortadas, estas cortinas tão alegres, estas bonecas pelo chão. Sim senhora, que encanto a senhora arranjou para Lili. Ella merece, uma boneca que é um amor, só neste paraíso infantil. Quanto bicho engraçado, o macaco no trapesio, o urso em cima do armário, os papagaios... Lili estava encantada com a admiração, que as suas cousas produziam. A negra, que se escondera dentro do quarto, foi-se esgueirando, procurando desapparecer por entre as visitas. O branco dos olhos estava como clara de ovo cosido, opaco e duro. As pupillas encolhidas, longas e finas. Sahiu rancorosa e sobre os beiços negros e rugosos passavam as palavras do ódio desaforado: — Gente maluca, ixe, parece que nunca viu nada, t' esconjuro. Só Thereza percebeu o desespero da negra. Os outros, entretidos, apenas notaram a passagem da massa preta, envolta em cores azues. Tornaram ao terraço e foram recebidos pela brisa fresca e viva. De um lado, o céo estava esverdeado, do outro, a lividez do estanho. As aves passavam em bandos rythmados indo recolher, as gaivotas, mesmo desfilando, ainda se precipitavam vorazes, encapotando sobre as ondas. Thereza e as visitas estiveram mirando o mundo, inclinadas sobre o parapeito do terraço, por entre os vasos portuguezes de azulejo antigo, cheios de amarellos e violaceos cardos tropicaes. As palmeiras embandeiravam-se ao vento. Pouco a pouco nas moradas humanas em volta, nos morros e nas avenidas foram-se abrindo as luzes. Em baixo a cidade se recolhia á penumbra das arvores espectraes.
Tomavam chá no caramanchão, quando veiu Jujú,' agarrado a um livro. Thereza o recebeu com um alarido,! que o desconcertou. O pequeno embatucou. Os seus olhos apoiaram-se em Thereza, emquanto dentro da cabeça tudo lhe rodava. Muito pallido Jujú suava frio. Ficaram com pena da criança e Philippe segurou-o com meiguice. — Que é isto Jujú, estás com medo? És bicho do matto? O menino sentiu horror com o contacto e as palavras de Philippe, deu um pulo e precipitou-se no collo de Thereza, abrindo em choro convulso, desesperado. — Meu bem, Jujú, que é isto? acalentava-o Thereza com aborrecimento carinhoso. Deixa de bobice, fica socegado, ninguém te come. Olha o teu amigo Philippe, esta senhora é mãe delle, aquella moça é irmã. Bobo! Jujú chorava, enterrado no collo de Thereza, que forçava em levantar-lhe a cabeça teimosa. Os outros procuravam rir e brincar para distrahir a criança. Mas todos estavam caceteados com a nervosidade impertinente. Lili, pageada pela negra, aproximou-se curiosa do barulho de Jujú. Thereza insistia: — Olha, bobo... Até Lili está espantada desta tolice. Não é Lili? Jujú é mais tolo que você, que não faz destas manhas. Vem buscar este manhoso chorão e leva elle para brincar. A menina, inchada com o elogio, puxava Jujú com as mãosinhas tenazes. Jujú resistia. Todos riam, só elle chorava convulso. Afinal ergueu a cabeça, irritado, violento, empurrou Lili, que cahiu sentada no chão, aterrada com aquelles modos. — Vae embora, berrava Jujú... não me amola... eu quero, eu quero, que Teté me ensine a lição... — Ah! é isto que tu querias, seu tolo. Hoje não, tu não vês que estou com visitas? Fica bomsinho, que amanhã tu vaes passear commigo de automóvel, nós dois sósinhos. Mas olha lá... E beijou-o repetidamente, limpando-lhe a cara rubra.
Jujú respirou alliviado. Ficou tão contente. Envergonhado, afastou-se e foi para mais longe sentar-se na gramma onde Lili veiu procural-o. De longe elle mirava enternecido Thereza. A obscura magua de a sentir perdida para elle acabrunhava-o. Cada movimento de Philippe para Thereza entenebrecia-lhe o espirito. Apontou-lhe vivo, feroz, um resentimento contra Philippe, ódio de o ver naquelle logar, ao lado de Thereza, desapossando-o do seu doce e exclusivo privilegio. Ódio dos olhares e das palavras. Por mais que Lili o agradasse e o seduzisse para brincar, Jujú concentrou-se naquella dolorosa observação, desesperado, abatido, inútil.. Leonor apiedou-se do menino e veiu também sentar-se na gramma com as crianças e procurou entretel-as. Lili, passado o atordoamento, entregou-se á brincadeira. Jujú mantinha-se casmurro. — Como é boasinha a sua filha, observava Thereza a D. Isabel. Que paciência com as crianças. — Leonor procede sempre com simplicidade,, explicou Philippe. Não conheço ninguém mais innocente. — Chega até a ser ingênua demais, disse D. Isabel. Acredita em tudo. Para ella não ha mal no mundo. Deus a fez assim. — Ora, é preciso que haja santos neste mundo de maus, exclamou Thereza. Faz bem viver-se na companhia desses anjos, como a sua filha. Eu, que vivo rodeada de gente inferior e egoista, posso dizer o que é este martyrio. — Não fale assim, não se lamente, a senhora é tão feliz, tem a sua familia e a sua fortuna, interrompeu D. Isabel. A frieza e a estultice destas palavras de conformação exasperaram Thereza. O seu Ímpeto fora desapparecer deante daquella gente, que também não a comprehendia. O seu pensamento marcava: velha convencional, interesseira, carola, insensível, tu não sabes quem eu sou. Não sabes o que é soffrer nesta casa, que tu invejas, porque é rica, vem do passado e te lisongeia a vaidade aristocrática,; Não sabes o que é Radagasio, viver eom a estupidez quotidiana, abafar os desejos, morder o freio, estar humilhada, espionada, prisioneira, desejar a morte de um homem para ser feliz, tornar-se má, ser assassina, ter ódio, ter nojo de si mesma e continuar na podridão... D. Isabel ficou desnorteada com o rancoroso silencio de Thereza, que desviava delia o olhar para se fixar duramente em Philippe. Rompendo o circulo do ódio, em que fora envolvida, D. Isabel evadiu-se sorrateiramente na direcção de Leonor e das crianças. Thereza percebeu que estava só com Philippe, quando, com extrema doçura e muita tristeza, elle lhe falou. — Não se afílija com o que lhe disse mamãe. São palavras para socegal-a. Mamãe é muito boa, tem aquella apparencia reservada. Não quer dizer nada. Ella vive fora do mundo e não sabe os martyrios. Oh! eu adivinho tudo o que soffre, as suas angustias, os seus desesperos. Comprehendo que uma mulher tão superior, tão vibrante, não pode ser esmagada, ser acorrentada a uma existência mediocre, em que o seu espirito não tenha a suprema liberdade. Desde o momento que eu a vi, senti a sua superioridade. Deixe-me dizer-lhe não foi só a sua belleza, que me impressionou... para sempre... Foi também o seu enthusiasmo, a sua exaltação espiritual e desde então calculei as suas torturas e tive uma pena, uma piedade... Thereza recebia tremula a infiltração dessa súbita ternura. Veiu-lhe uma deliciosa vontade de chorar. Os olhos ficaram vermelhos, a garganta secca e todo o sangue confluiu ao coração, deixando-a pallida, exangue. Philippe continuava: — Sim, uma piedade de tanta belleza assim mortificada no mais injusto sacrifício. O meu pensamento passou a ser todo seu. Não lhe posso dar mais nada do que esta admiração e esta ansiedade em vel-a feliz. Eu só lhe peço uma cousa... Posso pedir? É uma retribuição...
Thereza não poude responder. Os olhos enlangueciam mansos e a bocca meio aberta parava extatiça num sorriso de bemaventurada. Philippe concluiu: — Pense profundamente em mim. Thereza bateu doce, docemente com a cabeça. Olhou em torno e levantou-se para se reunir a D. Isabel e Leonor. Uma alegria poderosa a arrebatava. Agradou-as muito, louvou-as e, dando o braço a D. Isabel, a estreitava com uncção e meiguice. O fluido do enthusiasmo communicouse a todos. De repente uma algazarra de vozes, risos, gritos, rompia a melancolia da tarde, alvoroçava o ar, até que um klaxon berrou na ladeira. — Automóvel, gritou Jujú. Lili, que já distinguia os ruídos das machinas, disse desconsolada: — É papae. Abriu-se o portão e o automóvel começou a subir a rampa infestando as plantas e o ar. Radagasio desce do carro. Aperta a bocca e atira os olhos para o grupo. Domina-se e, disfarçando, chama pela filha. — Vem Lili! É seu pae... A pequena, empurrada pela negra, vae ao seu encontro. Radagasio, para se apoiar, dá-lhe a mão, que o conduz. Philippe levanta-se. Thereza e as outras esperam sentadas. Radagasio gagueja uns cumprimentos coma sua voz sumida e velada. Thereza pergunta-lhe se quer chá. Radagasio recusa e olha, atrapalhado, Philippe. De repente o reconhece. — Mas nós já nos vimos... Foi no baile do Gloria, na noite das bombas e por signal que o senhor me pareceu revoltoso... Pode confessar. Não tenha medo. Eu não digo nada á policia... Philippe mordeu rapidamente o lábio inferior. Sorriu para disfarçar. Thereza fez frente ao marido. — Eu também sou revolucionaria. Se você quer denunciar alguém comece por mim...
— Gabolice. Você, medrosa como é? E depois, isto de politica não é para mulher. Thereza respondeu: — Se as mulheres interviessem como deviam, o paiz não estaria nesta miséria, em que foi posto pelos homens, uns por ganância e prepotência e os outros, a grande maioria, por servilismo. Não são homens, são ladrões e escravos. Já que elles não prestam, as mulheres devem salvar isto. Radagasio ri amarello, chupa os beiços. A língua por entre elles, apparece e desapparece em movimentos incessantes. Vae insultar Thereza. Philippe percebe e intervém: — É uma verdade. Se não fosse a covardia e a submissão dos homens... D. Isabel corta a discussão. Volta-se, senhorilmente,' para Radagasio: — O senhor é um homem de muito gosto, porque escolheu para morar a casa mais interessante da cidade. Alem da vista incomparavel é uma moradia histórica. Foi daqui que os meus antepassados, Men e Estacio, bombardearam os huguenotes francezes. Radagasio se ninava dos huguenotes, detestava aquella casa, fora de mão, isolada, moradia imposta caprichosamente por Thereza, romântica, a cultivar a solidão, o panorama e a tradição familiar, permanecendo na casa, que fora dos pães. O cumprimento de D. Isabel o inflammou e elle entrou a elogiar a vivenda. — É. É uma habitação modesta e ás suas ordens, minha senhora. Aqui estamos em um paraíso, ar magnífico, de primeira mão, da barra, sol para tonificar a pelle, arvores para queimar o carbono e nos dar oxigênio. Vivemos na paz. Paz e amor... como os inglezes gravaram no frontão do mercado de Kandy, em Ceylão. Thereza agita-se. Quer gritar, insultar o monstro de estupidez e hypocrisia. Contém-se. Philippe se compadece.
Leonor festeja a phrase e a erudição, e acrescenta lisonjeira: — Não é só por este lado que tudo aqui é delicioso. Haverá maior maravilha do que esta vista? Eu estava dizendo a Philippe que elle devia fazer a descripção disto, um poema, porque meu irmão é escriptor, um poeta. Radagasio quer se mostrar informado e declara que conhece os escriptos de Philippe. Para se impor, sobretudo a Thereza, se enthusiasma a frio. — O senhor teria aqui o mais extraordinário quadro para um poema e para um romance. Ás vezes sou tentado a metter-me a escriptor. Se não fossem as minhas serias occupações no banco, se eu fosse ocioso como os poetas e os artistas, que têm o tempo á disposição, seria o meu divertimento. Assim como ha tantos negociantes e industriaes, que passam os domingos a pintar, eu passaria a escrever e fazer versos inspirados por este panorama. Um infinito pejo apoderou-se de Thereza. Muito vermelha desviou os olhos dos outros e os cravou desvairados nas crianças, que brincavam ao longe. O seu Ímpeto era fugir, mas antes de se evadir, quizera bater, morder, destruir aquella ignóbil machina de falar, que era o seu marido. Mas Radagasio enthusiasmava-se, embevecido com a admiração de Leonor. — 0 Rio de Janeiro é um conjuncto sublime de água, floresta e montanha. Dentro deste scenario o maravilhoso artista é o sol. Desde cedo elle brinca nos cimos dos morros, na toalha das águas e nas folhas das arvores. É um sol infante, que torna tudo suave de tons, na frescura da manhã. Mais tarde elle se esquenta e incendeia. A luz absorve o mundo e o dissolve em poeira scintillante. A' tarde, as cores se desforram e o sol morre afogado em seu sangue e tudo fica rubro e violaceo... — Bravo! Seu Vianna, que poeta é o senhor! Quem diria! applaude Leonor.
Philippe sorri. Radagasio deslumbra-se. Thereza está aterrada. Radagasio, de pé, continua, apontando: — Olhe tudo isto. Veja estas ilhas como são pittorescas. Cada uma tem a sua expressão. Lá no fundo estão as ilhas tropicaes, ilhas de arvoredos compactos, banhadas pelas águas, que murmuram docemente uma canção de amor e entre todas, Paquetá, com os seus coqueiros,! parece um trecho das praias pernambucanas, transportada para suavizar os pedregulhos, que são as ilhas próximas á barra. Aqui tudo é monstruoso, anti-diluviano. A terra tremeu, os vulcões vomitaram estas pedras gigantescas, que formaram ilhas. A Lage é uma tartaruga colossal... — É mesmo, mamãe! grita Leonor, levantando-se enthusiasmada. Só falta a cabeça... — A tartaruga está dormindo, graceja Radagasio... E que massas, que volumes são estes morros! Formam figuras extranhas e mesmo procissões fantásticas. Olhe aquelle grupo de montanhas á direita. E' uma caravana assombrosa. O Pão de Assucar, como um elephante quaternário, vae puxando na frente. O cabo do caminho aéreo, é o freio, que o liga á Urca. No alto do CorcovadO; está o personagem principesco, que é o senhor, o rajah, o chefe da caravana. Hoje elle está invisivel, um dia elle apparecerá na figura do Deus-Rei. — Muito bem, approva D. Isabel. Afinal a natureza ficará consagrada ao Criador. Radagasio discursa: — É pena o exclusivismo desta consagração catholica.; Sou catholico por tradição. É a religião dos meus pães. Esta é a terra de Santa Cruz. Deviamos ser mais largos, todavia. Por isso, no Educational Club, que, como sabem, é uma associação da America do Norte, para a educação moral e social dos homens, com filial no Rio, eu propuz que, em cada morro da nossa incomparavel bahia, fosse collocada a estatua de um grande fundador de religião.
Seria um pantheon sublime, em pleno ar, em um quadro maravilhoso da natureza. Já o Corcovado está consagrado ao Christo Redemptor. Vá lá. Consagre-se a Gávea a Luthero. E o Pão de Assucar, pela sua forma bojuda e conica, está indicado para ser o pedestal do Budha. Verse-ia um dos morros pequenos da barra para Mahomet, e outro menor para Augusto Comte. — Mas que blasphemia, seu Radagasio, interrompeu, irritada, D. Isabel. — Não, minha senhora. Concórdia. Neste paiz não ha gente de todas religiões? Por espirito de justiça, os morros seriam designados, segundo a importância das religiões no Brasil. A religião catholica, que é a mais importante pelo numero, devia ir para o morro da Tijuca ou o Bico do Papagaio, mas concedo que vá para o Corcovado, que é mais evidente. — É uma bella idéa. Seria um pantheon assombroso e que lição para a humanidade! Minhas felicitações, ápplaudiu Philippe. Radagasio inclinou-se, desvanecido e orgulhoso com o successo do seu brilhante improviso. — Será a consagração dos homens, prosegue Radagasio, porque a natureza por si mesma havia patenteado ser ella um prodígio divino. Não está alli na Serra do Mar, o Dedo de Deus? E no nosso céo de anil, nas noites maravilhosas, não brilha o sublime Cruzeiro? As nossas noites, que magia! No céo, as estrellas sem fim, tão numerosas que parecem terem baixado á terra, para dar-lhe a illuminação feérica. É a coroa do Pão de Assucar, que é um rei de granito, é o collar de Copacabana, são os pyrilampos do Flamengo... Ah! neste paiz, neste Rio incomparavel, tudo é grande, só o homem é pequeno! Radagasio engasgou-se apavorado com a surpresa deste conceito dissonante da sua apologia. Philippe percebeu o desconcerto do homem loquaz e sublinhou:
— Por este final é que eu não esperava. Porque desesperar do homem se elle fez tanta cousa, que o assombra conforme o seu louvor. O cabo aéreo da Urca, a rédea do elephante, o collar de Copacabana?, Foi a vez de Thereza sorrir e o seu prazer augmentou quando Radagasio, muito roxo e sempre engasgado, tossia, exhausto, esforçando-se em responder. — Não nego que o homem brasileiro não tenha feito alguma cousa e ajudado a natureza. Mas elle é indolenter só cuida de carnaval e só pensa em revolução... — O senhor não gosta de carnaval? Eu acho tão divertido para a gente pobre, objectou Leonor. — Ah! minha senhora, replicou Radagasio, é um divertimento inferior, uma bacchanal de negros. Eu detesto negro. Não nego, sou aristocrata. E a desgraça é que, emquanto nascer neste paiz um moleque e uma negrinha, o carnaval não se extinguira... Ainda assim é melhor carnaval do que revolução. — Porque, seu Vianna, só se fala em revolução? indagou Leonor. Radagasio olhou firme para Philippe e disse triumphante: — Casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão. Thereza revoltou-se: ' — Oh! Você não larga esta mania de dictados. — O provérbio é a sabedoria do povo, explicou Radagasio raivoso. A irritação de Thereza gerou um silencio constrangido. D. Isabel, para acalmar Radagasio, poz-se a gabal-o. — Como eu admiro a sua alegria. Com certeza o senhor deve ter uma boa saúde, um bom estômago. Isto vem deste ar, o ar da Gloria. Radagasio sorriu victorioso ao equivoco cumprimento. — Sim, este ar vivifica os pulmões. Mas não é tudo. É preciso saber usal-o. Eu tomo cincoenta respirações, bem fundas, bem de vagar, em um dia de cada mez, para o beneficio do corpo e do espirito. Durante este exercício vou falando sósinho, commigo mesmo, affirmando que sou um homem superior e de grande súccesso. Desta forma brilha mais forte em mim o sol interior. Cada um tem dentro de si um sol. — Já sei, interrompeu Leonor, batendo palmas, é a alma. — Não. Paz á alma, respondeu Radagasio superiormente. O nosso sol interior é o plexo solar, o sol abdominal. Thfereza, muda, exasperada, poz-se de pé em um impulso desattencioso. Todos seguiram o seu movimento. D. Isabel despediu-se. Thereza convidou-os a ficar para jantar. A mãe de Philippe recusou polidamente este precipitado toque de familiaridade. Radagasio, para mostrar-se hospitaleiro, insistiu no convite para outra occasião. D. Isabel desculpou-se, porque não sahia nunca á noite. Com espanto de Thereza, Radagasio agarrou-se a Philippe. — Olhe, disse o marido, temos muito que conversar... Quero expor-lhe as minhas opiniões financeiras. O senhor sabe: dá-me boas finanças, dar-te-ei boa politica. Combinaram que Philippe voltaria no próximo domingo. Quando as visitas partiram, Radagasio, seguindo ao lado de Thereza, resmungava: — Estes seus amigos pensavam naturalmente que eu era um idiota... Sim, imagino o mal, que você não lhes tem dito de mim. Mas conheceram de quantos páos se faz uma canoa. E sahiram embasbacados... Thereza sentiu um frio no corpo com aquellas palavras. Fitou um instante o marido. Teve nojo da sua pelle rugosa de sapo. Malditos olhos opacos, frouxos. A cara parada. Somente o nariz marcava o rythmo da estupidez. Thereza, rapidamente, o deixou e appressou-se para o mirante. Não quiz olhar o seu mundo. Elle fora manchado, conspurcado, ridicularisado, degradado pelo verbo do homem infame. Ficou de costas para aquillo tudo. Sentada no banco, fechou os olhos. Dentro delles, a magia recomeçou. Cumpria a ordem de pensar em Philippe.