III
III
No pavilhão do jardim, mirante da vastidão, Thereza abysmava-se nas anseadas e resfolegantes águas da bahia. Para além da barra alongava-se, livido e glauco, o oceano. A luz limitava as formas sem côr das cousas. Os corpos postavam-se extaticos, isolados e brutaes, na eternidade incandescente. Na refulgencia solar, os cabellos escuros de Thereza irradiavam efíluvios de ouro. Nos olhos castanhos chispavam pontas de sol. Nas ondas em elevação espumavam myriades de soes. As pesadas manchas da terra, as sombras das montanhas avolumadas, cortavam em fachas densas a unidade phosphorescente. A bocca de Thereza scintillava na pulverização da luz e equilibrava a fulguração universal. A pallidez do rosto esbatia-se na atmosphera vibrante. Do esguio corpo, contornado pelas fugitivas cores zodiacaes e, das brancas vestes, emergiam vagas mãos esmorecidas. Ávidas línguas de sol desciam sobre as chammej antes pedras dos anneis e as unhas rubras. O cheiro das arvores e das flores exaltava a solidão. O murmúrio abafado das vagas e o arrepio do vento escasso resoavam lugubremente no calido torpor. O espirito de Thereza mortificava-se no excessivo arrebatamento do mundo tropical. Era a implacável luz perpetua, era a fixidez das massas aterradoras e sempre a immobilidade eterna. A.alma movei aspirava a libertar-se da natureza hostil. A adversaria, prompta a desencadear a catastrophe, está em secreta e infatigavel destruição e no tumultuario aspecto sente-se o frêmito da revolução intima, que um dia nos avassalará. A magia do terror gera-se na idéa da ameaça permanente e, nessa mysteriosa angustia, Thereza sotvia o supremo encanto e a entranhada fascinação da natureza brasileira. Fatigada de esperar o que jamais acontecia, Thereza deixou o pavilhão do jardim, entrou em casa e recolheu-se á penumbra do salão. Para mover-se no escuro fechou os olhos, tontos de luz, e atirou-se mansinha a um sofá, que lhe agasalhou docemente o flexivel corpo abrazado. Foram-se-lhe abrindo os olhos nocturnos por entre a pompa triumphal das cores alli abrigadas, fugindo á impiedosa luz devoradora. Das sedas e dos brocados, do ouro e do crystal, do bronze e do marfim, das madeiras e das pratas, das rosas, das folhagens, das orchideas, volatizavam-se as cores. Em uma só tonalidade aérea uniam-se ás sonoras vibrações do Universo, ao infinito e nostálgico mugido das águas, ao ardente e intermino canto das arvores, dos pássaros, dos insectos, das plantas e dos humanos, ao indefinivel gemido do que não tem nome, é imponderável e abstracto. E em tudo fundiam-se os cheiros omnipotentes e subtis, as emanações ininterruptas da perenne combustão do que vive e se transfigura eternamente. Sobre o âmbar da pallidez do rosto de Thereza, o reflexo azul dos olhos sombrios. A tepida respiração sussurrava longínqua e vaga e ella cheirava, como uma planta aromatica. Cumpria-se com as outras cousas a unidade inquebrantavel. Absorta numa irreprimível scisma, Thereza não perturbava com os seus gestos aquella vida dos objectos e tudo se consumia em arrastar no labor imaginário o mundo das sombras. No compacto jorro de luz, que pela porta do terraço invadia o salão, entravam besouros reluzentes e zombeteiros, trombeteando no espaço colorido, emquanto insectos impalpaveis se fixavam fascinados no clarão e vibravam, como moléculas luminosas. Entravam borboletas, alacres, loucas, farejando as plantas, entrou um beija-flor célere, inattingivel, bailando sobre as rosas e na vertigem allucinante, agitando subtilmente a suavidade sepulcral, parecia na sua pequenina e imperiosa violência arrebatar tudo na dansa fantástica da luz, das cores e dos perfumes. Thereza adormeceu e os prodigios da vida universal continuavam incessantes e maravilhosos na quietação sem fim. Quando ella acordou, pareceu-lhe que tudo parará. A monótona agitação dos insectos perpetuava o infatigavel rythmo da ardente calmaria. Thereza veiu ao terraço e mirou a água, cuja pelle era lisa, tranquilla e juvenil. O ar extinguira-se. No amplo silencio da luz, o espirito de Thereza pairava sobre a immobilidade universal. Nenhuma aspiração, nenhum desejo a agitava. Abysmava-se no socego solar, em que tudo entorpecera. Confundia-se com a melancoüca tristeza do céo, do mar e de toda a immensidade. E nessa quietude instantânea cessava a singular tortura, que busca e ignora. Tudo se acalmara na resignação inconsciente, em que se apaga a suprema angustia humana. As fronteiras do universo estavam alli, na luz, na água, nas montanhas, nas arvores. O espirito em êxtase ficava prisioneiro do maravilhoso das cousas ephemeras. Na exaltação anniquilava-se para sempre. Era a indifferença integral a toda a relatividade da vida, era a passividade do ser que, no vasio da existência, se deixa esmagar pelas forças desconhecidas e insuperáveis de um destino particular, imaginado como a emanação da inaccessivel e inexorável fatalidade primordial. A ascensão fez-se lentamente. No começo era a inconsciencia moça, o ardor physico de viver, a combustão do soffrimento moral, que transforma rapidamente tudo em alegria. Mais tarde, Thereza se sentiu só. Foram-se os fugazes divertimentos da mocidade e a grande separação entre ella e o mundo formulou-se allucinante. Era a incommensuravel tristeza do vácuo. Nenhum refugio deu-lhe a vida. Nenhum apoio soccorreu-lhe o pensamento. Nenhuma magia veiulhe do coração. O mundo rolava indifferente e o espirito desvairava, ora na revolta, ora na melancolia. A ânsia da libertação da sua própria existência e de toda aquella aggressiva e trágica natureza, que era o quadro permanente do seu espirito, terminava inócua e desfallecida. Não havia finalidade para a sua revolta. Onde ir? Que allivio á sua indefinivel dôr? A solidão a perseguiria eternamente, a separação das outras cousas universaes jamais se extinguiria. E ficava prisioneira da terra maravilhosa, impregnando com a sua tristeza todo aquelle fulgor revoltante, afundando-se na amargura desesperada da sua vida. Quando lhe vinha o doce e subtil tédio de tudo, Thereza inebriava-se na volúpia desse goso sem goso e deixava-se triturar pela fatalidade até sentir-se dissolvida no eterno anniquilamento universal. A vehemencia do calor não cessava. O céo dilatava-se e mais pallido subia transfigurado, fugindo ao estupor da terra. O mar calara-se abafado de sol. As palmeiras inteiriçaram-se. Só o que era humano interrompia estupidamente a concentração do mundo. Thereza, espectro de luz, etherea, plácida, sentia a delicia de ser absorvida pela belleza do Universo. Ella era magnífico holocausto do espirito humano ao Todo inconsciente. Súbito, vibrateis mãosinhas lhe agarraram o vestido. Um riso infantil desarticulava o triste socego. Thereza voltou-se inteiramente despertada do seu recolhimento e segurando rápida a creança, como para libertal-a de todo o soffrimento, exclamou: — Sáe deste sol horrível, filhinha. E arrebatou-a para o salão. Lili ria-se na excitação deste jogo. As perninhas e os bracinhos espadanavam. Thereza atirou-a no sofá e numa ânsia de acariciar, de se dar, beijava fremente a filha, que se debatia vivaz. — Mamãe, mamãe, basta, não me mata... Thereza beijava-a ainda mais e mais. Agarrava-a ao seu collo, estreitava-a com força, absorvente, como se naquelle corpinho humano estivesse todo o refugio da suprema angustia. Os cabellos cacheados da creança ameigavam o rosto da mãe, os olhos castanhos semicerrados exprimiam, risonhos, o goso do vibrante conchego. Na penumbra, aquella pequena alegria tinha a força de transformar o império do inconsciente absoluto em frágil realidade humana. Thereza não percebeu mais a tortura do seu espirito, que se amorteceu no suave esquecimento. Retrocedera instantaneamente ao circulo infantil e harmonizara-se integralmente com a filha. A imperiosa animalidade maternal excitava-lhe o prazer da brincadeira. Corriam as duas pelo salão, riam, gritavam, atiravam-se ao chão sobre os tapetes surdos, jogavam para o ar as almofadas e abraçavam-se por entre beijos estridentes. Na grande solidão do morro aquelle ruido violento sacudia a morna atmosphera. Os pássaros misturavam-se á alegria humana, os cães latiam, farejando vadiação, corriam pelo terraço, pelo jardim e invadiam a casa. Os gritos dos gallos, opulentos e faiscantes, fulminavam o ar. Os perus excitados, rubros os papos, enrouqueciam aos berros. Na sala, a mãe e a filha confundidas na mesma alacridade rolavam pelo chão. Na penumbra, atravessando a facha de luz mansa, surgiu a negra volumosa, cinzenta, olhos brancos e vasta bocca viscosa a vociferar: — Isso são modos, Sinhá? Larga Lili, que são horas delia dormir... São duas horas passadas. Tudo paralysara. Thereza sentou-se no tapete, sorriu desconsolada. Lili procurou o seu collo para esconder-se. A negra segurou-a com decisão e, afagando-a, carregou-a. Thereza ficou só. Tornava á consciência do seu isolamento e da sua separação das outras cousas. A alegria fugaz, passando instantânea, tinha-lhe dado o esquecimento. Agora estava só e o pérfido pavor da solidão a inquietava. Era mais um dia inútil na serie melancólica do tempo, que apertava inexorável o limitado espaço, em que ella se movia. O seu apego á realidade cingia-se ao pequeno ser, que a todo o instante lhe arrancavam dos braços. A vibração maternal cedia á tyrannia da criação da filha. A preta absorvia a existência da menina e a mãe, por inércia, por inexperiência, deixava-se ficar timidamente inactiva. A solidão, sem um pensamento para enchel-a ou um sentimento para santifical-a, era vasia e esmagadora. Ao espirito joven de Thereza trazia o supremo tédio da vida. Nenhuma finalidade em seus actos. Ella buscava a força, que a transformaria em um ser ideal, que era a sua ânsia secreta e inconsciente. O tédio a confinava em si mesma e ella achava a sua própria companhia um deserto infinito, em que toda a alegria fora crestada pela reverberação da inexplicável tristeza.
Os dias enfadonhos da casa de Thereza cruzavam-se com os dias de enthusiasmo da casa dos visinhos. Thereza ahi vinha buscar a esperança e fugir ao tédio. Muitas vezes subia a ladeira a pé, na volta da tarde, querendo que a chamassem, e se entrava, havia-lhe no sangue um rebate de liberdade. Todos alli eram ardentes e viviam no excesso da vida ordinária. E aquella que não tinha a combustão imaginativa, Aracy, entregava-se aos divertimentos, aos jogos, ás dansas, aos banhos, aos passeios, no feliz transbordamento muscular e sensual, da animalidade em flor. Era alegre e descuidada. Que lhe importava a sorte do paiz? Que lhe interessava a republica com os seus aborrecimentos? Ella tinha a liberdade bastante para a sua vadiação, e que bella vadiagem a do Rio de Janeiro! Os elementos do prazer offerecem-se graciosos. É o mar com as suas oceânicas praias exaltadas, a enfunada bahia corcovando os skiffs e os yoles, os campos, onde a bola rola, as montanhas, que criam fantasias para a vista, a cidade trepadeira, as avenidas familiares, o sol senhoril, a viração vagabunda, arvores companheiras e cinemas, confeitarias, almofadinhas e melindrosas. Aracy deslisava sobre o dorso das cousas. Multiplicava-se para tudo gosar e no rythmo simultâneo das diversões o seu corpo gracil proseguia dansarino. Thereza não se communicava com esse alvoroço, mas o via expandir-se com sympathia, pois era uma expressão da fugitiva liberdade. Os seus encontros eram raros, a melindrosa vivaz escapava-se do morro provinciano ás tardes, á hora de Thereza. E, se vinha á casa, logo vozes juvenis a reclamavam á porta da rua. Eram outros visinhos, moço e moça, camaradas de farra. E Aracy abalava ardente. Dava uma risada, pulava, beijava Thereza, a mãe, beliscava Jujú, que embezerrava furioso, punha o chapéo sobre os cabellos ruivos, os olhos azues illuminados, a pelle branca e sobre ella ligeiras vestes fulgurantes. — Porque tão ruiva, tão differente de todos? indagava Thereza. — Restos de hollandez do Maranhão, respondia D. Calú. A companheira de Aracy, que a esperava fora, annunciava nos gaseos olhos ciganos, na tez amarella, nos cabellos crespos, a mestiçagem, que a sinuosidade do corpo ondeante accentuava. — Prompta, Zilda! disse Aracy para a amiga. Figuraram beijos, receiosas de se marcarem as faces do vermelho dos beiços. O rapaz, irmão de Zilda, o Léo, baixote, truncado, nadador, remador, dansador,-namorado de Aracy, segurou-a logo com a mão callejada, apertandolhe o braço, invasor, familiar. — Ai! gritou Aracy, gostosa da brutalidade. — Commigo não é canja, replicou o rapaz esganiçando a voz, que lhe sahia de uma bocca alvar, emquanto os olhos miúdos e escuros faiscavam sob uma testa curta e bronzeada, coberta de um cabello duro, preto, rente á escovinha.
— E D. Genoca não vem? perguntou Aracy. — Mamãe? riu-se Zilda. Ora se vem! Já se viu mulher mais assanhada para pagode? Lá vem ella... Apparece na rua, espocadas as carnes, um monstro pintado, de pés pesados, andando tropega, de nádegas cahidas, pernas inchadas, amplos peitos, cintura e ventre ligados, braços volumosos e curtos, de onde pendiam mãos enormes, pescoço opulento, thyroidico, a bocca melosa e escancarada, o nariz farejante, tumida a cara, os olhos esbugalhados, saltados, de caranguejo myope. E gemia: — Meninas, eu mal posso andar, tenho os joelhos presos, a cabeça me estala. E vocês me forçam a sahirl... — Deixe de fita, mamãe. Se está doente, fique em casa. Bicho não nos come, e o Léo vae comnosco... — Não. Já agora também vou... Sempre me distraio um pouco... E como visse á janella Thereza e D. Calú, veiu logo a ellas. — A senhora está vendo, D. Calú. Estas meninas judiam commigo e eu estou tão doente... Ninguém faz caso, mas um dia ellas verão. — Não, D. Genoca, a senhora está moça, forte, deixe de manha, isto é nervoso... — Nervoso! É só o que me dizem. Rheumatismo é nervoso... Olhe as minhas mãos... — Vamos, mamãe, deixe de lamúrias... berrou o Léo. — A senhora está vendo, D. Calú, como me arrastam;.. Esta senhora é que mora aqui defronte?... A senhora vive num paraíso! Olhe, um dia vou lá fazer-lhe uma visitinha... As moças a agarraram e a içaram para dentro do automóvel. D. Genoca protestava: — Não empurrem. Que brutas! O automóvel foi descendo devagar. E tudo cahiu em socego. — Esta gente, explicou D. Calú a Thereza, é exquisita.
É a familia de um tal Adalberto Costa, corrector, que esteve mettido na fallencia de um banco e sahiu rico. Comprou esta casa muito boa, que dizem de estylo mourisco. Já foram á Europa, a familia metteu-se. na sociepade. Deixo Aracy andar com elles, porque eu não a posso acompanhar... Não gosto. E assim a pequena se diverte. Elles a chamam sempre... Mas aquella mulher é uma linguaruda damnada, intrigante, e prega cada mentira! Ella já quer se metter em sua casa. Já veiu logo com elogios... Se fosse moça seria uma melindrosa, mas destas bem affectadas, como é velha e anda nas rodas estrangeiras, é conhecida pela dengosa internacional... Thereza sorriu desdenhosa. Na sua intimidade ninguém penetrava. Tinha segurança em si e a visão instinctiva lhe traçava, largo e profundo, o circulo da sua defeza pessoal. — Onde anda Jujú, que desappareceu? perguntou inquieta. E D. Calú disse que talvez, zangado com o beliscão de Aracy, se sentisse humilhado e se escondesse. — Quem sabe se não estará em sua casa? — Ah! sim, com certeza. E logo interessada pelo seu maravilhoso amiguinho, Thereza partiu. A rua estava parada. Thereza sentiu uma instantânea volúpia ao entrar na solidão. O contacto com aquelle alvoroço vulgar a tinha entristecido. Aspirava a voltar ao seu isolamento, em que o sonho era infinito, o desespero independente, seu, do seu intimo e inquieto espirito. O que ella procurava na casa dos visinhos não era a ociosidade, a vadiagem, era o enthusiasmo da libertação. Na rua solitária retomou-se a si mesma e ligeira chegou ao portão da sua casa. Na curva da rua vem despontando Jujú e com ellé um rapaz. O menino corre, a sua voz vibra: — Thereza! Philippe! Ella parou. Philippe apertou-lhe a mão, que já se estendera resoluta. Não falaram. A mulher festejou a criança. Jujú ria victorioso. — Ah! eu estava lá em cima te esperando, Teté, quando vi Philippe subindo a ladeira da egreja. Corri para elle e ficamos vendo a festa no mar... — Que festa? — A esquadra vae partir para exercícios, explicou Philippe. Estávamos olhando os primeiros movimentos, mas Jujú ficou desesperado pela senhora e não quiz ficar. — Vamos ver agora, Teté? insistiu o pequeno. Thereza enfeitiçou-se com aquella ansiedade amorosa do seu menino. Por um momento pensou em subir com elles á sua casa e do mirante seria a doce infiltração do êxtase, do movimento das cousas e agora da sympathia humana. A sua casa? Hesitou e condescendeu em acompanhal-os ao largo da egreja. Caminharam os três, subindo accelerados para chegar a tempo do espectaculo. Foram batendo os passos na estreita calçada, rentes ao muro, de onde espiavam enfileiradas folhas de bananeiras, velas verdes dos quintaes, que o vento esfarrapa. O largo da egreja, pequeno e secco, appenso ao baluarte, em que repousa a egreja, liga duas ladeiras. É logo circumscripto por uma velha casa pesada, acachapada, triste, que desce morro abaixo. Havia apenas uma nesga de vista para a bahia. Thereza, habituada a vasto descortinio, zombou: — Daqui é impossivel... Ora, Juju, que idéa! O menino alviçareiro, imperioso: — Vamos lá em cima, lá na egreja... Pela escadaria de pedra galgaram até o pateo. Sobre a grande base de cantaria e lagedos de granito, tão gasto e esburacado, pousa a egrejinha do outeiro da Gloria. Está solta ao ar livre, face á barra, dando as costas ao morro. Empoleirado na torre, um gallo de ferro brinca com o vento e carrega uma cruz. A torre quadrilatera, núa. A massa corporea da egreja aperta-se numa cinta, alarga-se para traz, abrindo-se de cada lado em janellas, óculos, balcões, soffregos da viração e da vista marítima. A fachada de luzentes escamas de fingidos azulejos cobre um pequeno pórtico singelo, que protege a porta e o fresco recolhimento interior. Os três invasores da solidão, arrebatados pela perspectiva ampla, infinita, e pelo silencio das pedras, que eram architectura, olharam-se alegres. Thereza e Philippe entendiam-se secretamente na affinidade esthetica inconsciente, que produz uma zona benéfica, ineffavel de sympathia, a zona da belleza. A admiração physica, que sentiam um pelo outro, nascida do sentimento occulto da selecção, dava-lhes alegria e enthusiasmo. Por alguns instantes Philippe calara-se. O mysterio da belleza está no silencio, que ella faz em nós. Thereza recebia a luminosidade dos olhos solares de Philippe e sorria-lhe. E os olhos cresciam em êxtase pela belleza contemplada. Veiu depois o fulgor da voz envolvente, e luz e som transfiguravam a poderosa cabeça, os finos cabellos despenteados ao vento, o rosto claro e cheio, o grande nariz pensativo, a bocca suave, ligeiramente velada pelo leve bigode. As mãos pequenas cortavam o espaço. Philippe mostrava a esquadra, que se movia. Pouco a pouco se foram enfileirando dreadnougts, cruzadores, destroyers, torpedeiras. Passavam lentamente, abandonando as lanchas e rebocadores, que, intrujões, os acompanhavam na bahia, farta de água e viração. O encouraçado chefe marchava numa imponência voluntariosa, atrevida, libertando-se da barra. Fumos insolentes. Fumaça negra, volumosa, pastosa. Grossas massas espessas suspendem-se, dansam pesadamente na risca tumida e sangüínea do horizonte. O dreadnought caminha impávido e fumarento, envolve-se na fumaça e perde-se no oceano. Dentro da bahia, a água azul afoga-se no esplendor rubro da dissolução solar. Jujú, calado, absorto no que via, deliciava-se no jogo alegre das gaivotas pairando, voando sobre as vagas, trepando nas ondas, gritando enthusiastas, grasnando, mergulhando para apanhar os peixes disputados por dezenas dellas num rolo de azas, bicos e patas. No alto, um solitário carapiá talhado em ângulos agudos, finas azas negras esticadas, vogava o seu mecanismo synthetico e schematico. Passavam aos pares tristes joãosgrandes e tesouras, ávidos imbiuás. Das ilhas do fundo vinham, tocados a recolher, bandos apressados de maçaricos, trinta-reis e de garças, 'indifferentes á pescaria. A passagem das aves traçava uma curva, que envolvia o espaço, prolongava-se espiritualmente e suggeria a curvatura universal. Para Thereza tudo era excessivo. Dentro das tumultuosas massas de pedra, cavadas nas raizes pelas águas vorazes, apoderada pela energia vegetal, que avançava tentacular para a suffocação da terra e dos seres numa dominação verde, humida, sombria, acariciadora, Thereza retrocedia ao estado cósmico inicial e absorvia-se no vago das formas, das cores, da luz e das forças, sentia a irrealidade transcendente, repellia de si mesma a consciência da vida, funesta e intolerável interrupção da deliciosa desordem dos elementos allucinantes. Fitava o mar. A bahia assanhada, com as ilhas, que surgiam fúnebres da água, pedregosos cabeços sombrios de penhascos submarinos, e outras reluzentes, como gigantescos besouros, vogava na luz total. O ruido ardente da cidade subia numa densa rede de sons suspensos em torno da collina, buzinas de automóveis, guinchos de bondes, repiques caipiras de sinos, berreiros humanos e o indefinido rumor anonymo, palpitante, que apavora como o resfolegar das forças mysteriosas e avassaladoras. Tudo subia e suffocava. Oppressa, offegante, Thereza debatia-se na.angustia da desordem. Refugiou-se em Philippe. — Alli é a minha casa, disse ella pensativa. Triste casa... Quando eu olho este mar livre, estes vapores que partem, tenho uma dôr... — Porque este desespero? — Não sei. Quizera viajar, sahir desta prisão. Que me t importa a belleza que me cerca, belleza que é extranha a mim, morta, morta... Palmeiras, bahia, ilhas, sol, floresta, morros, pedras, não me entendem. Quero o que é humano, próximo do meu ser, do meu coração. Aqui tudo me acabrunha e me persegue... — Não se deixe dominar pela ansiedade vã da desordem. Viajar não significa libertar-se. Esta libertação, ambicionada com tanto desespero, deve ser conquistada aqui mesmo na prisão. A viagem não é esta deslocação material da pessoa atravez dos espaços. É a transposição espiritual a todas as formas, a todos os seres, a todos os pensamentos. É o conhecimento do universo, é a incorporação, é a fusão no Todo infinito, que realiza a unidade. Thereza entenderia? Uma infiltração musical arrebatou-a. Philippe continuou a arrancal-a do chãos. Philippe punha ordem em tudo, equilibrava o mundo, fixava os planos exteriores e determinava a vertical interior da esphera ideal, apoiada solidamente na horizontal do seu espirito. Tudo se comprehende no numero, no movimento, no espaço. Philippe construirá o universo. A construcção é no espaço, numeroso e movei. Sem o espirito nada existe. A existência criada pelo espirito objectiva-se fatalmente. O espirito coordena todas as cousas por um systema rígido de linhas e volumes. É a organização da eternidade.
O sol abandonou a terra, que se tornou descarnada e livida, esperando a fantasmagoria da noite. A bahia, esmorecida, enfastiava-se da água cinzenta, que a esfriava. Os morros tinham perdido a sombra, todos desertavam da scena sem a magia da luz. Os horizontes pontudos enfiavam-se nas bojudas nuvens. Os rumores humanos, os echos em liberdade cresciam, apavoravam na quietação concentrada. Thereza apoiou-se em Philippe para descer vagarosamente do pateo da egreja. Na viela soturna os três moveram-se silenciosos até o portão da casa de Thereza.
Philippe e Jujú foram-se. Thereza subiu os degráos, que levavam ao alto. Quando chegou em cima, olhou o mundo. Uma grande audácia a inspirava. Sentia-se capaz de subjugar o universo. Philippe era o ordenador, o architecto do seu ser.