IV
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O sortilegio sexual exercia o seu encanto em Philippe. A primeira impressão, que recebeu de Thereza, foi a da magia physica. Esta o incorporara ao ser feminino, que nas formas ardentes, moveis, no magnetismo do sangue, da luz e da côr, na emanação dos odores, lhe completariam, na profunda naturalidade, as ânsias do instincto. As palavras vibrantes da mulher, arremessadas intempestivas no primeiro encontro, agitavam-lhe o pensamento. Thereza o commovera pela sua ansiedade de libertação e sua sede de infinito. Este violento transporte do desejo, da volúpia e da angustia moral despertou em Philippe a visão retrospectiva da sua vida, manancial de forças intimas, que se accumularam para uma finalidade ainda imprecisa. O meio familiar era numa pequena casa das Aguas-Ferreas, no arredio largo do Boticário, puro e delicioso artificio antigo, inverosimil com os sobradinhos ornados de azulejos coloniaes, uma quinta de cada lado, a amendoeira e a mangueira ao centro. Quando Philippe ahi penetrava, tudo o que era prazer exterior se transmudava em alegria espiritual. A sua mãe e a sua irmã viviam religiosamente. A casa era um santuário. O coração dos corações espraiava a luz sangüínea da fé e da esperança. A lâmpada ardente fazia refulgir no oratório os resplendores, os azues, os vermelhos, os brancos, as pratas e os ouros dos santos. As mulheres moviam-se mansamente por entre velhos moveis, desertavam durante o dia da casa, e á noite contavam uma a outra a actividade espiritual e caritativa, em que se empregavam. Philippe as entendia como anjos envelhecidos, mas sempre sustentados e movidos por cordões divinos e alegrava-se com a solidez desta ligadura mystica.
Copacabana defendia-se asperamente e por si mesma, sem auxilio humano, sem cáes, sem avenidas, de um mar bravio, fogoso, que a queria avassalar, quando Philippe na infância teve a revelação consciente do mundo exterior. A moradia era na única rua longa e deserta, respeitosamente distante das vagas. Philippe e a irmãsinha fugiam de casa e percorriam vagabundos a praia selvagem. Á tarde eram encontrados pelos cães e pelos criados dormindo debaixo das rasteiras pintangueiras, cosidos pelo sol. Philippe crescia na solidão e na liberdade. Quando pela primeira vez o trouxeram á cidade em um bonde puxado a burro, o menino enfureceu-se, viajou de olhos fechados, rancoroso. Á noite voltou febril, mysteriosamente doente desta privação dos vastos e livres horizontes do seu mar quotidiano e das luminosas areias farfalhantes, onde se enterrava, como um tatuhy, por entre as salgadas espumas chiadeiras. O pae de Philippe era outra fonte de libertação. A sua mocidade temperou-se nas ondas espirituaes e sentimentaes, que revolviam o Brasil e o renovavam. O joven Miranda, ao sahir da pubèrdade, foi envolvido na agitação intellectual transformadora da cultura e nos movimentos da abolição e da republica. A familia, embora residente no Rio ha longos annos (pois o avô de Miranda viera do Norte para o Supremo Tribunal de Justiça) mandou o estudante fazer o seu curso jurídico no Recife. Arrebatado bruscamente para a vida acadêmica, desconfortada, bohemia, que lhe era tão extranha, Miranda reagiu contra a melancolia pela imaginação da intelligencia e peja força da sympathia humana.
Por aquelles tempos três movimentos libertários coincidiram no Recife. Nenhuma cidade brasileira teve tal privilegio. O paiz inteiro estava agitado pela abolição e pela aspiração republicana. A estas duas correntes políticas e sentimentaes veiu juntar-se no Recife a emancipação espiritual. Miranda adolescente foi abolicionista, republicano e monista. Era a libertação integral. As idéas tornaram-se sentimentos e o estudante attingiu ao absoluto da paixão moral. Libertou escravos, acoutou em sua pobre « republica » negros fugidos e os fez partir nas barcaças libertadoras. Conspirou contra a monarchia, escreveu pela republica. Venceu o terror religioso, negou o direito natural, comprehendeu a relatividade, que determina a evolução jurídica. Repetiu a these famosa de que só o monismo dá o verdadeiro conceito do direito. Recife chato, longo, com o pittoresco de rios e pontes, Recife de mar quebrado, de luar espectral, exhalava esses fogos fatuos da intelligencia, que percorriam o paiz e levavam aos recônditos obscuros phosphorescencias sublimes.
Miranda veiu, assim illuminado, para um logarejo da província do Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar como advogado e onde pregava as idéas da escola. Não tardou a derrocada da escravidão. O paiz queimava-se, purificava-se nessa voragem, que consumia a fortuna da velha sociedade, fundada sobre o escravo. Realizava-se a grande revolução, que por longos annos seria o chãos, em que elementos desencadeados dominariam diabolicamente pela força sobre a pobreza geral, criariam a submissão, a escravidão de todos. Miranda alegrou-se com a victoria do sentimento, que por cima de destroços assentava a liberdade sempre longínqua. Era o sacrifício fatal e necessário. O Império enlouquecera na decrepitude do imperante e no despotismo megalomanico do seu governo e facilitara a republica. Uma classe subsistia orgânica, viva, armada. Eliminou as outras, combalidas ou inorgânicas, e apossou-se do paiz. A aurora da republica foi a magia da mocidade de Miranda. Noivado. Miranda substituiu a gravata vermelha de propagandista pela gravata branca. No Rio era uma preamar de mocidade, que invadia tudo. Miranda foi dos ardentes. O seu enthusiasmo propagava a sua juventude chammejante por entre os velhos republicanos, hystericos ou finórios, idealistas e odientos. Viveu na intimidade da dictadura, açulou-a, purificou-a. Mais tarde foi o seu primeiro adversário e o seu primeiro preso. Miranda refugiou-se altivamente nos estudos, emquanto o paiz se afundava na servidão, flagellado indefinidamente por grupos militares e civis. Por entre esta desordem e apenas percebido pela mulher, ignorado dos filhos, Miranda morreu. Philippe cresceu reconstituindo aos poucos este pae seu desconhecido, que se lhe tornou uma divindade mysteriosa, a encarnação da liberdade, do enthusiasmo e do excesso da vida.
Areias soltas, vibrantes, dardej antes, areias compactas, humidas, salgadas, ventos assanhados, águas barulhentas, jactos espumantes, eram os extranhos companheiros dos jogos infantis de Philippe, de sua irmã e dos cachorros. Juntavam-se outros meninos da visinhança esparsa na praia, apenas revelada. Os pequeninos corpos nús pesavam na atmosphera incandescida. Uma menina trigueira, que refulgia ao sol, viva cabecinha de andorinha, corpo ouro e verde, alvoroçava as longínquas entranhas de Philippe. O banho pueril era nas bordas da praia, onde a água cobiçosa e vadia vinha inundal-os. Os corpos, submersos nas espumas, logo surgiam gotej antes na alegria dos risos, dos ventos, das ondas. Crescia o calor e a criançada recolhia, tangida pelas criadas. Philippe e a irmã, arrastando-se vagarosos, deixavam a praia miraculosa. A menina trigueira desapparecera. Philippe sentia-se abandonado. Fora a sua primeira attracção sexual consciente. Este amor infantil commovia a mãe de Philippe.
Isabel Corrêa de Sá e Miranda definhava na insondavel melancolia da viuvez. Casara-se impellida por um movimento de paixão e no casamento o seu temperamento amoroso expandiu-se violento, ebrio de ciúme, exclusivo e absoluto. Para o resto da vida a placidez e a indifferença. A velha raça mantinha fixa a estructura do organismo secco e solido. A physionomia adelgaçava-se na bocca e no nariz. O pescoço fino sustentava uma cabeça aérea, de onde desciam longos cabellos castanhos negros e de onde relampejavam nocturnos, doces, vivos olhos brasileiros. Morto Miranda, não sabia Isabel como viver. A sua dôr a isolara. A saudade sexual consumia a sua mocidade. O amor, a virtude, o pudor a confinavam na tristeza. A imagem do marido não se desprendia do seu pensamento e exaltava-lhe a angustia. Tornaram-se inseparáveis nessa vida irreal, subconsciente, que pouco a pouco se foi substituindo á relatividade enganadora e se transmudara em realidade transcendente. Miranda exercia a presença real no inteiro ser de Isabel. Elles se entretinham mysteriosamente, ella agia sob a direcção delle, a alma banhava-se nessa onda mystica da união infinita do homem e da mulher e o corpo em êxtase vibrava nos ineffaveis e imaginários espasmos da volúpia. E devagar, devagar, para melhor se entender com o amado, Isabel se foi servindo da doce cumplicidade da religião. Todo o ambiente doméstico se fez devoto. As crianças eram os anjos, que intercediam pelo pae e levavam ao paraíso as saudades da viuva. Ao anoitecer Isabel os fazia ajoelhar aos seus pés e elles repetiam os padre-nossos e as avemarias e confundiam o pae com Deus e a mãe com a Virgem Santíssima. E depois, ambos ao collo, Isabel lhes falava do pae sempre vivo e no desabafo amoroso interrogava curiosa Philippe sobre os seus amores com a menina trigueira, querendo que a chamma da paixão, que a inflammava, se fosse propagando nos filhos, pela eternidade. E Isabel aconchegava o menino, que ruminava os primeiros frutos da volúpia, como um maridinho, essência do outro, emquanto a menina Leonor mais criança, jazia nos círculos mal attingidos pelos desejos sexuaes.
No grande deserto nocturno a casa da viuva abria uma clareira de luzes differentes, luzes amarellas do petróleo da grande lâmpada do terraço, luzes opalinas da sala de jantar, luzes do azeite das lamparinas do oratório, que todas se fundiam no espaço esclarecido pela refracção do mar e das areias. Cessava qualquer communicação com a cidade. O ultimo bonde de burros passara. As casas longínquas fechavam-se umas ás outras. O movimento incessante do vento, das ondas, das enterradas pitangueiras, das escassas e ainda delgadas amendoeiras e malvaceas dos quintaes salteados, era o magnífico e salso silencio sob o céo estrellado. Nas noites mornas o terral propagava o fartum da maresia. Os que velavam nas casas emmudeciam nas suas scismas. A vida interior, de sonhos, de imaginações e anseios, expandia-sc na negrura. Em Copacabana, como em todo o universo, nada dormia. Ainda não era bem claro, já Philippe e Leonor, alvoroçados, com outras crianças, estavam no banho e correndo sobre a praia iam ao encontro das canoas de pescas, que se recolhiam com as redes, os puçás, arrebentando de peixes. Outras vezes a pescaria era na praia, a grande rede cercava o peixe, e o arrastão era puxado de cada ponta por filas de homens bronzeados, por entre o alarido da criançada. Ao chegar na areia os peixes debatiamse, espadanando os corpos, que brilhavam como prata idva, antes de arquejarem morrentes. Esses divertimentos infantis, que a natureza e a vida primitiva davam a Philippe, cessaram um dia, quando a viuva, estimulada selos médicos, transferiu a sua moradia da praia para a nontanha. A segunda infância de Philippe passou-se em Petropolis. Para o filho de Miranda, para o menino da livre Copacabana, a cidade allemanica da serra era a limitação. As avenidas regulares, os canaes, por onde escorrem as mofinas águas de um rio sedento, as pontes vermelhas, os chalets, as crianças louras faiscantes, davam o transporte deste mundo tropical para o mundo europeu. O que havia de brasileiro era o cheiro das magnolias ardentes, que arejavam livremente o espaço, e um céo alto, azul, longiquo, que no verão se peja de nuvens grossas e se desfaz em chuva violenta, invasora, alagando canaes, chalets, destruindo pontes westephalicas, moselicas, rhenanicas, numa gostosa desforra brasileira. Dentro destas montanhas o espirito de Philippe aspirava á libertação. Sua mãe afundava-se na religiosidade. No socego da pequena cidade, afastada dos divertimentos, que se esforçavam por interromper no verão a solidão montanheza, D. Isabel praticava a vida devota. As ânsias da viuva transfiguravam-se em fervor mystico. A sua existência exterior era marcada pelos deveres da fé e da caridade. A sua alma librava-se na força intima e possante da outra virtude, da esperança de ganhar o céo, redimir o marido adorado para renovarem nupcias celestes. A educação dos filhos foi entregue aos collegios religiosos. Emquanto Leonor ia se divertindo nos fáceis estudos e na brincadeira de conquistar cruzes, medalhas e cordões, Philippe retrahido, revoltado, cheio de pudor sexual, foi possuído da fúria intellectual. A angustia do conhecimento o perseguia. O que lhe ensinavam era restricto, defficiente. Philippe ignorava o que faltava, mas sentia que era preciso ir além, desvendar mais, enriquecer-se de noções exactas e infinitas. Os padres não percebiam a febre da intelligencia infantil, que a torna subitamente adolescente, e continuavam na indistincção rotineira a tratar igualmente alumnos desiguaes. Philippe entristecia nas proximidades da puberdade, quando a única válvula da sua expansão era a aprendizagem abstracta, que a mathematica inicial ou a geographia ou a historia lhe forneciam. Se lhe vinham idéas sexuaes, desejos impulsivos de amor, Philippe tudo afastava com horror, medroso do peccado, orgulhoso da sua pureza por entre os condiscipulos, viciados e bestificados na luxuria juvenil. A imaginação transbordava em sonhos e revoltas. Petropolis convidava a um mysticismo amável, que padres, frades e freiras entretinham docemente. Quando a gente da terra está só e os forasteiros se vão, redobra a devoção collectiva. A vida quotidiana é marcada pelo rythmo religioso. Missas matutinas na grande e alacre claridade, vésperas crepusculares, novenas nocturnas, confissões, festas de egrejas, milagres de frades santos, enchiam e exaltavam a existência devota. Na semana santa, no grande silencio mystico, as acácias se fazem quaresmas, as estradas, as avenidas estão manchadas de doloridas flores roxas, e o luar da grande lua empallidece a terra na infinita vigília da paixão. As almas ficavam impregnadas de poesia religiosa. Philippe vogava nessa atmosphera mystica e assim quando esperava a madrugada da resurreição e uma claridade branda entrava pelo seu quarto, o menino despertou e nos seus olhos vagos a facha de luz diaphna, que vinha da janella, invadia o quarto, separava as trevas, era o anjo, que, depois de haver libertado o Senhor do sepulcro, lhe apparecia com o rosto e as formas de uma menina trigueira para annunciar sorrindo o milagre promettido. Pouco a pouco Philippe se libertava deste torpor imaginativo. Na rebusca do conhecimento irrompia-se a desforra da revolta contra toda a austeridade dos professores, que restringiam a curiosidade intellectual do discípulo. Foi por essa época de melancolia sexual e angustia de saber, que Philippe, como outros, fez uma grande descoberta. Descobriu a machina. O espanto, que gerou a revelação, veiu dos primeiros automóveis, em que por acaso se fixou a attenção de Philippe. Não tinham elles ainda a forma synthetica, peculiar ao seu typo próprio, que hoje adquiriram. O automovei era o carro sem cavallos e talvez por isso mesmo mais surprehendente a sua mysteriosa machina, que subitamente eliminara, escamoteara os animaes. Philippe mecanizou tudo no seu espirito ardente. Intuitivamente procurou reduzir gentes e objectos a machinas, exaltou-se da dynamica dos movimentos e qualquer ponto de repouso de uma estática imaginaria era, para a sua ansiedade locomotora, um ponto de partida. Antes desta phase da mecânica generalizada, Philippe, quando iniciado no jogo do bilhar, esteve possuído do espirito geométrico. A sua imaginação armava com tudo o que via ou pensava, triângulos, círculos, figuras e desenhos no plano, em perpétuas carambolas, que eram singulares e descommunaes ideogrammas. Tal era o poder de abstracção de Philippe. Na phase mecânica procurava a ligação interior da machina, que punha em movimento cada objecto. Dahi a intuição de que tudo se ligava no Universo por causas, que determinavam a existência e as funcções dos seres. Os padres, seus professores, alarmavam-se com as suas indagações, que eram Índices do espirito que nega. Para Philippe o plano universal não podia ser a vontade de um ente extranho á matéria do Universo. A sua intelligencia não se acalmava nesta quietude de uma longínqua criação, quando tudo lhe parecia em perpetuo e inextinguivel transformação, e não comprehendia que os seres terminassem em um criador consciente, quando este criador seria fatalmente a criatura de outros, que se succediam ao infinito. Nenhuma luz lhe vinha do ensino dos padres para esse confuso e instinctivo determinismo. Praticamente Philippe ia percebendo que a mecânica dominava a vida em torno delle e o seu pendor era para os estudos mathematicos, fonte e explicação do grande segredo da mecânica universal. Os padres não se descuidaram de assignalar á viuva o perigo, que corria a orthodoxia no espirito de Philippe. Nenhuma decepção foi mais cruel para a devota. O seu filho estaria condemnado ao inferno, em cuja materialidade acreditava. Como já fosse o momento de dar uma direcção á vida do filho, D. Isabel resolveu mudar-se de Petropolis para a facilidade do curso acadêmico de Philippe no Rio. Instigada pelos padres e cumprindo o secreto desejo de dar ao filho a carreira do pae, D. Isabel induziu Philippe a estudar direito nessa faculdade, onde uma desforra espiritualista campeava depois da offensiva de libertação, que os estudos jurídicos tiveram. Assim Philippe renunciou á preparação technica, que a mecânica lhe revelou e seria a marca da época moderna. Foi esta base, que faltou sempre á sua cultura.
Na faculdade, o seu isolamento intellectual era grande. A maior parte dos condiscipulos seguia as idéas reaccionarias dos professores. Voltava-se á summa thomazina, ao direito natural, ás categorias moraes, á ontologia, aspirava-se o odor theologico. Philippe apartava-se desta corrente e pela abstracção comprehendia a relatividade do direito, que seria a relação entre os indivíduos na sociedade, como o espaço é a relação entre os corpos. Do simile biológico deduzia Philippe a evolução do direito. Eram remodeladas pela cultura as idéas-forças, que foram o enthusiasmo da mocidade de Miranda. Nesse momento, em que reappareciam, a tumultuosa massa dos jovens brasileiros não lhes prestava attenção, fascinada pela eclosão sportiva no paiz. Ninguém estudava, todos brincavam. Assim nos moços se transmudou em alegria a velha tristeza racial. A guerra européa veiu arrancar de sua perenne vadiação de corpo e espirito, a mocidade brasileira. Indifferente á servidão interna, aos furores do caudilismo, á depredação do paiz pelos dirigentes politicos, commoveu-se com a tragédia estrangeira. Foi então que no meio dos estudantes a acção de Philippe appareceu. A guerra não era para Philippe somente a luta dos imperialismos nacionaes e capitalistas, era o conflicto de duas estheticas, de duas philosophias, a competição de duas formas de cultura sempre oppostas durante séculos. A philosophia e a sciencia allemã, que vieram aos brasileiros na seducção das traducções francezas, haviam exercido grande attração nos espiritos ávidos de idéas raras e obscuras. A guerra veiu esclarecer a intelligencia e a sensibilidade brasileiras que se reintegraram na sua afunidade latina. O sentimento nacional revelou-se bruscamente em Philippe, que previa na victoria allemã a mutilação do Brasil, esboçada nos sonhos da conquista germânica, que se realizaria na absurda Allemanha Antarctica. O estudante inspirado tornou-se agitador patriota e universal. Emquanto agia a parte sentimental da população, aquella que a literatura, a sciencia e o enthusiasmo pela revolução franceza agitavam, os politicos brasileiros se retrahiam em seu circulo mediocre e longínquo, ciosos por ignorância e covardia da neutralidade do paiz na grande guerra, em que se jogava entre outros destinos, o do Brasil. Um homem político sahiu desta posição extravagante. Pelo seu inflammado verbo romântico, pela sua dialética de advogado liberal, tornou-se glorioso e resgatou a dignidade nacional. O resto da gente política continuava na servidão e no embrutecimento sob o mando de um caudilho astuto, mediocre e feroz. Havia assim uma grande disparidade de nivel entre a intelligencia, a esthetica, a sabedoria dos advogados, dos engenheiros, dos artistas e dos médicos, fora da política, e esta em que se ostentava um retrocesso á barbaria do despotismo com a dupla face, que a caracteriza, a violência e a depredação. O chefe desses violentos succumbiu assassinado em um impulso de vingança facínora. Por esse mesmo tempo a Allemanha sahia da sua cultura para assassinar e depredar.
Aquelle caudilho morrera persuadido de que os seus assassinos foram os homens politicos, que o ampararam, quando cahiu esfaqueado pelas costas. Tal era a desconfiança, em que perpetuamente vivia e se defendia. A noite velou-se o cadáver na casa afundada na verdura das arvores excessivas. Os vultos, que subiam e desciam a collina, desfilavam nas sombras, cheios do pavor da tragédia. Dentro da casa agglomeraram-se politicos, funccionarios, capangas, capadocios, curiosos, mulheres, gentes de todas as classes e de todas as cores, espantados todos, desolados alguns e muitos alliviados do oppressor. O cadáver, espichado no meio do salão, accentuava rigidamente os traços do cacique indio, que o sangue ibero não apagara e não fundira nunca. As caras, qüe o espiavam, vinham de todos os ângulos do paiz e em quasi todas expandia-se a mestiçagem victoriosa. A maioria daquella gente provinha das mattas, das sensalas, da vasa dos portos ou das carnificinas das coxillas. Nordestinos triangulares, maranhenses lusos, bahianos cafusos, paulistas mamelucos, mineiros bisonhos, gaúchos castelhanos, todos brasileiros da plebe, que vem de escravidão em escravidão. Nas paredes, no chão, nos moveis, os trophéos do caudilho. Cabeças de onça de rubras guelas escancaradas, cabeças estúpidas de veados chifrudos, cascos pittorescos de tatus, gaviões empalhados, araras carnavalescas, antas em pé, porcos espinhos, couros, pennas, arcos, flechas, relhos, sellas, arreios, rebenques, taças, e suspensas, como imagens, as brancas caveiras de bois. Desses restos vinha um cheiro nauseabundo, o budúm dos negros e toda a catinga servil. Era o cheiro do cangaço, das degollas, das chacinas, de todas as cloacas da escravidão e da morte. Elle empesteava a mocidade de Philippe.
O sentimento de desprezo pela vida politica excitou ainda mais em Philippe a actividade libertaria. A guerra continuava angustiosa e o Brasil hesitante. A estupidez e a covardia dos politicos não attendiam á força sentimental e aos profundos interesses nacionaes, que obrigavam o paiz a salvar-se com os aluados. Quando mais tarde o Brasil, impellido pela brutalidade do ataque da Allemanha, foi forçado a participar da guerra, revelou-se a insufficiencia da organização brasileira, cuja diminuta contribuição se annulou em uma tragédia pestifera. Falhara mais uma vez o espirito nacional com desespero dos enthusiastas, que criaram para o Brasil uma situação incomparavel entre os povos da America do Sul. Philippe queria a contribuição do sangue. Era a finalidade da energia, que impellira o Brasil á guerra. Alistou-se para partir. Mas os sensiveis generaes e os politicos não permittiram que as mães brasileiras chorassem os seus filhos. Ficou victoriosa esta piedade, emquanto os sangues de outros homens, o sacrifício de outras mocidades, defendiam a integridade do Brasil da conquista allemã. Com a victoria dos aluados o Brasil começou a participar do ambiente de nacionalismo, que inflammou o mundo inteiro. Uma soberba aspiração de criar e de expandir-se agitou a mocidade, que a vida sportiva tirava do marasmo. A consciência nacional, que procurava affirmar-se na libertação de um passado inútil e de uma actualidade mesquinha e mofina, não se podia desenvolver em toda a plenitude. Era entravada pela retrogada machina politica, explorada por homens incultos e infames. Era preciso destruir a machina. Philippe tornou-se integralmente revolucionário. O espirito revolucionário é o que não se conforma, não se adapta, está em permanente ânsia de renovação e de progresso. É dynamico e fecundo. Agita e cria. O povo sem espirito revolucionário é um povo estratificado, morto. Toda a lei de progressão é uma actividade revolucionaria contra uma ordem de cousas, que pretende se perpetuar e impedir o surto do espirito. Na ordem politica brasileira a revolução, que traz em si aquella virtude do seu dynamismo espiritual, era indispensável e devia ser permanente, como reacção contra o torpe marasmo da servidão, em que os homens cahiram, flagellados por um poder, que os explora. Para Philippe nenhuma objecção a esta doutrina prevalecia. A da legitimidade do governo era fictícia. No Brasil não ha governo legitimo. Todo o governo é uma usurpação. Para haver legitimidade do governo representativo seria preciso haver eleições legitimas. No Brasil o eleitorado é artificial e as eleições são simulacros. Só ha governos de facto, que não se podem mascarar como governos de direito, legitimos, legaes, representativos. O que ha é um grupo de indivíduos, que se apoderou da administração publica e a explora para os seus interesses. Estes indivíduos podem ser expulsos do poder, sem que nenhuma legitimidade seja offendida, porque são usurpadores, tolerados pela força armada. No Brasil só ha o governo que o exercito e a marinha permittem, porque estas são as únicas classes activas e armadas, que podem modificar as instituições sem embaraço de outras classes, que não estão formadas, não existem como organismos conscientes, fortes, para manter a sociedade num equilíbrio de grupos de forças equiparadas. Por isso o principal objectivo dos governos é o apoio das classes armadas, ora estimulando-lhes a obediência, a passividade, ora amedrontando-as com a responsabilidade da anarchia revolucionaria, ora beneficiando, com gratificações, promoções, commissões, os chefes militares e os officiaes. Criam-se os interesses, estabelece-se a solidariedade em nome da ordem, e os governos espojam-se folgadamente no despotismo. Á objecção de que a ordem é a base social e que attentar contra ella é um crime, Philippe respondia que este mysticismo da ordem era ideologia, como o mysticismo da liberdade absoluta. A ordem é da essência da vida. Não ha coexistência sem ordem. Se uma perturbação surge, é sempre passageira na infinidade do tempo. Tudo tende ao equilíbrio. O que chamam desordem é uma abstracção sem valor lógico. No sentido absoluto a ordem é o rythmo do Universo, a sua fatalidade. Contra a ordem do despotismo e da escravidão, a revolta permanente e criadora. Á objecção de que a revolução prejudica o Brasil, Philippe respondia que seria a redempção da miséria moral, em que governos corruptos têm afundado a nação. A desgraça do Brasil estava na subserviência, na vassalagem, no despotismo, no roubo, na corrupção desenvolvida pelos governos e pela casta dos politicos, apoiada pelos militares. A revolução era necessária como disciplina moral, como surto da personalidade. Ou a revolução permanente, ou a estagnação na podridão.
Estas idéas políticas de Philippe impunham-lhe afastar-se de qualquer cooperação com a administração e combater o governo activamente. Já era advogado, quando explodiu a revolução. Trabalhou por ella, soffreu por ella, preso como um dos propagandistas. Solto, continuou impávido a defender os revolucionários nos intrincados e inúteis processos, armados por uma dictadura hypocrita. O seu espirito profundo desdenhava toda a argumentação ociosa em torno do facto transcendente, que era a própria revolução. E se lhe perguntavam quê ideal tinha a revolução, qual o seu programma, Philippe sorria desse espirito inferior, que necessita de explicações, que não percebe secretamente as cousas e as razões dellas. Como se uma revolução precisasse de ser justificada, como se ella não estivesse justificada pelo facto mesmo de existir, de ser, como se houvesse causas, motivos, finalidades apparentes mais poderosas para determinar e justificar as revoluções, do que o próprio movimento, acto dynamico de grupos nacionaes em conflicto, como se todo o sentimento, que move massas humanas não fosse a transformação de uma idéa, que se faz força. Philippe não pedia á revolução o seu programma, estudava, attento, apaixonado, as suas causas remotas e profundas, o ambiente em que estava agindo. Só assim a politica poderia entender os problemas, que a revolução collocou e cuja resolução impoz violentamente.
O homem não é somente o animal político. É principalmente o animal metaphysico. O espirito humano tem a necessidade imperiosa de ligar os effeitos ás causas e dessa disciplina gera-se o sentimento transcendente da infinita unidade do Todo. Philippe procurava dar á sua vida este sentido universal com a percepção precisa de que a tragédia da existência está nas relações do espirito com o Universo. Que é o Universo? A sciencia não o explica. Decompõe, fragmenta, analysa-o em suas partes, em seus phenomenos, mas não o conhece na sua unidade. A philosophia vem interpretar o mysterio. Subjuga-o pela lógica, pelo raciocínio e imagina. Imaginar é a funcção essencial do espirito humano. Philippe buscou, ansioso, em todos os systemas, em todas as religiões, a explicação desse Universo absorvente e intangível. Só encontrou imagens. Philippe repelliu este exclusivo conceito espectacular. O Universo não é um espectaculo. É uma integração. A suprema aspiração do espirito humano é a fusão no Todo, realisada pela mystica da religião, que tudo une em Deus, pela philosophia, que comprehende o Universo como una inconsciente successão de formas, que se multiplicam, se dispersam e revivem, e pela magia da arte, que, nas sensações da forma, da côr, da luz e do som, dá o transporte da illusão universal. Philippe ignorava o Amor.