XVI A Viagem Maravilhosa · Capítulo 16 de 17
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XVI

XVI

A roupa kaki de Philippe affrontava o calor, no trem cheio de poeira vermelha, esquentada pelo sol matinal. Os sangüíneos Americanos não suavam nos ternos de casimira. Em todos os bancos, de dentro dos guarda-pós e das roupas encardidas de terra roxa, vociferavam-se protestos em brados caipiras e carcamanos contra o calor e o pó. Os Americanos, indifferentes ao irremediável, fumavam cachimbos, espalhando o cheiro doce dos seus tabacos por entre os odores fuliginosos da fumaça da locomotiva e acompanhavam a porfia da estrada de rodagem com a estrada de ferro, cortando ambas, fachas parallelas, largas, infinitas, no barro vermelho, coberto de pastagem rasteira, ou de capoeiras revigoradas pelas chuvas de novembro. As visões exteriores passavam desconnexas para Philippe que, concentrado em Thereza, ressuscitava e construía immensos instantes vividos e por viver. Em Jundiahy a fumaça da machina cessou. Sahira-se do carvão para a electricidade. Os Americanos arrastavam Philippe a uma conversa technica de tracção, cachoeiras, petróleo, e os três empenharam-se em conjecturas de aproveitamento das forças naturaes daquella região. Outros passageiros davam opiniões, indicavam cascatas desconhecidas, lençóes petrolíferos a explorar, florestas de eucalyptos de rendimento fabuloso. Rapidamente, em palavras e imaginações, toda a energia da terra se movimentava para criar a civilização e a riqueza. Os Americanos excitavam-se e tomavam em seus cadernos notas das indicações, que ouviam e que talvez um dia lhes fossem proveitosas. A ganância desencadeou-lhes o bom humor e logo se familiarizaram com os passageiros e proseguiram, entre pilhérias, um cerrado inquérito econômico. Nas redondezas de Campinas os velhos cafezaes suggeriram vastas dissertações sobre café, colheitas, alta e baixa, valorização. Rompeu-se entre os brasileiros uma vehemente discussão sobre a intervenção do governo na defesa do café e na extincção da broca. Os Americanos, calados, sorriam attentos ao tumulto das palavras que se batiam. Depois de Campinas e do almoço, em que o tutu de feijão e o lombo de porco fartaram as fornes rústicas daquelles homens pesados e curtidos, veiu, com os cigarros de palha fumegando, o somno na sesta quente. Os Americanos dormitavam com os cachimbos mal accesos e as pernas levantadas sobre o espaldar do banco fronteiro. Philippe cochilava, incapaz de ler e de conversar. De vez em quando espertava e olhava as massas das planta; ções, os volumes dos morros carregados de cafezaes escuros, os capões nos campos cheios do gado estrangeiro de cara branca ou manchado de preto e branco, de mistura com os caracús nacionaes. Caminhões correndo nas estradas, tractores arando a terra desbravada. O Piracicaba apparecia, correntio, volumoso, para refrescar os olhos ardidos de terra roxa escandescida. As estações succediam-se mais unidas, á beira das fazendas. O Mogy-Guassú apresenta-se para substituir o Piracicaba. A terra sobe. Tapuya. Vastos horizontes. Dez legoas dè redondeza mostram-se desçam padas. São Simão, Cravinhos, Guatapará, São Martinho. A energia do homem transformadora. Velhas mattas substituídas pela cultura. Cafezaes, cafezaes. O novo Brasil vence o terror. Café ilUmitado. Villa Japoneza. Palhoças, arrozaes. Puerilidades. Rincão. Baldeação para a bitola estreita. Os pequenos vagões sacodem o somno dos jsjwssageiros e o trem continua pela margem esquerda do Mogy, rumando para Jaboticabal. Mais algumas paradas e Philippe, com os seus Americanos, desembarca. Tio Salvador está cercado do filho Men, do administrador, do capataz e de um fiscal. Aperta Philippe nos braços dominando-o de alguns centímetros. Saúda em inglez os Americanos Men apodera-se de Philippe e desembucha: — Até que afinal chegaste. Querias perder uma occasião como esta? Quasi fui te buscar Desconfiamos que fosse por causa de mulher, que não te resolvias a vir. Tia Isabel estava tiririca, êta! As cartas que escrevia ao velho mano, damnadas contra' ti. Mas agora tu estás aqui, não se fala mais no que passou. Que taes estes Americanos? — Ora, gente de negocio como quasi todos elles, respondeu Philippe caceteado. — Olho vivo com elles. Papae está louco por liquidar este negocio. Não sei o que tem elle, que anda enfarado e só fala em partir do Brasil. Mas eu não largo a fazenda senão com muita vantagem. Tudo será bem avaliado, ainda que demore um anno... Philippe espertou a attenção e ia repellir esta ameaça. O primo não o deixou falar e continuou: — Uma fazenda como Maracajá... Muito aproveitada, cafezaes novos, matta virgem, terra de padrão, gado bastante... Tio Salvador deu ordem de partir. O fiscal fez arrumar as bagagens no caminhão. Os outros automóveis desabalaram na frente. Philippe ia com o primo e o administrador. Os Americanos, com Salvador Corrêa de Sá. A poeira abafou-os na estrada e os carros separaram-se distanciando-se. Bateram cinco kilometros até penetrar no primeiro cafezal da fazenda. Do alto da coluna cultivada, via-se o carreador vermelho, por entre as filas verdes, estender-se longamente, subindo e descendo morros. Os automóveis desusaram pelo carreador, espadanando torrões de terra roxa, ennegrecida pela sombra da tarde. Mais quatro kilometros e a primeira colônia apparece, com a sua casaria unida, caiada e suja de lama vermelha. A cachorrada late e persegue esbaforida os automóveis. Colonos parados nas portas das casas. As ferramentas pelo chão. As cabras deitadas, agarradas ás paredes. A velocidade dos automóveis liberta os viajantes da desolação. A casa da fazenda surge dentro de um parque. Para Philippe, que não a via ha muito tempo, desde a morte da tia, mulher de Salvador, foi uma novidade a varanda, coberta de trepadeiras, dando um agasalho verde ao interior da vivenda. Desceu lesto do automóvel e, seguindo a vereda lateral do jardim, subiu pela escada, que dava no pórtico da entrada da casa. Dahi olhou o parque, talhado á ingleza, que se estendia por entre arvores poderosas e compridas até os cafezaes, que desciam do morro e, ao lado da estrada, que ligava Jaboticabal a Ribeirão Preto. Ficou só, emquanto o primo e o administrador entravam na casa para as providencias da hospedagem. Philippe imaginou que Thereza vinha ao seu encontro pelo meio daquelle parque, de linhas estrangeiras, nos campos do Brasil.

Durante o tempo que elle viajara, Ritinha tinha levado a Thereza a primeira carta de Philippe. Foi depois do almoço. Tudo arrenbentava de calor e, no mirante de Thereza, ainda não chegara a brisa, que agitaria o mar liso, duro, faiscante, e as palmeiras extaticas. Thereza, sem pejo, abriu deante de Ritinha a carta. Ritinha sentou-se no chão, de costas para ella, espreitando se apparecia alguém. Emquanto lia a carta, Thereza, desesperada, soluçava engolindo o choro. Depois beijou as ultimas palavras de Philippe e apertou na mão ardente as folhas de papel. Ritinha ergueu-se de um salto, escondeu Thereza. Tinha visto Balbina espiando de uma janella. A negra, vendo-se percebida, èscondeu-se.

De roupas frescas, de branco ou de brim pardo, jantavam no fim do dia misturadas as luzes electricas aos clarões rubros do longo poente, que enchiam a sala. Salvador de Sá, á cabeceira, entre os dois Americanos, dominava todos. A dura cabelleira cinzenta rastejando sobre o rosto moreno, desbarbado, cavado. Os olhos ainda vivos, desarmados, envoltos em cornea amarella, icterica. Os pulsos grossos ligando mãos enormes, cabelludas, que seguiam o rythmo moroso da voz forte. Lábios pesados avolumavam os sons das palavras setenciosas e mandonas. O seu tronco largo e musculoso não se inclinava para falar com os Americanos o inglez, que bebera muito joven em collegios do sul da Inglaterra. Os Americanos lhe respondiam por cortezia, mas preferiam exprimir-se na lingua, que fabricaram em São Paulo, e que todos entendiam melhor. Salvador reagiu. — A minha educação nà Europa só fez exarcebar o meu patriotismo. Não supporto a desnacionalização do paiz. Sinto-me vencido. Prefiro retirar-me. — Será a volta á Europa, papae... cortou sarcástico Men. A voz, com que Salvador replicou, tornou-se mais cavernosa. — Volta? Não sei, o que quero é não assistir á dura degradação, em que vamos. O estrangeiro apossa-se de tudo. Philippe ouvia espantado as explosões patrióticas deste tio incoherente, que por sua vez vendia a fazenda a estrangeiros. O espirito do negocio dominava os paulistas. Por interesse elles iam cedendo tudo. As suas emprezas, as suas fazendas. Não era em São Paulo que estava a velha medula do que foi a antiga nacionalidade brasileira. Outra nacionalidade ia se formando de novas forças econômicas, de novas combinações de sangue. Salvador de Sá exhibia o seu nacionalismo, comendo pausadamente de pratos essencialmente brasileiros. Eram o tutu, o cuscús paulista, o lombo de porco, o macuco e os legumes taioba, tayá, mangerico, mandioca, aipim. Os Americanos o acompanhavam alegres, festejando as comidas, algumas extranhas e nunca provadas. O administrador soturno, caipira, desprezava os pratos nacionaes, e fartava-se de milho americano, de presunto, de conservas e, á hora da sobremesa, quando Salvador e os estrangeiros se mettiam na goiabada e no pudim de mandioca puba, o administrador regalava-se com as frias peras da Califórnia. Salvador recommendou as frutas da fazenda, laranjas e abacaxis. O administrador, sorrateiro, atacou as uvas hespanholas e as maçãs. Tomaram café' forte e quente e vieram fumar na varanda. As luzes das lâmpadas clareavam o jardim e um tapete verde-lacteo estendia-se docemente aos pés da casa. Besouros enormes vinham da noite para os focos dos candelabros. Voavam e cahiam pesados sobre as mesas. Iam-se amontoando em tumulto surdo e empurrando-se até se precipitarem no chão. As conversas sobre lavoura, colonização, espreguiçavam-se e apertavam o somno dos viajantes. Deitado em uma rede, Philippe cochilava, fatigado do esforço physico desses dias e do abalo da saudade. Os Americanos já não podiam mais com as dissertações de Salvador de Sá. Quanto discurso, quanta theoria cacete, para afinal vender a fazenda e ir para longe vegetar na ociosidade estrangeira. Vieram os refrescos. Salvador fez a apologia do que era nacional. Os Americanos desta vez preferiram o whisky. A America tinha sede de álcool. O administrador os acompanhou regaladamente. Havia, nessa vassalagem aos gostos americanos, a intenção de se insinuar na estima daquelles, que seriam os novos patrões. Men acordou Philippe e empurróu-lhe um copo de ovaia. Salvador poz-se de pé. — Boa-noite. Fechem as janellas por causa dos pernilongos e dos morcegos. O quarto de Philippe dava para o nascente. De madrugada, a cantoria dos passarinhos era apoiada agudamente pelo mugido da bezerrada faminta. Philippe veiu á janella. Tudo limpo na atmosphera quasi sertaneja. As cores ainda não comidas pelo sol desforravam-se nos horizontes em fachas e volumes pesados, vermelhos, verdes, alaranjados, roxos. O verde dos vegetaes era espesso e soberano. O trabalho começava. Os vaqueiros e os camaradas labutavam nos curraes e no terreiro. O sol trepou depressa sobre as montanhas. As cores debandaram. As que não puderam fugir começaram a dansar voláteis, transparentes, nos objectos cheios de luz. '•"• Á hora do café, todos estavam na sala de jantar, promptos para a visita da fazenda. Os Americanos surgiram picados de mosquitos e pernilongos. Os outros, que se tinham defendido com os mosquiteiros, zombaram. Os Americanos não sahiam do bom humor e do optímismo. No intimo, elles sabiam que venceriam todos os mosquitos do mundo e que nada resiste á energia americana. O que elles queriam era realizar o negocio. Depois, mosquitos, broca, tutu, ovaiá, que esperassem por elles para a eliminação, para a americanização universal. No primeiro automóvel, poderoso e grande, Salvador, os Americanos e, junto do chauffeur, o administrador, para as informações. Atraz, em um ford, guiado por Men, ia Philippe ao seu lado. Foram deixando a sede, onde já estacionavam colonos e camaradas á porta do escriptorio. Cavallos e bestas arreados amarrados na cerca do curral. Cheirava a vacca, a lama e a excremento. Os automóveis desceram a estrada, passaram pelo armazém. Colonas de lenços vistosos amarrados á cabeça para protegel-as da terra, que se entranha nos cabellos, crianças immundas, sarapintadas de vermelhão, colonos de chapeos de feltro e calçados ferrados, camaradas escuros, mamelucos e cafusos, em mangas de camisas, descalços, a comprar, a beber, a fumar. Saudaram o patrão e os companheiros. Quando Philippe passou por aquella gente, reflectiu sobre o regimen do trabalho nas fazendas. Volvendo-se para Men exprimiu-se em voz alta: — Olha, tu me disseste hontem que vaes abrir fazenda no norte do Paraná. Muito bem. Devias estabelecer logo com os teus trabalhadores uma cooperativa. Tu és um lavrador moderno. És bem da época da machina. Todos os melhoramentos da fazenda são devidos a ti, ao teu espirito industrial, pratico, scientifico. Porque não levas mais longe a tua orientação e não organizas o trabalho, segundo as condições actuaes da industria? Porque não industrializas a lavoura? Não se trata de uma reivindicação proletária, de um vago sentimentalismo. É uma solução intelligente no interesse da producção. Tu sabes que, por ora, aqui no Brasil, a única formula proveitosa é a alliança do capital e do trabalho em uma associação rendosa. O trabalhador deve ser interessado na fazenda. É um coproprietario. Reflecte, Men. Serás um iniciador. Renuncia ás idéas tradicionaes de teu pae. Elle é ainda o typo do antigo fazendeiro. Está inactual, como toda a sua classe. No dia, em que o trabalho agrícola estiver organizado, cessará a expoliação do colono, do trabalhador, pelo fazendeiro, e a exploração do fazendeiro pelo Estado. Todos são trabalhadores e donos do próprio destino e da nação. Men sacudiu a cabeça, coberta com um largo sombreiro de feltro cinzento, mordeu a bocca para reflectir e tocou o ford pelo carreador do cafezal, em que penetraram. Nenhuma objecção podia apresentar ao que lhe dizia Philippe. Foi diminuindo a marcha do ford, ao se avisinharem do automóvel de Salvador, parado no alto do morro. Salvador e os companheiros tinham descido do carro, quando Men e Philippe os alcançaram. Cafezaes compactos, ordenados e infinitos, sobem e deseem os morros, escalando-os em filas verticaes. Os horizontes perdem-se em toda a redondeza no vago ilUmitado. Os carreadores rubros cortam as massas verdes em rectas, que correm parallelas e se cruzam em perpendiculares.

A luz.derrama-se alegre nas folhas dos cafeeiros e todos os cafezaes scintillam... No fundo longínquo do carreador sanguineo, o verde e o roxo fundem-se nos arvoredos folhudos. O silencio subia da vastidão e paralyzava o movimento. Nenhum rumor do trabalho, que se fazia, invisível, quieto, no segredo vegetal. Salvador mostrava aos Americanos o tamanho das arvores, que já estavam abotoadas depois da ultima florada. Nem todos os cafezaes, que se descortinavam eram da sua fazenda. Mas aquelle, onde estavam, era o seu orgulho, cafezal plantado sob as suas vistas e que crescera farto e rendoso. Explicou a sua technica de cultura, sustentado pelo administrador. Teve uma pequena divergência com o filho sobre as vantagens da poda por este contestada. Arrancou um galho do cafeeiro e contou os grãos de uma pequena haste. Quarenta. Esplendor. Não havia café, como aquelle, na região. Café novo, adubado, livre da broca, ainda longe nas fazendas velhas de Campinas. Retomaram os automóveis. Philippe absorvia-se na luz, nas cores, nas formas, nos movimentos. Esqueciase do valor commercial da plantação e da technica da lavoura. Imaginou que Thereza se deslumbraria naquella immensidade verde, ella que aspirava ao infinito. E sorriu para si mesmo, pensando na exclamação de Radagasio de que aquillo era « um maravilhoso oceano de café ». Rumaram para as colônias. Passaram por uma terra, que os colonos e camaradas preparavam para as plantações. Novembro, mez do trabalho intenso depois da colheita, lavra-se a terra, planta-se café, milho, feijão. Mez da colonização, entram e saem trabalhadores. Os que estavam cavando de enxada eram bahianos e gente do Nordeste. Os automóveis estacionaram. Salvador fez algumas perguntas sobre o serviço. — Philippe perguntou a um cabra: — De onde você é? A resposta foi prompta.

— Sou do Brasil. — Como? — Da Bahia. Lá é que é o Brasil. De lá para riba. Aqui não é mais Brasil. Ao lado deste cabra, um homem esquelético, côr de azeitona, de cabello escorrido, olhava com os olhos encarniçados. Era cearense. Viera por terra do sertão do Cariry até a Bahia, subira com a leva de camaradas bahianos pelo São Francisco até Pirapora e de lá, no trem, até á Barra do Pirahy, para São Paulo. Viera com a familia para se estabelecer, emquanto não chovesse no Ceará. Trouxera o pae de noventa annos, para não morrer de fome. Trouxera a mulher e dez filhos. Mas estavam desilludidos. Nada ganhavam, deviam tudo e o que recebiam era para o armazém. Miséria. Saudades do sertão. Desesperados na terra fria. Ceará, Ceará. Calor. Chuva. Pastos alegres. Campos fartos. Carnaubeiras como custodias santas. Vaquejadas, despotismo de gado. Leite, requeijão. E a secca? Fome, morre o gado, morrem os meninos. Degollam-se os santos. Queimam os pastos. Fugiu a água. Secca, secca. Retirantes. Amazonas, Acre. Seringaes, maleitas. Outros, alli interiçados nas terras frias. As nuvens engrossam no Nordeste. Esperança nas almas cearenses, espalhadas na terra. Chuva. Alegria. Toca a voltar? Quantos não voltam nunca mais! O capataz, que commandava os camaradas bahianos e era o empreiteiro daquelle serviço, mandou que o homem lamuriento se calasse. Af firmou que a sua gente da Bahia não era como aquelles cearenses enroscados de frio. Era sacudida e estava satisfeita. Tinham vindo pela segunda vez aquella fazenda. Viajavam escoteiros, sem mulheres. Vinham capinar, limpar cafezaes, preparar o terreno para o plantio. Ganhavam quatro mil e quinhentos por dia, recebendo o empreiteiro cinco mil reis da fazenda por cada homem. Findo o trabalho da empreitada, voltavam ás suas terras para tornar no anno seguinte. O bando era alegre, havia muitos cantadores e tocadores de violão. Os

Americanos quizeram que uma noite cantassem para elles. Os bahianos emproaram-se, vaidosos, e entraram a cantar, cavando a terra. O cearense, enraivado, disposto a brigar, soltou da bocca desdentada o seu desespero. « Vou-me embora, vou-me embora pro o sertão do Cariry, vou buscar quem bem me ama... a Maria Patury. » Salvador mandou que os automóveis continuassem. A colônia apresentou-se com a sua enfiada de casas brancas, de longe e que iam mostrando as paredes barrentas, quando se approximaram. O administrador dizia que não deviam parar, porque já era tarde. Os Americanos insistiram em visitar aquellas habitações. Pararam e Philippe se uniu aos compradores da fazenda para examinar as vivendas. Nas portas estavam agglomerados os colonos com as suas famílias. Quasi todos recemchegados da Itália. Era gente desgraçada pela guerra e que emigrara cheia de esperança. Foram abrigados alli em casas de barro vermelho, pisando a trágica terra roxa. Depois da desoladora inspecção, os automóveis proseguiram por entre a algazarra do mulherio e dos cachorros. 0 administrador propoz, como uma diversão, que fossem ver o terreiro, as tulhas e as machinas. Philippe achou que era demais por aquella manhã. Salvador também preferiu que se recolhessem á casa. O sol ia alto, seccando tudo e os atordoando. — Veja, seu Men, o que eu lhe dizia, commentou Philippe no silencio, em que se afundaram. Os Americanos ficaram descontentes com estes alojamentos. Vão mudar tudo isto. Não são rotineiros como esses inglezes fazendeiros de café, que seguem o péssimo systema feudal dos brasileiros. Aproveite a lição, seu Men, e estabeleça em sua nova fazenda a cooperativa. É um provisório, eu sei. Mas faça antes que venha a revolução, que não lhe dê tempo para nada. Entraram em casa, immundos de pó vermelho. Banharam-se, uns na piscina, outros no chuveiro. Salvador de

Sá no seu banheiro de água quente perfumada. Mudaram-se e almoçaram curtindo surdamente as tumultuosas sensações da manhã. Depois do almoço os Americanos puzeramse a conversar á parte. Salvador, combalido e inquieto, estirara-se na rede. Men e o administrador desappareceram Philippe, debruçado na varanda, enchia-sevde sol e esperava o correio. A fazenda adormecia. Nas grandes arvores can- • tava-se tristemente fogo-pagô, fogo-pagô. O administrador veiu com a correspondência. Carta de Thereza. No quarto, Philippe lia a galope, saltando, adivinhando,''! tornando a ler, angustiado, alegre, mortificado. « Meu idolatrado Amor, meu Bem supremo e único. Que saudades das horas sublimes e bellas, dos nossos êxtases, de todo o nosso encanto. A tua pobre Amante sente a falta desesperada do seu adorado companheiro. Sinto-me desamparada e tão só. Como foram divinos os instantes do nosso amor. Que doce suavidade, que reconforto ineffavel. Como eu'te adoro! Meu divino Amor, é dura, muito dura, esta absurda separação. Precisamos nos libertar o mais breve possível de toda esta miséria. Quero-te forte, enérgico. Esperança eterna, meu sublime Amante. Nós venceremos e tudo será a belleza immortal. Quero viver ao teu lado, agarrada a ti, muito tua, na incompa-: ravel unidade. Como me sinto feliz de te pertencer, de ser tua companheira, tua discípula, tua coisa. É um deslumbramento. Como tudo se torna sombrio, melancólico, miserável, separada do meu Deus. Hontem, quando te deixei e me vi tão só, tive ímpetos de voltar, de não te abandonar mais. Por duas vezes voltei... e foi chorando que entrei no automóvel. Foi duro, muito triste. Em casa, não sahi do meu quarto, puz-me a pensar, a pensar, a te seguir, a te adorar. Chorei, chorei desesperadamente até pegar no somno, que me levou para a inconsciencia. Mas tu estavas eternamente presente e vigilante. Sonhei comtigo o tempo todo... Estávamos longe, no meio do oceano. Tu me acariciavas e tu dizias á tua Thereza palavras lindas e profundas t nos abysmavamos na magia da paixão... Meu Amor, neste momento são seis e meia, ainda estás viajando. Meu pobre adorado, não te quero triste e desanimado. Coragem, muita coragem. Tu me tens para a eternidade, fiel e pura. Estou prômpta para partir comtigo, ou morrermos juntos, sempre unidos. Estás longe, meu Amor, e como te desejo! 0 meu culto por ti é sublime. Venero-te pela tua paixão incomparavel de belleza, poesia e pureza. Como tu me commoves! Tu és único. O meu amor é soberano e só elle existe. Sinto-me feliz, mystica, nesta disciplina interior de um grande pensamento. Sou tua em tudo, amante e discípula. Fundir-me em ti, devorar-te de beijos, acariciar-te, sorrir para ti, ver a tua imagem, contemplar-te, beijar-te longamente, deliciosamente e arrebatar-te na volúpia sublime, em que tudo se esváe no goso infinito. Haverá maior encanto? Oh! ser tua e tu seres meu na •• eternidade do amor immortaí! Que saudades infinitas de tantos dias bellos e transcendentes! Tu voltarás, tempo desejado, e tudo será o paraíso reconquistado. É com lagrimas de alegria, que te evoco na minha saudade. O teu incomparavel encanto me exalta. Todo o meu sangue gela. É uma volúpia extranha, muito doce, muito subtil. A saudade me tortura e me delicia. Sinto-me feliz em soffrer de tanto amar... Meu Amor, meu Amor, eu te quero, busco-te neste infinito e tudo é miragem. Tu estás aqui, eternamente deante de mim, em mim. Teus olhos mergulham nos meus. Oh! mystica união dos amantes immortaes! Oh! esperança eterna! Gloria!... Já tive o primeiro signal do telephone e agora eu te espero a todo o instante... Como palpita o coração de amor da tua adorada... Meu Amor, eu te ouvi. A tua voz era um encanto e todo o meu ser se exalta. Como é suave e doce a voz do meu amante! Como me sinto feliz, que gloria, que belleza! A minha alma está recolhida, cheia do teu amor sublime, o meu ser inteiro envolto mystícamente pelo canto da paixão no êxtase maravilhoso. Suprema força do amor, a tua ânsia de liberdade, a firmeza do teu caracter, a tua divina esperança. Exaltação. A tua companheira agarra-se a ti, dignai de toda esta belleza. Eu te venero e, na magia da paixão incomparavel, seremos um só para a eternidade... Agora eu choro, o meu soffrimento é grande, tão doloroso. Como tu soffres! A tua noite foi um martyrio e eu me desespero. Mas eu te sinto resoluto e sorrio e sinto-me immensamente feliz. A tua voz era linda, linda e muitíssimo firme. Meu divino, arrebata a tua amante de toda esta miséria.» Glorioso desse maior amor humano, torturado pelo desejo, desesperado de saudades, Philippe ficou recolhido a escrever a Thereza. Felizmente concluirá a carta, quando Men o veiu buscar. Os automóveis os esperavam para o passeio da tarde. Logo que deixaram a sede, tomaram pela estrada, dentro do campo. Abrazamento. Em baixo a terra sinistra, sangrenta, coberta de verde violento e sombrio, cortando em linhas rubras a immensidade da vegetação concentrada e rasteira. No alto o céo ingenuamente azul, de nuvens brancas e cândidas. O sol ia descendo alaranjado e alegre, já desarmado dos raios. A passarada, viajava em bandos. Siriemas de azas abertas velejavam correndo nos campos. Os automóveis foram encontrando o gado. As mascaras brancas e castanhas pararam extaticas, descobrindo olhos immensos, tristes, curiosos. 0 pello de bronze e cobre refulgia na taboa larga e Usa das costas. Os chifres curtos, as canellas finas agüentavam o volume dos quartos e dos cangotes. Camaradas os mantinham na disciplina. Dahi a pouco outro gado appareceu vivo, farejando a terra e o ar, tangido aos gritos dos campeiros, commandados pelo capataz. Eram caracús chifrudos, esgalhados, amarellos, que o sol dourava. Por entre elles, zebús de cabeças levantadas, corcóvas entumecidas, bois soberbos, elephanticos, brahamanicos. Juntaram-se nacionaes, inglezes e asiáticos. Passara-lhes o estupor. Entraram a batalhar e a correr. Os campeiros, desesperados, galopam para conter a debandada e o gado louco, estimulado pelos gritos humanos e pelos latidos da cachorrada, vae disparando pelo campo. Era hora de beber. Os automóveis apressaram-se e foram esperal-o no açude. Ahi já estavam, em silencio, garças, guarás, marrecas e gansos. Dentro da água verde espiavam capivaras. Com o barulho dos motores, as capivaras mergulharam, as garças e os guarás voaram para as arvores, os gansos e as marrecas berraram alarmados á beira da terra. Um lote de éguas, pageadas por garanhões, veiu beber. Mettiam os focinhos na água e a sorviam estrepitosamente. Pouco a pouco foi chegando vagaroso o gado, já contido o accesso de terror. Mascaras brancas, chifres esgalhados, corcóvas empinadas curvaram-se sobre a superfície verde-rubra, que lhes reflectia as extranhas imagens. Saciada a sede, veiu-lhes a alegria sexual. Cavallos e éguas, touros e vaccas praticaram com delicadeza o cerimonial erótico. Nos seus movimentos não havia a allucinada bestialidade humana. Na manhã seguinte, Salvador de Sá levou os Americanos e Philippe á casa das machinas. Foram a pé, passando pelos chiqueiros. Era um dos orgulhos da fazenda aquella criação de oldspots e yorkshire, puro sangue. Nos cercados, os tanques de água corrente e o chão de cimento. Porcos immensos, de pello branco, já tinto de terra roxa, arfavam dentro do toucinho espesso, das banhas fervendo de calor. Uma ninhada de porquinhos preto e branco grunhia irrequieta, enchafurdando-se na água turva. Os Americanos divertiram-se em falar inglez aos porcos. Chicago. Hot dog. Salvador ficou radiante com este successo. Na casa das machinas, Men triumphou. Era elle o animador do progresso industrial da fazenda. Aquellas machinas modernas de beneficiar e ensacar o café e as de descaroçar algodão foram introduzidas por elle, vencendo o espirito tímido do pae. Os Americanos examinaram os machinismos, louvaram as installações, mas já pensavam em introduzir outras machinas que melhorassem ainda mais o excellente café daquellas terras. Calcularam que, intensificando a producção, industrializando o seu prepara a fazenda daria lucros dobrados. Organização e machinisml para libertar a agricultura brasileira da rotina, em que definha, e dos perigos, que a ameaçam. Da casa das machinas tomaram os automóveis, que os levaram aos terreiros, onde se lavava o café. Naquella época estava tudo parado. Os vários planos, largos, horizontaes, calçados de tijolos, ligavam-se em declive moderado. Eram cercados e cortados em quadros por estreitas valas de cimento, por onde desce o café, que a água vae lavando. Café afunda, café boia. Não assistiram a esse jogo da água e do grão. Havia só a espera da vinda da colheita. O sol furioso estalava tijolos e cimento. Salvador receou pelos Americanos e os foi levando para os automóveis. Nos carreadores, por entre os cafezaes, corria a viração. Sempre o grande silencio, até que despontaram em um terreno aberto, onde tractores á gazolina aravam para plantação do algodão. Era uma tentativa annual de Men, cujas esperanças a lagarta reduzia. O combate entre o homem e o insecto proseguia tenaz. Men insistia e esperava dominar a praga. Salvador consentia neste capricho, emquanto não houvesse prejuízo. Já era muito não haver lucro. Os Americanos informavam-se do rendimento dos tractores e falavam dos gazogenios á lenha, que barateavam o combustível. Conheciam a cultura do algodão e examinavam com o administrador e Men a solução do problema. Os camaradas, que aravam, eram do São Francisco e do Nordeste. Ouviam aquella conversa e emquanto trabalhavam, um delles, odiento, resmungava, dentro da masca de fumo: — Qual, esta gente, de olho azul e estes paulistas è só pabulagem. Elles lá sabem o que é algodão? Terra aqui não serve. Onde está, nestas bandas, sertão secco, como o de Seridó? Cadê algodão moco? Para acabar lagarta uma boa defumação no algodoal e uma benzidura de um tio velho, negro sabido. Vae contando historia, paulista, lagarta te come. Deixa algodão para a nossa gente do sertão, fica com o teu café ou então te vale de laranja e banana.

A negra Balbina também praguejava: — Estas mulheres brancas pensam que me embaçam. Já descobri a marosca. O sujeito está para fora e aquella fuinha é a alcoviteira. Cara invocada, eu te castigo. As duas fecharam amizade, que é uma desgraça. Mas eu velo por Nhonhô e o pae do santo ha de me ajudar com uma mandinga, que acabe com esta damnação. Eixú! A espada de Ogun vae cortar toda esta cavillação. Thereza almoçava, quando Balbina lhe trouxe Lili. A negra veiu dengosa amimando a creança. — Venha, meu bemsinho, para junto da sua mamãe, ande, tome a benção e beija ella com gosto. Lili correu para Thereza. A estimulação de Balbina fezlhe transbordar os carinhos sempre violentos. Subiu ao collo de Thereza, abraçou-a com força, segurou-lhe as mãos, impediu-a de comer. Thereza ficou deliciada e não reflectiu sobre o que havia de extranho nesta invasão da criança, que nunca lhe apparecia á hora do almoço e que ultimamente estava mais seqüestrada pela preta. Naquelle momento a sua alegria maternal foi intensa. Na unidade da'emoção de sentir-se afagada pela criança e de dar um pouco da effusão do seu ser, refreada na separação de Philippe, não havia brecha para reflexões. Encantou-se com a figurinha de Lili, extasiou-se nos olhinhos vivos, cheirou-a, beijou-a, mordeu-a e transfigurava-se, quando a filha derreava-se nas suas pernas a rir com os dentinhos brancos e a bocca rosada, escancarada. — Sinhá está toda babada de satisfação, commentou com voz grave, nos beiços roxos, rugosos, a negra. Ha tanto tempo não vejo Sinhá rir. Ah! meu São Benedicto, não ha como amor de mãe... Não é, Sinhá? E a negra poz-se em attitude extatica, contemplativa, como orgulhosa de ter criado aquella alegria maternal. 280 A VIAGEM MARAVILHOSA.

Thereza ouviu o rumor das palavras de Balbina, mas não lhe prestou attenção. Proseguiu no seu encanto. Entreteve-se em dar gulodices á criança. Era contra o regimen. A negra não protestou. Assistiu condescendente e bondosa a essa desordem. Acabado o almoço, Thereza trouxe Lili para o jardim. A negra as acompanhara, ostentando grande contentamento. O sol offuscava os olhos sahidos da penumbra. Thereza correu carregando Lili para o mirante. Na sombra quente o seu corpo entrou a cheirar, como as flores e as plantas. Lili acalmou-se na modorra da luz e dos aromas. Espreguiçada no collo de Thereza, com as mãosinhas agarradas nos braços nús, escandecidos, que a agasalhavam, Lili foi-se enchendo de somno. Balbina não se poude mais conter e com uma voz quebrada falou a Thereza. — Eu queria pedir um favor grande a Sinhá... Não me leve a mal. Mas Sinhá é tão boa, que eu tomei coragem... Embatucou um pouco. Thereza esperou espantada o resto. A negra decidindo-se, continuou: — Eu peço a Sinhá o grande favor de me deixar sahir hoje á noite... Não se arrelie. É por causa de uma festa em casa de minha comadre, da Penha, dia dos annos do meu afilhado. Ella mandou me convidar. Eu scismei,' como ha de ser? Eu nunca saio á noite. A minha tarde de sahida ainda está longe... E quem vae ficar com Lili, de noite? Para de tarde, tem sempre a arrumadeira, mas de noite? Ahi é que é o difficil. Então eu fiz uma promessa para São Benedicto, para me dar uma idéa. E o santo, que não despreza os seus devotos, me r deu esta opinião delle. Sinhá me dá licença, eu deito Lili depois do jantar delia e saio. Á noite, Sinhá, que dorme sósinha no seu mundão de cama, traz Lili para dormir com ella e assim tudo se passa bem até de manhãsinha, quando esta sua negra chega de volta. Não precisa ninguém saber... Sinhá não fala com Nhonhô, por isso não tem que contar nada. Depois Nhonhô está no mundo da lua com os seus estudos...

«Sinhá é quem governa. Tudo o que Sinhá disser, é o que se deve fazer... Thereza achou isto muito singular. Hesitou em responder. Agradou-lhe a vassalagem da negra infame, alli submissa. Acreditou na força do seu prestigio. Imaginou uma noite inteira com a filhinha na sua cama. Era alguma cousa delia mesma, que lhe voltava. Pensou em Philippe tão longe, tão só. Elle não levaria a mal esta rápida desforra da maternidade. Ao contrario, ficaria contente sabendo que a filha a preferia ao pae. Era sempre uma victoria sua no amor de Lili, na vida domestica, sobre a própria negra. E para Philippe não era Thereza a imagem da victoria? A negra ficou um pouco confusa com o silencio de Thereza, embora percebesse no rosto, que se espraiava feliz, não ter irritado a patroa. Approximou-se mais de Lili. Encarou-a com vontade, bateu-lhe docemente nas nádegas descobertas. — Não é, minha sinhásinha? Tu vaes dormir com a tua mamãesinha na cama grande. Não diz nada a papae. Tu finge que dorme na tua cama, depois mamãe te leva e vocês duas vão brincar toda a noite. De manhãzinha eu trago umas bananas gostosas para as duas... Lili achou isso uma fantasia extraordinária. Espertou e segurou Thereza no pescoço. Imperiosa queria aquella maravilha, aquella novidade, aquella mentira. Thereza accedeu ao pedido da negra. As alegrias disparatadas as unificou na beatitude. A calmaria aggravou-se. Veiu a hora de deitar, Lili, que adormeceu no collo de Thereza. A negra a tomou com um carinho immenso nos braços e muito mansa a levou para o quarto. Agasalhou-a na caminha e, vendo-a socegada, ajoelhou-se no chão, abriu os braços, e murmurou: — Obrigada, Ogun, que não desamparou a sua negra na hora da difficuldade. São Jorge, louvado. São Cosme, louvado, Eixú, Aireré, tacurerê... Oh! minha noite santa...

Quando o dia acabou com grande custo e veiu a noite, Balbina continha o alvoroço do seu peito para as companheiras não desconfiarem. Vestiu-se com o seu vestido azul, escondeu no lenço as contas douradas, os collares de missanga, as argolas de coral e as pulseiras de contas de louça colorida. Deu pachorrenta, como sempre, de jantar a Lili, passeou-a no jardim, falando-lhe em segredo do que estava combinado para aquella noite. A menina ardia de soffreguidão e queria que a negra partisse, para a grande novidade começar sem muita demora. Balbina não se alterou. Cumpriu fielmente os costumes. E só á hora regimental deitou Lili. Esperou que a criança, sem somno, adormecesse. Lili percebeu que era indispensável dormir para se ver livre da negra. Fechou os olhos e fingiu-se adormecida. Balbina não quiz apurar a realidade. Contentou-se com a apparencia. Sorrateira, escapou-se do quarto e, sem passar pela cosinha e sem nada prevenir a Thereza, foi para o jardim. Radagasio ainda jantava. Thereza esperava no seu quarto que elle desembaraçasse a sala de jantar. Balbina desceu para o portão, dissimulando-se nas folhagens. Na rua estacou, receiosa da gente de Vieira e de toda a visinhança, que apparecia dependurada nas janellas. Moveu-se pesada, beirando o muro, de cabeça baixa, escondendo a cara das luzes impertinentes. Deu a volta da ladeira e não havendo mais janellas, de onde a vissem, Balbina olhou para a egreja e rezou uma avemaria de graças a Nossa Senhora da Gloria. No escuro enfeitou-se com o collar dourado e com as voltas de contas, poz argolas nas orelhas e pulseiras nos braços. A massa negra ficou illuminada com os reflexos dos metaes e colorida deücadamente com as missangas e as porcelanas. Balbina não tomou a direcção dos subúrbios. Qual festa na Penha! Tomou o bonde da Gávea. Quando passou no largo do Machado resmungou novamente uma ave-maria a Nossa Senhora da Gloria. Repetiu a reza na praia de Botafogo, deante da egreja. Na Lagoa, ella entrara em outra zona mais mysteriosa, mais sombria, mais profunda. Da montanha, da água e da vegetação vinham forças, que se entendiam secretamente com o seu espirito e o levavam aos círculos primitivos do terror. Balbina desceu do bonde depois do Jardim Botânico e foi-se esgueirando a pé pelo caminho da restinga, que vae ao Leblon. A viração do mar passava pelas arvores rasteiras e refrescava a noite sem lampeões, apenas coberta de estrellas. Cheiro de maresia, de mangue, de.pitangueiras. Sobre a barreira do canal uma luz bronzeada guiou Balbina. Bateu pelo caminho de areia e foi-se apressando com o rumor das vozes, que lhe chegava. A casa de adobe, coberta de zinco, crescia em torno do clarão da lâmpada de kerozene. Debaixo de uma mangueira, cruzavam-se sombras verticaes e horizontaes. Balbina avançou directa para o preto velho sentado nas raizes da arvore. — Sua benção, tio Jerômo. — Uê, oxalá, bererê! Tu, mia fia, crioula de arrombação, por aqui?... Cuidei que tu tivesse esquecido o caminho... Mas Ogun é grande e tu voltaste... Os homens e as mulheres, que estavam espalhados no terreiro, apertaram o cerco em torno do tio Jeronymo e de Balbina. O prazer do preto velho os contaminou. Puzeramse a rir com o riso surdo e rudimentar dos negros. Ninguém conhecia Balbina. O pae do santo explicou: — Esta cafusa foi cria na fazenda, em que eu me fiz gente, em Valença. Mãe delia era uma negra sacudida, macumbeira, que soube prender o sinhô... Hê, hê, esta ahi tem sangue de branco, mas a alma é nossa. Está sabida de toda a mandinga, fui eu que ensinei desde a roça. Ella é de Ogun... As negras, ao ouvirem o pae do santo pronunciar o nome sagrado, exaltaram-se e logo em marcha de dansa puzeramse em roda, batendo as mãos, sacudindo os quartos, pisando forte o chão, cantando monosyllabos soturnos. Balbina apegou-se ao pae do santo e babou-lhe com os beiços tesos a mão rugosa. O negro velho mandou cessar o barulho. Silencio. Os homens empurravam as crioulas e farejavam Balbina. Nenhum ousava arrancal-a de junto do tio Jeronymo. Onde o pae do santo põe a mão, ninguém pode tocar. O espirito das trevas atravessa com a espada invisível o profanador. O negro velho com o olhar carregado desafiava o assanhamento dos cabras, que cobiçavam Balbina e, quando viu que todos se continham, mandou que se afastassem para ouvir o que ella viera implorar. Negros, cafusos, mulatos, homens e mulheres espalharam-se pelo terreiro, zumbindo os resmungos pejados de curiosidade e despeito. Violas afinavam-se agudas no sussurro grave das vozes. O velho Jeronymo indagou de Balbina o que ella buscava. A principio riu desdentado, de vagar, encoraj ando-a. A cabeça comprida, coberta de um cabello duro, torcido, branco, a cara ossuda, deslavada, as gengivas escuras, cercando uma bocca immensa, vulvar, em que batia uma lingua pesada e roxa. O torso negro, curvado, a barriga funda, a bacia estreita, as velhas pernas compridas, os braços longos. Pés nús, encaranguejados, mãos de ferro velho. Mas toda esta carcassa gasta, ankylosada, animava-se de uma força mágica, que vinha do sobrenatural, para dominar, prever, guiar, proteger, punir. A força de Ogun no seu inspirado. Esta força magnetizava Balbina e arrancava-lhe os segredos mais obscuros, mais tenebrosos. O pae do santo cessou de rir para escutar a confissão. — Meu pae do santo, eu recorro ao vosso poder para punir uma mulher damnada, que faz mal ao homem que eu gosto... Faz tempo que eu persigo essa cara invocada. Eu esconjurei ella olhando para os chifres da lua minguante, eu apanhei as unhas, que ella corta nos dedos das mãos e dos pés, e puz no fogo, eu agarrei terra com a marca dos pés delia, fiz um bolo e atirei no fogo, eu matei uma gallinha preta choca e espalhei o sangue na terra para ella pisar por cima... E nada de mal aconteceu aquella mulher invocada. Ogun não me protege, meu pae do santo. A única cousa, que deu um pouco resultado, foi o cabello delia que eu fui ajuntando e puz no jardim para passarinho levar e fazer ninho... Ah! isso, eu creio, que fez seu estropicio, porque ficou tudo enredado na casa, o marido desconfiou do embrulho, em que estava, e sahiu uma briga feia... Eu quero que vosmecê puna a desenvergonhada, porque só vosmecê pode, eu não tenho poder para isto. Lá tem uma criança que a gente podia castigar para punir a mãe. Pensei isto, mudei de rumo. A menina está nas minhas mãos. Era só um trabalhinho á toa. Mas, quando descobri que a cara invocada da mãe o que quer é se ver livre da filha, desisti da intenção... O pae do santo ouviu, calado, apenas batendo com a cabeça. Como Balbina parasse, elle passou a interrogal-a: — Pelos modos que tu me contas é gente rica e vae ser difficil... Eu sei, é aquelle mesmo teu sinhô moço, que tua mãe criou... Já sei, mia fia, tu queres castigar a malvada, a mulher do teu sinhô. E tu não queres punir elle também? Balbina deu um grito profundo e segurou tremula as mãos do pae do santo. — Oxalá, Ogun, meu pae do santo, pelo amor de Deus, proteja o meu sinhô moço... Faça uma roda de fogo, com a espada invisível do Arcanjo para nada acontecer a elle. — Tu queres que elle te queira bem, elle, o teu sinhô? perguntou o preto velho, ávido pot confessar a negra. — Ah! meu santo, se vosmecê me fizer esta graça, eu serei sua escrava para a eternidade até o fogo de Eixú. Faça com que elle goste de mim, faça, meu pae do santo... — Sarava, sarava, Oxalá... Pela força de Ogun, tu ganharás o amor do branco, mia fia, e ambos os dois serão livres da maldita. Balbina exultou e babou gostosa a mão empedernida do negro. — Eu queria que vosmecê fizesse a mandiga hoje mesmo, um despacho molhado para se pôr esta madrugada na encruzilhada da rua... Tio Jeronymo matutou sem responder. A negra insistiu. — Mia fia, isto devia se fazer em dia que tu viesse sem ninguém, assim á tardinha. Agora, de noite, todo este bandão de gente vem para a devoção e ouvir os espiritos. Pode-se fazer depois do toque da meia-moite, para pôr no começo da madrugada, porque já é amanhã. Tu trouxeste dinheiro?... — Está bom, está bom, continuou o preto, alegre com a affirmativa de Balbina. Vamos arranjar. Tu não trouxeste nada, nem charuto, nem gallinha, nem paraty... Emfim o pae do santo está sempre prevenido... Eu te vendo tudo, gallinha especial, da minha criação, já vinda do ovo com mandinga. Tudo criação preta. O trabalho, com os fornecimentos, custa cincoenta mil réis, fora o que tu pagas ao Barnabé para pôr o « despacho ». São cinco mil réis e a conduçcão. Para pôr o « despacho » é preciso boa mão. Tu não deves te arriscar. « Despacho » posto por Banarbé não escapa... Balbina tinha comsigo o dinheiro para estas despezas. O pae do santo bateu palmas e todos lhe prestaram a attenção. _ i — Agora, devotos de Ogun, toca a sambar em favor desta devota. Sarava, povo do mar, sarava, povo do matto. Tudo junto, auê, auê... Oxalá... Os ogans violeiros atacaram a musica, sacudidos por um pandeiro, um réco-réco e um roncador, que entraram violentos na toada melancoüca. A gente negra dansava e cantava. Os pés socavam o terreiro e as vozes pesavam no ar. O pae do santo empurrou Balbina para o samba. Um cafuso possante apoderou-se da nova devota e os dois volumes rolaram no maxixe, que apertava e abria os corpos frenéticos. O samba seria interminável se, depois de um longo tempo de musica e dansa desbragada, tio Jeronymo, debaixo da mangueira santa, não ordenasse silencio.

— Suspendam as dansas, meus devotos, nós temos muito que trabalhar esta noite e ainda pela madrugada. Ogun espera por nós. Vamos para a sala das consultas, o santuário dos espiritos... Antes de nos reunir no cansol do pae do santo, corra um pouco de restillo... Foi um avanço para a cachaça, que beberam em tijelas e canecas. Bom para esquentar, bom para refrescar. A negrada assanhava-se no álcool e na feitiçaria. Alvoroçados, machucavam-se, friccionavam-se, deliravam. O pae do santo desapparecera. Em roda da mangueira proseguia a orgia, que foi interrompida, quando deram signal para entrar na casa. Subitamente contrictos, sahiram da escuridão para a luz da sala, onde o pae do santo, paramentado, os esperava no seu cansol. Fitaram apavorados o « estado », em que faiscava o Orixá. Era uma figura a cavallo, São Jorge, extravagante, quasi negro, diabólico, a expellir fogo pelos olhos e pela bocca. Em torno, uma serpente voando, no alto, a estrella do mar, Sarava. Um disforme signo de Salomão, bichos, monstros de papel dourado, longas tiras de galão prateado, na parede, realçando o quadro do Orixá. Uma toalha de crivo cobria a mesa do altar, cheia de vasos de flores de papel, charutos em pé, punhaes espetados, velas accessas. Nas outras paredes do cansol, bandeirinhas, quadros de papelão com linhas cabalisticas, figuras absurdas. Na frente do «estado», o pae do santo paramentado com uma capa de panno verde, uma coroa de papelão dourado na cabeça e uma vara na mão. Ao seu lado uma cafusa moça, de porte arrogante, vestida de uma saia azul e uma camisa alva, de renda, descoberto o collo escuro, cheio de voltas de contas e missangas e, nos braços nús, pulseiras de coral e de pedras falsas. Na cabeça, um turbante branco, crivado de lantijoulas e no tope uma estrella de filigrana dourada. Era Amélia, rainha de Loanda, a mãe do santo. Deslumbramento de Balbina, que não ousava encarar o Orixá terrível. Os seus olhos perdiam-se no pae do santo, armado do poder supremo, e da mulher, sua emanação, em que Ogun baixara. O pae do santo falou, na sua linguagem bronca, de termos cabalisticos, muitas vezes incomprehen» siveis dos devotos, porque eram improvisados no impulso sonoro, no delírio verbal, extravagante. Vinham termos congoleses, benguelas, nagôs, minas, cabindas, misturados com raízes tupis. Passavam reminiscencias mongolicas ou ciganas com deformações lusas. Nesta arenga rude entrincavam-se todos os caminhos da magia primitiva, marcados pelas expressões trancadas, grosseiras, aleijadas, mas guardando nellas o fogo perenne do mysterio, sempre prompto a incendiar os espiritos. A negrada acompanhava o pae do santo cantando, no coro, melopéas, em que as finaes metálicas ou soturnas de Orixá, Ogun, Eixú, estalavam e assombravam. Depois das preces e invocações, o pae do santo ordenou o samba em louvor do Orixá. As violas, os pandeiros e os récos-récos arremessavam-se, tocando no vasio. Os macumbeiros tinham ido beber cachaça no terreiro. Voltaram esquentados, atirando-se á dansa. Sambaram em rythmo religioso, fazendo reverências ao pae do santo, que lhes batia com a vara exorcizando-os. Os devotos proseguiam contrictos, solemnes, abrindo, em roda da sala, um claro no centro. A mãe do santo levantou-se e entrou no meio da roda. Dansava soberanamente. Erguia a cabeça, gingava o corpo esguio, marchava leve, airosa, faceira. Os macumbeiros batiam palmas, sambando sempre. A musica esforçava-se. O cheiro negro azedava o ar. A rainha de Loanda cantava no compasso da dansa. O frenesi crescia. A mãe do santo deixou cahir a saia. A camisa alva, transparente, chegava apenas ás coxas oleosas, cobrindo o ventre e os quadris, que ennegreciam a brancura da cambraia. Continuou a dansar concentrada, fervorosa. Os devotos batiam as mãos pesadas e as cabeças duras. As vozes altas, esganiçadas, das mulheres erguianv-se sobre as vozes baixas e roucas dos homens. Dansavam aos berros frenéticos, exasperados de devoção e luxuria. O pae do santo animava-os com os seus lamentos piedosos. Amélia arrancou a camisa. Delírio. A negra esguia, flexível, ardente, empinava a cabeça e os peitos. O ventre entrava, os quadris retesavam-se, o sexo empombava. Eh! Macumba. Outras negras despiram-se, magras, esqueléticas, gordas, bojudas. Saracoteavam, rebolavam nos braços dos homens allucinados. Uma caf usa dava gritos, pulava, queria morder e cahiu convulsa, em espasmos, debatendo-se no chão. Homens e mulheres dansavam, em fila, em torno da rainha de Loanda e da epiléptica. Balbina, possessa, esperneava aos pés do pae do santo, supplicando que Ogun lhe desse o amor de Radagasio e castigasse Thereza. O preto velho prometteu e pediu o dinheiro. Balbina ainda teve attenção para ouvil-o e tacto para tirar o dinheiro do lenço, escondido no seio. Tio Jeronymo, que não estava bêbado, agarrou a cédula e a poz no bolso. Mandou que a musica parasse. Ficaram atordoados. Mas quem estava nú, continuou nú. A rainha de Loanda retomou o seu logar junto do pae do santo. Este explicou que estava alli uma devota, que ia ser benzida para que o espirito descesse nella e fizesse o que ella pedia. Os macumbeiros sentaram-se no chão, solemnes e lugubres. O pae do santo mandou que cantassem. Uma invocação lamurienta, dolorosa, sahiu rude dos peitos negros. Balbina estremeceu do medo, que a invadia possante. O pae do santo a encarou com os olhos de fogo. Balbina viu a cara do preto crescer e encher todo o « estado ». Depois viu as mãos do negro suspendendo no ar cabeças de oguns, de orixás, de eixús e todas mostravam os dentes e as línguas e avançavam para ella. Balbina fechou os olhos e estirou-se cataleptica. O pae do santo mandou que a rainha de Loanda e outras mulheres despissem Balbina. Os macumbeiros cantavam os seus coros dolorosos. Balbina ficou núa, espojada no chão. Era unia massa enorme, cinzenta-preta, pescoço taurino, peitos dè jaca, ventre vasto, desdobrando-se sobre as coxas elephanticas. A expressão da cara traduzia a beatitude davbemaventurada. Os olhos doces, extaticos, apenas cerrados, as chatas narinas, arfando, bafejavam o sorriso venturpso da bocca rasgada. O pae do santo pegou um galho de arruda e sacudiu água sobre o corpo da negra. Ordenava aos espiritos que baixassem sobre ella. Resmungava as suas ordens e esperava. Balbina ia ouvindo as rezas do pae do santo e a cantoria dos macumbeiros. Trarisfigurou-se e queria mais e mais daquella magia. Amélia veiu acariciar as pernas e os peitos de Balbina. Os macumbeiros cantavam mais alegres. A rainha de Loanda acariciava os pellos duros e crespos de Balbina. O pae do santo sussurrava uma melopéa muito funda, procurando os olhos da negra. Ella estremecia de goso, sem pavor, e enlanguecia todo o corpo na delicia da volúpia. A rainha de Loanda continuava a friccionar-lhe os seios, o ventre e as coxas. 0 pae do santo commandou a Balbina que dissesse baixinho o nome do seu amor. A negra em êxtase, pronunciou, muito doce e muito escondido: Radagasio, Radagasio. O pae do santo arreganhou-lhe as guelras roxas, lavouas com a água sagrada dormida no tronco da mangueira. Os macumbeiros reconheceram que o espirito baixara em Balbina. Exultaram. Os cantos deixaram a triste melopéa e foram ruidosos e alegres. Balbina, repousada, feliz, olhava aquella gente, que a cercava, olhava o pae do santo, fitava emfim o Orixá e deixava-se ficar núa, embevecida, triumphante. O pae do santo deu por terminada a cerimonia. Mandou que esvasiassem o cansol, pois tinha outros trabalhos a fazer. Os que estavam nús vestiram-se e a maior parte da negrada veiu para o terreiro beber paraty. O pae do santo ficou dando consultas. Em nome de Ogun, tio Jeronymo curava tudo, doenças physicas e moraes, espinhela cahida, barriga d'água, maleitas, perseguições, mau-olhado, amores infelizes, ciumeiras, caiporismo. Baixava o espirito poderoso do bem e expellia Eixú, o diabo. Durante as consultas, grande silencio no cansol. Os macumbeiros, que não tinham interesse nos casos particulares, ficavam no terreiro a beber, emquanto as violas e os pandeiros tocavam. -Já de madrugada chegou a vez do « despacho » de Balbina. O negro velho deu em voz baixa ordens á mãe do santo. Ella foi para o terreiro e elle ficou absorto em Ogun. Balbina esperava, sentada aos seus pés. Voltou a mãe do santo com uma gallinha preta, uma garrafa de paraty, uma cuia de farinha de mandioca e um copo de azeite de mamona. Poz os outros objectos junto do « estado » e de cima da mesa retirou quatro charutos, dois" punhaes e uma faca de cosinha. O feiticeiro segurou a cuia de farinha nos joelhos, deitou dentro um pouco de paraty e de azeite e, rezando sempre, mexia com a mão até fazer uma passoca. Depois levantou-se e collocou a cuia com a farofa no altar. Offertou varias vezes ao Orixá. Poz dentro os charutos e tornou a mexer. Os macumbeiros rezavam em sussurro. Balbina agarravaja gallinha, alvoroçada por fugir e cacarejando agoureira. Balbina apertava-lhe o pescoço. 0 pae do santo depoz outra vez a cuia com a passoca e os charutos no altar e pegou a gallinha. Conversou, em uma linguagem surda e incomprehensivel com o bicho, offertou-o varias vezes ao Orixá e depois esfregou-o na cabeça, nas mãos e no collo de Balbina. Ordenou que a negra se sentasse com a gallinha nos joelhos e lhe dissesse no bico tudo o que precisava. Balbina, suspirando cheia de fé e esperança, pediu á gallinha que castigasse Thereza e a unisse a Radagasio. O pae do santo, muito entrevado, poz-se a dansar no « estado » e a rezar. Todos o acompanhavam, bansos. Parou e empunhou a faca. Agarrou o pescoço da gallinha, poz em um prato e cortou. O sacrificador foi embebendo as mãos no sangue violento. As suas narinas arfavam de goso. Este sangue foi escorrido na cuia da passoca novamente remexida. A cuia foi enfeitada com as pennas pretas arrancadas da gallinha. A farofa ainda levou a cabeça da gallinha, os pés e quatro charutos. Estava feito o « despacho ». Musica. Mandinga.

O dia estava querendo amanhecer, quando Balbina, acompanhada do preto Barnabé, deixou a moamba. 0 «despacho», que o negro trazia com grande respeito, vinha em um jornal. Quando chegaram á rua do Jardim Botânico, resolveram tomar um taxi, receosos de serem percebidos pelos viajantes dos bondes. Mettidos no automóvel, vieram taciturnos, zelando o «despacho» e imaginando o que ficava para traz e que sempre os acompanha, Ogun e a sua feitiçaria. Encontraram bondes electricos, jardins scientificos, habitações civilizadas, escolas, passaram pela Lagoa drenada, onde guindastes, grúas, decauvüles, labutam, desceram pelas avenidas asphaltadas e vieram parar á beira do cubo de cimento, que é o Hotel Gloria. A alma dos macumbeiros permanecia immersa na selvageria primitiva. Para sempre. Desceram do automóvel e subiram a pé a ladeira em busca da encruzilhada. Por elles passaram Manuel e Pedro, que iam ao banho de mar e reconheceram Balbina. A negra, absorta na mandinga, não fez reparo. Foi caminhando. Na encruzilhada, o preto Barnabé assumptou que tudo estava socegado e, depois de uma reza a Eixú para que «abrisse a rua e fechasse a rua», depositou o jornal em uma pedra. Balbina pagou-lhe o serviço. Barnabé, com medo de ser visto, desceu ás pressas a ladeira, emquanto Balbina a foi subindo, agitada de esperança.

A musica sertaneja vinha de longe espraiando-se no campo, coando-se nos cafezaes, cavalgando o vento subtil da noite, acalentando os pássaros adormecidos, o gado, os eucalyptos, as mangueiras e as laranjeiras da fazenda. Aquelles rústicos e tímidos accordes tinham a força de harmonizar e dominar em seus rythmos simples, a sonoridade, que vagava incerta no espaço. A toada humilde absorvia as innumeraveis e innominadas vozes e crescia, como se fosse o canto exclusivo de toda a natureza. Crescia empre, imperava e avançava até que Philippe viu ser todo este prodígio a façanha de três pobres instrumentos, uma viola, um cavaquinho e um violão. Os tocadores, cabras nordestinos, saudaram a companhia, repicando um côco-accelerado, em que a viola cantadeira ia na frente, espevitada, seguida do dengoso violão, fugindo do zombeteiro cavaquinho. Um cantador esganiçado improvisou quadras de vassalagem aos maioraes da fazenda. Quando pararam e foram louvados, Men mandou servir-lhes pinga. Beberam chalaceando em gíria nortista, que os Americanos e os outros estrangeiros, em roda, entendiam saborear, como se fosse ainda musica do sertão. Depois de reclamações impacientes, romperam a tocar e a cantar. A vida sertaneja enchia as cantigas. Era a paizagem núa e dura, o descampado secco, o deserto das carnaubeiras, os cómoros, onde se exilam, na pedra e na areia, os mandacarus, os chique-chiques, de braços abertos, carregados de espinhos, que abrem em flores de sangue, os funereos facheiros, as serras dos jatobás, onde se encostam as mattas de ingazeiras, de oiticicas e de joazeiros, e, sobre ellas e sobre as catingas, arribando, as infinitas e tumultuosas vagabundas avoantes, vorazes, poeideiras. Cantaram o boi, o seu cyclo de vaquejadas, de tráficos, de migrações, de lavouras, de festas e bumbas. A bicharada fantástica, pullulando na mattaria, assombrações e caçadas. Quisilias partidárias, zombarias do populacho. Cyclo heróico dos cangaços. Dramas do sertão e as duas grandes pessoas dramáticas, a espingarda-pá, a faca de ponta-tá. Cunhas, cabrochas, mulatas, caboclas, invocadas com uma delicadeza e um pudor, que differenciam a volúpia sertaneja da luxuria negra. Os brasileiros do sul, os Corrêa de Sá, perdiam muito do encanto dessas obras, desses martellos, dessas emboladas. Os estrangeiros divertiam-se e não comprehendiam. Para a confusão americana tudo aquillo era musica negra. Philippe gosava o sabor das cantigas e desafios. Só aquellas vozes podiam exprimir a magia nortista, que também resoava nelle pela transfusão do sangue paterno. Procurou conversar com os tocadores, que, desconfiados, não se entregaram facilmente. Afinal, foram cedendo a uma secreta communicação com a sensibilidade de Philippe e, esquentados pela pinga, entraram a pabular as suas bravatas. — Qual, seu douto! exclamou um dos cabras cantadores, sertão não é só cantoria. Lá se briga a vida inteira, e de verdade. Os nordestinos encheram-se de vaidade para parecer aos camaradas paulistas e aos colonos, como valentes e infatigaveis batalhadores. Um dos camaradas sertanejos, que havia acompanhado os tocadores, blasonou: — Nós somos da terra do cangaço, onde a gente peleja dia e noite... Os companheiros riram, ufanos... — Ahi, cangaceiro velho... tu estás espantando esta arraia mofina, como a terra fria delles... Os camaradas paulistas riram contrafeitos da pabulagem nordestina. Philippe, curioso, interveiu para perguntar ao cabra sertanejo se elle fora cangaceiro. O homem respondeu ousado: — Nhor sim, não tenho pejo e não minto, assegurando a vossa senhoria que já trabalhei no cangaço... — Lampeão? indagou rápido Philippe. — Nhor não, eu conheci o Virgolino, quando estávamos ambos os dois sob as ordens do grande Sinhô Pereira. Vossa senhoria nunca ouviu falar? Chefe de cangaço, como aquelle nunca houvera, nem Luiz Padre... Os sertanejos alvoroçaram-se. Cada um quiz contar uma façanha cangaceira, lembrar um grupo de bandoleiros. Foi uma conversa assanhada de factos, de pessoas, de misérias, de roubos e morticínios. Os paulistas estavam enfiados e humildes com as proezas dos nortistas. Um paulista, picado de vaidade, procurou reagir: — Vocês só contam rodellas com este Pereira e o tal de Lampeão... São Paulo não inveja ninguém. São Paulo, terra de bandeirante, está na frente por um tudo... São Paulo não se arreceia de Lampeão, porque já teve o Dio!gúinho... Esse, sim, era um bicho bravo, que mettia pavor... Só falar nelle tudo treme... 0 cangaceiro nordestino deu um muchocho e cuspiu na terra. Levantou a cabeça para o ar, fitou com raiva nos olhos sangüíneos o paulista, sorriu, atrevido, desdenhoso: — Nunca ouvi falar... Onde vive este Dioguinho, que quero me topar com elle?... Esperou a resposta, que veiu murcha. — Já morreu... Os nordestinos riram estrondosos e puzeram-se a escarnecer do paulista. O cangaceiro retrucou mais desdenhoso: — Tu falas de fantasma, paulista, Deus te fale na alma e ao teu Dioguinho... — Fantasma não, replicou enfurecido o paulista. Deixa de confiança. Dioguinho foi um valente, como nenhum neste Brasil. Era um moço sympathico, bem vestido, que metteu medo á policia... Era muito bom para os pobres... Mas tinha aquella sina de matar... E fez quarenta e duas mortes... Só foi preso por traição de um caboclo velho, que elle protegia. Foi na emboscada da policia no MogyGuassú... Quem teve Dioguinho, não tem que invejar Lampeão... — Cala a bocca, paulista, não desfaça de Lampeão, capitão Virgolino Ferreira da Silva, e do seu bando sem igual... Sabino Gomes, Ezequiel, Massilon... Ahl não, gente destemida, gloria dos nossos sertões... Este vosso Dioguinho, como o tal de Antônio Conselheiro, e mesmo o Antônio Silvino, tudo é fantasmagoría, eu quero saber de gente viva, que está batalhando... Um camarada nortista, estimulado, entrou na disputa. Não era espadaudo e arrogante, como o cangaceiro que esbravejava. Era pequeno, magro, secco, amarello-fosco. Na mascara felina cahiam palpebras longas, pesadas, as maçãs da cara salientes, os dentes miúdos, enterrados.

Quando sorria limitava-se a arreganhar os dentes e a olhar fixo. Desbarbada a pelle mongolica e, na cabeça larga, o cabello denso, grosso, castanho, reluzente. Tinha gestos cautellosos, vagarosos, desconfiados. A sua voz sibilou fina, cortante. Os nortistas, que o conheciam, o temiam. — Se tu topasse Lampeão, paulista frouxo, tu e toda esta gente paulista morria de medo. Pois eu te asseguro que fui do cangaço de Lampeão... Não ha inconveniente... Philippe interessou-se pelo que confessava o camarada. Interrogou-o com cuidado, animando-o e justificando-o. O cangaceiro foi abandonando a desconfiança e, por vaidade, ia narrando episódios do bando, a que pertencera. Eram assaltos ás povoações, aos engenhos e ás fazendas, resgates de prisioneiros, contribuições de dinheiro, gado, armas e balas. Só assim as populações eram poupadas. E rematou contando a occupação, que fizeram, na villa do Limoeiro, no Ceará, quando se escaparam da policia parahybana. — Saiba vossa senhoria, que nós demos uma batida nas tropas do governo e fomos varando pelo Ceará a dentro, depois do ataque sobre Mossoró, que foi uma victoria sem igual. No Limoeiro, tudo estava em festa para receber os cangaceiros. Mataram uma rez e alguns cabritos para o nosso almoço. Foi um despotismo de doces, bolos, bejús, pamonha, coalhada, queijo do sertão... Festança de regosijo e nós respeitamos as mulheres e toda aquella gente boa, que nos deram dois contos de réis de recompensa... Depois que nós sahimos appareceu a policia parahybana, que fez um desperdício horrível, maltratou as gentes, fez mal ás mulheres, roubou os terens, raspou todo o dinheiro, surrou, destruiu... Qual, saiba vossa senhoria que policia do norte é bandida mesmo... — E porque você deixou o cangaço? indagou Philippe... — Sorte da gente, seu douto. Me enrabichei por uma cabrocha das visinhanças do Limoeiro e não quiz proseguir. Lampeão pelejou commigo para eu ficar firme, mas qual, seu douto, mulher é mais omnipotente... Uma feita, me escondi do bando, quando descampava por causa da tropa de perseguição e fui ter com a mulher. Me arrependi que Deus sabe. Passado pouco tempo, a mulher morreu de bexiga preta. O bando estava longe nesse mundão de Christo, lá para as terras santas do padre Ciço. Não me achei com geito de ajuntar de novo, depois do que fiz, aos Companheiros. Então me puz a trabalhar e, de trabalho em trabalho, varando todo este sertão, vim parar na mão do nosso capataz-empreiteiro e aqui estou... Tudo castigo de Deus Nosso Senhor pela minha falsidade com Lampeão... — Quem sabe se você não torna ao seu bando? animou-o Philippe. — Não sei, nhor não. A gente pune pelo seu destino... 0 paulista mettediço, o admirador de Dioguinho, vendo o desconsolo do cangaceiro, entrou a debical-o: — Êta, cabra do norte, deixa de choradeira, aqui tu ganhas dinheiro sem roubar e tu não tens fome... O cangaceiro fechou ainda mais as palpebras, arreganhou os beiços e os dentes se enterraram uns nos outros. Philippe sentiu no silencio, que os outros camaradas sertanejos fizeram, o alcance do ódio do homem. Cortou-lhe a raiva, agradando-o, louvando-o pela sua valentia. O cangaceiro abrandou e retrucou ao paulista: — Tu estás mas é chumbado. Não fala em roubar, porque roubar é aproveitar o suor dos outros, como se faz aqui nestas bandas. Nós, no sertão, só tiramos o que precisamos para viver e o mais distribuímos aos necessitados. No Limoeiro, Lampeão deu a cada pobre do logar uma cédula de dez mil réis, duzentos mil réis para a egreja e mandou espalhar, como milho, pela criançada, toda a prata e todo o nickel, que nós carregávamos. Todo o povo abençoou os cangaceiros. — Mas tu fugiste da fome e, se não fosse São Paulo, tu estavas bem morto, comido por bicho, implicou o pauüsta.

— Ai, ai, minha Nossa Senhora, não provoque, homem de Deus, gritou o cangaceiro com uma voz de desespero, Nós não temos fome, temos é secca. A terra será desgraçada, mas é nossa. Vocês, paulistas, venderam a terra de vocês a este bando de carcamanos e gringos, que invadiu tudo como formiga.' Damnação. Brasil aqui se acabou. O paulista, furioso, quiz intimidal-o. — O melhor, cabra, é tu te calares, porque tu estás na pátria alheia. — Terra estranja, gritaram os camaradas nortistas. — Olha, paulista, deixa de arreliação e de pabulagem. Tu só arrotas café, café. Vae te fiando. Nós somos da terra de canna, que dá assucar, cachaça, melado, rapadura. Assucar já foi rei. Assucar pagou a independência do Brasil. Realeza do assucar acabou, acabará também despotismo de café. Outro cangaceiro gritou, ameaçador': — Toma tento, paulista velho, café é bicho andejo. Café te deixa nú na estrada, como já deixou Rio de Janeiro. Café agora só procura por Paraná e Matto-Grosso... O administrador berrou para que acabassem com o batebocca. Os fiscaes intervieram gritando com os disputadores. Houve um silencio resmungado e os tocadores proseguiram, desenxabidos, na melopéa sertaneja.

A immundice da pagélança ostentava-se ao sol da ladeira da Gloria. Para os estrangeiros, que desciam das pensões, o « despacho » era uma porcaria a mais, na rua esquecida. Passavam repugnando-o, batendo com força os seus passos de desprezo. A gente mestiça estava apavorada. Logo que avistavam a pagélança, estacavam. Pregavam os olhos fascinados nas pennas pretas da gallinha e na farofa amarella, onde apontavam os funereos charutos. Benziam-se, praguejavam e não passavam. Retrocediam para o outro lado da ladeira. Toda a visinhança alarmou-se. A manhã inteira, o « despacho » com os seus malefícios excitou a curiosidade e a imaginação. Antes de indagarem quem fora o autor da mandinga, o maior interesse era saber contra quem a terrível ameaça. Os mais afoitos procuravam na cuia fatídica um papel que, segundo os usos, indicasse a victima condemnada. Nada foi encontrado. 0 mysterio augmentou o terror. Cada qual se sentiu attingido por uma perseguição occulta da inveja e da perversidade. Até a solidão de Thereza chegou o espanto. Os criados, que voltavam das compras, narraram o caso extranho. Não tardou que informassem Thereza. Ella desdenhou, alheia ás correntes baixas do terror primitivo. Balbina pageava Lili, afastando-a de Thereza, enfeitiçada por Eixú. A negra esperava Radagasio perto do automóvel, que o ia levar ao banco. Quando elle appareceu, carrancudo e ralhando com o chauffeur por causa do gasto da gazolina, Balbina suspendeu Lili para beijar o pae. Radagasio não fez caso. Continuou a esbravejar insultando o chauffeur. Lili quiz escapar-se dos braços da ama, que a segurou com raiva. — Fica quieta, Lili. Olhe seu papae como está tão bonito. Nhonhô está mesmo sacudido, que é um gosto. Chapéo de palha vae bem em Nhonhô, roupa clara exalta a formosura. Nhonhô está rosado... Benza-o Deus. Não ha como o sol de verão... Radagasio estufou para se mostrar mais corado. Os olhinhos lubricos, voltados para a negra, entortavam-se sobre as bochechas enfunadas. — O sol é a fonte do calor e da vida. Dá-me o calor, eu criarei universos, disse. Entrou sorridente no automóvel, que foi descendo devagar, deixando a Radagasio tempo de se embeber na onda de luxuria, que se despregava assanhada, catinguenta, da negra.

Crescia na solidão o desespero de Thereza. Já não se conformava com a ausência necessária de Philippe. O vasio era immenso e as cartas, que recebia e respondia, não bastavam para socegal-a da tortura da desolação. Queria a presença real de Philippe. Vel-o, ouvil-o, abysmarem-se na alegria physica da paixão. Por um esforço sobrehumano, ainda não reclamara a volta do adorado. Vencia-se para se conformar com a terrivel necessidade de conquistarem a independência material, indispensável á plenitude da libertação. O seu espirito concentrava-se em Philippe. Procurava reconstruir, pelo que lhe dizia, toda a vida que levava na fazenda. Foi-se enfurecendo com o interesse que elle mostrava pelos factos da lavoura, da colonização, de todo o ambiente de Maracajá. Detestou esta maldita curiosidade de saber e aprofundar. Pouco a pouco, o azedume do exclusivismo lhe foi envenenando a doçura da esperança. O martyrio do ciúme impreciso e doloroso por tudo o que interessasse Philippe fora do amor. Não tinha mais calma para supportar a miserável existência naquella casa desgraçada. O ódio a Radagasio mantinha-lhe o sangue em ascendente effervescencia e não lhe deixava distrahir-se um instante. Nas longas conversas com Ritinha, as suas expansões eram o seu surdo ciúme de Philippe e o desespero contra Radagasio, agarrado á sua fortuna. O mau humor roia-lhe a doçura. Nada a distrahia da obsessão de desejar a presença de Philippe e de desapparecer com elle de todo o inferno em que se via torturada. Isolava-sè cada vez mais dentro do seu desespero. Só tolerava a companhia de Ritinha, porque lhe falava eternamente do seu amor e da sua angustia. Deixou de ir a casa de Vieira, que se lhe tornou aborrecida. D. Calú proseguia nas suas intermináveis lamentações. Era a mãe inconsolavel e trágica. Vieira lunático. Aracy azeda, sarcástica, perdera a frescura da vadiação alegre, depois de abandonada pelo Léo. Passara á preguiça e ao desleixo. Os rapazes empenhavam-se em novos rumos, desilludidos da revolução. Manuel exaltava-se no communismo. Tornara-se um militante e entrara em uma cellula.

Como tinha sido um ardente revolucionário liberal, passara a ser um communista extremado. O seu temperamento expandia-se nas paixões politicas, no exclusivismo partidário. Pedro, que ia concluir o curso de engenheiro civil, tornava-se um profissional da energia e do dynamismo. Aspirava a reconstruir o Brasil com a mecânica e com a electricidade. As perspectivas, que lhe abriam, de uma prolongada visita aos Estados Unidos, acompanhando um dos principaes engenheiros da casa, onde era empregado, o preoccupavam e o desinteressavam da lenta campanha revolucionaria. O seu temperamento era movei e exigia a acção immediata. De Monteiro havia noticias. Continuava foragido, sempre fiel á revolução e já querendo voltar ao Rio pata conspirar. De tudo isso estava longe Thereza, absorvida no amor. Passara aquella sexta-feira, em que o « despacho » a ameaçara na encruzilhada de Eixú, muito só. Ritinha não viera o dia inteiro. Não havia carta de Philippe a trazerlhe. Thereza não teve animo de sahir de casa e applicou-se longas horas a escrever a Philippe. Não notou que Lili lhe apparecera menos naquelle dia. Nem mesmo á tarde, quando costumava vir ao seu collo no mirante, acompanhando as duas, de longe, o banho do Flamengo, alegre, vivaz, colorido, e os yoles, os skiffs e os caíques brincando nas ondas, e as gaivotas, as garças, arquejando a recolherem-se nas ilhas oceânicas, e as fragatas, os albatrozes, navegando no céo vermelho, e as praias e morros da outra banda, abrazados, rubros, e as andorinhas loucas, barulhentas, que vinham dormir dentro do telhado da velha casa. E, no calor exasperante, cheiravam os bogaris, os jasmins, as magnolias, cheirava Lili, cheirava Thereza. Depois do jantar ella voltara á sua meditação no eterno mirante. Aquella hora, Philippe, na fazenda, ouvia as conversas arrastadas sobre café e cousas matutas. Soffreria como ella no desespero da separação? E não havia ainda signal de que os negócios estivessem a terminar.

As cartas de Philippe não annunciavam precisamente a época, em que elle voltaria. Como ter força para esperar sem desanimo? Thereza censurava-se pelo desespero, que a invadia e procurava reagir, sonhando com a magia da libertação, que não estaria longe. Estava disposta a tudo, a fugir com a filha e, na companhia de Philippe, não temeria a fúria de Radagasio, a quem abandonaria a sua fortuna pela liberdade. Negocio. O instincto pratico da mulher e daquella descendente de commerciantes resolvia assim o maravilhoso problema sentimental. Thereza foi seguindo os incidentes das possíveis negociações com Radagasio e já entrando pela imaginação nos pormenores da divisão dos bens, foi adormecendo resignada. Muito tempo de somno no mormaço da noite pesada. Se entreacordava e ouvia os cães soltos farejando e arfando, continuava na modorra. Uma vez lhe pareceu sentir bem próximo um ruído, que não era o da ansiedade dos cachorros, afflictos de calor. Abriu os olhos com mais vivacidade e viu alguém correr e procurar esconder-se na escuridão das arvores. Poz-se de pé, gritou, açulou os cães, que não se arremessaram contra o vulto volumoso, que desapparecera. Devia ser alguém da casa. Thereza recolheu-se apressada. Chamou um criado e ordenou-lhe que fosse ver o que se passava. Ficou inquieta e correu ao quarto de Lili. Encontrou a porta encostada e dentro a criança sósinha. Esperou pela negra, que não appareceu. O criado voltou para dizer-lhe que a única pessoa que estava no jardim era Balbina. Thereza mandou chamal-a. Que fazia a negra lá fora no escuro a espial-a? Radagasio? Mas, se elle tinha sahido? Balbina entrou malcriada, furibunda e não deu explicação a Thereza.

Ritinha fazia serão costurando o vestido, em que se occupara -o dia inteiro. Toda a casa dormia. A velha Andreza para tomar conta de Ritinha deitara-se no chão, fazendo travesseiro de uma desbotada almofada. A curva do pensamento de Ritinha enlaçava o noivo, Thereza e Philippe e ás vezes o seu rio-Itapecurú, velhinho, socegado, lá nas brenhas. Ia divagando e cosendo ligeira, quando Manuel e Pedro chegaram da rua. Andreza despertou e sentou-se reverente. Os rapazes estiveram mirando o trabalho de Ritinha e louvaram-lhe a faceirice. Mulher é assim. Emquanto o Viriato anda vestido de zuarte de algodão, ou nú, lá no Acre, estava alli a sonsa Ritinha a preparar um vestido de jersey de seda. Tão alegre, tão moderno. Presente de Thereza. Os rapazes, que tinham jantado fora, já estavam com fome. Ritinha mandou Andreza buscar goiabada, biscoitos e um presunto americano. Presente de Thereza. A lâmpada electrica só illuminava a mesa da sala de jantar, onde Ritinha trabalhava. 0 resto da sala ficava no escuro e foi com difficuldade, que a velha poude mover-se. Manuel foi ajudal-a a trazer tudo para a mesa e começaram a comer alegremente. Thereza tinha sido uma grande invenção. Sempre generosa e delicada. Mesmo que não lhes apparecesse como dantes, não os esquecia. Ritinha ufanava-se com aquelles elogios ao seu idolo. Sentia que tudo o que Thereza dava, era mais por ella e feliz sorria maternalmente aos gulosos. 'Emquanto devoravam, indagaram do que se passara em casa, de onde se ausentaram desde pela manhã muito cedo. Ritinha contou-lhes o alvoroço da rua com o « despacho ». Os rapazes riram, achando tudo aquillo idiota e porco. Andreza indignou-se. — Não digam nada, não falem assim, vosmecês são crianças, não sabem a maldade desses mandingueiros. Aqui chamam isto « despacho», nós, lá no Maranhão, chamamos de « pagélança ». Conheci muito negro feiticeiro, tanto na roça, como na villa. Para fazer um mal a uma pessoa, só aquelles diabos mesmos. O demônio anda solto e estes mandingueiros mandam nelle... Não riam não, diabo tenta, eu já vi mão de pilão dar tiro... Manuel e Pedro soltaram uma gargalhada alta, que

Ritinha procurou conter para não acordar os tios e Aracy. Só pararam de rir para puxar mais pela velha Andreza. — Pensa que eu não sei não, meus brancos. Vosmecês não acreditam, mas o mundo está cheio de assombrações;' Os espiritos andam soltos e se mettem no corpo dos christãos para castigar, e não é só da gente, também dos bichos e dos páos. Vosmecês sabem o que é marandová? Aquella lagarta verde das folhas? Pois eu já vi marandová engravidar uma mulher virgem com o olhar, depois de passar pela urina delia no terreiro... — Cala esta bocca, Dedeza, ordenou zangada Ritinha. Deixa de dizer bobagem. — Bobagem, bobagem, é só que vosmecês brancos dizem. Eh! porque araroba faz a gente que estaciona debaixo delia ficar vermelha e inflammada que nem cobreiro? Não é obra do maligno?... Benza-nos, Nosso Senhor. Olha, tudo está nas mãos de Deus, mas o capeta ás vezes toma conta das cousas e transtorna o juizo da gente. O que é preciso é ter fé em Deus e estar sempre armado de figas e de rezas. Olha, esta figa aqui, que eu trago sempre no pescoço, noite e dia, é de Guiné, verdadeira e poderosa como ella. Me defende, de um tudo... Por isto não tenho medo dessa cuia de pagé, que puzeram na cruz da rua. Se é commigo... Andreza levantou-se. De pé, commovida, com a cara extatica, ergueu a figa e a poz na direcção da rua. — Te esconjuro, maldito... Vae, satanaz... Pagé do inferno volta ás trevas... Salve a luz de Deus... Por Santo Onofre, para traz... Esta exprobação allucinada da preta velha esfriou a jovialidade dos rapazes. A conversa tornou-se arrastada e mais grave. Ritinha contou-lhes o que se passara sobre a moamba, o terror da gente da visinhança, o mysterio da ameaça e todos se julgando alvo de uma baixa perseguição anonyma. Por mais que indagassem, nenhum esclarecimento puderam obter sobre a autoria do « despacho » e a victima ameaçada. Emquanto Ritinha falava, Manuel teve uma súbita lembrança. Interrompeu a prima para dizer a Pedro: — Ah! tu não reparaste esta manhã, muito cedinho, quando fomos para o banho, que encontramos, subindo a ladeira, aquella negra, ama secca da filha de Thereza, iacompanhada por um preto, que trazia um embrulho em um jornal?... Ah! foram elles... Procurem por ahi... Não tenho duvida. Ritinha largou a costura e tremeu de medo. Pedro concordou com a impressão de Manuel. — Ah! minha Nossa Senhora! que horror! Thereza, minha Therezinha, Teté tão boa, que horror! gemeu Ritinha. Andreza segurou a cabeça da sua menina, beijou-lhe os cabellos. — Socega, meu bem, minha santa, não haverá mal, esta negra velha sabe esconjurar pagélança e as coisas feitas do inferno. Os rapazes esforçaram-se por tranquillizar Ritinha, chorando desesperada com o perigo de que sentia ameaçada Thereza. — Olha, affirmaram, nós estamos promptos a defendel-a sempre. Por ella e por Philippe. É uma companheira, uma irmã muito querida. Daremos uma surra naquella negra macumbeira e se o tal Radagasio está mettido na perseguição não custa nada dar-lhe um esbarro uma noite. Esta sympathia não moderou a inquietação de Ritinha. 0 seu ímpeto era correr para a casa de Thereza. Os primos mostraram o absurdo do alarma aquella hora, meia-noite passada. Era impossível telephonar, porque não seria Thereza que acudiria ao chamado. Seria provavelmente Radagasio. Era preciso esperar amanhecer para Ritinha avisar Thereza. Nesta angustia foram para os seus quartos. Ritinha, desalentada, não teve forças para mudar de roupa. Atirou-se na cama, vestida como estava, a chorar desbragadamente. Só ella comprehendia a extensão do perigo sobre Thereza. Nem Philippe sabia de toda a miséria, que soffria a sua adorada. Agora era a perseguição, a resolução que os assassinos tomaram de supprimir Thereza e a negra seguramente era o instrumento dos planos de Radagasio. Com aquelle ar de imbecil, era Radagasio para Ritinha, um perverso, que, por vingança e ganância, seria capaz de um crime. E o covarde mettera isto na cabeça da negra, que, estimulada pelo furor de se apossar de Radagasio, mataria Thereza pelo veneno dos feiticeiros ou estrangulando-a, quando ella estivesse dormindo. Ritinha via todo este horror e a sua angustia crescia no desespero sem nome de não estar ao lado de Thereza, innocente de tudo e talvez assassinada naquella noite. A velha Andrezai.entrou!, com um embrulho, que collocou na mesa do quarto. Chegou-se a Ritinha, que soluçava. A moça agarrou-se á ama preta, que com as mãos encarangadas e a voz humida de doçura, a foi acalentando. — Escuta, minha florsinha, a tua preta velha, a tua Dedeza salva tudo, pela graça de Deus e da corte dos céos... Não fica triste neste desconsolo'ingrato. Tem fé, minha sinhásinha... A moça não soffrerá nada dos judeus malvados... Quem te diz é quem pode... Eu te falo em nome de Santo Onofre, que é invencível na encruzilhada e nos caminhos da gente humana... Ritinha abriu uns olhos enormes de esperança.'Andreza lhe falava, como a salvação. A velha continuou, sorrindo para a sinhásinha: — Vou te mostrar o que eu tenho escondido no fundo do bahú e que tu nunca viste e que eu trago commigo para a hora da afflicção... Foi á mesa e trouxe o embrulho. A curiosidade interesseira suspendeu as lagrimas de Ritinha, que estacaram nos olhos tristes. Andreza abriu o embrulho sobre a cama, ao lado de Ritinha. Quatro santinhos de madeira appareceram gastos, velhinhos, por entre figas e rosários. Também havia uns pratinhos de folha de lata, uns copinhos e alguns toucos de vela benta. Andreza pegou em um dos santos, que era miudinho e fartamente barbado. Barba preta, manto de cabello a cobrir-lhe o peito nú. Embevecida, adorando, mostrou-o a Ritinha.— Este aqui é o meu Santo Onofre. Elle defende a gente de toda a pagéjança. É elle que dá passagem nos caminhos, na cruz das estradas e das ruas. Afugenta do demônio, de todos estes Eixús, que os pagés chamam contra os filhos de Nosso Senhor. Santo Onofre precisa ser bem tratado por quem precisa delle. Tu levas elle a D. Thereza e vou te ensinar como ella deve fazer. Ella põe elle no oratório ou na mesa do quarto delia e põe nestes pratinhos, que estão aqui, comida de sal, e neste copinho um pouco de restillo do melhor e accende um destes toucos de vela benta. Pede o que ella quizer e tiver precisão. E deixa estar. O santo satisfeito protege a ella, que os demônios se afugentam para o inferno, que é a terra delles. Eu sempre me vali com este santo milagroso e todo poderoso e venci os.meus inimigos a vida inteira... E tu pensa que muita vez não te defendi do mal? E quem foi que fez o teu amor com nhô Viriato? E quem protege lá nos seringaes nhô Viriato? Tudo, este santinho da minha alma... Santo, Onofre, louvado seja. Ritinha aceitou aquella fé e olhou com immensa ternura Santo Onofre. A negra beijou muito o santinho barbado e depois mostrou outros santos. — Olha estes dois, que estão sempre juntinhos. São dois irmãos gêmeos, São Cosme e São Damião. Omnipotentes como só elles, Ritinha. Curam todas as moléstias da terra, quanto mais aquellas, que vêm de pagélança, porque elles foram feiticeiros no começo. Deus Nosso Senhor teve pena delles, tirou elles da feitiçaria e fez santos. Mas elles ficaram sabidos da maldade dos pagés e a gente, que se agarra com elles, não teme « coisa feita ». Trata-se delles com muito bom modo, porque elles são zangados que nem feitor de fazenda. A gente põe nesses pratinhos, como de boneca, um pouco de doce, junto de cada um. Muito tento para não dar mais para um que para outro, pro mode não sahir briga, e nunca jamais comida de sal. Ritinha escutava. Não queria esquecer nada das recommendações de Andreza. A velha collocou São Cosme e São Damião junto de Santo Onofre, em cima da mesa, e voltou a Ritinha com o ultimo dos seus santinhos. — Está aqui São Jorge, que estes malvados metteram no candomblé e tratam elle de Orixá, Ogun e outros nomes feios. Elles se arreceiam da espada do santo e se mettem de amizade com elle. Não vê! São Jorge pune pelos christãos de Christo, valente como só elle, nem Osório no Paraguay, nem Chico Diabo com o Lopes. Não come comida, como os outros, nem bebe restillo, como Santo Onofre. O que elle vale é na hora do arremesso. Se aquella negra feiticeira acommetter contra D. Thereza, então D. Thereza, na hora do perigo, se benze com o pelo signal da santa cruz e grita por São Jorge... E a feiticeira do inferno estoura, que é um gosto... Ah! Satanaz... Andreza ria contemplando a façanha do santo guerreiro. Poz São Jorge junto dos camaradas. — Sinhásinha, eu acho bom nós fazer qualquer cousa para defender D. Thereza esta noite daquellã maldade da rua. Vosmecê accende este touco de vela benta para os santos e eu vou buscar comida e a cachaça para elles. A negra foi á sala de jantar. Ritinha levantou-se e, rezando a Santa Therezinha de Jesus, accendeu a vela benta aos santos feiticeiros. Andreza, desvencilhando-se com a segurança da fé na escuridão dos corredores, trouxe o alimento votivo. Para Santo Onofre, aguardente no copinho e no pratinho um pouco de presunto. Para São Cosme e São Damião, dois pedacinhos iguaes de goiabada. — Vá, meus santinhos, trabalhem bem e façam o milagre de defender aquella moça christã da feitiçariá da negra macumbeira. Vós, meu São Jorge, que não bebeis e nem corneis e que vos alimentaes da graça de Deus, protegei vossos devotos de todo o mal. Amen. Aquella fé profunda da velha preta deu confiança e paz a Ritinha. Ella também pegou-se com os santinhos e, rezando sempre, foi se despindo para deitar-se. Andreza ficou velando.

Era ainda cedinho, quando Ritinha acordou. Andreza tinha desapparecido. Ritinha veiu logo á mesa, onde estavam os santos. Tudo bebido, tudo devorado. Nem paraty, nem presunto, nem goiabada. Milagre? Thereza estava salva? Neste fugaz encanto da esperança, Ritinha começou a preparar-se para ir á casa de Thereza. Já estava prompta, quando surgiu no quarto Andreza excitadissima. — Ah! minha fia, louvado seja meu Santo Onofre... Não esquecendo São Cosme e São Damião, e também São Jorge. Fui ver na rua, e a moamba do inferno já foi consumida... Nem nada. Nem uma penninha da gallinha preta. Tudo voltou para o fogo do inferno. Agora tu vae lá e leva os santinhos do milagre, os pratinhos e o resto da vela benta a D. Thereza e vosmecês façam tudo, como eu disse e tu assistisse... Com o poder dos santos de Christo aquella christã estará livre de toda a malvadeza da terra. Embrulharam santos, pratinhos, toucos de vela, -com cuidado e carinho. Ritinha foi com o pacote para a sala de jantar, onde tomavam.café Vieira e D. Calú. Contoulhes as suspeitas dos primos sobre a negra e o seu propósito de avisar Thereza sem demora. Os tios, apprehensivos e indignados com os possíveis perigos, que pesavam sobre Thereza, revoltaram-se contra a feitíçaria. Vieira declarou: — Tudo isto é ignorância de uma gente infeliz, que vive nas trevas. Os espíritos maus se apossam delles e os fazem praticar desatinos e crimes. Quando se desencarnarem e passarem pela força da luz redemptora ao plano astral voltarão ao mundo para expiar os seus erros, praticando acções benéficas. Tenhamos dó desses irmãos transviados... Caridade e fraternidade. — Lá vem você, Aristides, com as suas baboseiras, esbravejou a antiga D. Calú, que a amizade por Thereza fazia sahir por um instante da sua depressão. O que aquella negra precisa é de uma boa coca e o olho da rua. Nós somos sempre molles, ninguém reage, nem em casa, nem contra o governo. Esta maldita policia protege tudo quanto é macumba e candomblé. Só sabe é perseguir os que têm vergonha e brio... Ah! minha Nossa Senhora da Gloria, quando esta miséria se acabará? Seja tudo pelo amor de Deus... — Mulher, cale esta bocca, ponderou Vieira... Você não está farta de soffrimentos? Não sabe que estou ameaçado de deixar o Thesouro e ser removido para o Norte e morrer lá de febre ou de beri-beri? Oh! é uma cousa horrível a familia... gente linguaruda, só falatorio, e não fazem nada... E quem soffre é o mais innocente... A corda arrebenta sempre do lado mais fraco. Vieira, furibundo, desappareceu. D. Calú suspirou e murchou, tornando ao seu abatimento, e levantou-se para ir á cosinha. Sem lhe dizer nada do que se passara com os santos de Andreza em seu quarto, Ritinha lavou as mãos na pia da sala de jantar, tomou o embrulho e partiu. Na rua, tudo pacato e nenhum vestígio, do « despacho ». Só muito calor já aquella hora. Entrou tremendo no portão e subiu com medo de encontrar Radagasio ou Balbina. Não viu nenhum delles e assim foi entrando pela porta aberta da casa, que um criado lavava. Por este mandou chamar a criada de quarto. A mulher veiu espantada e, por ser tratar de Ritinha, foi avisar Thereza. Voltou com ordem de a fazer entrar immediatamente. O alvoroço, em que ficou Thereza, excitou o zelo da criada. Foi levando Ritinha com toda a pressa pela casa a dentro. Thereza esperava Ritinha sentada na cama. A criada as deixou e cerrou a porta. Ritinha, com o embrulho na mão, não se poude conter e atirou-se nos braços de Thereza, tremula e assustada. — Que ha? Philippe? Fala, conta tudo, ordenou Thereza, inquieta... — Não, não, não é com Philippe, é comtigo, minha Teté, respondia arfancjo Ritinha. Depois dé um socego, fitou Thereza e sorriu-lhe commovida, alliviada. — Nada te aconteceu até agora, graças a Therezinha de Jesus... e também aos santinhos de Andreza, accrescentou. Thereza quiz saber o que se passava e porque toda aquella agitação. E Ritinha contou o incidente tenebroso do « despacho », o pavor da visinhança. Thereza interrompeu-a. — Mas que tem isto commigo? Ritinha hesitou. Por um instante a formosura de Thereza arrancou-a da angustia. A camisola de seda decotava o collo farto e rijo e o pescoço alteava-se sustentando a linda cabeça onde pesavam negros, vastos e fofos cabellos. 0 nú moreno do rosto, dos braços, das mãos e do busto fundia-se docemente no vermelho morango da seda da camisola, do lençol e da colcha. Só os travesseiros e os dentes eram brancos. As mãos firmes- de Thereza seguravam as mãos molles de Ritinha, e a quentura cheirosa do seu corpo socegava o desespero desta. Ritinha poude escapar dessa doçura para proseguir na sua narrativa. Quando referiu as suspeitas dos primos sobre a negra Balbina, uma claridade fusilou nos olhos de Thereza, e este relâmpago esclareceu-lhe tudo. Não teve duvida de que o « despacho » era contra ella, machinação da miserável negra. Sem se explicar com Ritinha, reuniu rapidamente tudo o que se passara nestes dias com Balbina, a bajulação hypocrita, a extranha sabida nocturna, a espionagem da véspera á noite, o súbito atrevimento da maldita. Veiu-lhe um impeto de bravura, desta bravura, que o amor lhe dera, em desforra de toda a sua longa submissão. — Não tem importância, Ritinha. Tudo isto é tolice e estupidez. Tu não vaes acreditar em feitiçaria, « despachos » e outras coisas idiotas. Deixa Balbina commigo. Ella pensa que tenho medo? — Não, Thereza, não fica assim tão indifferente. Ninguém sabe o que pode acontecer. Ha tanta cousa neste mundo... — Que é isto, Ritinha? Tu estás apavorada. Deixa de medo de bruxarias. Eu rio e não faço caso... — É, mas se Balbina entra a te perseguir, a pôr porcarias em tua comida, venenos nas cousas que tu comeres, ou na tua água, na tua cama... Sei lá. Aquella miserável é capaz de tudo... E depois... — Depois, o que? perguntou, desconfiada, Thereza. E como Ritinha se calasse, ella insistiu: — Radagasio? Sim? É o que vocês suspeitam... Ficaram caladas. Thereza ia até o fundo da trama da negra contra ella e comprehendeu o perigo, em que estava. O seu impulso era chamar Philippe para o seu lado. Só elle a protegeria de tudo. Não sabia o que fazer. Tinha orgulho em mostrar-se destemida, digna de Philippe, e defender-se sósinha até elle chegar. O calor a fazia suar. Espichou-se na cama. Batia com o lençol para se arejar. Ritinha não sabia como interromper a agitação, que as opprimia. O pensamento de Thereza lutava por prender as infinitas sensações que a imaginação suscitava. Afinal tudo se concentrou em um schema. Ella pertencia a Philippe e devia lutar para defender a sua vida e a sua saúde por elle. Vendo-a assim, parada na reflexão, Ritinha animou-se a falar. — Teté, escuta, não tenhas muito receio. Ha quem esteja velando por ti, e que sabe muita cousa contra pagélança... É a minha Dedeza. Ella te mandou uns santinhos, que traz sempre comsigo e que são milagrosos. Santo Onofre, São Jorge, São Cosme e São Damião. A gente dá comida e paraty a elles para trabalharem contra a feitiçaria... Esta noite, Dedeza fez elles trabalharem, e o certo é que o « despacho » maldito desappareceu da rua. Thereza sentou-se na cama e olhou para Ritinha. Pensou que ella enlouquecera. Disse-lhe com autoridade: — Que historia é esta, Ritinha? Tu também cahiste na bruxaria? Ah! não... Isso é demais. Não te quero mettida nestas superstições da velha Andreza. Tu não vês que tudo isto é ainda macumba de negro? Ritinha ficou atordoada. Se a voz de Thereza afugentava um pouco o terror, que a acabrunhava, o que se passara no seu quarto á noite, e a fé estonteante da preta Andreza lhe perturbavam o raciocínio. Foi o terror, que ainda dominou. — Sempre é bom experimentar tudo. Não custa nada, não é? Eu vou te mostrar os santinhos... Quem sabe se á vista delles não mudarás de parecer... Ritinha abriu o embrulho em cima da colcha fulgurante. Thereza esperava desdenhosa e curiosa. Quando viu de relance os santinhos de Andreza, os pratinhos e os toucos de velas, achou tudo tão rude e pittoresco e lamentou que Philippe alli não estivesse para rirem juntos. Ritinha mostrou-lhe o São Jorge. Thereza sorriu. Mostrou-lhe São Cosme e São Damião. Thereza sorriu. Mas, quando lhe mostrou Santo Onofre, Thereza deu um tapa no calunga e bradou revoltada: — Tira este bicho barbado de cima da minha cama! Foi com grande abatimento, que Ritinha apanhou Santo Onofre do chão e, por ordem de Thereza, embrulhou toda a macumba santa de Andreza. Para Ritinha, a situação de Thereza se aggravava, desde que ella recusava aquella intervenção. O seu fanatismo por Thereza commandava-lhe que velasse por ella sem descanço, vigiasse a negra Balbina e Radagasio. A ânsia de Ritinha era não se separar de Thereza, ficar alli para sempre. Com muito custo Thereza a convenceu de voltar para a casa. Ao primeiro impulso de revolta succedeu, no espirito de Thereza, a apprehensão deprimente. Teve medo de morrer longe de Philippe antes da entrada triumphante no paraiso do amor, que era a sublime finalidade da sua vida. Pensou em fugir da casa assassina, libertar-se sem demora e buscar Philippe em São Paulo. Pensou em chamar Philippe por um telegramma. Para escapar á morte que lhe privaria do amor, Thereza pensou em denunciar a negra á policia e pensou mesmo em.refugiar-se na casa de Vieira. Todas estas soluções, o seu orgulho alliado ao desejo de resolver a sua situação de modo suave e bello, repellia, accusando-a de covarde e estimulando-a a lutar pelo seu amor alli mesmo, em face dos miseráveis. Nesta dura hesitação, Thereza passou a manhã. Empregou a sua viva sagacidade em estudar as attitudes de Balbina. Espreitou Radagasio, evitando surprehendel-o bruscamente em uma possivel confabulação com a negra. Disfarçou a sua apprehensão com muita calma e subtileza. Moveu-se pela casa e pelo jardim, dissimulada, procurando brincar com Lili, com os pássaros, com os cachorros, numa vadiação esforçada e fatigante. A negra não se incommodou com a alegria de Thereza. Confiava em Eixú e esperava. Depois do almoço, surgiu Ritinha, disposta a arrancar Thereza de casa. — Por este calor damnado? objectou Thereza, fingindose brava. — Que tem? De automóvel ha sempre viração e podemos ir bem longe, á Tijuca... Thereza reflectiu e resignou-se a sahir, não para tão longe, mas para a cidade fazer compras. O seu instincto de agradar espertava. A criadagem a adorava. Thereza sentiu que precisava estimular ainda mais esta adoração naquella contingência perigosa. Para ficar só com Ritinha mandou preparar a barata e as duas desceram para a cidade. Depois das compras, fugiram do abrazamento da tarde e foram até á Gávea. Na volta, o sol ia enrubescendo a neblina, que se erguia do mar. Tudo ficou vermelho, água, céo, casas, ruas. O calor jugulava o mundo, suffocava-o, anniquilava-o. O sol de sangue foi cahindo atraz do Corcovado. Um nevoeiro, branco, espesso, subiu e enguliu Nitheroy e todas as ilhas da bahia. Quando a noite fechou, a nevoa secca ennegreceu e tapou o céo. Dentro delia, as luzes equivocas das fortalezas e as furiosas e quentes rajadas do noroeste. Antes do jantar, Thereza fez a distribuição das suas compras aos criados. Os melhores presentes foram para a criada de quarto e para a cosinheira, ás quaes iria recommendar apertada vigilância na negra. Ella dava com alegria e foi um alvoroço na casa. Balbina não appareceu, mettida no quarto de Lili, já na sua caminha. Thereza gritou por ella. A negra veiu, desconfiada e resmungando. Thereza affrontou-a, mostrando-lhe uma estatua de santa. — Esta Santa Therezinha é para você sempre se lembrar de mim. A minha padroeira é a outra, mas talvez você prefira esta, porque é mais moça e mais alegre Este rosário está bento e nelle você rezará por Lili. E este corte de vestido, já com o forro, será para o natal. A devota de Ogun não se moveu para receber os presentes. As pernas lhe tremiam. Dentro da cabeça pesava uma pedra. Thereza foi até á negra e metteu-lhe nas mãos paralysadas a santa, o rosário e o vestido. Olhou radiante para Ritinha, segurou-lhe o braço com prazer e, rápida, foi levando-a para o terraço.

No dia seguinte, domingo, Radagasio recolheu-se para compor o discurso, que ia pronunciar no almoço mensal do « Educational Club ». O thema era « a crise da moral ». Por maior commodidade, Radagasio resolveu trabalhar no quarto, onde tinha a cama para repousar da fadiga cerebral. Vestiu o pyjama de vicunha côr de macaco, para não se resfriar, e poz sapatos de lã. O calor era atroz. Radagasio mandou fechar as portas de pau das janellas das salas e o interior da casa ficou sombrio e mais fresco. Todos sahiram. Thereza e Ritinha, depois do almoço, tomaram o automóvel e buscaram socego e aragem no alto da Tijuca. Os criados estavam de folga. Só Balbina ficara tomando conta de Lili. Radagasio fez o chylo na meditação. O assumpto do discurso lhe pareceu fácil. Que cousa mais evidente do que a immoralidade no mundo actual? Não eram todos debochados, cupidos, ladrões? Um oceano de luxuria afoga a humanidade. Radagasio, repousando na poltrona, notou esta phrase em uma folha de papel, em que ia fixando os pensamentos para a oração. Exclamou: luxuria, luxuria e sempre luxuria. E a ambição de dinheiro? Não era também uma razão da immoralidade? Tudo não está corrompido por esta caça ao dinheiro? Homens e mulheres só querem ouro e mais ouro. Insaciáveis. A fome do ouro. Radagasio sorriu á sua descoberta e notou: « Auri sacra fames. » E o espirito de revolta, de insubordinação geral não perturba a ordem, a hierarchia? Sem quadros, a sociedade não subsiste. É preciso haver gradação, submissão. Radagasio foi annotando. E porque esta revolta contra a autoridade constituída? Porquê todos querem mandar. « Oh! vã cobiça de mandar! » Bem. Radagasio verificou que tinha três fundamentos da immoralidade. O quarto era a falta de religião.« Meus senhores, quando digo religião, não me refiro somente aquella que bebi no leite materno, aquella que presidiu o meu nascimento, que me guia na vida e me levará ao túmulo e me libertará das penas do inferno. Religião é tudo o que liga os humanos no sentido- do divino. E a humanidade se liga por mil laços espirituaes, sejam os do budhismo, do mahometanismo, do protestantismo ou mesmo do paganismo selvagem. Sejamos liberaes e tolerantes. O essencial é haver religião. Comprehendamos todas as religiões até aquellas sem Deus. O mundo de hoje apodrece por falta de crenças. Cada homem é um sepulcro caiado. Dentro delle só ha o vácuo. » Radagasio respirou forte e derreou-se, satisfeito e cançado na poltrona. « Ufa! tenho quatro bases, luxuria, cobiça, anarchia, irreligião. São as columnas do templo. Um discurso é uma obra de arte e já ouvi dizer que toda a arte é sempre architectura. Com quatro columnas levanto o meu discurso, o edifício de cimento armado. Sejamos modernos para agradar os Americanos do club. Agora resta encher a armação de ferro...» Radagasio bem disposto, de digestão feita, levantou-se. A excitação intellectual o animava. Estava enthusiasmado. Mirava-se no espelho do guarda-roupa, achava-se magnífico. Estudava expressões de physionomia para as phrases do discurso, sorria superior para a assistência? inflammava-se, gesticulava, pendia a cabeça triste deante da immoralidade humana. Nesta effervescencia sentou-se ã mesa para escrever tudo o que annotara e meditara. Estendeu a mão sobre a mesa. Festejou victorioso as palavras, que mandara gravar em seu annelão, em volta das armas da familia: « Eu semeio idéas. » Escreveu uma phrase. Parou. As idéas, que ia semear, dansavam atrapalhadas na cabeça. Recorria ás notas, que ainda ha pouco lhe pareciam tão sólidas e claras e agora estavam confusas e magras. Como encher o discurso? Radagasio ficou afflicto, debatendo-se no chãos. Levantou-se suando. Achou o quarto muito apertado. Veiu para o corredor. Havia muito silencio e muita sombra no interior da casa. Radagasio andou pelo corredor deserto, procurando palavras, phrases e tiradas. Passou pelo quarto de Lili, o único que estava aberto. A menina dormia. Balbina deitada no tapete, de olhos fechados. Radagasio parou, distrahiu-se um momento olhando. Continuou a caminhar. Não achou mais nenhuma palavra a accrescentar ás suas notas. Estava totalmente exgotado. Angustiado naquella incapacidade cerebral, Radagasio poz-se a andar, a andar. Parou novamente á porta de Lili. 0 cheiro acre, que vinha da negra, o deteve e o arrancou das suas cogitações. Balbina estava largada no chão, os braços grossos, nús, a saia, muito erguida, descobria as pernas até a metade das coxas, a bocca meio arreganhada sobre a dentadura branca. Radagasio suspirou. Um pedaço! Tornou a caminhar. Ia até o salão e voltava á porta do quarto, onde a negra tresandava. Os passos de Radagasio eram mais vivos e sempre abafados nos sapatos de lã. Agora marchava, como um felino alvoroçado. Lutava ainda pelo discurso, mas ia afrouxando a caça das phrases. Nada o inspirava. Os sentidos estavam perturbados por uma ansiedade de prazer, que o suffocava. Abriu o piano do salão e experimentou tocar o único exercício, que aprendeu em um anno de estudo applicadíi. No silencio vibraram dó, mi, ré, fá, mi, sol... As notas rudimentares transfiguravam a solidão. Radagasio tocou, tocou sempre o mesmo exercício. Nesta exaltação musical voltou a espiar Balbina. A negra mudara de posição e, com o movimento, a catinga desprendera-se mais. Radagasio deliciou-se em aspiral-a. Approximou-se bem de mansinho. Pareceu-lhe que a negra estava de olhos meio abertos e lhe sorria. Radagasio ficou maluco de desejos. Sentiu um arrepio de medo e correu para o salão. Queria musica. Do piano só lhe sahiam aquellas únicas notas. Lembrou-se de ligar o radio no seu escríptorio, ao lado do quarto de dormir. Alegria. Veiu-lhe um maxixe. Radagasio poz-se a dansar. Imaginou que dansava com Balbina a rebolar assanhada. Veiu um samba, veiu mais maxixe e toda esta dansa, toda esta musica cheia da volúpia preta, inflammavam Radagasio. Achava-as gostosas, porque se afinavam com a sua mestiçagem não muito remota. Radagasio sentou-se na cama, esquentado pelos sambas, que o radio mandava. Balbina lhe surgiu. Radagasio apertou os olhinhos e arreganhoü os beiços. Balbina achegou-se com a bocca aberta, as ventas offegantes, os olhos carregados de luxuria grossa. A sua voz rouca de doçura espessa, murmurou na cara quente de Radagasio: — Nhonhô não quer uma chicrinha de café? O bafo e todo o calor carnal da negra desfecharam o Ímpeto de Radagasio. Atirou Balbina na cama, e lambusando-a de beijos, respondia, suffocado: — Não, não, eu não quero café, eu quero é tabaco... Minutos depois estavam estirados os dois corpos brutaes, horrendos. Radagasio repousava a cabeça escura nos peitos enormes da negra e foi adormecendo. Quando despertou, sentiu-se feliz. Veiu-lhe á consciência o sentimento do dever. Despachou Balbina, desligou o radio e preparou-se para trabalhar. Lembrou-se de encher o discurso sobre a crise da moral com trechos de Seneca, Bossuet e Vieira, sem citar os autores. Era a salvação. E applicou-se á tarefa. Mais tarde, Balbina voltou ao quarto de Radagasio. Elle continuava á mesa, labutando nos plágios. Balbina roçou-se nas costas de Radagasio. Elle sorriu-lhe com bondade e meiguice. Mas, resoluto, em não se deixar interromper, olhou-a brejeiro e disse-lhe com firmeza: — Vae, meu tutu, deixa-me trabalhar. Agora estou inspirado. É o momento. Ha tempo de amar e tempo de trabalhar, como diz o profeta. A ordem por base. Cada cousa a seu tempo. Por isso, quanto a nós, também precisamos de methodo. Tu não queres, sua assanhada... Eu sei... Mas não transijo com a saúde, observo a prescripção do nosso Hippocrates: « Bis in septem. »

Philippe impacientava-se na fazenda. O interesse, que entretivera a ociosidade dos primeiros dias, exgotara-se. Agora era a pasmaceira preguiçosa, que o entorpecia e o exasperava. Nas cartas de Thereza já apontavam os appellos para a volta e Philippe adivinhava nellas prostração e angustia. Respondia, afflicto, supplicando-lhe a inteira verdade da situação. As respostas eram ainda veladas. Philippe ficava perplexo e acabrunhado. O seu ímpeto foi renunciar a toda a intervenção na venda da propriedade e voltar para o Rio. A indignação do tio o reteve. Philippe, covardemente, não confessou a sua ansiedade e disfarçando o desespero deixou-se ficar. Os Americanos proseguiam cuidadosamente no inventario. Salvador tinha empenho em nada esconder. Á sua lealdade correspondia um áspero desejo de ganho.- Debatia-se com os compradores sobre os preços da avaliação. O tempo, que era affligente para Philippe, não existia para os negociadores. Os dias corriam nesta luta monótona de compra e venda. Resignado a ficar até o fim do negocio, Philippe procurava dominar o seu desespero em longos passeios, em que alargava o seu conhecimento da fazenda. Quando Men não o podia levar de automóvel, Philippe ia solitário a cavallo. Nestas horas a observação-era fecunda e a imaginação ainda mais criadora. Um domingo de manhã, passando por uma velha colônia, a alegria da gente de fora das casas o attrahiu. Encostou. Um velho italiano, de rosto muito enrugado, curtido, endomingado, de collete sem paletot, veiu, reverente, saudal-o e convidou-o a apear-se. Logo um moço pegou as rédeas do cavallo e ajudou Philippe. No primeiro momento ficaram acanhados. As moças, colonas brancas, de vestidos vistosos, cheias de voltas de ouro, pulseiras e anneis de fantasia, miravam curiosas Philippe, que era alli o estrangeiro. Os rapazes eram robustos, gente que sahia do trabalho da terra para a dansa e os sports domingueiros. Philippe soube que o velho era o chefe de uma grande familia, que occupava a maior parte das casas daquella antiga colônia. Estava ha trinta annos no Brasil e ha muito tempo em Maracajá. Tratavam, elle e os seus, de quarenta mil pés de café. Tinham grandes roças de milho, feijão, mandioca, aipim e outros cereaes. Os porcos eram numerosos e de qualidade. A variada criação de gállinhas suppria a mesa do fazendeiro e do administrador. Tinham vaccas de leite e muitos carneiros, apezar dos cachorros, que os perseguiam. Os seus cavallos e bestas pastavam no campo ao lado da colônia e, para os passeios, para a missa e serviços urgentes, possuíam três fords. Era a prosperidade em ascensão. — Não pensa em voltar um dia á Itália, meu velho? indagou Philippe. — Per Ia Mádonna! A Itália está muito longe. Quasi já não me lembro delia, respondeu o velho em uma linguagem baralhada, que Philippe ia traduzindo comsigo. A Itália serve para os commendadores de São Paulo. Para nós, trabalhadores, a nossa pátria é o Brasil, que nos deu tudo isto. Philippe quiz aprofundar o sentimento daquella gente feliz. Os velhos já tinham renunciado á Itália. Os novos eram brasileiros nacionalistas. Muitos já não falavam italiano e todos expitmiam-se na nova lingua demolidora do brasileiro-luso, mantendo o sabor caipira. O italiano é o infatigavel formador de dialectos. Alli, na colônia, ' aquella mocidade se desinteressava de uma Itália desconhecida e reagia exageradamente contra a procedência itálica, para que não lhe suspeitassem do fervor brasileiro, que ostentavam. A posse de São Paulo, do Brasil, era para elles uma acquisição natural e inexorável. O velho contou a Philippe as misérias, que o obrigaram a emigrar e a sua constante feücidade na terra brasileira. Os seus filhos nasceram em São Paulo. Alguns estavam casados e bem estabelecidos em terras próprias. Um era fazendeiro no Noroeste. Philippe percebeu que as suas indagações eram impertinentes. Aquelles novos brasileiros não alargavam as suas vistas além dos horizontes da fazenda, do trabalho e da região, em que se moviam. Nunca olhavam para atraz, nem para o que está illusoriamente muito longe. Chegaram fords cheios de rapazes e moças. Vinham da missa. Os jovens traziam sanfona, flauta, violão. As raparigas ffl sem chapéo, de claras roupas vistosas, campesinas, tinham flores nos longos cabellos pretos. Os olhos luziam sobre as faces rubicundas. Os moços de sombreiro de feltro, trajavam de branco. Foram recebidos com um alarido festivo pela mocidade, que os esperava e que se desinteressou de Philippe. Os colonos não prestavam attenção ao calor damnado. Foi Philippe, que não o supportou e apressou-se em montar. Quando o velho o ajudou, disselhe risonho, zombeteiro: — Ma, perchè no fica? C'è baile e pranzo de galina, carnero, un leitonsino, maccheroni, polenta. Qualche bicchieri de vino e cerveza, per Bacco! Veda tante belle ragazze, peschone. Uno pagode, peccato!

Ás vezes, a calmaria era interrompida pela passagem de hospedes conhecidos de Salvador ou simples viajantes, que pousavam na fazenda, na casa do administrador. A conversa é uma diversão para a gente roceira, ávida de palavras e de historias, e, na expansão deste prazer, está o segredo da sua hospitalidade. Sem hospedes para tagarelar, tudo volta ao repouso. Philippe recolhia-se com a carta diária de Thereza e o dialogo da saudade e da paixão travava-se doloroso, vibrante, no silencio marcado pela voz plangente da « fogo-pagô ». Á tarde, Philippe levava a carta ao correio do escriptorio e, se Men estava livre, iam os dois de automóvel repetir os mesmos passeios de todos os dias, ao açude, aos capões, aos cafezaes. Depois do jantar, as crianças, filhas do fiscal e do boticário, cercavam Philippe, que lhes contava historias e lhes falava da natureza. Nada as interessava, como o céo. Philippe mostrava os astros, dizia-lhes os nomes, e annunciava-lhes o apparecimento. As crianças, pasmas, embasbacadas com tal magia e tão maravilhoso poder, imaginavam o céo uma fazenda e chamavam Philippe o administrador das estrellas. Neste encanto, ellas iam dormir e Philippe vinha para a conversa arrastada dos Americanos com o tio Salvador.

Aquella hora não se falava em negócios, mas discutiam-se geralmente assumptos agrícolas. Os Americanos, já familiarizados, iam revelando os seus projectos da transformação da fazenda. Procurariam applicar alli os princípios correntes da industrialização da agricultura. Aos brasileiros, que os escutavam, iam repetindo as lições do espirito novo da industria americana. — O trabalho agrícola, dizia um dos Americanos, para o seu maior rendimento deve ser executado em sua plenitude pela energia mecânica. Tudo isto por aqui está muito rudimentar. O tractor ainda é uma novidade. Quasi tudo é feito pela energia do músculo animal. Ha uma perda de tempo considerável e a maior vantagem da industrialização é reduzir ao mínimo o tempo do trabalho agrícola. 0 que se faz em longos mezes, será feito em poucos dias... — Sim, interrompeu Salvador, mas ha trabalho que só se pode fazer pela mão do homem... apanhar café por exemplo. — Parece que já existe machina de colher café... avançou Men. — Machinas, que se empregam na colheita natural, affirmou um Americano. Dentro de pouco tempo haverá machinas perfeitas adaptadas a tudo. — É o senso moderno da vida, concluiu Philippe. — Não é só o problema do mecanismo, que deve ser considerado para industrializar a agricultura. São também as relações entre patrões e trabalhadores, continuou o Americano mais discursador. É preciso cessar o regimen patriarchal das fazendas. A lavoura feita por este systema de colonos, de empreitadas individuaes, contraria o espirito novo da industria. O trabalhador deve ser um assalariado da empreza. Esta é que organiza e dirige toda a exploração agrícola. O trabalhador é um operário. Se o colono prefere trabalhar por sua própria conta, neste caso que se estabeleça em um núcleo colonial ou adquira terras, se tem meios para isto. Dentro da fazenda, que é uma usina de producção de viveres, não pode haver esse trabalho individual e anarchico. Tudo deve ser subordinado á direcção. Esta, que dispõe das terras e do apparelhamento mecânico, deve ter em mão o rendimento da producção, que pelo regimen das fazendas brasileiras é inferior ao que seria, se a organização fosse industrial. — Tudo isto é muito bonito, objectou Salvador, mas onde encontrar colonos, que se sujeitem a tal regimen?... — Naturalmente á principio será dif ficil, respondeu o Americano. Tudo deve ser reorganizado pela base. Primeiro o apparelhamento, que resolverá os factores, energia e tempo, em seguida virá a transformação do colono em operário, imposta pela machina, que reduzirá o numero de trabalhadores e os empregará em menor tempo. Men achava tudo muito interessante e colhia lições para a sua futura fazenda. Fazia objecções para ser mais esclarecido. Reclificava os princípios americanos com a relatividade brasileira. A sua maior hesitação era quanto á escolha entre o regimen do salário e o regimen cooperativo. Os Americanos eram pelo salário. — Sem duvida, respondeu o explicador, que a cooperativa seria um ideal, mas é arriscada, principalmente em paizes de trabalhadores, como os do Brasil, sem educação operaria. — O salário não será ainda a oppressão capitalista? perguntou ironicamente Philippe. — Não sei... A desordem das relações entre patrões e operários não provem unicamente do salário. Este corresponderá sempre ao padrão de vida do trabalhador. 0 mais serio é a harmonia entre os que empregam e os empregados. Quasi sempre as greves são motivadas pela desintelligencia entre os administradores e os operários... — No Brasil o administrador ainda é o antigo feitor de fazenda... commentou Philippe. Salvador não se poude conter, a conversa o estava irritando. Todas as suas idéas, as suas tradições eram postas abaixo pelo espirito novo, que vinha da America, e agitava os jovens brasileiros. — Você é um sonhador, Philippe. Eu queria vel-o dirigindo uma fazenda, uma fabrica. Era quebra certa, se os trabalhadores não o matassem para tomar conta de tudo. Deixemos de fantasia. No Brasil do que se precisa é mão forte sobre os colonos e tudo quanto é operário. Do contrario é anarchia. Estes princípios de industrialização da agricultura podem ser bons para a America. Aqui é loucura. Os senhores mesmos, quando tomarem conta disto, farão como eu, como todos nós, que temos experiência e não , caraminholas. A tal rotina, de que tanto os senhores escarnecem, continuará aqui em Maracajá. Eu não verei, porque vou-me • embora já do Brasil, antes que venha a catastrophe. Sabem que mais, boa noite. Men e Philippe ficaram vexados com o rompante de Salvador de Sá. — Sangue quente, sangue de bandeirante, commentou 'gracejando um Americano, continuando o whisky. Todos os dry-gentlemen são assim... Philippe entendeu preferível proseguir na conversa, em que estavam. O Americano insistia nas suas idéas sobre as relações entre os administradores e os operários. — O operário deve ser tratado com humanidade. O que elle aspira é á justiça, isto é, salário sufficiente e bom tratamento. Esta justiça pode se ampliar na opportunidade, que o patrão dará ao operário para progredir até o maior successo no trabalho e na riqueza. É preciso também admittir-se o direito de representação dos empregados. A commissão representativa dos operários deve reunir-se periodicamente com os patrões e discutir os problemas, que os interessem... Philippe e Men reflectiam. Depois de grande silencio, Philippe, que achava tudo aquillo insufficiente,perguntou: — Porque não se daria de uma vez a terra ao trabalhador e a fabrica não seria commun aos operários e ao Estado?

— Comprehendo. O communismo, concluiu o Americano. Não é um regimen occidental. Só serve para o Oriente. A Rússia, sem espirito individualista, pôde fazer a experiência. E assim mesmo abriram alli uma brecha no communismo integral. O bolchevismo com a nep não é o marxismo. É a prova experimental de que o marxismo é antiquado, uma doutrina do passado. Karl Marx e Engels falharam, porque não podiam prever a evolução industrial e a transformação do operário em proprietário, em pequeno burguez, se esta expressão hoje ainda é admissível. Na America do Norte a chamada luta de classes é uma formula morta, sem nenhuma significação. Na America não ha classes fechadas, castas, como imaginam os ideólogos communistas. Tudo é permeável e movei. Somos totalmente uma nação de trabalhadores. O trabalho nos iguala e sobre elle se funda a nossa democracia, em que não ha oppressores e opprimidos. Pelo trabalho tudo conquistamos. Não existem barreiras entre os trabalhadores, sejam capitalistas e patrões ou operários e lavradores. O nosso imperialismo é a expansão da nossa força productiva, uma necessidade do nosso trabalho, que procura produzir mais e distribuir melhor pelo mundo inteiro. No Brasil o communismo levaria á mina. A população é insignificante para uma partilha da immensidade das terras. Dividir as terras seria um retrocesso á miséria absoluta. Que fariam os novecentos mil habitantes do Amazonas com as centenas de milhares de kilometros quadrados de terra? Mesmo São Paulo não supportaria este regimen sem paralysar o seu progresso. Onde o capital para os machinismos e para prover a todo o necessário rendimento do trabalho? E Matto-Grosso? O Pará? Jamais sahiriam do estado selvagem. E como se defender da occupação estrangeira? Philippe preferiu não se empenhar na discussão. 0 assumpto era muito vasto e extremamente complexo para uma analyse lateral. O trabalhador libertara-se da longa escravidão e criara para si o mundo novo. O problema estava proposto aos homens do Brasil. Na sua solução condensa-se o destino do paiz.

Outra manhã, o administrador veiu communicar a Salvador a chegada á fazenda de um francez, que se dizia engenheiro de minas, mas que, pela linguagem e pelos trajes, era um verdadeiro caipira. Estava acompanhado de um sertanejo goyano, prosa e menos rústico do que elle. A novidade interessou Salvador. Mandou convidar os viajantes para almoçar e logo chamou Philippe e Men para vel-os. Não tardou que o administrador trouxesse o francez e o companheiro. O francez era velho e gasto. O sol curtiralhe a pelle enrugada do rosto. Os cabellos, que foram louros, estavam fouveiros e cahiam despenteados e seccos sobre a testa triste. Os olhos azues, ingênuos, exprimiam placidez e candura. Vestia pobremente uma remendada roupinha de zuarte desmaiado. Chapéo e sapatos de couro crú. ;íApproximou-se muito tímido de Salvador e o comprimentou com cerimonioso respeito. Philippe e Men vieram ao seu encontro para o pôr á vontade. Interrogado por Salvador, quem respondia por elle era quasi sempre o companheiro, sujeito magrissimo, muito alto, da estirpe ossuda, ousada e enérgica dos vaqueiros sertanejos. — O doutor, dizia elle, é um homem muito sabedor. Lá na sua mina de ouro, no nosso Goyaz, elle é tudo para nós. Doutor, boticário, escrivão e até prega sermão, como missionário. O francez ficou vermelho de vergonha. Abaixou a cabeça para se sumir, emquanto os seus merecimentos continuavam a ser enumerados pelo companheiro. Fez um esforço e o interrompeu: — Não fale, capitão. Deixemos de pabulagem. A gente está no mundo para servir os viventes. A gente é toda igual e se eu faço alguma cousa por voscemecês lá no nosso arraial, voscemecês fazem mais por mim. Aprendi nestes quarenta annos de matto brasileiro, um tudo, mais que na escola de França. Se a linguagem era estropiada, uma traducção caipira do pensamento humilde, a voz arrastada, a pronuncia de palavras sertanejas com accentuação franceza, davam-lhe sabor extranho e imprevisto. Salvador achou que o homem se exprimia muito penoso e vexado. Falou-lhe em francez. O engenheiro velho recebeu um choque. Muito surpreso, julgou-se transportado para o seu passado. Foi uma transfiguração. Falou na linguagem mais pura, mais elegante, com uma mobilidade juvenil. A conversa generalizou-se e o francez, senhor da lingua, dominou-a. Contou a sua historia. Estudara na Polytechnica de Pariz. Especializou-se depois em mineralogia, na Escola de minas. Attrahido pelo fabuloso da America, viera para o Brasil. Trabalhou em varias explorações e, penetrando sempre no interior, descobriu em Goyaz uma mina de ouro. Comprou as terras e estabeleceu-se alli com alguns camaradas da região. Ficava oitenta léguas longe da estrada de ferro. Por falta de capital não podia explorar a mina. Esperava sempre que um dia o negocio interessasse a algum capitalista e por este motivo viajava para Jaboticabal. Ia entender-se com uma pessoa, que queria associar-se á exploração. Tirou do bolso umas pepitas de ouro, com que deslumbrou os seus ouvintes. Os cândidos olhos azues faiscavam. O companheiro goyano não entendia francez. Vendo o ouro da mina, enthusiasmou-se e quiz metter-se a dar explicações. O engenheiro escutava complacente as tolices technicas que o sertanejo explanava. Voltou a ser caipira, concordava com o amigo, sorrindo com humildade. — O capitão me dá um adjutorio lá na nossa mina, que é uma graça de Deus. Elle é o meu lingua, o meu capataz. Sem o capitão, cadê gente para trabalho? Quando falta camarada, aqui o capitão fura o mundo e volta com um bandão de gente. É caboclo, é indio, é negro, de um tudo. Faz-se uma festa para começar o serviço, a gente bebe pinga três dias, trabalha três e descança no domingo. Philippe estava intrigado com este phenomeno de retrogradação de um polytechnico francez, que, embrenhandose na matta, em contacto com os sertanejos, se tornava um primitivo, rústico, acanhado, estúpido, sem forças para sahir deste plano inferior e, dentro da sua lingua racial, volvia a ser homem de intelligencia e de cultura superior. Contradictorio e doloroso. Philippe quiz sondal-o mais e em francez falou-lhe da França e da guerra. O antigo tenente da Polytechnica commoveu-se. O patriotismo exaltou-o. Exprimiu o seu soffrimento no exílio, a angustia, por que passara no sertão, sem poder communicar á gente, com que vivia, as suas torturas e esperanças. Mas persistiulhe a confiança inabalável na victoria. Conhecia o exercito francez, a preparação do estado-maior e esperava do gênio cartesiano dos chefes militares a segurança realista, a precisão mathematica da tactica, e do soldado francez o instincto guerreiro, a tenacidade inexgotavel e a bravura sublime. E contou: — Em 1885, eu era alumno na Polytechnica, quando a minha turma foi fazer exercício de campo. A região escolhida ficava entre Soissons, Château-Thieny e Meaux. Um dia, nas margens do Marne, o nosso capitão instructor nos falou assim: « Meus amigos, gravem bem este rio e esta região nas vossas memórias de françezes e nas vossas cogitações de officiaes. Será aqui no Marne que se decidirá, na futura guerra, a sorte da França. » — Como se chamava esse capitão? perguntou vivamente Philippe. — Pétain. No almoço trataram o hospede com grande carinho. Serviram-lhe o que lhe podesse lembrar o seu paiz. O paladar, sempre fiel, regalou-se com o salmão, os petits-pois, os champignons, o foie-gras. Foi uma delicia antiga para o velho francez aquècer-se com os grandes vinhos amarellos e sangüíneos e por ultimo espertar-se com cognac.

Esqueceu tudo o que fora acquisição na terra brasileira, Goyaz, a mina de ouro, tutu, pinga, camaradas e caboclas. Voltou a ser unicamente um francez cordial, intelligente, culto e loquaz. Philippe ficou encantado com a conversa do velho engenheiro e o animava com enthusiasmo. Os Americanos, que não sabiam francez, iam se entretendo com o capitão goyano. Este atacava faminto os pratos brasileiros, a sopa de cará, a feijoada, o lombo de porco e contava bravatas de caçadas de onça e de vaquejadas, em que se ferra o gado. No meio das narrativas vinham as lendas, as abusões, as mentiras mythologicas. — Não conto nada, mas quem entra no sertão deve andar sempre prevenido. Se a gente só encontrasse onça ou bicho natural, era muito bom. Mas um christão, que topa currupira e não está prevenido de fumo, ah! fim triste de vida! Nós estamos viajando ha um mez, pousando aqui e acolá. Não faltou para nos assombrar, muito fantasma no matto, nos rios e nas lagoas. De uma feita, sahiu da água perto da balsa, em que nós atravessamos uma lagoa, uma figura exquisita, pavorosa mesmo. Não se sabia se era peixe ou se era homem. O bicho sahiu d'água e posou na praia, bem pertinho de nós. Êtal monstruosidade! Parecia gente. Tinha mãos de cinco dedos com unha, que cahiam das nadadeiras, bocca rasgada, lingua carnuda e bigodes de homem. Pescoço de gente e nos peitos uma espécie de maminhas, como de mulher. Da barriga para baixo era peixe, como surubim, liso, sem escama. O doutor, que sabe de um tudo, nos esclareceu que aquillo era caboclo d'água. Os Americanos não acreditaram e interpellaram o velho engenheiro. Este sahiu das margens do Sena e mergulhou novamente no Araguaya. — Sim senhor, eu vi caboclo d'água, peixe-homem, que guarda os rios e as lagoas do sertão. Este que nós topamos não nos assombrou, porque o capitão teve o expediente de rezar um padre-nosso e o bicho deu um estouro, morreu e sumiu no fundo da lagoa. Philippe murmurou para o primo Men: — Que lastima! Philippe ficou scismando na força ineluctavel do sertão, que retrograda a intelligencia, elimina a cultura e asselvaja o homem.

Foram-se estes viajantes. Dias depois, á hora quente da tarde, chegaram outros. Chegaram barulhentos em dois automóveis, quando Salvador dormia na rede da varanda e Men cochilava no sofá. O alarma dos automóveis acordou-os. Ergueram-se para receber os visitantes, que já subiam a escada e um delles ia gritando: — Êtal Seu Salvador, isto aqui não parece fazenda, parece mais é convento de frade. Tudo dormindo. Que lombeira... Boa tarde... — Deixa de contar prosa, Rodrigão, respondeu Salvador, gente de automóvel em viagem não se lembra de quando, está na fazenda, a esta hora de calor brabo, está tudo ferrado no cochilo... Onde vão vocês? Isto não é boa cousa, Rodrigão junto com Sigismundo Almeida é pagode grosso. Vocês vão, mas é perder estes três frangões... Os frangões eram três homens feitos. Sigismundo Almeida deu uma palmada nas costas de Salvador e berrou-lhe: — Cala bocca, capão velho. Tu estás é com inveja. Vamos tirar uma fésinha lá em Ribeirão? Tem cabaré e francezas... A gente varia um pouco do trivial da terra, do tutu e do macarrão. Tirou a capa e arremessou o corpansil no sofá. Rodrigão já estava installado, a cavallo, na rede de Salvador, balançando-se. As longas pernas arrastavam os pés ruidosos no assoalho. O rosto magro, tostado. Os cabellos e o bigode muito grisalhos. Explicou porque viajavam: — É o que lhe digo, seu Salvador, nós vamos a negocio a Ribeirão Preto, negocio de uma fabrica de tecidos, que queremos montar com os pães destes meninos, que são capitalistas fortes, como você sabe. Aqui o engenheiro é que vae estudar o caso. Você sabe, fazenda é muito bom, mas a gente deve cuidar de amparar o que é seu em outras cousas. A broca já vem por ahi e adeus café... Vamos tratando de plantar algodão e para o nosso algodão seria bom uma fabrica nossa. Philippe appareceu. Vinha do escriptorio, onde levara a carta para Thereza. Não conhecia os visitantes. Ficou sabendo que eram grandes fazendeiros da visinhança e os dois rapazes, sobrinhos delles. Men já lhe havia falado no engenheiro seu companheiro de caçada. Por sua vez os jovens não ignoravam o nome considerável de Philippe e mostraram-se contentes de o ver. No acanhamento do primeiro contacto, a conversa foi sobre a excursão que estavam fazendo. Elogiaram os seus automóveis. Discutiram sobre a excellencia de cada uma das marcas, embrenharam-se em argumentos technicos e, quando estes faltaram, affrontaram-se com o preço, que pagaram. — O seu carro é muito bom, não nego, Sigismundo, mas não vale o meu, affirmou Rodrigão. Basta dizer que o meu custou oitenta contos e o seu setenta... — Porque o seu tem carroceria e accessorios de luxo, o que é bobice na fazenda. A questão é o motor. Com pouca gazolina é aquelle successo. Você viu que na estrada eu lhe dei poeira, que foi um gosto... gritou numa risada Sigismundo, estirado no sofá, de papo para o ar, barriga redonda, volumosa, pernas roliças, cara raspada. — Que tal a estrada? indagou Salvador. Muita poeira? — Já se sabe, estrada de rodagem é poeira em dia secco e lama em dia de chuva... sem contar os buracos, que ficam para sempre, gritava Sigismundo, estremecendo-se todo. Mas o peior é que já não se pode viajar sem encontrar morpheticos pelas estradas ou acampados por cima dos pastos, onde soltam os cavallos. Hoje mesmo topamos um grupo e o Zézinho ficou branco, como defunto... Zézinho era o sobrinho de Rodrigão. Alto, forte, muito moreno, com o cabello duro, preto e rente. Picado com a observação do fazendeiro, defendeu-se. — Medo, nunca. Tive nojo e vergonha. Que miséria para São Paulo deixar morpheticos infeccionando as terras. Estive muito tempo na Europa e nos Estados Unidos e nunca vi leproso. Aqui no Brasil é esta tristeza, e no primeiro Estado do paiz. Isto é civilização? — Você não viu nada, menino, observou-lhe Sigismundo, ás vezes elles vão pela estrada. Quando apparece de longe um automóvel e estão em logar que tem matto, um leproso deita-se no chão, finge-se de morto, os outros se escondem. O automóvel approxima-se e por caridade os viajantes param para verificar se é ferido ou cadáver. Ah! os outros morpheticos avançam e pegam nos viajantes com aquellas mãos horríveis para passar o mal Elles acreditam que ficam curados se passarem a lepra a sete pessoas, que ás vezes mordem, principalmente crianças... — É o tal beijo do leproso... Misericórdia, Sigismundo, interrompeu-o Salvador. — Qual! este zebú não tem coração, Salvador, deixa elle falar... observou Rodrigão. — Falar, falar, vocifetou Sigismundo. Não tenho coração. Eu queria ver o que vocês fariam se fossem agarrados pelos mprpheticos, como tem acontecido a tanta gente. Não faz muito, vocês bem leram nos jornaes, que uma colônia delles no norte do Estado avançou para a cidade visinha. Invadiram em todos os seus pontos, penetraram nos cafés, nos hotéis, cinemas, procurando passar o mal á população. Que aconteceu? O povo reagiu á bala, morreu muito morphetico e os outros debandaram. Mas ainda foram fazendo desgraças. Na estrada encontraram uma criança na porta de uma casa. Avançaram para a pobresinha e cahiram-lhe de dentadas até sangrar e esfregaram nas feridas as suas chagas... — Que horror!... murmuraram todos. E a pesada conversa cahiu. Para disfarçar a triste impressão, que os revoltara, entraram a gracejar ruidosamente uns com os outros, até que, acalmados, os espiritos se tornaram sérios. Rodrigão interpellou Salvador sobre a venda de Maracajá. — Então é certo que você vende mesmo a fazenda? Não quiz acreditar. O que? Salvador Corrêa de Sá, brasileiro da primeira gente que fez o Brasil, ceder a terra ao estrangeiro... Tenha paciência de ouvir a nossa indignação... Você é um desertor... Salvador levantou-se bruscamente e ficou alguns instantes no meio dos hospedes. O seu olhar entenebreceu-se. O rosto ficou congesto. Quando pensaram que responderia com violência ao doloroso commentario de Rodrigão, sentou-se e explicou-se com tristeza e solemnidade: — Vendo a fazenda para me retirar do Brasil. Não quero assistir ao descalabro da nação, que os meus antepassados formaram. Vou morrer no exilio, mas não testemunharei a orgia do despotismo, que nos suffoca, nem a invasão da anarchia, que nos ameaça. Não tenho o direito de me revoltar contra o Estado e as leis. Emquanto estiver no Brasil obedecerei a estas. Ellas são injustas e nefastas. Retire-me por não poder respeital-as. Philippe notou que isto era antigo, dessa antigüidade que considerava o cidadão como um escravo do Estado e ignorava os direitos do indivíduo. Os fazendeiros não queriam empenhar-se em uma questão doutrinaria. Elles sentiam a invasão estrangeira, que se apossava do paiz e indignaram-se. — O Brasil, diziam, está sendo comprado pelo estrangeiro. E o governo está alegre na loucura de vender tudo. Que são estes empréstimos senão a venda do paiz? Quem deve e não pode pagar é escravo do credor. O Brasil não tem independência econômica e financeira. Não é somente o governo que vende o paiz, são também os particulares, que cedem as suas industrias e as suas terras. Philippe acudiu energicamente ao eterno debate dos destinos do Brasil: — É por isto que é imprescindível a revolução que varra tudo e transforme o paiz totalmente. Se assim não for, o Brasil será possuído pelo estrangeiro que não vem com a força, mas com o dinheiro. Comprarão tudo, dominarão os homens públicos, que serão os seus vassalos e que farão de figurantes politicos para fingir que isto aqui é uma nação. O capitalista estrangeiro entra por toda a i parte, como senhor e dono. Apropria-se hoje do gado de Matto-Grosso, amanhã do café de São Paulo, da borracha do Amazonas, dos diamantes de Goyaz, do ferro de Minas. Os presidentes de republica, os senadores e deputados servirão para mascarar a fachada e, na realidade, não serão mais do que caixeiros e testas de ferro do capitalismo soberano. Isto doeu ao patriotismo dos fazendeiros. Queriam que nada fosse exacto e tudo era a inexorável realidade. Não puderam replicar a Philippe. Comprehendiam a necessidade da revolução redemptora, mas não queriam exprimir mesmo de leve a sua adhesão ao espirito revolucionário. Estavam, como a generalidade dos brasileiros, ligados ao governo por uma communhão de interesses, que suffoca o patriotismo, a honestidade e a justiça. Só uma offensa directa ao seu interesse próprio os faria sahir da passividade. A conversa sempre difficil de ser franca e leal entre brasileiros, mais uma vez desviou-se. Passaram a falar de café. Havia uma tendência de baixa de preço, que os inquietava. — Não sei, Salvador, se você afinal não faz bem, ponderou Sigismundo, deixando a sua jogralidade costumeira. Vejo as cousas mal paradas. Se o governo abandona o café, como parece ser o pensamento do presidente da republica, adeus São Paulo. Fizemos o erro de entregar o café ao governo federal. É preciso o Estado retomar o negocio e sustentar o producto. Sem valorização permanente ninguém se sustenta... A baixa nos levará todos. — Lá isto é verdade, seu Mundo, concordou Rodrigão. Tudo está nas mãos do governo. Contra elle ou sem elle nada podem os particulares, por mais ricos que sejam. Não ha agremiações de fazendeiros, nem mesmo associações industriaes que possam influir no governo. O Estado faz do café o que bem lhe parece e, se nos ajuda, é porque precisa do imposto. Afinal quem sustenta o governo e todo o paiz é o café. Por isto eu fico esperançado de que não seremos abandonados. O maior interessado é o governo. O café paga tudo. Se o governo não se importa com os fazendeiros, importa-se com o café. E afinal nós aproveitamos... — Eu já não me considero mais fazendeiro, intervém Salvador, ainda assim estou muito pessimista em relação ao café. Esta ameaça da broca é seria. Vocês riem? Vão-se fiando. Olhem o que succedeu em Java. Tudo anniquilado.. Será possivel evitar a propagação da broca? Vocês mesmos não querem confessar o pavor, que sentem no fundo do pensamento, más já estão cuidando do algodão. É outra trapalhada. A lagarta nos persegue. O Men teima. Cadê lucro? Tudo isto é cacete... Agora, se o governo abandonar o café, que farão os fazendeiros reduzidos á miséria? — Neste caso, berrou Sigismundo excitado, nós iremos até a separação de São Paulo do Brasil. Pelo nosso interesse ferido, faremos como os nossos velhos, que abandonaram a monarchia para se vingar da abolição. Nós abandonaremos o Brasil por causa do café. São Paulo não pode trabalhar para a incapacidade da União. Se o Brasil continuar a ter presidentes mineiros, São Paulo junta-se com o Rio Grande e formaremos uma republica independente no Sul. Mesmo sem o Rio Grande, nós, sosinhos, ficaremos separados. O progresso de São Paulo, que o distanciou de todos os Estados e do Rio de Janeiro, obriga-o a defender a sua riqueza, o seu patrimônio. — Mas, Sigismundo, como é que São Paulo se defenderá da União? Deixa de farofa... objectou Salvador. — Neste caso nós teremos o apoio estrangeiro... — O que, rapaz? perguntou indignado Rodrigão... Isto seria uma infâmia... — Infâmia é a ladroeira da União com o café, a riqueza, e o trabalho de São Paulo. Se ella quer nos escravizar para nos roubar, nós nos revoltamos e o estrangeiro, que tem interesses comnosco, nos apoiará. Ha em São Paulo uma massa enorme de capitães estrangeiros e as nações dos capitalistas americanos e europeus defenderão á força, se for preciso, este capital. Se São Paulo separar-se, a America do Norte e a Europa ajudarão o Estado, e a União nada poderá contra a força armada estrangeira. Ha em São Paulo perto de duzentos milhões de dollars. Dentro de poucos annos haverá uni bilhão. Os Estados Unidos velarão por este enorme capital. s — E adeus nacionalidade paulista... Passaremos a ser colonos americanos. Você está louco, seu Mundo. Cale esta bocca, brasileiro degenerado, vendido... berrou Rodrigão. Os rapazes gosavam as explosões do patriotismo interesseiro dos velhos. A reunião dispersou-se jovialmente. Voltaram ás pilhérias, aos remoques, e entraram a beber. Resolveram acceder ao convite de Salvador e ficaram para jantar. Partiriam á noite, aproveitando um fio de lua crescente. Salvador propoz que fossem dar um giro pela fazenda, queria mostrar-lhes um pouco do cafezal e do gado. Zézinho recusou. — O senhor me dispensa, sim... Prefiro ficar e tomar um banho... Já o Men me disse que a piscina aqui é esplendida. E isto de cafezal e de gado já está cacete. Sempre a mesma cousa e as mesmas conversas, café muito ensaiado, café adobado, café podado, caracú superior a hereford, banho carrapaticida. Oh! já basta... Vamos ao nosso banho, seu Alcides. Você também não foi estudar na Europa, estudar é uma historia, viver em Pariz, para se metter em fazenda. O velho Pereira, teu pae, que te arranje um logar de director-amador em uma das fabricas delle e tu, por teu lado, que és rapaz dansarino e elegante, vae cavando uma moça rica, que não falta paulista bonita e se você quizer misturar a raça, como está na moda, é pegar uma italiana, ou uma portugueza. E porque não, uma bella syria?... Assim você seria o primeiro a se casar por prestação... Alcides, muito encalistrado, acompanhava o falatorio de Zézinho. Ria e não replicava. A sua admiração por Zézinho era illimitada. Nada divertia tanto o seu espirito acanhado, como a desenvoltura do companheiro. Eram inseparáveis desde a Europa. Foram juntos aos Estados Unidos, onde fingiram estudar electricidade e, em São Paulo, nos bars, nos clubs e nos passeios de automóveis gosavam a indolência. Não cessavam de projectar negócios, sempre adiados. Os pães muito ricos e trabalhadores, mesmo sem acreditar nessas fantasias, estavam sempre promptos a ajudal-os. Por isto vieram entender-se com os tios fazendeiros para a montagem da fabrica de tecidos em Ribeirão Preto, onde seria aproveitada a energia electrica, alli em pleno desenvolvimento. Alcides decidiu-se a ficar com Zézinho para o banho. Sigismundo, sempre suando e arfando, não resistiu á seducção de refrescar-se na piscina. Salvador dispensou o engenheiro, que, radiante, se aggregou a Zézinho. Philippe e Men também ficaram e, afinal, só partiram para ver o cafezal e o gado Salvador e Rodrigão. Os outros vieram para a piscina, grande tanque de água corrente, aberto ao céo. Os criados trouxeram as toalhas e a pinga. Philippe e Men não beberam. Só beberam os que iam tomar banho. Sigismundo bebeu mais que todos. Os rapazes despiram-se e foram atirando os corpos cabelludos. Sigismundo berrava alegríssimo: — Êta, seu Zézinho, não sei porque o povo te chama Zézinho Perereca... Você parece mas é macaco. Perereca é pelada. — Mais respeito, gritou Zézinho, boiando. Perereca não, dobre a lingua... Vamos, tire a roupa e vamos a ver esta capivara velha se afogar... Sigismundo ficou nú. A copiosa gordura tornava insexuados os cylindros, os cones e as espheras do corpo immenso. Em pé, á beira da piscina, as pernas carnudas, sustentavam sem vergar a armação da barriga e da peitaria. Sigismundo deu um grito estridente e angustiado. — Livra, perereca, que eu vou te engulir... Levantou os braços curtos, deu uma cambalhota no ar e cahiu estrondosamente na água. Mergulhou e desappareceu. A água transbordou e grandes respingos molharam Philippe e Men. Todos ficaram maravilhados com o imprevisto salto mortal de Sigismundo. Quando este surgiu cuspindo água, sorria victorioso. — Conheceu, perereca? Sigismundo mergulhou novamente e nadou dentro d'água, perseguindo Zézinho, que se livrava mal do homem amphibio, inasphixiavel, surprehendente de agilidade e de resistência. Banharam-se longamente e, depois de vestidos, mais pinga. Estavam refrescados, chalaceando na varanda da frente da casa, quando chegaram empoeirados Rodrigão e Salvador. — Ah! seu Mundo, você não sabe o que perdeu em não ver o gado de Salvador. Quasi tudo cara branca e bem nutrido, que faz gosto. É gado de corte para apurar tresentos kilos no mínimo. Que differença da criação mineira!... — Não diga, Rodrigão. Não me fale em mineiro que me sobe o sangue á cabeça, gritou suffocado Sigismundo. Aquella gente só quer mal a paulista. Agora mesmo é mineiro, que nos persegue no café. Oh! se conheço criação mineira! Andei lá pelas divisas com São Paulo e visitei muita fazenda. As mais ricas é aquella porqueira. Casa, um pardieiro velho com chiqueiro por baixo, lamaçal em volta focinhado pelos porcos soltos, uma cachorrada magra deitada no terreiro, bichos cercando a casa. É porco, é vacca, é zebú. Bicheira que éum nojo. Urubu que mette náusea. Até cavallo cheio de fome, que come carneiro, segundo diz mineiro. — Elles deviam tomar lições em São Paulo, cortou Men. — Não fale, concordou Rodrigão. Mas qual, vêm nada. Ficam na inveja e não têm coragem de reformar a sujeira e a ignorância... O que é pena é São Paulo fazer uma belleza, como esta fazenda, e afinal vae tudo passando para o estrangeiro. Dumont já foi, Chanaan, e agora Maracajá, e vae tudo... Zézinho interveiu: — Meu tio, você e todos os homens de seu tempo vivem a se queixar do estrangeiro, como se elle fosse culpado de ter dinheiro e energia. — Então não foi o brasileiro, que fez São Paulo, seu tolo? perguntou Rodrigão, esquentando-se. — Não sei. É historia antiga, replicou Zézinho. O que eu sei é que se não fosse o colono italiano, onde estaria a lavoura de São Paulo? E agora em que mãos está a industria de São Paulo? Principalmente nas do estrangeiro, italiano, allemão, syrio. E a quem se devem os melhoramentos da capital? A água, o telephone, o bonde? Aos americanos. O que devemos fazer é imitar o estrangeiro na organização e no progresso. — É, mas tudo irá deixando de ser brasileiro, observou Men. — E o que é brasileiro, seu Men? perguntou Zézinho, a quem não responderam. Ah! ninguém sabe? Nem eu... É o branco, descendente antigo de portuguezes, que quasi já não se encontra, é o negro, o indio, o mulato? Todos elles, naturalmente. Porque não osjfilhosjde estrangeiros que nasceram aqui, vivem a nossa vida, aspiram a dominar a terra, que defendem com amor e de que são orgulhosos. Ha um patriotismo brasileiro delles tão legitimo e tão vivo, como o do melhor mulato. — Você, Zézinho, com este longo tempo de Europa e Estados Unidos, está mas é desnacionalizado, respondeu Men. O seu ideal é a americanização do Brasil... Não é?... — Não tenho ideal nenhum, seu Men. Ideal é moeda falsa. Eu me limito dentro da realidade. Testemunho o que vae se realizando e não me metto a modificar cousa alguma. Pouco me importa que o Brasil se torne americano ou continue negro, indio, caboclo ou latino. Não reconhecer que ha no Brasil uma fascinação americana, é bobagem... — Lá isto é verdade, concordou Philippe. Em geral a mocidade brasileira sympathiza com o espirito americano. Ella é simplista, moderna, immediata. Tem sede de energia e o americano exerce a funcção de estimulante. Não é somente no sentido do movimento, da velocidade, do materialismo, que o brasileiro se americaniza. Ha uma mentalidade americana de enriquecer, de ganhar dinheiro, como a primeira obrigação, como talvez a exclusiva funcção do homem... — Justo, applaudiu Zézinho. Afinal encontro alguém que comprehende... O que nós queremos é dinheiro, dinheiro para gosar. A mulher brasileira torna-se americana, como grande consumidora de dinheiro. Pela necessidade que ella tem de gastar, obriga o homem a produzir dinheiro cada vez mais. — Ha uma differença, observou Philippe, o culto do 'dinheiro no Brasil não é tão absorvente, diremos tão mystico, como nos Estados Unidos. O brasileiro, logo que enriquece um pouco, dá-se por satisfeito, julga-se muito rico, descança, diverte-se. Apparece-lhe o espirito latino, que o domina e o limita. O americano prosegue sempre no caminho da riqueza. Nada lhe basta. Aspira a um poder fabuloso da riqueza. Tem o culto do illimitado. É uma das formas mysticas do seu espirito: o dinheiro pelo poder que elle dá. Os fazendeiros não se interessavam por estas analyses, que lhes pareciam divagações massantes. Salvador, impaciente, veiu com um dos seus rompantes: — Pois bem, se a mocidade brasileira se americaniza, como vocês dizem, e é verdade por um lado, porque não imita os americanos no respeito da ordem? Nos Estados Unidos não ha revolução, ha ordem, disciplina e mesmo hierarchia, apezar do protestantismo. Aqui é um triste espectaculo de desordem, de mashorcas estúpidas, que só servem para atrazar o progresso do paiz. — Muito bem, Salvador, apoiou Rodrigão. Não sei para que serve a tal fascinação americana... Só para ganhar dinheiro, beber e dansar. E ganhar sem trabalhar... Jogo, especulação, negócios suspeitos, negócios á americana. 0 que ha de bom nos Estados Unidos não se imita, a ordem, a religião, o trabalho. — Mas em uma cousa nós somos superiores a elles, aventurou timidamente Alcides, para quem todos se voltaram admirados de ouvir-lhe a voz. Aqui não ha preconceito de raça... Por sermos morenos, o Zézinho e eu, soffremos o diabo nas escolas, por onde andamos. Suspeitavam que fossemos gente de côr, negros. Os collegas nos maltratavam, não se ligavam comnosco e foi por isso que tratamos de voltar para o Brasil. — É que americano tem faro, disse numa risada rouca Sigismundo. Você é meu sobrinho e por isso posso dizer que nós não somos brancos puros, dos taes cento por cento... Andamos ahi nos trinta por cento, por muito favor. O resto é africano e caboclo. E branco de Portugal já só tem uns cincoenta por cento... Tudo negro, rapaziada. Toca a sambar... — É isto mesmo, voltou Salvador com a sua preqccupação, aqui no Brasil a vida ou é batuque e cateretê ou mashorca...

— Tio Salvador tem verdadeira mania da ordem, commentou Philippe. Em tudo vê desordem, anarchia. A ordem para elle é uma categoria. Ha o absoluto da ordem. Tudo isto é romantismo, mysticismo politico. Sejamos relativos, meu tio. O que você chama ordem, eu chamo desordem. Desordem social provocada pela autoridade, que usurpou o poder á força, pelo despotismo, que esmaga o homem, pela prepotência de uma classe, que se apossa dos bens, que são de todos. A revolta contra tal ordem é a mais legitima e fecunda. A ordem, isto é, a aspiração de harmonia entre os homens está com os revolucionários e não com os scelerados e ladrões, que exercem a tyrannia eompressora.Esta é a realidade politica para mim. Sei que para você a realidade é outra. Mais uma vez, os valores são relativos. A realidade brasileira, que os homens da ordem defendem, é o governo com o seu despotismo, é a violência, o anniquilamento, o assassinato, a tortura, a escravidão dos pobres. Os chamados libertários são ridicularizados, são ideólogos, românticos. Mas, no dia em que os homens da ordem caem nas unhas do governo feroz, então gritam pelos homens da liberdade, pelas massas proletárias para os defender e salvar. A tyrannia é optima para os outros, mas a liberdade é providencial para cada um de nós. Ninguém tem o direito de proclamar-se realista absoluto. Todos têm o seu mysticismo. Seja o da ordem, o do communismo, o da liberdade ou o da religião. Arrogar-se de realista um espirito religioso é absurdo. Sei a resposta. Deus é a realidade suprema. Deus é o real. Jogo de palavras da metaphysica religiosa. Responderão que isto é primário. Rio-me da pretensão. Vocês tradicionalistas e religiosos não se podem intitular de realistas. A realidade para vocês é apenas a realidade social, uma pequena superfície solida no espaço incommensuravel do sobrenatural, em que vocês se perdem. Philippe falou com o ardor antigo. Depois elle mesmo espantou-se da sua linguagem e aborreceu-se deste enthusiasmo, que julgava extincto, desde que se destacara do mundo secundário da politica e se elevara ao mundo transcendente do amor. Os Americanos, que passaram a tarde inteira no escriptorio com o administrador, vieram para o jantar e ficaram muito satisfeitos de conhecer os futuros visinhos. Á mesa um grande constrangimento extinguira a cordialidade barulhenta, em que se debatiam os brasileiros. Moleques espanavam as moscas sem somno, que se agitavam debaixo das luzes. Os aromas do jardim e do matto misturavam-se aos cheiros quentes das comidas. Falavam com moderação deante dos estrangeiros. De vez em quando, os Americanos se entretinham em inglez com Zézinho e Alcides. Estes não apreciavam muito o exame, que lhes passavam sobre os seus vagos estudos nos Estados Unidos. Men e o engenheiro gosavam os embaraços dos dois electricistas. Depois do jantar, Zézinho e Alcides fugiram dos Americanos e foram para longe, para a outra extremidade da varanda. Ahi se juntaram os moços, emquanto os velhos fazendeiros e o administrador conversavam café com os estrangeiros. Men queria reter os amigos mais uns dias na fazenda e, para seduzil-os, propoz uma noite de musica sertaneja e uma caçada de espera na matta. Havia signal de que os porcos do matto tinham dado em uma roça de milho e todos os caçadores da fazenda andavam assanhados, tocaiando-os ou preparando-lhes armadilhas. Na véspera, um desses caititus fora morto na espera mandada armar por Men. — Lá pelo porco eu fico, aceitou Zézinho, mas pela musica sertaneja, nunca. Basta me falarem nisto, só tenho impeto de fugir e desapparecer. — Eu não digo que você é um brasileiro renegado, replicou Men aborrecido com o desdém de Zézinho. Tudo o que é nosso lhe repugna. Para você só ha poesia e musica estrangeira... Não é? Pois a musica americana só vale por ser musica negra.

— Não tenho nada com o gosto americano.Elles só querem negro para o jazz, blues e black-bottcm. É uma gente que se diverte neste exotismo, desdenhando criar musica e dansas brancas. Reservam as suas energias para o que elles chamam utilidade. Vãq ver se elles entregam o governo, a administração, a politica, aos negros, aos mulatos, como se faz no Brasil... Que esperançai — Você é absurdo, Zézinho. Haverá nada mais bello, mais profundo do que esta poesia e esta musica,, que exprimem a alma brasileira? — Ai, ai, Men caipira. Então só o que é negro, indio ou mulato é que é brasileiro? Está errado. Você é capaz de repetir que o Brasil é o sertão e o sertão é o tal cerne do Brasil. Isto é imagem de literatura, que excita tolamente o nativismo. Como o sertão está no interior do.paiz, foi fácil concluir que o sertão é a medula do corpo da nação e o sertanejo o representativo. Então nós, os paulistas, a gente do sul, os gaúchos das fronteiras, os nortistas da Amazônia não somos representativos desta vontade de querer e de poder ser brasileiro? E quem construiu a nação? Não foi a gente do litoral? Quem ajudou os portuguezes a expulsar francezes, hollandezes e hespanhóes, não foram os brasileiros das cidades, das villas, das praias e das mattas? Onde estava o sertanejo nesse tempo? Não existia. Esperava os bandeirantes, os portuguezes, os negros para formal-o. Ah! Com esta exaltação do sertanejo, estão mas é rebarbarizando o paiz. Depois não se queixem. É bacarmate, é pajeú fazendo a lei. Philippe, divertido com o discurso do rapaz desabusado, estimulava-o: — Estupendo! Vamos, continue... — Podem caçoar, acudiu Zézinho, queimado. Mas eu é que não temo ninguém e digo o que penso. Digo e repito, já estou farto de viola, farto de negro, de capadocio, de mulataria. Estão fazendo da vida brasileira um samba, que não acaba mais. Repito, isto é exotismo no próprio paiz.

Deixemos a arte negra aos francezes, aos suissos, aos polacos. É uma curiosidade malsã, que excita os literatos e sobretudo as mulheres. Os inglezes desprezam a arte negra. Estão habituados á negrada nas suas colônias, como os hespanhóes e os portuguezes. Negro serve para trabalhar. Os francezes são novatos colonizadores de negro e o negro é uma revelação para o povo mais basbaque da terra. No Brasil, arte negra é pilhéria, literatura, contos de benguelas, macumba, figa da Bahia, batuque... Tudo visto, tudo cacete. Nascemos e morremos com o negro. É muito intimo, muito familiar, não interessa. Depois a tal arte negra limita-se a alguns rythmos musicaes, a umas syllabas de sonoridade dissonante da sonoridade portugueza. É a única curiosidade. Não construíram, • não pintaram, não esculpiram. E quanto á pura imaginação negra, não existe mais no Brasil. Está tudo misturado. Remontar ao negro, para o brasileiro de hoje é( artificio literário. Os negros tiveram o seu tempo, trabalharam no eito, levaram bacalháo, dansaram o samba, o batuque e deformaram os portuguezes, fazendo o mulato. — Está direito, Zézinho, cortou Men, mas você não pôde negar que a grande massa do paiz sendo mestiça, a arte negra, ou melhor a arte que veiu delles, a arte mestiça, é a verdadeira arte brasileira. — Cada um tem a poesia do seu sangue... concluiu Philippe. — Áh! é bom que vocês reconhecem, gritou Zézinho enthusiasmado. Se é uma questão de sangue, eu opto pelo sangue branco, que também tenho. Sou mameluco, não ha duvida. Porque não hei de ser fiel ao sangue lusitano, ainda que este não seja puro, segundo a dosagem angloamericana? Em todo o caso eu tenho algum sangue branco e sinto que o meu pensamento é de branco e por isso em vez de retrogadar á selvageria africana ou india, aspiro á civilização, que disciplina o mundo... — Puxa, não ponha tanta eloqüência, não fale difficil.

Fica manso, Perereca, tu estás mas é pernóstico, como um bom mulato, interrompeu Men, dando risada. — Pois é. Eloqüente, mulato, perereca, tudo o que vocês quizerem, mas repillo a minha reincorporação ao negro, ao indio... Ora, raça india, raça negra, não ha differença. Deixemos de orgulho tolo. Tudo é a mesma cousa. Tudo vem do mesmo tronco, dessas polynesias e melanesias, matrizes das raças inferiores. — Continua, seu pernóstico, a mostrar sabedoria, gritou Men. — Fique você, seu Men, com os seus negros e seus Índios, eu fico com os meus brancos. — Vassalagem ao sinhô branco, seu mameluco, replicou Men. Zézinho explodiu: — Sabe o que mais? O brasileiro é um negreiro insaciável e incorrigivel. Explorou o negro na escravidão, agora o explora na arte. Philippe percebendo que Zézinho estava se excedendo, entendeu cessar a discussão. Renovou a insistência de Men para que ficassem. A caçada, também, o estava seduzindo. O engenheiro» caçador excitava o enthusiasmo dos companheiros, narrando as suas ultimas proezas numa batida de veados. Cada um contava a sua historia de caçada e estas evocações os decidiam a interromper a viagem e matar os porcos do matto. Tudo dependia dos velhos. Destacaram Zézinho para obter o consentimento. Ficaram esperando o resultado. Acompanharam silenciosos os gestos dos fazendeiros e de Zézinho. Este voltou desanimado. — Qual, os velhos estão duros e não querem ceder. Qual fabrica, qual negocio. Pensam que não percebi. Tudo assanhamento por cabaré... Principalmente seu Mundo, que é mais positivo. Quando lhe falei em porco do matto, deu risada e debochou. Falou que era melhor caçar francezas... Pançudo sem vergonha!... E para não haver mais insistência, pediram ao administrador que mandasse vir os automóveis. E acabou-se a historia. Men poz no phonographo um disco de maxixe. A musica sahiu saracoteando. Requebrava-se, descia ao chão, esfregava-se e erguia-se remexendo-se langorosamente, enternecia-se, cantava, syncopava, retomava a fúria delirante, estonteava, fascinava, assanhava. Arrebatou freneticamente Zézinho e sambaram, sambaram...

No dia seguinte á tardinha, Philippe e Men partiram para a espera dos caititus. Men, no volante do automóvel, Philippe ao seu lado, e dentro, um camarada caçador com as espingardas e o farnel. Não levaram barracas, capas, seringas e medicamentos. Não era a caçada de Radagasio.

As massas concentradas dos morros esculpem-se á luz rubra do sol. As várzeas e os cerrados achatam-se firmes. As cores estendem-se sobre as superfícies duras dos volumes. Na immensidade solida, a terra immovel. Sobre ella, os carreadores descem, sobem e caminham até á matta. O impeto annula toda a ordem. No insondavel, crepita a vida profunda, insaciável de criação e movimento. A seiva inexorável projecta-se nos seres, que a victoria da força e a paciência do tempo modelam. O frêmito erótico da matta gera o mundo tropical. Do bojo da incommensuravel matriz pullulam as formas innumeraveis da essência immorredoura. Tudo continua na unidade infrangivel. Tudo confunde-se no atropelo da criação. Aquella pedra respira, floresce, é um vegetal, aquelle cipó amarra as arvores, palpita, é uma cobra. O que vae ser representa-se por antecipação. A seiva germina o invisível e o monstruoso. Os jequitibás postam-se, enormes, espectraes, á entrada da matta para guardar o mysterio verde. A noite enche toda a negrara, surgindo dos esconderijos da terra ou descendo docemente do alto. A matta rescende a resina e a alho. Outros gigantes succedem aos jequitibás. Arvores veneraveis e meditabundas. No fundo, onde todas as vozes da floresta se calam, alteia-se velha figueira. O tronco, um rochedo. Delle, possantes raizes arremessam-se, erguem-se e fortificam uma vasta área de liberdade. Neste alicerce de granito, o tronco sobe, vencedor, emquanto as raizes temerosas entranham as garras na massa da terra vencida. Milhares de plantas alviçareiras, servis, adornam o monstro. A velha arvore eleva-se graciosa, rejuvenescida subitamente, agasalhadora, alargando os galhos robustos, pejados de folhas. Dentro delles a luz extasia-se, a musica é ardente, o esquecimento perpetuo. Os invisíveis continuam infatigaveis a destruir e a refazer a vida. As formas lutam, vencem, explodem em volumes coloridos. A floresta maravilha-se na formidável eclosão de plantas, arvores, pássaros, reptis e feras. A imaginação encanta-se no terror. Os seres são irreaes. A matta procria a floresta de mythos. A volúpia corre, arrebata, transfigura. A combustão abraza, allucina. Febre de exaltação, delírio, perdição, anniquilamento. O mysterio eterniza-se. A magia seduz e abysma. Mysterio, magia, luxuria, immensidade, criação, terror, tudo é o sortilegio do Brasil.

As cabeças dos caititus, extranhos corações humanos, sangram. No sangue florestal correm a vida, os desejos, a ferocidade.

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