XII A Viagem Maravilhosa · Capítulo 12 de 17
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XII

XII

Ritinha chegou. Muito cedo, Aristides Vieira estava no cáes. Logo que o vapor atracou e foi desembaraçado, eil-o um dos primeiros a bordo. Nos salões, nos corredores, no tombadilho era uma algazarra de nortistas, que chegavam, e nortistas, que os recebiam. Vieira, alegre, gosava das vozes altas, cantadoras, estridentes, que o atiravam para o passado provinciano. Muito á vontade, despachava-se para descobrir a sobrinha. Não tardou que lhe mostrassem a familia, que a trazia do Maranhão. Sem cerimonia, foi logo perguntando: — Cadê a Ritinha? Apontaram-lhe, por entre clamores festivos, uma moça pallida, magrinha, de cabellos compridos, castanhos escuros, como os seus. grandes e doces olhos. Aristides disse quem era e a moça atrapalhada, sem falar, beijou-lhe a mão, emquanto elle a abraçava. Logo os outros se puzeram a elogiar Ritinha, que fora o encanto do vapor, o mimo de todos. — Ah! O senhor não imagina, disse uma mulher esganiçada de cara de cigana, por baixo de um desabado chapéo de palha com fitas e flores, como a sua sobrinha foi a feiticeira de bordo. Todos a queriam, para dansar, para cantar, para brincar. Huml hum! ficou muita gente de aza cahida... Diga, Ritinha, não é? — É uma maranhense que nos orgulhou no vapor, affirmou uma mulher redonda, de lunetas com trancelim de ouro, embrulhada em um capote. Nem as pernambucanas emproadas podiam competir com ella. Para cantar ao violão, não se fala, para jogos de prendas, adivinhação, para um tudo, a primeira. Aristides sorria lisongeado e agradecia o incommodo de trazerem a sobrinha e os elogios, que lhe faziam. Afflicto por se safar das tagarelas, dizia a Ritinha: — Muito bem. E as bagagens? Um moço cortou-lhe a retirada. Entendeu também louvar Ritinha. Sacudiu os cabellos crespos, um sorriso triangular escancarou-lhe a cara e passou-lhe pelos dentes dourados. Levantou os braços e, aflautado, cantou para Aristides: — A Ritinha é uma sylphide na dansa e no canto um rouxinol, uma Philomela. Sempre a nos maravilhar. Ainda esta madrugada estávamos no tombadilho de cima, para apreciar o incomparavel espectaculo da entrada desta magestósa bahia e admirar o Gigante de Pedra. Emquanto esperávamos o instante divino, Ritinha cantou umas modinhas tão chorosas, que todos tivemos as palpebras humedecidas. — Mas como o senhor, seu Chrysostomo, recitou o Gigante de Pedra! que voz maviosa, bem merecido nome, bocca de ouro, ciciou uma mocinha, cortejando o angélico mancebo. — O mérito é todo de Gonçalves Dias, o maior poeta do Brasil de todos os tempos... respondeu corando. — Lá isto não, interrompeu sarcástico um rapaz baixote e escuro, o primeiro poeta é Castro Alves. — Oh! bairrismo! Sim senhor, seu Maneço, bem se vê que o senhor é bahiano, disse a maranhense esganiçada. Quem é o cantor de « minha terra tem palmeiras »? — E do « emfim te vejo, emfim posso »?... interrogou suspirosa outra maranhense. — Seu Maneco, tire o cavallo da chuva com o seu bahiano, berrou uma velha desabusada. Gonçalves Dias é o nosso primeiro vate. — Mas quem ficou toda babada, quando eu declamei o « Navio negreiro »? replicou o bahiano. Ardente, recomeçou: — « 'Stamos em pleno mar »!... Uma mão rápida tapou-lhe a bocca, emquanto uma voz de moça despeitada ia resmungando: — Muito bem, seu Maneco, esta cá me fica. Ainda hontem o senhor me jurou que o primeiro poeta é Gonçalves Dias e agora se desdiz! Vá a gente acreditar em jura de homem... Aristides Vieira agarrou Ritinha pelo braço e foi levando-a para baixo, ordenando-lhe, nervoso: — Vamos ver a sua bagagem, menina. Quando chegaram ao camarote, já de porta escancarada, Aristides estacou deante de uma preta velha, que lhe pediu a benção. Vieira olhou interrogativo para a sobrinha. Ritinha saboreou o espanto do tio, e rindo explicou suavemente: — Titio não se lembra mais? Esta é Andreza, minha mãe de leite, que me criou. Foi impossivel deixal-a lá no Rosário, sósinha. Não posso me separar delia. Trouxe commigo. Fiz mal? A preta velha abriu os beiços roxos, triumphante, mas os olhos cançados, ficavam parados no perpetuo pasmo. Vieira conciliou-se com a situação, sabia o gênio hospitaleiro da mulher e quanto á casa, era vasta. Desceram para o cáes. Ritinha ficou atordoada com tanta gente, tanto guindaste, tanta machina. Os companheiros de viagem diziam-lhe adeus, e ella, apatetada, mal lhes falava. Vieira tratou de leval-a para fora com a preta e as bagagens. E só, quando teve de tomar a conducção, notou a bicharada, que Ritinha trazia. Eram gaiolas com mutuns, jacamins, papagaios, periquitos, uma com uma veada, outra com macacos e sauins, além das de passarinhos, sabiás, graunas, curiós, patativas, cardeaes, chechéos e um tucano. Em uma gaiola de que Ritinha não se separava um delicioso corrupião, amarello claro, de encontros e rabo pretos. Vieira desanimou. Era a sobrinha cantadeira, seguida de bichos e pássaros, que lhe invadia a casa. Misericórdia. Tomou um caminhão para as malas e as gaiolas, e metteuse em um taxi com Ritinha, a velha Andreza ao lado do chauffeur. Ritinha foi achando tudo incommensuravel, avenida do porto, praças, automóveis, gentes. A sua mocidade reagia contra a confusão, em que se baralhavam as cousas e as massas. Fazia um esforço para discernir, separar e admirar. Vieira ia explicando logares e objectos. Ritinha não prestava muita attenção aos nomes e as qualificações. Ella ia recolhendo as suas impressões directas, simples, das formas, das cores, dos sons, dos movimentos e na imaginação ia criando a cidade fantástica e inverosimil. Quando dobraram para a avenida Beira-Mar, ficou abysmada da apresentação dos morros Verdes e cobertos de casas e dos morros seccos a pique sobre a água azul, faiscante. — É alli que moramos, explicou Vieira, mostrando a collina da Gloria. — Que bonito, titio. Olha, Dedeza, uma egreja no alto. Vôce está vendo? A preta velha não via nada. mas benzeu-se e poz-se a rezar. Ritinha levantou a pequena gaiola do corrupião e apresentou-lhe o panorama: — Está ahi, seu Vivi, o que eu lhe offereço, está belleza. Valeu ou não valeu sahir do nosso Rosário e vir para aqui? Agora você vae aprender as cantigas da gente da terra para assobiar para titio... Vieira estava aterrado. Pensou o diabo, mas conteve-se, complacente, sorrindo como se sorri aos loucos. Não precisaram klaxonar para dar aviso da chegada á i •• casa. Logo que entraram na rua do morro, Vieira avizou Ritinha: — Lá está na janela a sua tia com o Manuel, lhe esperando. Os dois carros pararam ao mesmo tempo á porta da casa. Emquanto Vieira se occupava do pagamento e de fazer descarregar a singular bagagem, D. Calú veiu á porta e abraçou-se á Ritinha. — Minha filha do coração... Que saudades de tua mamãe, a minha Dondon... Coitada, no céo! Mas tu és o retrato delia quando tinha a tua edade. Que bonitinha! Não é Manuel? Ritinha, atrapalhada com a gaiola do Vivi, beijava e abraçava a tia, de lado. Para ter mais liberdade a matutinha não se intimidou. Entregou a gaiola a Manuel. — Tome cuidado, não deixe elle fugir, é o meu companheiro. Dindinha, a sua benção. Olhe quem eu trouxe, a Andreza... — O que? tu és a Andreza?... Quasi não te conhecia... Tantos annos... — Ah, Nhanhã, o tempo está pesando nestes ossos velhos... Quando Vosmecê nos deixou, Ritinha não era nascida, eu era ainda mucama da fallecida... Uê! terra fria, a gente nem pode falar de tremura, livra, meu São Benedicto. Na sala de jantar, as gaiolas ficaram espalhadas pelo chão. Manuel collocou a do corrupião sobre a mesa. Ritinha ficou muito inquieta e perguntou alvoroçada: — Tem gato? Socegou com a segurança que lhe deram de não haver na casa nenhum animal. Aquelles eram para elles uma extranha novidade. D. Calú levou a sobrinha ao quarto que lhe destinara e tratou de agasalhar a velha Andreza. Perguntava noticias maranhenses, commovia-se, exclamava, ria-se, encantada com este encontro familiar.

Trouxe de novo Ritinha á sala de jantar para resolver o problema dos bichos. Ahi estavam Monteiro e Pedro, que, com Manuel, se entretinham em examinal-os. Ritinha familiarizou-se com os rapazes, admirada dos conhecimentos de Monteiro, que sabia de todos aquelles animaes. D. Calú tratou de desencavar Jujú, que estava adoentado e não se levantava, assim facilmente, da cama. Afinal o trouxe. O menino esverdeado, febril, teve um relâmpago; de alegria com a novidade de tudo aquillo em sua casa. Era o jardim zoológico, que lhe vinha como em um sonho. Mas era o jardim dos bichos sem a sua Thereza. Este pensamento o affligiu e o petrificou deante das gaiolas. Ritinha tentou inutilmente o fazer falar, vibrar com os seus animaes. Jujú manteve-se mudo, apenas curioso das piruetas dos macacos e dos movimentos inquietos das aves, atordoadas com o vozerio humano. A ultima pessoa da casa, que appareceu, foi Aracy. Veiu muito arranjada, com os cabellos louros bem ondulados e um vestido ousado. Ritinha ficou intimidada com a entrada arrogante da prima e esperou que esta lhe falasse. Aracy a examinou e mal a saudou. Mostrou-se exagera- • damente horrorizada com as gaiolas. Motejou da maranhense e seu rancho. — O que você pensava do Rio de Janeiro para carregar esta bicharada? Que isto aqui era uma espécie de Cajapió, Codó, Cururupú? Sei lá! Olhe, mamãe, o melhor é mandar tudo para o Jardim Zoológico... Que budum! Manuel amparou Ritinha, ralhando com a irmã, que era uma tola e não sabia apreciar aquellas maravilhas. Ritinha ficou contente e entrou a elogiar os seus companheiros. Falou-lhes. Brincou com elles. De repente todos os bichos exaltaram-se, ouvindo as palavras meigas e decisivas da dona e dominadora. Os macacos pulavam alegres e guinchavam ruidosos, os mutuns piavam, os jacamins roncavam cavernosos, cantavam os curiós, as patativas ligeiras, as graúnas altivas, os sabiás saudosos.

0 chechéo os imitava zombeteiro. Trepado no dedo de Ritinha, o corrupião, livre, luminoso, solar, assobiava uma canção do norte, doce e vibrante. Só o tucano não dizia nada. Produzia a magia da côr. A manhã inteira passou-se nesse encantamento. Ritinha soltou a veada, a sua Sinhá, que a acompanhava pela casa toda. Ao almoço o corrupião estava no seu hombro e, de vez em quando, lhe tirava da bocca grãos de arroz. Jujú estava pasmo e distrahido. Ensaiou ver se o passarinho lhe fazia o mesmo, mas o corrupião se recusou e voou para a janella. Os rapazes ficaram inquietos, imaginando que o pássaro fugisse e com elle o maravilhoso sortilegio, que já os prendia. Ritinha assobiou e orgulhosa recebeu no dedo o corrupião obediente. Ordenou-lhe que também assobiasse e elle assobiou um sonoro maxixe. Perguntaram-lhe porque o chamava de Vivi. , Ella explicou, enleiada: — Porque o moço que me deu chama-se Viriato. Eu então puz na lembrança delle o nome porque eu o chamava. Elle agora está no Amazonas, mas um dia virá aqui... A passagem do amor deu um grande silencio na mesa. Aracy não falou todo o tempo, irritada com a transfiguração da casa. Depois do almoço Vieira partiu para a repartição. Aracy metteu-se no quarto. Os rapazes rodeavam Ritinha e brincavam, como ella brincava. Não tardou que exigissem o canto. Ritinha appareceu com o violão, a Sinhá ao seu lado e Vivi no hombro. Poz-se a cantar cousas tristes, que os balançava suavemente, como em uma sésta no sertão quente em uma rede de varandas de crivo. Passou o violão a Monteiro, que a principio tocou solos simples e depois elevou-se a chromaticas.rendilhadas e fulgurantes. Conheceram a mestria do errante, mas, quando o ouviram cantar com a voz rachada, falsificando o sertanejo, espocaram a rir. Monteiro gosou o seu esperado fracasso e entrou a cantar ainda mais falsete, modinhas brejeiras, cantigas atrevidas de vaqueiros, emboladlj cocos e maxixes capadocios. Levaram assim um dia nortista, um gostoso dia vadio;e, quando foi á tardinha, D. Calú espreitava na janella a passagem do automóvel de Thereza. Logo que o percebeu, fez signal que parasse. Veiu á porta e convidou Thereza a entrar. — Desculpe, mas é por pouco tempo. Quero que a minha sobrinha veja a senhora. Thereza desceu do carro e entrou graciosa na atmosphera da admiração. Desta vez Jujú precipitou-se para ella e abraçou-lhe as pernas. D. Calú mostrou-lhe Ritinha. A maranhense ficou boba. Nunca vira uma mulher assim. Thereza sentiu o pasmo do encantamento e o seu inconsciente feliz multiplicou a seducção. Chamou Ritinha aos seus braços, beijou-a e falou-lhe com a suprema meiguid da sua voz quente e musical. Ritinha não rompia a fascinação. Deixava-se vencer extatica. Foi Jujú que, ciumento, desviou Thereza para mostrar-lhe a bicharia. Thereza tinha muitas daquellas aves em casa, mas, não conhecia o corrupião, que a maravilhou. Ritinha não sabia como explicar tudo aquillo. Monteiro foi o interprete da fauna nortista, transportada pela moça cantadeira. A visita foi curta. Thereza pediu a Ritinha que a fosse ver com Jujú para mostrar-lhe os seus pássaros. Já Ritinha quiz dar-lhe dos seus. Ellas se entendiam nesta attracçijjj do encanto animal. Só depois que Thereza partiu, appareceu Aracy. Logo que a viu, Ritinha disse-lhe enthusiasmada: — Está ahi, a Thereza também tem cabellos compridos;! Aracy deu um muchocho: — Sua tola, Thereza não conta. Está fora da canoa. Olhe, mamãe, en vou jantar em casa da D. Genoca... Ufa! Na beatitude do amor Philippe renunciou ás acções, que o ligavam aos outros homens. Renunciou á gloria e ao poder. Exaltou-se na exclusiva actividade do amor. Que maior acção que a do amor? Arrebata-nos da relatividade mesquinha, da-nos a separação bemfaseja, torna-nos criadores de novos valores, de um mundo, em que o nosso ser se augmenta. Nenhuma actividade mais poderosa, nem a da sciencia, nem a da arte, nem a da religião. O Universo deixa de ser espectaculo, transforma-se em vida, quando a energia do amor o conquista para a viagem maravilhosa, que realizamos nos espíritos e nas cousas. A actividade suprema do amor de Philippe foi a criação de Thereza. Antes da revelação do amor, Thereza permanecia na desolação. As forças conscientes a confinavam na relatividade social e impediam o surto da sua magnífica natureza. Para encher a separação, que se abrira entre a sua alma e o universo, a religião não fora sufficiente. Não encontrou nella a perpetua alegria. Só o amor dá a plenitude espiritual e sensorial e nos integra na ineffavel unidade, em que a dôr cessa e o ser se abysma na beatitude. O amor de Philippe actuava sobre o amor de Thereza para impor a magia do encantamento e da força, com que ella venceria todas as contingências e se libertaria de toda a servidão. Philippe, que vivera longamente na ascenção espiritual e.que, de realidade em realidade, se manifestara homem de/pensamento e de acção, sentiu-se deslumbrado, quando o milagre do amor se produziu em Thereza. Desde então, renunciou a qualquer outra actividade. Para que proseguir na obra do pensamento, na expressão da imagem, na acção politica, se a vida, na sua maravilha suprema, se revelava emfim em um ser, onde a belleza da forma, o fluido da intelligencia, a vibração, o enthusiasmo dos sentidos se exprimiam pela transcendência do amor? Philippe tornase o heróe da intelligencia, que se completa no amor. Thereza, a pura heroina do amor, que se faz intelligencia, arte, religião, vence a natureza e realiza com o seu amado a unidade infinita. Philippe e Thereza proseguiam na ânsia do desejo. Esperavam sempre eliminar todas as diffiçuldades, que impediam a perpetua união, a que aspiravam. Nesta aurora da paixão, o encanto os arrebatava, os fascinava e não deixava que agissem violentamente contra a ordem social, que os separava. A felicidade os adormecia na esperançai] Procuravam se ver em encontros fugazes, telephonavam-se diariamente e esperavam ardentes, inquietos e anseadojj Thereza fez-se a Amante mystica, a serva que radiante se absorvia, se eliminava no Amante e vivia no sangue e no pensamento deste. Philippe aceitava bemaventurado o divino dom do ser de Thereza e transfigurava a tortura da separação na delicia da maravilhosa unidade e da perenne fusão voluptuosa e immortal. Sentir o desejo, a ânsia de possuir é uma sensação innominavel. Parecia a Philippe que elle se voltava a si mesmo, que Thereza era o seu próprio eu na expressão feminina, como elle era o eu masculino, em que se transmudara a mulher amada. No corpo de Thereza encontraria o seu próprio corpo em uma apparencia mais attrahente, mais seductora e de fascinante! perpetuidade. Tudo é o jogo mágico da natureza, o mysterio dos mysterios, porque é a realidade da paixão, é o Amor! Desde que se separavam a dôr era immensa. A saudade delles mesmos, a suprema tortura.

Ritinha trouxe do Maranhão uma rede de tucum para o tio se deitar; uma cuia pintada para Jujú se banhar;: rendas, crivos, lenços para Aracy se enfeitar; bacury, cupú, Jussara para os primos regalar e, para a sua madrinha o capeta esconjurar, um rosário de Nossa Senhora, uma figa e a estrella do mar. Os bahús de Ritinha tresandavam a capim cheiroso. Nas suas roupas espalhava favas de baunilha, a água de seu banho perfumava com macacaporanga, sobre o corpo esfregava pega-não-me-larga e nos cabellos punha essência de pripioca e no lenço a umburana de cheiro. De Ritinha emanava um feitiço, que entorpecia' os rapazes. Entretinham-se com a maranhese, ouviam as suas historias e iam se familiarizando com as evocações nortistas. Quando ella cantava, Vieira e a mulher tinham uma saudade funda da terra e se julgavam exilados neste sul frio e montanhoso. Ah! Maranhão como aquelle não ha! O Anil e o Bacanga abraçam a cidade velhinha e olham de vagar as quintas com as suas mangueiras e os bacurys e as casaronas frescas, de mirantes e socavões. Que silencio nas ruas grandes de sol e que conversas, que entram por uma porta e saem pela outra. Ritinha dansava o chorado da terra e o coco sertanejo, que os retirantes levaram ao Rosário. Dansava para o namorado que estava no Amazonas comendo tartaruga no tremendal dos siringaes. Os rapazes na varanda do outeiro da Gloria pensavam que Ritinha dansava a cantava para elles e não se mexiam com olhos de jacaré. Aracy e a sua canoa desmanchavam o sortilegio. Entravam pela casa, vaiavam Ritinha, xingando-a de macacaporanga, mucura-cáa... Ritinha chorava. Não chora, meu Bem, não chora... O Léo cantava: Tatu subiu no páo. Os revolucionários espertavam e berravam: Ai seu Mé, mé, mé. Fervia a bagunça em uma algazarra hostil e alegre. Macaca-poranga! Mé, mé! D. Calú arrancou Ritinha desse pagode e a levou para a novena da Gloria, que estava fazendo como promessa para a cura de Jujú. O menino muito amarellinho e cheio de febre ia embrulhado para a egreja. A velha Andreza seguia com elles e, já na rua, ia engrolando o terço. A primeira vez que Ritinha viu a egrejinha do outeiro, toda faiscante de luzes, suspensa como um adereço de brilhantes sobre a terra e o mar, desde a tarde fresca desmaiada pela noite a dentro, ficou maravilhada. A romaria para a novena cumpria-se com profunda uncção nos quatros devotos. D. Calú entregara o seu filho á misericórdia da Virgem Santa, á Mãe dos Afflictos, e tinha esperanças. Ritinha pedia á Sublime, á Bondosa, á toda Poderosa que unisse os que se amam. Para Jujú, a Santa no resplendor da luz, das jóias, do fogo, no perfume do incenso, era Thereza no céo e elle lhe sorria extatico. Andreza exclamava o seu benza-te

Deus, minha Santa da Gloria, resmungava as preces rude» e confusas, tomava-lhe a benção como a sua senhora, a dona, a mãe dos perpétuos escravos. Na manhã da festa, D. Calú com as suas companhe e mais Aracy muito forçada, levaram Jujú para o cumpri mento da promessa. Magrinho, só pelle e osso, ia descalço! pela ladeira acima, carregando o seu peso em cera, cincoenta libras. Vieira estava intimamente indignado com aquelle rito supersticioso. Mas não protestou. A devoçàO: tem uma extranha energia de imposição. Ninguém, por mais independente que seja, ousa desrespeital-a. A egreja estava assaltada de romeiros, sarados, doentes, aleijado», de todas as cores e condições. Traziam as suas offerendaa, em velas de cera, em prendas e dinheiro. Ritinha levava rendas para Nossa Senhora, Andreza carregava um mutum corpulento para o leilão. Depois da missa passaram o dia, de janella aberta, vendo desfilar as numerosas gentes,qvíM subiam e desciam o morro a pé, ou em automóveis. Jujú mal se interessava, a sua curiosidade infantil ia pouco a pouco extinguindo-se. Ficava apathico, indifferente, sahindo das suas obscuras scismas, irritado e mais triste. Depois do jantar D. Calú e Ritinha foram á casa de Thereza, que lhes pedira para acompanhal-a á egreja. — Oh! Dindinha, quanta flor neste jardim, como é bonito. Nunca pensei... Estou com tanta vergonha... — Ora, Ritinha, a gente tinha de vir mesmo um dia para corresponder a tanta amabilidade de D. Thereza. Tu pensas que também não estou vexada. Não freqüento a sociedade, não tenho vestidos... mas esta moça é tão boa, que tenho confiança... E o demônio do marido não está... A massada é que Jujú não quer mais voltar aqui, anda com aquella raiva de Philippe, que faz dó... seja tudo como Nossa Senhora da Gloria quizer. Confio em sua divina misericórdia... D. Calú suspirou e subiu ainda pela escada, que ia directa ao mirante. A voz de Thereza as festejou..

— Bravo! Foi milagre de Nossa Senhora. Até que um dia me veiu ver... — Não sei qual foi a santa... A Senhora também é milagrosa. Explicou que viera somente com Ritinha, porque Aracy odeia festa do povo e deu o fora. Tinha ido com as amigas dansar em Copacabana. Jujú, embezerrado, não quiz sahir, ficara com o pae. Os rapazes estavam peralteando no largo, apreciando a festa. — Também estou só, como lhe preveni, disse rindo Thereza. Imagine que o meu marido foi para a fazenda que foi da tia e carregou a menina com a ama. Elle diz que esta festa da Gloria é festa da canalha e lhe faz nojo. Radagasio é difficil... é aristocrata. Todos os annos nos obrigava a ir para a roça, fugindo daqui nestes dias alegres. Este anno bati o pé e fiquei. Quero uma vez gosar da festa do meu morro. D. Calú, Jiberdade, que cousa gostosa!... Desde ante-hontem que estou solta! É o sueco! Estou também esperando Philippe e a familia... — Ah! bem disse Jujú que Philippe estava aqui... Thereza não gostou desta observação de D. Calú. — Jujú é um bobinho. Sempre com esta raiva de Philippe. Porque? Ora!... É pena ser noite, não podem ver bem o jardim. A vista da bahia é quasi a mesma da sua casa. Mas, deste outro lado, temos os morros com as suas casas salteadas, illuminadas... —Tal qual um presépio... insinuou timidamente Ritinha. — É o que diz sempre Radagasio... gracejou Thereza. Carregou-as para dentro da casa, que estava toda accessa. As duas visitas ficaram embasbacadas. Ritinha sentiu um frio no corpo deante de tanta cousa, que a assombrava. D. Calú estava mais segura e podia exclamar as suas continuas admirações. Quando voltaram ao terraço respiraram alliviadas. Sahiam de um mundo extranho e voltavam ao maravilhoso quotidiano da natureza, com que eram intimas. Ritinha venerava em Thereza um ser fabuloso, que A tiagem maravilhosa 13 vivia magicamente uma encantação. Quando Thereza a enlaçou gentilmente e a acariciou com palavras meigas, a moça maranhense beijou-lhe com fervor a mão, por não ousar beijar-lhe o rosto. D. Calú notou a emoção da sobrinha: — Ehl Ritinha está toda boba! Que matutai... Philippe, a mãe e a irmã chegaram. Alvoroço de Thereza, que ria, agradava, falava sem parar. D. Calú conheceu então D. Isabel e Leonor e disse-lhea a sua amizade por Philippe e a fraternidade dos seus filhos com elle, que era o mestre, o guia de todos. D. Isabel achou-a excessiva, mas orgulhou-se do filho. Thereza estava em êxtase e animava o enthusiasmo de D. Calú. Quando veiu um pouco de silencio, Thereza explicou novamente a ausência de Radagasio e todos, sem commentatk ficaram satisfeitos. Partiram para a egreja. Naturalmentr a ordem de marcha era a que devia ser. As duas moças na frente, as duas velhas no centro, e atraz Thereza e Philippe. No escuro do jardim as mãos se uniram bem apertadas, quentes, macias e fortes. Por entre o cheiro dos bogarys, das rosas e das magnolias, as duas boccas uniram-se subtilmente e os dois corpos penetraram-se de um calor capitoso... Sahiram da sombra do jardim para a rua colorida pela luz das lanternas, suspensas desde a ladeira do Russell em fios parallelos, ao longo das casas e muros. Os passos dos que iam e vinham esmagavam as folhas verdes espalhadas no chão e accendiam-lhes ainda mais o cheiro acre de canella. Thereza apertava o braço de Philippe e aspirava inebriada este odor novo, vegetal e inhumano. Caminhavam cortando o vozerio, que se ia avolumando na proximidade do largo, quando, na volta da rua, o clarão da egreja supprimiu a luz das lanternas e dos arcos. Era festa com o povo enchendo a praça, ladeiras e pateos, com pregões, musica, gritos, zumbidos. No largo, Thereza dá esmolas a mendigos estropiados, declamadores, horrendos, deleita-se nas quitandas das opulentas negras bahianas, compra bolinhos de arroz e coco, pés de moleque, pamonhas de milho, alcaçar e, em risadas, distribue estes quitutes aos companheiros. Ritinha regala-se e lembra-se do Maranhão. Só D. Isabel desdenha os quitutes das pretas minas. Thereza interessa-se pelos trajes das vendedoras. Para ser admirada pelas yáyás e pelo yôyô, uma bahiana ergue-se, ostentando uma saia ampla, rodada, azul escuro, recheada de outras muitas saias, presa por cinto de ouro, cabeção branco de gola de renda de crivo e, sobre o collo, com os collares de missangas, cadeias de contas de ouro, em uma gradação de volumes e pesos, placas lavradas, trancelins de latão, alfinetes de turmalinas e águas marinhas, contas de vidro, de porcelana, cores e cores, e, nos longos torneados braços bronzeos, largas pulseiras de ouro, de prata e nos dedos anéis enormes de brilhantes e esmeraldas e rubis. Tudo falso. Na cabeça, em vez do costumado lenço turbante, um amplo pente de tartaruga, trepa-moleque, com friso de ouro, segura a trumpha carapinha, deixando bem aberta a fronte Usa, de onde partem as trancinhas pixains. Sobre ella a admiração. A negra orgulhosa cresce, empina-se, empomba os peitos, sorri nos dentes brancos, descambando os lacivos olhos africanos. Subiram. No pateo da egreja, não se olha para a vista. Fica-se envolto na multidão, que se delicia no aperto e na algazarra. É o esplendor da mestiçagem. Negros genuínos, cafusos, mulatos, na fricção ardente dos contactos, exhalam um cheiro violento; caprino, que se mistura ao aroma das flores, que as mulheres trazem á cabeça e ao perfume dos unguentos vulgares e fortes, com que todos se besuntam. Multidão pobre, humilde, cheia de alegre cordura. No pavilhão da direita, é o leilão das prendas em que se transmudou o holocausto antigo. As victimas são animaes enfeitados, leitões com laços de fitas, perus, gallinhas, um tatu desconfiado, um tamanduá-bandeira comedor de formiga, cobiçado pelas mulheres, macacos sem vergonha e o mutum de Ritinha, que lhe deu uma saudade, dominada pela curiosidade com que examinava o leilão. — Olhe, Dindinha, aquelle jabotisinho dourado. Parece que veiu da nossa terra. Thereza arrematou o jaboty e o presenteou a Ritinha. A maranhense ficou vexada e alegríssima. Não quiz deixar o bicho cascudo, que foi carregando por entre o povo. As outras prendas não a interessavam mais. Era uma infinidade de objectos ornamentaes, quadros, almofadas feitas em honra da Virgem, toalhas de renda trabalhadas longamente com espirito de devoção, garrafas de vinho, vidros de cheiro, tudo o que se tem á mão e se offerece ao culto. Vende-se patuscamente, ao som do maxixe, que vibra da banda militar e exalta a negralhada. O que se vende converte-se em cera, em velas e cirios, que queimam nos altares, na purificação do fogo eterno, expiador supremo, infatigavel, inseparável de todas as religiões. Entraram na egreja. Na nave octogonal centenas de lâmpadas electricas excedem-se em claridade diaphna e centenas de velas queimam em chammas amarellas. A prataria dos candelabros, dos lustres e castiçaes, misturada ao dourado dos cálices, estolas, capas, resplendores, irradia-se sumptuosamente. Os altares brancos, as rosas brancas, aéreas, pendentes tiras de folhagem verde, parasitas serpentinas, entram na harmonia da luz. Corpos negros interrompem a phosphorescencia triumphal. As pretas devotas, sentadas no chão, murmuram rezas. Outras, encostadas ás paredes de azulejos, dormitam pesadamente.: No meio da egreja fluctuam escuras cabeças carapinhas e os corpos desapparecem na massa compacta. O cheiro de bode, o cheiro de satanaz, espraia-se e dá o perfume á devoção negra. Para D. Isabel aquillo era nauseabundo e profano. O seu agudo e vigilante senso histórico evocava a devoção de outróra, naquella egrejinha, devoção real e cortezã. Por alli passaram, contrictos, os scepticos imperadores. Alli foram baptizados príncipes reaes e foi Nossa

Senhora da Gloria que, num milagre, salvou de um perigo o primeiro imperador, como testemunha o quadro esquecido na parede da capella. Naquelle púlpito um monge cego, chamma de eloqüência, pronunciou o seu ultimo sermão deante de Pedro II, cercado dos discípulos, que o trouxeram do mosteiro em commovido triumpho. Um destes discípulos ferventes era Corrêa de Sá, o pae de Isabel, que contara a filha a derradeira jornada gloriosa de Montalverne. Que importa tudo que passou? Os que enchiam a egreja ignoravam. Estavam beatificados na emoção pura da crença immoredoura no divino, a mystica insuperável dos espíritos, que annulam a historia e vivem na eternidade do mysterio e de terror. Quando voltaram ao adro da egreja, a aragem da noite os refrescou. As luzes da egreja projectavam-se sobre a massa dos negros, sacudidos pela musica, em que os metaes clamavam, os zabumbas e tambores vibravam e as flautas sibilavam. Rasgado maxixe, em que rebolava a luxuria mestiça. D. Isabel, cada vez mais enojada, resolveu partir com a filha, apatetada naquelle frenético desencadeamento dos sons, dos gestos e dos odores. Philippe não as acompanhou. Ainda ficaram algum tempo divertidos, até que D. Calú entendeu também se recolher. Deixou Ritinha com Thereza e Philippe e levou muito recommendado o jaboty de Ritinha. Foi então que Thereza, em um repente, propoz que fossem os três a Copacabana. Desceram as escadas e cahiram novamente no largo da egreja, pateo dos mendigos e das quitandeiras. Tomaram pela ladeira da Gloria. Logo á primeira casa, em um balcão enfeitado de seda, damasco e purpura, como em colorida estampa antiga, uma mulher vestida com vistosas roupas desusadas, com os cabellos em cachos, o pallido rosto, os espantados olhos de automata e, ao seu lado, um homem volumoso de vasto carão matte, circumdado de uma espessa barba negra. Estavam postados em silencio, quasi immoveis, figurantes do esplendor aristocrático, em disparate com a patuléa que, zombeteira, os olhava. Foi impossível tomar pela calçada abaixo. Tiveram de ir pelo meio da rua, que ainda assim era difficel atravessar pela quantidade de gente a descer e subir. Neste caminhar vagaroso os olhos iam se horrorizando com as deformações, com as chagas, com os aleijões, com as lepras ostentadas nas calçadas pelos mendigos sem pudor, esganados por esmolas, berrando as suas lamúrias, as suas imprecações, as suas pragas. Thereza agarrou-se a Philippe e Ritinha, fechando os olhos, ia se deixando conduzir como uma somnambula. Quando se viram livres de todo este horror, respiraram exhaustos da angustia, por que passaram. Vieram até Beira-Mar. Ainda olharam para o alto, onde a egrejinha refulgia, transfigurando, no resplendor da luz, a miséria. Thereza, inebriada de liberdade, gosou uma delicia transcendente, quando se viu em um taxi entre Philippe e Ritinha. Ella se inclinava para o adorado sem falar, mas furtivamente entregava-lhe a mão, que elle apertava com aquella vontade de tudo possuir. Se Ritinha exclamava o seu prazer ou a sua admiração, elles não respondiam. A moça maranhense foi emmudecendo e a scisma do amor também a separou dos seus companheiros e de tudo em que se movia. Na volta das longas praias desceram do automóvel em baixo da ladeira e subiram a pé pela rua ainda festiva. A' porta da casa, Ritinha abraçou commovida Thereza, olhou com súbito carinho maternal aquelle amor e desappareceu. Mais alguns passos e Thereza abriu o portão da chácara. Tomou o braço de Philippe e o foi levando para o alto. Silenciosos, resolutos, os cachorros de Radagasio desceram sorrateiros na sombra. Thereza os conteve e elles, submissos, deixaram passar o intruso, farej ando-lhe as pernas. Philippe sorvia o aroma de Thereza e recebia a quentura capitosa do corpo cobiçado. As boccas frias beijavam-se, mordiam-se. As mãos apertavam-se, rijas. Os corações batiam sem rythmo. E subiam mudos, os olhos scintillando no escuro. Quando chegaram ao mirante, o espaço dilatou-se para os arrebatar. A visão era confusa e tumultuaria. As cousas deliravam. As montanhas pareciam nuvens, as estrellas eram aviões, que marchavam no mar liso, emquanto o céo espumava vagalhões. A casaria dos morros atropelhavase nas arvores voadeiras. Luzes em cruzes. No jardim, a sombra exagerava os espectros vegetaes e afastava para muito longe a casa e tudo o que era humano. Voltados sobre si mesmos, elles aboliram o espaço, o tempo, e o pensamento. O instincto abysmou-os na magia da volúpia. De manhãsinha, a friagem luminosa e verde os despertou do encantamento. Desceram do mirante. Thereza vinha apoiada em Philippe, que a sustentava, como o seu próprio corpo. A sua mão enlanguecida difficilmente abriu o portão. As boccas quentes queimaram beijos longos e inseparáveis.

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