XI
XI
Thereza e Radagasio não dormiram essa noite. Passado o estupor, em que a bravura de Thereza o bestificou, veiu a Radagasio o furor de dominais e batel-a. Do outro lado da porta Thereza sentia-se segura. Fechara-se resolutamente e foi com um sorriso vingativo, que seguiu a inútil tentativa de Radagasio para penetrar no seu quarto. Elle não ousou gritar e impor a sua presença. Experimentou resignar-se e desprezar a mulher, que o affrontava com aquelle enthusiasmo impudente por Philippe. A bocca esteve sempre secca a noite inteira. Radagasio bebeu uma moringa d'água, acompanhada de bicarbonato e de água de flor de laranjeira. Tudo inútil. O pensamento trabalhava contra o repouso. Imaginou a carta anonyma, gosou as suas conseqüências, a prisão de Philippe, a deportação e seguramente a morte pelo providencial beri-beri, que já havia liquidado tantos prisioneiros politicos. Veiulhe depois o medo das conseqüências. Podiam descobrir ser elle o autor da denuncia. Quem descobriria? Thereza. Ella ligaria a prisão de Philippe ao seu desespero, ao seu ódio, que tinha feito imprudente explosão. E Thereza exaltada, quanto mal lhe poderia fazer? Não tinha irmãos para soccorrel-a, mas uma mulher apaixonada não precisa de ninguém para vingar o seu amor. A evidencia desta banalidade, alarmou Radagasio. Thereza, desencadeada, iria ao extremo, fugiria de casa. Ruina de Radagasio.
Que fazer? O melhor era contemporizar, conquistal-a. attrahil-a á sua luxuria. Se outro a desejava, era por ser fascinante, appetitosa. As imagens lubricas accenderanK lhe o sangue. Thereza amava Philippe. Elle queria aproveitar das ardencias dessa paixão. Pensou possuir em Thereza a mulher de Philippe. Desforra. Veiu á porta, tentou abril-a. No silencio, Thereza seguia, alarmada, os ruidos inquietadores. Ouviu que elle a chamava insistentemente. Ficou hirta, agarrada aos lençóes. Só olhava a janella para por ahi escapar-se. Radagasio proseguia no impulso sexual. Supplicava, mandava e exasperava-sô com a impossibilidade de entrar. Percebeu que Thereza o ouvia e ficou mais violento. Procurou forçar a porta. Com raiva, com desespero atirou-se contra esta. O baque inútil foi tremendo e abalou a casa adormecida. Lili acordou gritando. A negra deu um pulo da cama e de pé, virada para o corredor, berrava: — É o diabo! Ah! Meu pae do santo, cruz capeta, Eixú! Eixú! Tudo acovardou-se. Ninguém se moveu nas trevas. Ninguém respondeu para tranquillizar o pavor. A noite continuou indifferente ás angustias humanas. No profundo socego, as madeiras, as paredes, crepitavam subtilmente. De manhã, Thereza desesperava por communicar-se com Philippe. Revoltava-se com a certeza de que na casa delle não havia telephone, por um estúpido commodismo da velha D. Isabel. Detestou a velhice, a devoção, o tradicionalismo. Passou quasi todo o tempo no seu quarto, fechada, e só abriu, quando Lili a reclamou. A pequenina, ao vel-a ficou deslumbrada e agarrou-a muito. Thereza não poude adivinhar a exageração daquella ternura. O mysterio infantil é insondavel. Estavam as duas se entretendo docemente, quando uma criada avisou Thereza, que a chamavam ao telephone. Assustou-se. Pensou que seria Philippe, correspondendo assim ao seu intenso appello mental. Compoz um pouco a sua toilette, sorriu, mirandose de passagem no espelho, e correu para o telephone. Estava este tomado pelo marido, que dizia o seu allô com voz disfarçada. — É para mim, gritou Thereza. Radagasio largou o phone e cortou a communicação. — Não sei, é algum canalha que telephona, porque eu falei e não me respondeu. O sem vergonha fugiu... Ah! se eu o apanho. Quem é? Você deve saber, sua cynica! Ella o fitou com um desprezo, um ódio, que o tonteou... ; Levantou bem alto a cabeça para sustentar os pesados cabellos despenteados e voltou ao quarto. Lili desapparecera. Thereza ficou só no infinito desespero. Seguramente era Philippe, que vinha em seu soccorro. A maior ventura lhe seria ouvir a sua voz, que a transportaria para longe daquelle inferno. Esta alegria lhe fora roubada pelo homem ignóbil, seu marido. Sentiu este maldito epitheto como uma marca de prostituição sobre o seu corpo, que seria o dom do seu amor a Philippe. Chorou raivosa e humilhada. O resto da manhã foi torpe. Teve de almoçar com Radagasio, teve de fazer as mesmas cousas, que a tyrannia dos hábitos impõe. Entendeu desforrar-se á tarde, indo a casa dos Vieiras, onde seguramente se encontraria com Philippe.
Jujú divagava ininterruptamente. Vivia alheio a todos, mettido em suas scismas. As tendências contemplativas do seu espirito accentuavam-se no tempo perdido, em que fitava o mar, na indifferença aos brinquedos, no enjôo de qualquer estudo. A familia esforçava-se em distrahil-o e elle fazia corpo molle aos impulsos affectuosos, que procuravam arrancal-o das suas cogitações. Negava-se a ir a casa de Thereza e, se insistiam em leval-o á força, chorava aterrado. Ás vezes emmudecia e com difficuldade arrancavam-lhe respostas. Mas a esta depressão succedia uma excitação extranha e a criança disparava a falar sem connexão, a narrar casos extravagantes, delirioi de sonhos acordados. Nestes vinham sempre Philippe e Thereza, aquelle odiado e esta adorada. Mentia sobre elles, denunciava a sua intimidade, referia-se a abraços, e beijos, que nunca vira. Essas af Armações, apezar. do delírio, que as exaltava, foram convencendo aos que as ouviam do amor de Philippe e Thereza e aos poucos os actos e as attitudes delles eram interpretados pelo angulo da paixão. Para os rapazes, o desinteresse singular pela revolução, que iam notando em Philippe, era signal de amor. Para todos, o súbito enthusiasmo de Thereza pela revolução fora impulso da paixão por Philippe. O amor reagia differentemente e os acabrunhava com a sua força separadora, exclusiva e incoherente. Quando, á tarde, ainda cedo, Thereza surgiu na casa dos visinhos, cortando a grande ausência,- só estavam as mulheres. Nunca ellas perceberam Thereza tão linda. Ou observavam nella a irradiação do amor e ficaram fascinadas por imaginação, ou na realidade Thereza fulgurava nos olhos scintillantes, na bocca carnuda e a sua voz, que de agora em deante devia musicar as palavras da paixão, tinha inflexões e sonoridades, que impregnavam de magia os que a escutavam. Aracy admirava com inveja a elegância luxuosa de Thereza e não se cançava em louvar-lhe o vestido, os adornos, o chapéo, a bolsa e tudo que realçava, com desenhos e cores, a formusura admirada. Thereza afíligia-se com aquella analyse, que por instincto lhe parecia cobiça. Para se furtar aos louvores e socegar a inveja de Aracy, prometteu-lheij vestido, chapéo e bolsa do mesmo gosto. A interesseira ficou maravilhada. D. Calú vexou-se com a ganância da filha, mas não ousou reprehendel-a. Era a mãe fraca, a mãe brasileira. Desviou a conversa para Jujú, a sua inquietação. Contou a Thereza as crises do menino, o seu amor por ella, que tanto a impressionava, parecendo amor de homem... Escondeu as aventurosas revelações, que Jujú fazia da paixão de Philippe. Esta situação aborrecia Thereza, que bravamente quiz affrontal-a para esclarecel-a e desannuviar o ambiente das allucinações infantis, que davam a todos desalento e morbidez. Pediu a Aracy que fosse buscar o menino. Emquanto o esperavam, Thereza arrastou a conversa para a politica, ardendo por chegar até Philippe. D. Calú confirmou-lhe a perseguição feroz da policia, os crimes, as infâmias do governo e lamentou a inércia de certos revolucionários. — Não sei o que se passa. Eu noto todos mysteriosos. Sei que alguns trabalham. Não me dizem o que fazem, mas eu percebo que ha esforço para resolver a situação que não pode ficar assim. Desgraçadamente muitos estão, afrouxando. Mesmo alguém, que era a cabeça, a intelligencia forte, o enthusiasmo inexgotavel... este já não apparece e os rapazes estão tristes, porque sentem o seu desinteresse... D. Calú não ousou nomear Philippe nem precisar os motivos, a que attribuiam a distracção daquelle, que foi um dos orientadores. Thereza jubilou intimamente, mas teve pudor da força, que arrebatara Philippe á revolução. Não queria vangloriar-se e não sabia até que ponto tinha direito de enfraquecer o movimento, desviando-lhe um chefe, um criador de enthusiasmo. Thereza não interrompeu D. Calú. Esta atrapalhou-se com o silencio e para se equilibrar fez-se, sorrindo, confidencial: — Ah! Não lhe conto nada. Temos aqui um segredo, que eu vou lhe confiar. É verdade que não estou autorizada mas a senhora é tão nossa, que seria deslealdade guardarmos escondido... A confidencia foi interrompida com a entrada de Jujú, quasi arrastado pela irmã. — Como está mudado! exclamou, sem querer, Thereza, estendendo os braços para o seu menino. Que saudades, meu bemsinho. Não quer mais á sua Teté? Júju sahiu do seu abatimento e avançou timido para os braços, que o queriam. Thereza beijou-o, interrogativaj — Diga o que você tem? Porque está triste? Vim buscal-o para jantar commigo. A criança suspirou e não respondeu. Foi Aracy, que gracejou: — Este bobo estava fazendo luxo para vir á sala e quando se resolveu, exigiu se vestir com a roupa nova e perfumou-se todo. Jujú ficou acabrunhado de vexame e escondeu a cabeça no braço de Thereza. Um calor extranho do corpo infantil alarmou a mulher. — Mas este menino está com febre. Meu Deus, que será isto? D. Calú não queria acreditar em febre, mas a insistência de Thereza a tornou apprehensiva. Aracy, desinteressada, continuava a examinar os objectos de Thereza com uma, familiaridade cigana. Thereza poz-se a engabelar Jujú, que, pouco a pouco, foi se libertando do pesadelo, que o esmagava e entrou a sorrir deslumbrado para o seu idolo. Inebriou-se do perfume carnal de Thereza, deleitou-se em ouvil-a e acariciar-lhe a nudez dos braços. D. Calú-sacudiu o torpor desta languidez, ansiosa por descobrir a Thereza o segredo da casa. — Bom, agora vou-lhe mostrar o que prometti... o nosso segredo. Ih! eu imagino a sua curiosidade... Espere um pouco, eu já volto... não lhe digo nada. „ Sahiu radiante de revelar o que estava tão guardado.' E rindo, mais lépida, desappareceu. Para desforrar-se de tanto segredo, Thereza quiz descobrir a surpreza, antes que D. Calú voltasse. Indagou de Aracy, que, rindo muito, se negou a falar, contente de intrigal-a e entrar no jogo da familia. Jujú debatia-se por saber do que se tratava. Não atinava com o sentido das palavras da mãe. Para satisfazer Thereza, insistia que Aracy contasse.
Colérico, gritou-lhe: — Conta, conta, sua burra... Aracy deu-lhe um tapa. Jujú desprendeu-se de Thereza e atirou-se a ella, mordendo-a e dando-lhe ponta-pés. Foi nesta pccasião, que D. Calú entrou alviçareira: — Appareça a surpreza! Não tenha medo, Monteiro. Monteiro appareceu encalistrado e antes de ser apresentado a Thereza estendeu-lhe a mãò, que ella apertou sem comprehender nada. — Era esta a surpreza, explicou verbosa D. Calú. Este rapaz chama-se Raymundo Monteiro e é um dos mais audazes e famosos revolucionários. A senhora está conhecendo um verdadeiro heróe. Com certeza Philippe já lhe falou nelle... Thereza disse que não. Espanto de D. Calú, que sondou assim mais uma vez o desinteresse de Philippe pela causa. — Não faz mal. Elle devia lhe ter posto mais ao par de tudo, que é o movimento e que é a vida delle... Olhou vingativa para Thereza. Naquelle momento uma zona de ódio estendeu-se entre ambas. D. Calú via em Thereza a força, que desviara Philippe e Thereza detestou esta causa, que absorvera Philippe e que ainda podia ser um perigo para o seu amor exclusivo e despotico. Emquanto não tinha o amor de Philippe, alardeava, para agradal-o as idéas e as paixões politicas revolucionárias. Depois da revelação do amor, afastava, ciumenta de tudo o que podesse transviar da unidade do êxtase o seu adorado. — Mas o senhor ainda tem esperança de successo? Não pensa que é inútil continuar a luta? perguntou Thereza a Monteiro, com desdenhosa inflexão de desanimo. Monteiro foi eloqüente. Affirmou a sua fé. Declarou-se prompto para todos os sacrifícios. Narrou-lhe a sua vida de combatente, os perigos por que passou, a actividade que desenvolveu. Exaltou os seus companheiros sublimes, os chefes, os conductores, os organizadores. E, no enthusiasmo, disse que, mesmo foragido, como estava, continuava infatigavel na conspiração para salvar o paiz da canalha infecta, que o flagellava cruelmente. O ardor de Monteiro commoveu Thereza, mas ella não se sentiu novamente contaminada pela chamma revolucionaria. O seu espirito librava-se em outro plano. Quando Vieira entrou, Jujú afastou-se rapidamente do collo de Thereza. O pae o intimidava. Receou que lhe ralhasse por aquella falta de modos. Vieira estava atormentado com a saúde do menino e, sem mostrar muita alegria pela visita de Thereza, foi logo indagando da sua impressão sobre Jujú. — Não acha que está definhando? Este gury não brinca, vive no ar, tristesinho. Aqui em casa querem que se chame o medico. A senhora também pensa assim. Mas eu não estou de accordo. Todos os nossos males são espirituaes. Jujú está sendo perseguido por algum espirito, que tem de soffrer por crimes em outra vida. Tudo é mysterio?, Estamos fazendo pesquisas no meu circulo espirita e ainda não chegamos a um resultado, sempre apparecem espiritos zombeteiros, que perturbam as invocações. Ainda hontem estávamos chamando o próprio Allan' Kardec e quando, este espirito divino ia nos esclarecer, veiu um espirito mau que estragou tudo e AUan Kardec retirou-se, furioso, derrubando a mesa, apagando as luzes, batendo com as portas. Sempre é assim, quando quero saber o que se passa com o menino. Seguramente o espirito que está nelle, purga algum crime horrível e não é possivel acalmal-o, emquanto não cumprir a pena. Jujú seguia esta explicação obscura, aterrado com os esgares do pae, a voz tumular, com que declamava e sentenciava. Os outros ficavam acabrunhados com estas emanações da loucura e da miséria humana. D. Calú puxou o filho para si e tristemente, quasi chorando, ia dizendo: — Ah! Aristides, você está mettendo tanto medo ao pequeno. É maldade. Não, meu filhinho, tu não tens o demônio ou espirito mau no teu corpo. Nossa Senhora da
Gloria te livrará de toda esta bruxaria. Para a semana começo a novena e eu cumprirei a promessa, que fiz... O condemnado olhou enternecido para a mãe, que ia livral-o do demônio. Thereza veiu também ao soccorro da criança, prometteu-lhe presentes e passeios. Vieira achou ignóbil a superstição feminina. Virou-se para Monteiro: — Rezas, novenas," santos, promessas, como tudo isto é inferior. Religião corporal, selvageria. Para esta gente só ha morte e por isso veneram os cemitérios, templos da podridão. O espiritismo mostra que não somos donos dos nossos corpos e nos impelle ao desapego de tudo, que é terreno e vão... Monteiro sacudiu enjoado a cabeça, desesperado por se libertar daquelle circulo, em que fanáticos se debatiam em volta de uma pobre criança, torturada por uma psychose mysteriosa. Só a intelligencia de Thereza lhe pareceu clara naquelle chãos. Aracy estava indifferente e caceteada vendo a sua tarde perdida. Esperava do imprevisto uma salvação, que a levasse para longe. Alvoroçou-se quando tocaram a campainha. Correu para abrir a porta. Ouviram na sala os seus gritos: — Meu Deus... que susto! Pensei que fosse alma do outro mundo... Entre... Minha gente, não se assustem, ahi vae o fantasma... o espirito... livra! Philippe entrou, seguido de Aracy ás gargalhadas, curiosa de ver o espanto de Thereza. Não viu nada. Thereza disfarçou a sua alegria. Não falou. Apenas os olhos e a bocca sorriam na beatitude. Monteiro festejou a appafrição de Philippe. D. Calú o recebeu com o mesmo alarido da filha. — Que milagre, sim senhor! Quero saber qual foi a santa, que fez o milagre... Aracy deu uma risada vibrante e garota: — Será Santa Thereza? É a santa da moda... Felizmente Vieira interveiu, indignado: — Sempre esta mania de santos. Os santos podem ter sido espíritos superiores. Não se nega. Mas não ha milagres. O que ha é a intervenção do criador pela legião de espíritos encarregados da nossa regeneração, para nos tirar das trevas, em que temos jazido por séculos. Aracy ficou desconcertada e não receou cortar a verbiagem do pae. — Papae, deixe dessas historias,- não está vendo que Philippe está boiando... Na realidade, Philippe não estava desnorteado apenas com o espiritismo de Vieira. Todos os daquella casa lhe pareciam differentes e desencantados. O próprio Monteiro estava transformado. A barba crescera para disfarce e diminuirá a originalidade do rosto avermelhado, em que se dependurava o volumoso e atrevido nariz. Thereza, sim, era o seu mundo, o seu universo. Deslumbrou-se em contemplal-a e, com ella, formar a unidade isolada dos seres, que os rodeavam. As suas menores palavras tinham um significado profundo, que era mysterioso para os outros. Por esses fios esparsos de conversa, pela voz que ás vezes estava dolente e supplicante, pelos olhos postos nelle, Philippe entendeu tudo o que soffrera, desejava e esperava Thereza. Quiz leval-a comsigo e ouvil-a e sentil-a na confidencia allucinante. Jujú estava inundado de suor frio, desde que viuPhilippe. Rápidas olheiras faziam sobresahir o sinistro fulgor dos olhos. Quando Philippe e Thereza se falavam, o menino tremia de raiva. Os queixos bateram forte. A mãe assustouse e, com o olhar, mostrou a criança a Thereza.. Philippe percebeu a afflicção de Jujú e approxiraou-sei — Vem cá, Jujú... Vamos passear, vamos lá dentro, vamos ver o mar... Quanto vapor está passando! Tu vaes me explicar. — Sáe, sáe... Foi um grito desesperado. Instantaneamente o tremor passou, o suor seccou e a criança enfrentou o homem. Este, sorrindo e desapercebido, foi querendo segurar o menino. Jujú avançou e cravou os dentes na mão de Philippe. Mordeu com violência. Sacudia a cabeça e olhava possesso com os olhos desvairados, que logo se injectaram de sangue. Ficaram todos atordoados. Thereza avançou para livrar Philippe e sem pejo deu uma pancada no pescoço da criança. +- Larga, menino malvado... Aracy, envergonhada e furiosa, esbofeteou o irmão. — Cachorro damnado... larga. Jujú largou e correu fugindo da sala. Ouviu-se o seu choro convulso, doloroso. — Eu não disse que havia um espirito mau nisto, triumphou Vieira e foi observar o possesso. Foram se recompondo, procurando attenuar as tristes e extranhas impressões, que os aborreciam. Monteiro experimentou conversar sobre a revolução, indagando de Philippe a situação, em que se achavam. Notou, com pasmo, a falta de informação de Philippe, que habitualmente era o mais sabedor de todos. — Que diabo, onde tens te mettido, rapaz? Andas no ar... Philippe desculpou-se frouxamente com os olhos attentos em Thereza, que recebia assim a doce homenagem da sua absorpção. A grande amizade de Monteiro perdoou o amigo e inspirador. Quiz informal-o do que tramavam e com voz baixa foi-lhe segredando os desígnios e os planos da nova conspiração. D. Calú continuava a conversa com Thereza e, de repente, lhe deu uma novidade, de que se ia esquecendo: — Estou esperando por estes dias uma sobrinha, que vem do Maranhão, do interior, é a Ritinha, filha de minha irmã fallecida ha tempos. Ha um anno morreu o pae. Não ficou pobre, mas não tem ninguém no mundo, mandei buscal-a. Coitadinha. Não a conheço, nasceu depois que nos mudamos de lá. Mas, filha de minha irmã, minha filha é. A viagem maravilhosa U
— Era o que faltava... resmungou Aracy. Eu é que não estou para desmamar matutas... Mamãe que se fique com a tal Rita. Thereza não prestava muita attenção ao que diziam D. Calú e Aracy. Esforçava-se em vão por ouvir o que segredavam Monteiro e Philippe. Receava tudo da seducção revolucionaria. Sabia que a revolução fora o interesse exclusivo de Philippe antes do amor. O instincto lhe revelava a attracção soberana, que exerce nos enthusiastas o risco fascinador da acção libertadora. Temia. O seu impeto era cortar aquella conversa de segredo, arrancar Philippe de tudo aquillo. Desesperada entrou inconveniente a interrompel-os. Á principio, com perguntas revolucionárias, fingidas de devqtamerito á causa. Depois, pulando para outros assumptos frivolos, cujo sentido só Philippe percebia. Com o olhar meigo, convidou-o a acompanhal-a. Levantou-se, despediu-sé, no meio de effusões dos que ficavam. Philippe não teve escrúpulos em seguil-a. Aracy os levou até a porta. Nem Monteiro, nem D. Calú foram á janella. D. Calú gritou para a filha: — Volta para dentro, menina abelhuda. f Aracy obedeceu. Veiu gingando e berrando: — Puxa, seu Mundico, é amor a bessa! i
Na rua sem sol, a sombra era cinzenta e fria. Não se falaram logo. Sentiam por detraz o olhar de Aracy. Quando chegaram ao portão da sua casa, Thereza viu que estavam sós e logo perguntou a Philippe o que dissera Monteiro. Philippe contou o que ouvira e o convite, que lhe fizera o amigo, para uma reunião de conspiradores naquella noite. Confirmou a Thereza a sua recusa. — Massada. Mas eu não me sinto com disposição neste momento. Elles vão ficar amollados commigo, mas sou sincero. Não posso fazer nada forçado. Sei que a revolução é necessária para o paiz, mas não a tenho como essencial para o meu ser. O que aspiro é a ti, minha paixão! Na tua magia, no teu sublime encantamento, eu sou um comtigo e vivo a eternidade. — Philippe, tu és único e immortal. Eu sou gloriosa! Meu amor... Ousadamente, alli, em plena rua, á porta da casa, elles se beijaram. Foi um longo, violento e arrebatado beijo, do qual sahiram maravilhados. Philippe enlaçou Thereza e foi docemente levando-a pela socegada rua acima. No largo da egreja não olharam o mar e não se importaram com a tarde morrente. Estavam voltados para a magia interior dos seus seres. Subiram para o pateo da egreja e se julgaram immensos, infinitos, sobre todas as cousas. Thereza, que anseava por desabafar as misérias da sua noite e da sua manhã e dizer o seu ódio do infame, esqueceu-se do que soffrera e só falou da sua alegria transcendente. Disse que se recolhera á sua deliciosa solidão e que alli evocara a imagem do adorado, vivera as suas palavras sublimes, inebriara-se na solemnidade de tudo o que se passara. Disse a ma felicidade do inicio da grande e sublime vida. Que era a sua existência antes? O nada, o vácuo, a tristeza sem fim. Philippe a criara. O amor é o supremo criador. Ella nascia para a vida eterna. Tinha a sensação da immortalidade. Mas era humilde deante da grandeza da paixão inspirada. Que doçura em affirmar que era o seu primeiro amor, que orgulho desta sensação em homenagem á paixão de Philippe. Contou a alegria do seu amanhecer na segurança da unidade. Que ânsia de rever Philippe, de ouvir a voz, que a transfigurava, e receber a maravilhosa claridade dos seus olhos e as caricias irreaes, que lhe davam o frêmito allucinante. Philippe exclamou: — O' minha alma musical... Canta este amor que tu me revelaste e que é a minha paixão. Todo o meu ser vive em ti um divino êxtase. Tu me deste a eternidade, ó gloriosa. Eu estava na duvida, na angustia. O amor dissipou toda a tristeza e, por elle, eu vivo na perpetua alegria... Passavam na calçada em baixo os amigos de Philippe, que os viram. Desviaram o olhar. Não fizeram mais o menor movimento para cima. Philippe e Thereza deixaram,, indifferentes, que continuassem o seu caminho. Elles proseguiam na tenacidade revolucionaria, cheios de piedade humana, ardentes de mysticismo politico. Philippe integrava-se no Universo pelo amor. Thereza e Philippe estavam abysmados, quando o sino da egrejinha os sobresaltou, tocando Ave-Maria. Erguem-se. Os olhos olham-se. As mãos apertam-se. As boccas unem-se. O sino alegra-se. Descem. O largo resoa. Os passos vibram. Os corpos cortam o ar sonoro. A brisa passa. As bananeiras cortejam.