X A Viagem Maravilhosa · Capítulo 10 de 17
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Desamparado do conchego de Thereza, separado bruscamente da unidade, que a illusão infantil lhe creara, como definitiva, Jujú recolheu-se macambusio á sua casa. Desinteressou-se de tudo. Quando a mãe o viu tristonho e o quiz interrogar, o menino a repelliu, raivoso, desesperado com a perturbação, que lhe causavam indagações impertinentes. Á mesa familiar jantou-se morosamente. As conversas politicas arrastavam-se. Bastou aquelle ponto obscuro da scisma de uma criança para espalhar a melancolia. D. Calú fez o menino deitar-se cedo, conduziu-lhe as orações, que elle repetia, machinalmente, com o pensamento longe. Quando ficou só, no escuro, Jujú alegrou-se na liberdade de pensar, imaginar e soffrer. Estava alli como um engeitado, mettido em uma cama, quando podia estar com Thereza no jardim, no caramanchão, no mirante, ouvindo historias tão bonitas. Porque lhe faziam aquella maldade? Gente perversa. Agora tudo era Philippe. Um suor frio inundou a criança, o coração batia rápido e uma náusea o tonteou. Cerrou os olhos. Tudo vogava em um balanço enjoativo. As figuras de Thereza e Philippe approximavam-se unidas e riam delle: « Olha o bobo. Chorão! » Jujú zangou-se. Um calor ardente succedeu ao frio e seccou o suor. A bocca ficou amarga, as mãos e os pés crisparam-se. Ahl se uma onça sahisse do matto e viesse devorar Philippe. Prazer. Na sua rigidez, Jujú riu-se e os membros distenderam-se. Estava vingado. Philippe desapparecera e Thereza estava salva e seria sua. Só se occuparia delle. Acalmou-se. Foi adormecendo imaginando .passeios com Thereza. Iriam ver os macacos. Engraçado. Pula um, pula outro, coça-se um, come outro, fazem caretas, gritam, e de todas as gaiolas uma berraria damnada. Gostoso. Olha o papagaio, fala, fala, tu és mais gente que macaco, que não fala. A onça que comeu Philippe! Que medo, foge Teté, corre, corre, lá vem a cobra grande atraz de nós... E correram loucamente. A cobra voava, a cabeça empinada, a lingua vibrante, ávida, electrica. Jujú arrastava Thereza com uma força sobrenatural. Corriam, corriam por entre a algazarra da bicharada, que nas gaiolas alegrava-se com a porfia... Ah! meu Deus... a cobra pegou Thereza, horror... Thereza, Teté, salta, foge... Ah! a cobra está apertando, apertando, Teté não chora, uma faca para cortar a cobra, pelo amor de Deus! Sáe, cobra malvada... Philippe!... E Jujú gritou alto, espavorido: Philippe!... D. Calú, que ainda não se deitara, correu ao quarto do menino, que estava dormindo alagado em suor. Sacudiu-o. Jujú acordou aterrado e agarrou o pescoço da mãe. — Socega, meu bemsinho. Foi um sonho mau?... Não é nada... Já sei, tu estás com saudade de Philippe... Amanhã eu mandarei chamal-o... A criança estremeceu de horror. Empurrou a mãe, virou-se para a parede e cobriu a cabeça desesperado,; furioso. Não houve nada que o fizesse sahir desta posição de rancor. D. Calú ficou exhausta e desamparada. 0 marido, que também ouvira o grito angustiado de Jujú, veiu ao quarto. Quando observou a attitude do menino, ponderou gravemente: — Conheço isto, é algum espirito mau, que o está perseguindo. Aqui não posso fazer nada. Amanhã vou ao Centro Redemptor e peço uma intervenção para afugentar o espirito perseguidor e saber o nome delle...

D. Calú revoltou-se: — Ora, Aristides, lá vem você com as suas maluquices, deixe-se de babozeiras. Qual Centro, qual nada. Se elle está com espirito mau, que para mim é o demônio, eu farei uma novena a Nossa Senhora da Gloria. Isto sim, é que salva... Espiritismo, maluquice, peccado... Vieira desdenhou discutir. Encerrou-se no seu grande desprezo pela intelligencia terrena da mulher e elevou-se ao plano astral e aos outros planos superiores, em que as infinitas forças espirituaes governam o universo, libertas das dolorosas reincarnações.

Thereza evadira-se do circulo de Radagasio. Sentia-se livre da oppressão do homem odioso e alegrava-se no mundo imaginário, que o amor lhe criava. Os seus olhos separavam-se do quadro repulsivo, que fora a sua existência, e só viam a miragem de uma vida em perpetuo êxtase por Philippe. Tudo era indeciso, mas que belleza indefinivel no sonho libertador e maravilhoso! Vivia dentro de si mesma o goso supremo e sorria indifferente ás misérias conjugaés. Sabia que estava livre, não pertencia mais aquella ignóbil escravidão. O que a religião não lhe dera, o amor realizava. Ainda envolta no mysticismo fervoroso, a religião transmudou-se em amor. Thereza imaginava em Philippe a encarnação de Jesus. Nas suas orações fundia o Deus e o homem e o seu ser espiritualizava-se nas delicias da volúpia transcendente. O dominador era divino e a mulher inebriava-se na possessão. O pensamento concentrava-se na imagem adorada, que lhe exaltava o sangue e a sexualidade. A paixão transfigurou-a e a separou de todas as cousas. Esta separação ineffavel foi também a magia do amor em Philippe. Entrou em um sonho sublime, que o arrebatou do mundo exterior. Foi uma scisma maravilhosa, que o libertava da realidade. Scisma, separação. O espi» rito separa-se de tudo e concentra-se na miragem intima.

As tendências imaginativas do seu espirito desenfreavam-se e desde então passou a viver no mundo fantástico, construido pelos sentimentos absolutos e criado exclusivamente para o amor. A realidade dos outros pareceu-lhe aborrecida. Não reflectia, não pesava a vida. A separação era movimento inconsciente, involuntário e fatal. Absorvia-se no encantamento de imaginar Thereza e na obsessão de desejal-a. No sonho acordado, extasiava-se no adorado corpo esguio, fino e ardente, como um cirio, corpo de raça extatica, que foi apurado na provação, no transporte voluptuoso, na prece, na dansa, na solidão, corpo, que se ergue da terra, como uma chamma em busca do infinito, corpo, que é uma exclamação do perpetuo desejo. Que fascinação a morte de amor desse corpo transfigurado 1' O corpo nú em face do mar, embebido de luz. No magnífico senso do maravilhoso, Thereza despira rapidamente as vestes da noite solitária e apparecera deante de Philippe. A grande e meiga luz da manhã fazia irradiar os mágicos olhos negros e fazia da bocca fresca uma sangüínea aurora, lambia a pelle e afundava-se em todos os cabellos sobre os abysmos carnaes. No allegro innumeravel, mar, sol, cores, linhas, idéas, fôrmas, sonhos, pedras; vegetaes, tudo celebra o corpo sublime. O universo é a gloria do amor. Se chega a sombra, o pallido corpo de Thereza recebe o que ha de claridade no espaço. Corta como uma opala as trevas. Os olhos scintillam, emquanto a bocca gélida se descora. Nocturno. Os amantes perdem-se para sempre e enlaçados transfiguram-se no êxtase supremo da grande morte. Foi para a magia dessa unidade, que Philippe emprehendeu a viagem maravilhosa.

No domingo á tarde, Philippe desceu do bonde no largo da Gloria em caminho para a casa de Thereza. A triste amendoeira do largo estava carregada da melancolia domingneira. Todas as vendas fechadas e nas varandas das casas vermelhas a gente preguiçosa. O becco do Rio, estreito e sujo, não teve a força de lembrar a Philippe a conspiração mallograda, em que estivera envolvido. Passou por alli indifferente. Ia afastando-se cada vez mais do que fora o seu profundo interesse. Aspirava unicamente a subir á morada do sonho. O que os seus olhos iam percebendo não lhe dava a menor reacção espiritual. A sua visão era toda interior. Por isso não deu attenção ao amontoado de casas galgando a collina, aos nomes indígenas das avenidas, aymorés, carijós, goytacazes, nem á fresta, por onde passavam a vista da bahia e o desfilar dos carros á beira-mar. Subia ansioso a ladeira por entre casas, flammejantes do lado do sol e de muros cinzentos, carcomidos, do lado da sombra, cobertos de flores vermelhas, trepadeiras, latadas, caramanchões, mascarando a egreja, que no alto se posta em frente á barra, tendo á esquerda o morro espesso de Santa Thereza, no qual verticalmente sobem , mil casas, atropeladas até repousarem na esplanada, onde se estendem os jardins, os parques e as casas em horizontal. Do largo da egreja, Philippe mirou a morada de Thereza. O sangue bateu-lhe forte. O sol, no Corcovado, por cima da casa, o tonteava. Parou anseado. Sorriu á alegria, que o tomava. Imaginou Thereza no mirante a chamal-o. Philippe fixou os olhos e tirou o chapéo, cumprimentando. No mirante um vulto claro agitou o braço. A mão batia. Philippe precipitou-se, rastejando o muro, espiado pelas bananeiras alegres. Foi furtivo e célere. Os olhos presentiam todos os movimentos da rua adormecida. Philippe temia que o vissem da casa dos amigos e receava um brusco arremesso de Jujú, que se lhe tornara odioso. Quando se viu no pateo da chácara, Philippe respirou sem animo de subir. Viera cedo demais para o jantar. O pejo das conviniencias o amargurava. Mas viera para encontrar Thereza só, sem o marido. E se assim não fosse, não explicaria a sua invasão. Era tarde para recuar. Avançou para o alto. O horizonte rasgava-se para o lado do mar e perdia o seu tempo, porque Philippe não o olhou. Fitava para cima, dentro do silencio, cheio do vento, que corria, livre, a sacudir ruidoso as palmeiras e todas as folhagens. Subitamente Thereza appareceu no alto da escada. O vulto claro. O braço agitou-se, a mão estendeu-se. Os olhos de Philippe abysmaram-se em uma atmosphera azul amarella rosea, que emanava da figura de Thereza. Elles humedeceram ao contacto das mãos, que se apertavam. As boccas iam se fundir, quando o timbre alto da voz de Thereza as separou. — Quanto tempo para chegar... Eu estava á sua espera e quando o vi, no largo da egreja, contei os minutos... Foi um século. Fiquemos aqui, no meu mirante até que os outros cheguem. Estou só, nem Lili ainda voltou do passeio. Thereza falou muito, a alegria do imprevisto de estar sósinha com Philippe a excitava e manifestava-se em palavras e gestos, que tentavam disfarçar a extranha situação. Pouco a pouco a loquacidade se extinguiu e Thereza serenou em êxtase. Philippe perguntou-lhe: — Pensou muito em mim? Sim? O meu pensamento é também todo seu. Nada mais me interessa. Só quero a sua presença real para completar a idealidade, em que o meu espirito se inebria. Thereza sorria, os olhos postos em Philippe, a bocca bebendo-lhe as palavras, que vinham vibrantes e insinuantes. Murmurou: — Como tudo é dif ficil entre nós! Eu quizera também vel-q, ouvil-o sempre. Seria tão bom... Mas ha tanta cousa, que nos separa. Philippe arrebatou-se na ânsia de vencer. — Não diga assim. Farei tudo para estar sempre ao seu lado. Não temo nada, e abandono o resto só pelo encanto de contemplal-a. Virei todos os dias... Não? Porque? Receia o seu marido? Os outros? Ora não diga que é uma escrava, uma prisioneira... Libertação.

Thereza achou-se subitamente transportada a um plano irreal, em que as contingências da sua vida restricta se annulavam para a livre ascensão dos sentidos e do espirito. Todo o ser de Philippe a desejava. Ella entregou-se maravilhada ás delicias supremas de ser admirada, querida, cobiçada pela voz, pelos olhos, pelo corpo e pela alma do homem, que ella igualmente queria, desejava e cobiçava. O enthusiasmo allucinou-a: — Philippe... meu... só meu... Não falaram mais. Estavam unidos para sempre. As mãos enlaçaram-se. Os olhos abysmaram-se. As boccas sorriam, caladas e soffregas. No longo êxtase todo o mundo exterior, as maravilhas da luz, da côr, das formas, o sol, a água, as montanhas, as arvores, incorporaram-se em Philippe e Thereza, que aspiravam a realizar pelo amor a suprema unidade universal. O apparecimento de Lili deslocou o encanto e ella attrahiu-os para o seu universo infantil. Philippe brincou, com a menina, contou-lhe historias absurdas, a fez rir e correr, emquanto Thereza seguia desvanecida a flexibilidade do adorado. Lili, enthusiasmada, queria mais brincadeiras, atirava-se aos braços de Philippe, que a beijava estrepitosamente. Estes beijos, Thereza queria para si, eram delia, e porque iam para outrem? Interveiu para moderar a excitação da criança e ordenou a negra, que a conduzisse e lhe mudasse a roupa suada. Quando ficaram sós, Thereza e Philippe recahiram no silencio. Um mesmo frêmito os impellia um para o outro. Ella estendeu-se languida, ardente, o rosto pallido e fixo, os olhos enormes. Philippe segurou-lhe o pé, apertou-o nas mãos quentes e beijou-o com os lábios frios, gelados. Absorveu longamente o calor capitoso da pelle de Thereza. Ella murmurou: adorado!... E, curvando-se sobre Philippe, levantou-lhe a cabeça e entregou-lhe a bocca fremente. Quando puderam se falar, elles disseram a magia do encantamento, a transfiguração da realidade, o absoluto da esperança. Elles louvaram a maravilhosa fatalidade, que os unia para sempre. Elles se alegraram no êxtase da unidade e entraram na vida eterna. Estavam neste doce esquecimento, quando o automóvel de Radagasio afugentou a beatitude, em que se abysmavam. A volta brusca aquella triste contingência assombrou-os. O instante da alegria suprema lhes dera a sensação da perpetua e infindável separação de todas as misérias. Radagasio percebeu, ao descer do carro, Philippe ao lado de Thereza. Os olhos minguaram, a bocca franziu-se, o nariz fungou, as bochechas bateram acceleradas. Veiu a elles, exclamando: — Oh! Já chegou? Conteve-se logo. Radagasio queria parecer bem educado e corrigiu-se: — É verdade que sou eu que estou atrazado. Desculpeme de não estar para recebel-o. Quando se vae ás corridas, nunca se sabe quando se volta. Não imaginam o que perderam... Quanta gente e que gente boa! E vociferando para Thereza: — Em vez de ter ficado aqui a olhar esta estúpida bahia e não fazer nada, era melhor que estivesse se divertindo nas corridas, como as outras... Falando a Philippe: — A minha vida é muito cacete. Vou a toda a parte sósinho, a minha mulher faz finca-pé de não me acompanhar a nenhuma festa. E não retribue visitas. Por isso estamos isolados, ninguém nos procura, não recebemos ninguém. Dentro de pouco tempo não seremos mais conhecidos. A minha vingança será, quando ella morrer, ninguém irá ao seu enterro e nem á missa do sétimo dia. É uma ruina para a minha carreira e para a minha posição. Mas isto vae acabar. Você vae divertir-se, irá a toda a parte, fará como toda a gente. Agora, ultimamente, anda mais exquisita, nem mesmo de automóvel passeia. Não sáe de casa, anda distrahida, no ar, calada... Thereza ficou rubra. Da bocca contrahida sahiu um rancoroso: — Não amolle. Radagasio exultou com esta explosão de mau humor de Thereza. Invocou o testemunho de Philippe: — É assim que me responde quando lhe falo. O senhor não viu nada. Cada insulto, cada palavra feia... Thereza revoltou-se contra a mentira canalha. Ia repellir vivamente, quando o olhar de Philippe a prohibiu. Radagasio aproveitou para desapparecer. Thereza explodiu: — Oh! homem nefasto. Que ódio! — Theieza, tu não pertences mais a este mundo. Coragem! Philippe apertou-a nos braços, ella entregou-lhe a cabeça para o agasalho ineffavel e, emquanto as boccas se beijavam, os olhos delia abysmavam-se em um céo luminoso, enorme, infinito, dominador da terra e eliminador das suas misérias. Vieram chamal-os para o jantar. Arrancaram-se dolorosos da volúpia e passaram, constrangidos, para o plano de Radagasio. Este os esperava no salão. Estava de smoking. Espanto de Thereza. Radagasio explica a Philippe que aquelle traje de bom tom, elle sempre usa para jantar por causa dos criados. Balançando a cabeça, Thereza o desmente em silencio. Á mesa, os dois homens de cada lado da mulher, mas Radagasio está isolado. Thereza e Philippe entendem-se nos pensamentos, nas palavras e nos sorrisos. Radagasio esforça-se para attingil-os. Fala de tudo, da comida, do tempo, dos divertimentos. Elles apenas o ouvem e continuam á parte, separados dessas importunas trivialidades. Radagasio não pode digerir. Mastiga alto e queixa-se do estômago. Toma bicarbonato. Procura chamar a attençãcj sobre si. Os outros continuam indifferentes. Radagasio, está exasperado contra Thereza, inclinada para Philippe, com a voz tão doce, os olhos beatificados. Philippe está radiante, transportado, e absorve virilmente todo o ser de Thereza. Ella o serve. Servir. Amar. Occupa-se de Philippe: « Esta sopa, este badejo gorducho, este peru, esta salada, esta gelatina », tudo para elle. As mãos de Radagasio ficam roxas, tremem frias. É o criado que o serve. Thereza á Philippe: « Estes morangos, este sorvete, champagneJ» Radagasio levanta-se para vomitar. Thereza e Philippe gosam a ausência do homem verde. Riem, exaltam-se por tudo. Um século de alegria. O tempo immenso aprofunda-se nos seres extasiados e os une nas raízes immemoriaes. Podem apparentar superfícies separadas, elles estão ligados para sempre na profundeza; inabalável. Radagasio volta sorrateiro e fulo. Bate na mesa e grita: — A minha camomilla. Thereza e Philippe despertam assustados. Querem fugir. Os usos despoticos os detém, até que Radagasio acabe a tisana. Fora, no jardim, Radagasio seguiu Thereza e Philippe que se adiantavam para o mirante. A passagem para o escuro da noite o perturbava. Sentou-se no primeiro banco e dahi via os dois vultos olhando a immensidade. A intelligencia de Philippe o acabrunhava. Estava ahi o segredo da fascinação, que exercia sobre Thereza e da qual elle também participava. Seguramente Philippe estaria a dizer cousas maravilhosas, que deslumbravam Thereza. A emulação de se medir com Philippe o agitou. Ergueu-se do banco e caminhou decidido para o mirante. Para mostrar-lhes a sua educação e não pensarem que os vinha surprehender, Radagasio tossiu na sombra. Quando se reuniu a elles, começou a interrogal-os sobre o que admiravam. Elles disseram que nada.

Radagasio sorriu e entendeu ser sublime: — Pois admirem a bahia e o oceano. Que significação tiram dessa approximação singular? Elles disseram que nada concluiam. Radagasio ensinou-lhes: — A bahia é feminina. Agasalha como um seio, sorri, orna-se, é doce, é faceira. Revolta-se, é ciumenta. O oceano é masculino, domina, esmaga, possue. Enche o mundo, afronta a terra, invade e fecunda o ventre da bahia. Elles olharam-se, contendo o riso. O silencio, que fizeram, irritou Radagasio, que se metteu entre elles separando-os. Desequilibrado com o desprezo, Radagasio bufava, tremia com as pernas, debruçado na janella. O seu ímpeto era esganar Philippe e esbofetear Thereza. Achou um derivativo em provocal-os sarcasticamente: — O que é miserável é uma bahia tão bella, uma obra divina, ser manchada por uns bandidos, que revoltam os navios de guerra. Esses canalhas só mortos á bala, como tudo que é revoltoso. Thereza, rapidamente, perguntou a Philippe-: — E Jujú? — Não o tenho visto. Ha dias que não me encontro com elle... respondeu Philippe. — Jujú não me apparece desde aquella tarde do nosso chá. Elle anda nervoso, abatido. Porque? Philippe não teve tempo de responder á interrogação de Thereza, porque Radagasio resmungou raivoso: — O que elle precisa é de uma boa coca. É um pequeno malcriado, caprichoso e que a minha mulher estraga com uns agrados estúpidos... Radagasio conseguiu irritar Thereza. Ficou surdamente satisfeito, quando a viu colérica. — Não se metta com a minha vida, bradou Thereza, estúpido é você, que não tem a menor sensibilidade, que só quer espancar as crianças, maltratar os fracos. Mas sabe se curvar deante dos poderosos... Isto é ser covarde... entendeu... covarde! Radagasio mastigou as palavras com que ia responder,, Os seus olhos batrachios apertaram-se e distillaram uma água peçonhenta. As bochechas batiam... — Cale-se, sua cabeça de estéreo... Thereza deu uma gargalhada: — Calar-me? Quem me manda? Você. Que esperançai Foi-se o tempo... Virou-se para Philippe e continuou a falar com exagerado interesse de Jujú, seu amiguinho, seu companheiro das horas desertas e prometteu vel-o no dia seguinte. Philippe não a abandonou. Enojado com a provocação' de Radagasio, apiedou-se de Thereza e aspirou para ella a suprema libertação. — Também eu irei amanhã vel-o e nos encontraremos lá, disse altamente. Para se destacarem de Radagasio e marcarem-lhe o desprezo, entraram a falar da familia visinha, a elogiar a bravura moral delles, a hospitalidade e o coração. Radagasio fingiu que não os ouvia, disfarçou, olhando para fora. Tudo se perturbava na sua cabeça. Elle resumia o mundo nestas duas obsessões, o masculino e o feminino, o oceano macho, a bahia fêmea... Retirou-se do pavilhão e começou a vagar pelo jardim. Impulsos de vingança rythmavam os seus passos pesados. O seu desejo era matar. Mas logo acovardou-se e sorriu á idéa, que lhe veiu, de denunciar Philippe e os Vieiras, como conspiradores. Uma carta anonyma, á machina, escripta por elle mesmo sem cumplicidade de ninguém, que o trahisse. Estava feito. A policia o que queria eram denuncias, delações para se justificar e augmentar a verba secreta. Radagasio alegrou-se com o plano infallivel, estava acabado Philippe, liquidado Jujú e toda a maluquice de Thereza. Elle, triumphador, campearia como o marido, o dono, o senhor. Bravo,

Radagasio. Toca a disfarçar para que não desconfiem. As mãos ardentes desprenderam-se, quando elles viram Radagasio approximar-se. Sorria com esforço. Procurou falar-lhes. Com difficuldade sahiam palavras engasgadas: =—• Fizemos mal em ter ficado aqui. Podiamos ter dado um passeio de automóvel. Ainda é tempo, querem? Thereza recusou vivamente. Radagasio, conciliante, concordou em não passear. — Sim, é tarde, são onze horas... e eu tenho de levantar cedo. Aqui, o senhor sabe, é regimen militar. Tudo marcha á hora. Sou homem da ordem. Não comprehendo esta gente bohemia, que vive com o desprezo do tempo. Não digo que não saia á noite, não vá ao theatro, a um baile, mas sempre em véspera de dia santo ou domingo. Nunca •eu seria um revolucionário... E riu gostoso para Philippe, saboreando a armadilha que lhe preparava. Philippe não poude mais supportar a presença de Radagasio. Levantou-se para partir. — Realmente é tarde. O senhor tem de estar cedo no banco. Não quero perturbar o salutar regimen da ordem. Thereza ficou desamparada, quando Philippe a deixou. O seu impulso era seguil-o para a eternidade. Ouviu-lhe os passos vagarosos, com que elle descia a escada do jardim, também custando a desprender-se daquelle encantamento. Thereza ficou absorta em todos os sons, que podiam ser dos movimentos de Philippe na escuridão por entre as arvores e as flores. De repente sobre a sua nuca sentiu um bafo quente. Era Radagasio, que lhe murmurava: — Passou... Não se zangue... Façamos as pazes... Ella o empurrou. — Saia, miserável, canalha! Radagasio insistiu: — Não fique brava. Eu perdi a cabeça por causa daquelle sujeito. Agora não se recebe mais elle,ficatudo como dantes. Vamos para o quarto. Eu vou tirar este smoking cacete...

Thereza não o ouvia mais. Os seus olhos devoravam a escuridão e fixavam-se na claridade do largo da egreja. Quando alli appareceu o vulto de Philippe, ella, arquejante, desesperava-se por se atirar para elle. Philippe voltou-se e deslumbrou-se reconhecendo Thereza, que o esperava. A visão transcendente parecia-lhe serena e bemaventurada. Saudou-a na ineffavel alegria da unidade. Thereza, transfigurada, bateu vivamente com as mãos. Debruçada sobre o espaço sorria e beijava loucamente Philippe. Radagasio, que na sombra vira o transporte de Thereza, ficou apatetado. Batendo com os pés pesados, marchou sobre a terra grossa do jardim e recolheu-se para se libertar do smoking

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