Universo da obra
Universo da obra
Isadora Montenegro reconheceu a irmã pela cicatriz fina no pulso esquerdo, não pelo rosto coberto pelo lençol branco. Clara sempre dizia que aquela marca era feia demais para noiva, lembrança de uma queda no trapiche quando tinha oito anos, e agora a cicatriz parecia a única coisa honesta naquela sala gelada do instituto médico. O resto vinha atravessado por explicações rápidas, acidente, neblina, barco pequeno, vestido molhado, corpo encontrado cedo por um pescador que jurava não ter visto nada estranho. Isadora ouviu tudo de pé, com a bolsa apertada contra o corpo e a garganta seca, enquanto a funcionária repetia procedimentos de liberação. A cidade de Santa Lúcia do Lago esperava do lado de fora com suas ruas estreitas, suas janelas curiosas e a mesma vontade antiga de transformar morte em assunto resolvido antes que a verdade pedisse lugar.
Miguel Falcão apareceu no corredor quando Isadora assinava o segundo formulário. Doze anos tinham mudado pouca coisa no modo como ele ocupava uma porta. Continuava alto, ombros largos, olhos escuros, barba curta e aquela calma que irritava porque parecia sobreviver a qualquer desastre. Agora usava distintivo na cintura e camisa social com as mangas dobradas. Isadora não o via desde a noite em que deixou a cidade com uma mochila, um corte no joelho e a certeza de que Miguel escolhera acreditar na versão dos outros. Ele disse seu nome sem tentar abraçá-la. Foi a primeira decisão sensata do dia. Ela assinou a última linha, devolveu a caneta à funcionária e perguntou por que a polícia chamava aquilo de acidente antes de examinar o vestido, o barco e as pessoas que queriam Clara casada até o fim da semana.
Miguel pediu que conversassem na sala ao lado. Isadora recusou com um movimento de cabeça e caminhou até a janela do corredor, onde dava para ver o lago ao fundo, liso, escuro, cercado por árvores e casas ricas escondidas atrás de muros altos. O lago parecia menor do que na infância e, mesmo assim, conseguia dominar a cidade inteira. Miguel ficou a dois passos dela, perto o suficiente para que Isadora percebesse o cheiro de sabonete e chuva na camisa dele. Disse que o laudo inicial falava em afogamento sem sinal claro de violência. Ela respondeu que laudo inicial não explicava por que Clara, que nadava melhor do que qualquer menino do cais, teria entrado na água usando vestido de prova e sapatos de cetim. Miguel baixou os olhos por um instante. Esse gesto curto foi pior que uma resposta. Mostrava que ele também não comprava a história pronta.
A caixa chegou à funerária antes do corpo. Era de papelão grosso, fechada com fita azul, endereçada a Isadora com a letra apressada de Clara. Dentro havia fotografias antigas queimadas nas bordas, uma chave pequena presa num laço e um bilhete dobrado no meio de recibos de costureira. Isadora abriu o papel com cuidado, já sentindo nos dedos a textura de segredo mal guardado. Clara escrevera poucas linhas. Se eu não aparecer no casamento, não deixe mamãe entregar o vestido. Procure o forro do lado esquerdo e fale com Miguel somente se ele ainda souber ficar do seu lado. Isadora leu a frase duas vezes e sentiu a nuca esfriar. A menção ao forro quase a fez fechar o bilhete, irritada com a própria profissão e com o jeito de Clara esconder pistas em roupa. Guardou o papel na bolsa, pegou a chave e saiu antes que a mãe chegasse para transformar luto em recepção.
O vestido estava na antiga casa dos Montenegro, pendurado no quarto que Clara nunca deixara de chamar de seu. A peça não era branca. Era azul muito claro, quase cinza, com botões pequenos nas costas e mangas longas de renda. Isadora trancou a porta do quarto, puxou a cortina e colocou o vestido sobre a cama. A renda ainda carregava cheiro de lavanda e de água parada. Ela procurou o lado esquerdo, encontrou uma linha refeita à mão perto da cintura e usou a tesoura de unha da irmã para abrir a dobra. De dentro caiu um cartão de memória protegido por plástico, junto de uma fotografia minúscula em que Clara aparecia diante do lago, segurando a mão de um homem sem rosto. O corte da imagem fora feito com pressa. No verso, uma data escrita em caneta preta coincidia com a noite em que Isadora tinha fugido de Santa Lúcia.
Miguel bateu na porta do quarto quinze minutos depois, chamado por alguém da casa ou pelo próprio instinto ruim que sempre tivera para encontrá-la nos piores momentos. Isadora pensou em esconder o cartão, depois desistiu. Já estava cansada de gente escolhendo por ela o tamanho da verdade. Abriu a porta e deixou que ele visse o vestido aberto sobre a cama, a fotografia na palma da mão e a chave presa à fita azul. Miguel entrou sem tocar em nada. O rosto dele mudou ao reconhecer a data. Isadora perguntou se ele sabia quem estava na foto. Ele não respondeu de imediato, e esse atraso bastou para reacender todos os anos que ela tentou esquecer. Quando finalmente falou, a voz veio baixa. Disse que aquela chave não era da casa de Clara, nem da igreja, nem do barco. Era da capela fechada dos Amaral, a família do noivo, no terreno particular do outro lado do lago.
Isadora Montenegro deixou Santa Lúcia do Lago depois de uma noite que destruiu sua família. Doze anos depois, retorna para reconhecer o corpo da irmã mais nova, Clara, encontrada às margens do lago na véspera do casamento com o herdeiro mais rico da região. A polícia chama de acidente. A família do noivo quer enterro rápido. A cidade prefere silêncio. Isadora, restauradora de fotografias antigas, recebe uma caixa com retratos queimados, bilhetes escondidos no forro do vestido de noiva e uma chave presa a uma fita azul. Para abrir cada pista, precisa enfrentar Miguel Falcão, o delegado que partiu seu coração e agora parece saber demais sobre a morte de Clara. Quanto mais perto chegam da verdade, mais o antigo desejo entre eles ameaça virar fraqueza, porque alguém em Santa Lúcia ainda protege o segredo que começou no lago e terminou diante do altar vazio.
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