Universo da obra
Universo da obra
João da Cunha era, pouco mais ou menos, o que são todos os homens. O seu coração, viúvo do amor de Ricarda, vestiu luto um ano. O choque fora muito forte, para que a mais robusta organização se não ressentisse, longo tempo. A convivência, com homens que não conheciam os precedentes da sua misantropia, não a procurava. Vivia só, com seu pai, e com seu filho. Recordava a efêmera felicidade de alguns dias, rematados por uma hora de sangue. Ora, estas recordações, por que foram muito repetidas, pouco a pouco enfraqueceram, e o coração familiarizou-se com elas. O que primeiro fora terror, veio, depois de um ano, à brandura das reminiscências que não mortificam, porque o tempo é o princípio gerador de imagens novas que desfazem sempre as impressões das velhas. O ferro abre profundos sulcos no córtex da árvore: depois, as fibras da camada, vigorosa de nova seiva, passam por cima, e deixam como sinal uma cisura imperceptível.
Dois anos depois da catástrofe, João da Cunha não fugia das aventuras que o perseguiam. Riqueza, talento, e fidalguia, afora os dotes físicos, autorizavam-no a não deixar aos vinte e dois anos uma carreira que encetara com tão má fortuna.
Do seu coração, repartido por muitas paixões passageiras, nunca usurpou a seu filho a maior parte.
Em quanto ele crescia em corpo e extraordinária penetração, o pai, que não sabia sê-lo, alargava-lhe os desejos, adivinhando-lhos, e proibia à ama, aos mestres, e ao avô a mais ligeira contrariedade às vontades caprichosas do menino.
Luiz, aos doze anos, era um déspota com os criados, com os mestres, e tratava o pai como se trata um irmão, quando não há a recear a correção paterna. João da Cunha gostava da desenvoltura do pequeno, e ufanava-se de levá-lo, como maravilha, à sociedade dos homens e mulheres do grande mundo, que lhe achavam muito sal nas suas respostas, e não coravam às galhofeiras liberdades do pequeno Ismael, como lhe chamavam, aludindo à desconhecida Agar, que o sol da Africa bronzeara.
Luiz era tanto mais caro a seu pai, quanto a sua inteligência, com pequeno esforço, aproveitava nas irregulares lições dos mestres sofredores. Aos quinze anos, o filho de Ricarda era homem, e, como homem, as puerilidades, as folias que o entretinham até aos quatorze, trocaram-se em ar reflexivo, em consciência de si próprio, e até em certo respeito ao pai, suposto que este lhe não invectivasse as licenças, que os de fora lhe censuravam.
—Eis aqui o que é o espírito!—dizia João da Cunha ao seu capelão, que muitas vezes agourara mal da livre educação dada a Luiz—Assim que chegou à idade da razão, aí está meu filho obedecendo espontaneamente ao instinto dos deveres. Não o vê tão pensador numa idade em que a imaginação trabalha sempre?
—Não duvido que pense—respondeu o padre, solenizando a resposta com um sorvo de rapé—mas, se v. ex.ª me dá licença, parece-me que seu filho pensa em alguma loucura.
—Essa é boa! O padre que razão tem para tanta severidade com meu filho?
—Que razão tenho? Ora ouça v. ex.ª Seu filho namora a filha do merceeiro que mora ao lado.
—Deixe-se disso, padre; o meu filho apenas tem dezesseis anos, e ela ainda é mais nova.
—Isso não é razão, e desculpe-me v. ex.ª a liberdade de replicar. Deus sabe as intenções com que me intrometo em coisas, que não são de todo estranhas ao meu ministério. Eu quando falo é com documentos na mão.
—Alguma cartinha de namoro... Isso são rapaziadas sem consequência.
—Não é cartinha de namoro.
—Algum cordão de cabelo, ou alguns suspensórios com a firma do rapaz... Isso faz rir.
—Não é cordão nem suspensórios.
—Então acabe lá com isso, padre! Que é?
—É uma escada de corda que sobe ao segundo andar daquela casa.
—E sabe se ele faz uso dessa escada?!
—Há quinze noites seguidas que sobe às duas horas da noite e desce às quatro.
—O rapaz é capaz de quebrar uma perna!
—E eu receio que o pai da rapariga seja capaz de lhas quebrar ambas.
—Nesse caso, encarrego-o de o repreender; mas não lhe diga que eu o sei.
—Parece-me que lhe não fará grande abalo ainda que v. ex.ª o saiba. Seu filho não o teme, nem lhe reconhece direitos sobre a liberdade de subir e descer escadas de corda.
—Está enganado.
—Oxalá que sim. Eu de mim repreendi-o já, e ele respondeu-me se eu fazia o favor de lhe ir segurar a escada para que ela não balançasse quando ele descia, com grave risco das suas pernas, que ficavam enleadas nas cordas transversais. Aqui está o que é uma zombaria que não parece de um menino de dezesseis anos! V. ex.ª ri-se? Ora, queira Deus que não chore ainda...
—Pois que quer que eu faça, padre?
—Que o castigue com severidade, ou o faça entrar no colégio dos Nobres para ser castigado longe dos seus olhos. V. ex.ª perde seu filho. Está cavando um manancial de desgostos, que não remediará... Ele aí vem... Se quer, retiro-me, para v. ex.ª lhe falar.
—Pois sim, retire-se.
Luiz entrou apertando a mão ao pai, que lha estendeu com a familiar etiqueta de amigo.
—Vem cá, Luiz. Tu és um homem, e é preciso falarmos como homens. Sei que sobes por uma escada de corda ao segundo andar daquela casa...
—Então, de certo sabe também que desço...—atalhou com sorriso irônico o filho de Ricarda.
—Responda-me com seriedade. Sabe que eu posso fazê-lo retirar desta casa, logo que o menino proceda de modo que mereça ser castigado?
—V. ex.ª pode tudo; mas eu queria saber o que fiz que mereça castigo.
—Assim é que deve responder-me. Sei que se introduz em casa do merceeiro.
—É verdade, meu pai. Não nego senão o que não faço. Foi o padre Joaquim que lho disse?
—Não sei quem foi... É isto verdade?
—É verdade; mas o padre Joaquim merece dois bofetões.
—O padre Joaquim é seu amigo. Se o menino observar os conselhos dele, há de ter um proceder exemplar; e, se os não atender, obriga-me a castigá-lo asperamente, bem contra minha vontade. Não quero que se diga que um filho de João da Cunha escala as janelas dos vizinhos. O pior que pode acontecer-lhe, meu filho, é ser surpreendido nessa casa, e olhe que de certo o não respeitam para o deixarem descer tranquilamente como subiu.
Pouco depois, Luiz da Cunha saiu do quarto de seu pai, e passando pelo capelão deu-lhe um abraço, que o fez empertigar-se com a grave compressão das costelas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o mais prestes que podia dos braços tenazes do seu discípulo de latim.
As correções paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite desse dia, à hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e içou-se para a varanda. Pouco depois que entrara, o logista, avisado por quem quer que foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu precipitadamente, e quando descia, na altura do primeiro andar, o robusto confeiteiro levantou os ganchos da escada, e deixou-a pender para o centro da terra, em plena condescendência com as leis da gravitação.
O filho de João da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da polícia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e não é bem liquido se também ele debaixo do capote trazia uma escada de corda.
Luiz da Cunha desmanchou algumas articulações, cuja colocação o fez dar ao diabo a filha do confeiteiro. O pai ameaçou com um chicote o seu pundonoroso vizinho; mas, pelos modos, o minhoto não era homem de transigir pelo medo de uma arrogância dos atos dos Sousas e Faros. A rapariguinha nunca mais apareceu na janela, e, no fim da semana imediata, casou com o caixeiro, rapaz dos subúrbios de Guimarães, muito fino, que é hoje capitalista, e não foi ainda codilhado por governo nenhum. Já veem que a filha do confeiteiro não perdeu nada, visto que o marido não a encontrou lesada física nem moralmente. Estes é que são os felizes. Não sabem nada de psicologia, nem de anatomia: não descriminam imperfeições da alma nem do corpo.
João da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o, quando o viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre capelão ao colégio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou no colégio, onde os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima, habituá-lo à casa, para se dispensarem da outra ponta do dilema.
Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram. Eram os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no dócil, e persuadiram-se que lhe tinham inoculado o amor do estudo, e o esquecimento das liberdades por que fora, aos dezesseis anos, encerrado no colégio.
João da Cunha, maravilhado da mansidão de seu filho, visitou-o, indenizando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no colégio. Luiz não se mostrou magoado com as asperezas, nem lisonjeado com os carinhos. Estava melancólico, e dizia o padre Joaquim, sempre agoureiro aziago, que o menino meditava uma nova loucura, fosse ela qual fosse.
Profecia de padre Joaquim era infalível. Nessa noite, Luiz cortou em tiras os lenções e o cobertor. Saltou para a cerca. Partiu a cabeça ao hortelão com um fundo de garrafa dos aguilhões do muro, quando o indiscreto galego lhe agarrou uma perna para a não deixar seguir o destino da outra.
Luiz recolheu-se a casa de José Bento de Magalhães e Castro.
Este senhor José Bento é uma pessoa que nós conhecemos da FILHA DO ARCEDIAGO. É justamente aquele que casou com Rosa Guilhermina, em 1825; que comprara nesse ano o foro de fidalgo, e fizera a sua nova residência em Lisboa, por isso que os invejosos no Porto tinham a petulância de rir-se da pedra de armas que ele fizera lavrar no seu palacete do Reimão.
Em Lisboa fora bem recebido, particularmente por João da Cunha e Faro, que, segundo dizem, lhe vendera cara a consideração. D. Rosa Guilhermina era bem acolhida na roda que torce o nariz aristocrático aos que chegam sem garantias dalgum conspícuo de linhagens. A maledicência dizia que João da Cunha não era indiferente à mulher do senhor José Bento. Tanto não ouso eu dizer, e a calúnia é mancha que não pega nos meus romances. Pecos de imaginação, sim; mas arreados de fantasias que desdouram o meu próximo, isso nunca.
Luiz, sempre aceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do colégio, surpreendeu-a com um abraço estouvado. Pediu-lhe que não dissesse nada ao pai, e o deixasse sentar praça em marinha, que era a sua vocação. D. Rosa prometeu-lhe tudo, e avisou João da Cunha, que, a essas horas, recebia a fatal nova da fuga do filho. A filha do arcediago pedia-lhe uma entrevista, antes de encontrar-se com Luiz. O fim era combinarem o meio de o levarem com brandura a entrar em casa, onde de certo a violência o não levaria. João da Cunha anuiu, e o filho de Ricarda foi recebido com afabilidade por seu pai.
Não era já possível domá-lo com violências nem com afagos. Luiz da Cunha tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia é necessário acreditar na vida trágica de certos homens, que nos compadecem, que nos nauseiam, e que nos assombram!
João da Cunha, certo da sua ineficácia paterna, resumiu a sua autoridade ensinando o filho a salvar as aparências, porque os escândalos eram atroadores, e prometiam-lhe uma vergonhosa expulsão das casas honestas. O merceeiro vizinho, não obstante a sua coragem, passou pelo desgosto de curar-se de uma dura carga de pau com que o amante de sua filha, auxiliado por campinos embriagados em noite de tourada, o mimosearam dentro do seu próprio balcão. Toda a importância de João da Cunha foi necessária para torcer a justiça, visto que o logista era afeto em extremo à política vigente, o que provara mais de uma vez com o cacete na mão. Um outro pai, que ousou repelir de sua casa o fidalgo, chamando-lhe «mulato» perdeu a orelha esquerda nesta honrosa luta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da desonra. Um irmão de uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com cadeia de três meses, afora as custas do processo, a audácia de quebrar a cabeça ao amante de sua irmã, que lhe viera, em noite de luminárias, recitar debaixo da janela umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licença de cear com ela.
Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balança da opinião pública. Algumas destas aventuras faziam rir as mulheres distintas por nascimento e por muitas outras qualidades que não lustravam muito o nascimento...
Luiz da Cunha lá foi entre elas receber os aplausos, e achou que a vereda nova, em que se lançara, levava mais depressa ao capitólio. O que ele queria era a reputação de conquistador, que principiava a declinar de seu pai, e justo era que não saísse da família.
O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar o dia impreterível de tal ou tal triunfo, e bebia com eles no Isidro à saúde da vítima destinada.
Se acontecia acharem-se presentes os parentes da vítima ilustre, o impudente não calava o nome, nem respeitava as conveniências do pudor, visto que os seus amigos o não respeitavam.
O «Ismael,» que as damas desdenhavam pela cor, se não fosse o terrível sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu catalogo com muitas ilustrações do sexo, que já nesse tempo era fraco.
Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas. Pouco e pouco repelido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco anos, era detestado, acolhido com desprezo em todas as casas, exceto na de José Bento de Magalhães e Castro, que, em 1837, era já visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina foi a única mulher que exerceu uma sombra de ascendente fraternal sobre o filho de Ricarda. Os seus rogos afastaram-no muitas vezes de abismos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido ela quem o salvara de casar-se com a mulher que mais séria impressão lhe fizera, quando se viu arremessado com infâmia dentre tantas que ele pusera no pelourinho da ignomínia.
Esta mulher era uma infeliz encontrada num primeiro andar da rua do Ouro: uma dessas que vem, com os ombros nus e as tranças enfloradas, pedir-vos da janela com um aceno e um sorriso o preço do espetáculo a que se oferecem, por esse sorriso e aceno voluptuoso.
Luiz da Cunha simpatizara com a libertinagem da mulher que lhe ensinava coisas novas para o coração, não combalido de todo ainda pela podridão do vício. As duas almas compreenderam-se maravilhosamente, porque se encontraram na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se desta mulher. Pediu-lhe o exclusivo da sua alma, e foi feliz na súplica. Liberata, desde esse dia, foi dele, exclusivamente, como a filha que foge apaixonada do seio materno. Encontrou uma bem mobilizada aposentadoria, servida de criados, e da opulência que os brilhantes de Ricarda, prodigalizados em último recurso por João da Cunha, lhe permitiam. Aqueles brilhantes reservara-os ele, sem escrúpulo, para patrimônio do filho da sua esquecida amante.
Envergonhado desta união torpe, João da Cunha admoestou o filho; e, quando esperava despertar-lhe o brio com os tópicos de uma sentimental censura aos seus rasos instintos, Luiz respondeu-lhe que tencionava salvar Liberata da infâmia, casando com ela.
O primeiro ímpeto de cólera paterna foi correr sobre o filho e sová-lo a pontapés. Luiz estranhou a lisonja, e pôde muito sobre si para não receber o pai na ponta de um punhal.
Expulso de casa, recorreu à viscondessa de Bacellar, que lhe prometeu reconciliá-lo com o pai, com tanto que ele desprezasse essa mulher, que o arrastava com ela ao mesmo abismo de perdição. Luiz prometeu não casar; mas desprezá-la nunca. Se seu pai lhe negasse recursos, disse ele que seria ladrão para sustentá-la, ou morreriam de fome, abraçados.
João da Cunha, sabendo este heroísmo, reconheceu que seu filho era a víbora, que ele trouxera no coração, para o morder com o remorso expiador do seu crime, cujo saldo com a Providência começava vinte e seis anos depois.
E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu domínio sobre o homem, que se não pejava de assentar-se, ao lado dela, na mesma sege e no mesmo camarote.
Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moço. Amigos de João da Cunha tentaram vencê-la com promessas, para darem ao desgraçado uma surpresa que o fizesse detestá-la.
Não o conseguiram. A necessidade não a forçava. O ouro servia-lhe prodigamente os mais exquisitos caprichos. O coração afizera-se-lhe àquele caráter, e a pontualidade do amante não lhe deixava um instante vago para meditar uma traição.
O leitor de certo adivinhou já quem era a mulher que apeou, com Luiz da Cunha e Faro, da sege, à porta do teatro de S. Carlos. Agora, se a imaginação lhe não é escassa, afigure-a no camarote 15 da 2.ª ordem, e verá uma perfeita senhora, adestrada em salas, meneando garbosamente um leque, fitando com requebro airoso o óculo branco nas faces que se retraem envergonhadas, e sorrindo com deslavada alegria ao amante, todo carinho e atenção para ouvir-lhe alguma obscenidade alusiva a qualquer das damas, que não ousam fixá-la de face. Liberata era o que devia ser.
Hoje é moda regenerar, em romances, estas mulheres. A imaginação, cansada de reduzir a virtude ao crime, trata de fecundar a virtude no alcouce.
Em quanto a mim, as Liberatas não se regeneram. A de Luiz da Cunha dançava lubricamente a cachucha, quando lhe falavam em virtude.
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