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A Neta do Arcediago

Capítulo 11 · A Neta do Arcediago

São muitos os Lazaros; mas um só o Christo

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O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha, seu agressor, aguilhoava indiretamente o ministério público. Dificultava-se, portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia na reincidência do delito, agravado agora, por deserção e roubo, e entregue por isso à sumaria jurisprudência militar.

Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstáculos; mas Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotência do dinheiro, instou o padre, autorizando-o de novo para todas as despesas.

O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por dinheiro com o seu discípulo rebelde, e declinou a acusação. O conselho militar, movido à piedade por não sei que figuras retoricas do agente de Assucena, desprezou a virulenta acusação do auditor, acalorado por sugestões do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro de Buridan, entre o código e a peita não mesquinha, negociada pelo escrivão do processo, absolveu o réu, dando assim um testemunho da sua moralíssima independência de viscondes.

O cabo de cavalaria foi militarmente condenado a dois meses de prisão, e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicídio não vingou, à vista da limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia, aluindo os obstáculos com alavanca de ouro. Conjeturou donde tal proteção poderia vir, e julgou-se ainda debaixo da tutelar influencia de Liberata, que não podia deixar de ser o seu anjo valedor, em todas as crises.

Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou à sua sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato de fivela.

—O senhor Luiz da Cunha—disse Madureira—deve ter conhecido que alguém o protege. Ignora quem é, e eu, suposto que tenha sido o solicitador da sua soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.

—Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!

—A pessoa, que lhos faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser conhecida. Receba os benefícios, e não queira ver a mão invisível que o protege, porque a não pode ver. Quem quer que é, não limitou ainda a sua caridade com o senhor Luiz da Cunha. Há tenções de lhe dar os meios para que o senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum interesse do capital que se lhe der aqui. Faz-lhe conta aceitar este benefício?

—Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me pode fazer esse Deus, que me ampara, seja quem for. Mas sou soldado, e preciso que me deem baixa.

—Há de tê-la. O senhor tem dívidas?

—Tenho dívidas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que pudesse.

—Mas alguém quer que o filho do falecido João da Cunha se retire honrado de Portugal, aparentemente ao menos.

—Isso meu caro senhor, é obra dificultosa. Eu não sei bem o que devo; mas, por um cálculo aproximado, não pago essas ladroeiras que me fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me desse quatro, em cinco ou seis anos prometo que os faria chegar a cem.

—É admirável que o senhor Cunha com essa finura comercial se arruinasse até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...

—Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes cálculos, e que se traçam os grandes planos.

—Pelo que vejo, os cálculos e os planos de fazer que quatro contos produzam cem em cinco ou seis anos, só se meditam quando o coração está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...

—Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?

—Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma coisa de importância. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...

—Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor tinha razão...

—Também não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua presença de espírito!

—Nunca me faltou. Sou um verdadeiro filosofo, e peço-lhe acredite que nunca estudei filosofia. Há tempos, quando me fizeram a grosseria de me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo dia e a certa hora...

—Que foi o que o conteve?

—Foi essa pessoa que me protege, aliviando-me da condenação, que me prometiam os meus juízes, sendo um deles um homem, que foi criado de meu pai, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao caso... O fato é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então entrei nos grandes cálculos, bem longe de sonhar que alguém me queria fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra fabulosa.

—Está, portanto, resolvido a sair?

—Se fosse já, era uma fortuna.

—Há de primeiro cumprir a sua sentença; há de aqui receber os recibos dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem eles são.

—Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...

—Um anuncio nos jornais convidando-os a apresentarem os seus créditos, será suficiente...

—Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte mil e tantos cruzados?!

—Serão pagos.

—Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor há de ter a bondade de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance de novela! Já me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!

—Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguém?

—É metade de um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha mãe, porque meu pai, que tinha razões para saber melhor que ninguém quem ela foi, nunca mo disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e teria mais dinheiro que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não tenho amigos, não sei donde me possa vir esta restituição, não me consta que seja o herdeiro presuntivo dalgum capitalista... emfim, aqui anda mistério que o senhor padre pode pôr-me em linguagem portuguesa, e eu prometo guardar inviolável segredo, se for necessário esconder a beneficência como se esconde um crime.

—Já lhe disse que não denunciava o seu benfeitor.

Seu, ou sua?

—Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez de um cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assunto.

—Pois bem: eu respeito o mistério: nem mais uma palavra a tal respeito.

—Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua queda não lhe tem custado horas de uma tormentosa reflexão?

—Declaro-lhe que abomino o estilo patético, fujo de entrar no sorvedouro da minha consciência; ainda assim, para lhe mostrar que não sou insensível à sua pergunta, respondo: tenho sofrido; tenho-me espantado da lógica maldita dos meus infortúnios, tenho combinado a minha última desgraça com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer; mas, ao cabo de tudo, reconheço que as minhas desventuras são fatais, não as posso encadear, não sei preveni-las, sou vítima da minha organização, obedeço ao fim para que fui criado, tenho tanto arbítrio no mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz refletir, estudar, e abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de que se não sai com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive muitos desses exames de consciência, e fugia deles, e de mim, aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas o que se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a esmola de umas botas a um criado de meu pai. Ora, não há reforma possível num filosofo descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que os bons instintos renascem no coração do perverso, quando o terrível assedio das desventuras levantam o cerco. Um rapaz, afeito ao luxo das comodidades, e pervertido nelas, não se divorcia voluntariamente do vício, na indigência. Se meu pai não está doudo nessa ocasião, e me recebe com carinho, e me perdoa sem me repelir da sua amizade, e me não nega o necessário para a decência, parece-me que a minha vida passava por uma súbita transfiguração. Aconteceu o contrário: vi-me abandonado; entendi que não havia Providência para mim, e desobriguei-me de respeitá-la.

—E lucrou, desobrigando-se?

—Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue neste caminho em que vou.

—Mas deve recuar...

—Crê que é possível? Diga lá como se é honrado.

—Sendo para os outros o que desejamos que eles sejam para nós.

—Os outros tem sido para mim algozes.

—Todos?

—Todos, sim.

—Então o senhor não tem feito vítimas?

—Dessas vítimas que por aí fazem todos os dias os honrados pelo sufrágio público. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.

—E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar será feliz?

—Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive numa quinta do infame padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que não lhe encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo, que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se ela fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ela casaria, fazendo a completa ventura do marido. Como fugiu comigo, o padrasto insultou-me, cobriu-me epítetos afrontosos, obrigou-me a partir-lhe a cabeça...

—E a abandonar a pobre menina, que não era responsável pelas antipatias do padrasto...

—São coisas ligadas... o abandono explica-se por não poder explicar-se... Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a essa mulher. Entendi que abandoná-la era restituí-la à mãe; e conservá-la minha amante era obrigá-la a cair comigo no abismo da miséria, fazendo-a testemunha dos esforços criminosos que eu faria para não cair... Não me enganei... Assucena é hoje mais feliz sem mim... Estimo até que ela ignore a minha situação. O senhor conheceu-a?

—Não a conheci.

—Conhece a viscondessa?

—Sim, senhor.

—Como está essa pobre mulher? Será ela a minha protetora?!

—Não, senhor.

—De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do casal. É um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever em verso chulo a biografia do filho de uma tal Ana Canastreira do Porto! O responsável da desgraça de Assucena é ele, que a não quis remir da desonra com o valor de duas dúzias de pretos dos centenares deles, que ainda hoje são empilhados por sua conta no porão dos seus navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o escandaloso, o malvado! Fique nisto, meu amigo; os homens fizeram isto que sou. Deem-me uma independência, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os homens hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com eles. Como tenho contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido, em vez de um ai, receberei um escarro na cara.

—Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus precedentes são péssimos para uma reabilitação. Empregue o capital, que lhe derem, num ramo de comércio licito; aspire à independência sem fausto; habitue-se a uma tranquila mediocridade; agouro que voltará um dia a Portugal cheio de benevolência para o seu próximo, e enojado das tristes recordações do que foi.

—Pode ser......................


Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpresa, os seus créditos, em uma casa comercial indicada pelas gazetas.

Cumprida a pena, o preso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.

Fez a sua residência em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias numa violenta coação à sua vontade, que era mostrar-se numa sege a galope, num camarote, nos cafés, nos passeios, e nas praças. O desconhecido padre, porém, dera-lhe como preceito a reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia, maniatado pela dependência do capital prometido.

O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ânsia de beijar as mãos ao benfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade. Era o simples desejo de entrar no segredo da aventura romanesca. Se não obedecia ao desejo, resistindo ao silêncio do agente da misteriosa pessoa, é por que receava perder a beneficência com a sua imprudente e até inútil indagação.

Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e aí lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro seis contos de reis, e algumas cartas de recomendação para negociantes portugueses, que deviam dirigi-lo na carreira mais prospera do comércio.

A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratório, pedia ao espírito de Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de Deus para ela a bem-aventurança, quando as suas virtudes a remissem das culpas na balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou nesse momento, a contar à filha o pasmoso procedimento de Luiz da Cunha, pagando as suas dívidas, sem que ninguém descobrisse donde poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de seu marido a espantada narração do sucesso, e não pudera ser superior ao pasmo de José Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade de Assucena, quando o caso não era de se ouvir sem pasmo.

—Seria essa mulher com quem ele tem vivido?!—perguntava a viscondessa.

—Qual mulher, minha mãe?

—Essa dissoluta, que o teve à sua mesa?...

—Não foi, minha mãe... Fui eu.

—Tu!

—Fui eu, minha mãe!

A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha, exclamando:

—É uma lição de virtude que dás a tua mãe.

—Um segredo eterno, sim?—disse Assucena a tremer.

—Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal... Ficaste pobre, minha filha?

—Eu nunca posso ser pobre.. O espírito do meu benfeitor não me desampara...

—E não... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da Cunha saísse de Portugal.

—Não aceito, minha mãe... Não é por ódio que lhe tenha... é que preciso viver sozinha para gozar os poucos bens do espírito que tenho... Quem me tirar da solidão, mata-me...

—Mas viverás sozinha com tua mãe, no meu quarto...

—Não posso entrar nessa casa... Quando me recordo dela, cerra-se-me o coração... Não queira que eu sofra mais, minha boa mãe. Se seu marido lhe não proíbe, venha ver-me muitas vezes; mas considere-me sem família, sem apego a nenhuma coisa do mundo, triste e só, por prazer e por necessidade......................


A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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