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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 7 · A Neta do Arcediago

Perdido sem redenção

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Quando Luiz da Cunha era conduzido por dois soldados à administração do bairro, encontrou Liberata numa sege, e respondeu com um gesto de cabeça à rasgada cortesia que ela lhe fizera.

A sege de Liberata retrocedera, e vinha a passo lento seguindo Luiz da Cunha. Quando os soldados pararam à porta da autoridade, e Luiz, sem reparar na sege, desaparecera no interior do páteo, Liberata acenou a um dos soldados, que se chegou à portinhola. Perguntou por que fora preso aquele sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno serviço do informador, e pediu-lhe que subisse à sala da administração, e dissesse ao ouvido do preso que uma pessoa, que ele encontrara, em uma sege, lhe mandava oferecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se com isso era possível a sua imediata soltura.

O soldado não conseguira falar ao preso; mas soubera de um oficial de diligências, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com fiança, e não estava presente ninguém que o afiançasse.

Liberata deu ordens prontas ao boleeiro, e a sege, a grande galope, correu algumas ruas, e parou à porta de um conselheiro, oficial-maior de uma secretaria de estado. S. ex.ª não recolhera ainda da secretaria. A protetora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do Paço, e fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao oficial-maior o seu porte-monnaie. O conselheiro veio rapidamente à portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e partiu para a administração do bairro.

Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fora remetido ao juiz criminal. Foi ao juiz criminal, quando o preso acabava de sair para o Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançá-lo. O juiz aceitou respeitosamente a fiança, e prometeu mandá-lo soltar o mais depressa que se lavrasse o auto. Saía, porém, o conselheiro, quando uma carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recomendava ao juiz que não aceitasse fiança, paliando quanto pudesse a soltura inconvenientíssima de Luiz da Cunha, que ameaçava a existência do visconde de Bacellar.

Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi à cadeia, procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e contou-lhe rasgadamente os passos que dera. O preso agradeceu-lhos com aviltante submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe, sorrindo, se melhorara de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que vivera com ela. Liberata disse que também as tinha, e deu como prova não ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois dele, porque não encontrara rapaz tão perfeito, nem tão despreocupado das asneiras sociais, como Luiz da Cunha.

Recordaram cenas da sua vida de dois anos, dando tempo a que viesse a ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ela não chegasse, Liberata impacientou-se, e saiu, dizendo que, se entretanto a ordem viesse, e ele quisesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a procurasse na rua de S. Bento, n.º 46.

Luiz prometeu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a esquerda no chapéu de Luiz o porte-monnaie. Saiu.

Foi de uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sair, a vencer todos os obstáculos que redobraram desde que o próprio visconde peitara o juiz, e, tais eles eram, que só, no dia imediato à tarde, Luiz da Cunha foi solto, e o conselheiro veio alegar a Liberata trabalhosos serviços, que ela pagou com um beijo.

Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma sege, e corre à rua do Príncipe, onde o espera a atormentada Assucena?

Não foi assim. Saiu placidamente da cadeia. Desceu à primeira estação de seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida de parelha. Foi jantar ao Matta, no cais do Sodré. Subiu pela rua do Alecrim. Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para ver a casa n.º 46; cortejou Liberata que, por dentro das janelas, lhe fitava um pequeno óculo de teatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pai estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passara pior, depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batera no visconde de Bacellar. Não apeou para lhe não irritar os padecimentos. Veio para o teatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as costas, se ele os encarava de frente. Achou-se sozinho no salão, e sozinho no banco em que se sentara. Depois da meia noite, despediu o boleeiro defronte do palácio das cortes, e seguiu a rua de S. Bento até à casa n.º 46.

Dos moveis que Luiz da Cunha deixara à sua amante, nem uma cadeira existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e mau gosto não invejava o aparato da garrida decoração das salas de um brasileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu bazar de porcelanas, de relógios, de cães e patos de vidro, de conchas variegadas, de ricas encadernações em marroquim de livros nunca abertos, de globos de luzente cobre, de coxins amarelos e vermelhos.

A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano, antecessor do conselheiro, e sucessor do capitão de marinha inglesa, tinha sido o inteligente coordenador daquela miscelânea em que despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua amante. Diziam que Liberata seria esposa desse americano, se o cônsul despoticamente o não mandasse preso a bordo de uma embarcação que o levou a seu pai, desfalcado em boa parte da sua fortuna.

O conselheiro, que substituíra o americano, sustentava o luxo de Liberata com uma farta mesada, de que ela tirava para todos os seus caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambição.

Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquela magnificência, que não era nada comparando-a à sumptuosidade de alcova, onde foi recebido, como era dever que o fosse, o único homem que a fizera conter-se nos honestos limites de uma fiel amante.

—Achas que estou muito rica?—disse Liberata, puxando-lhe com meiguice uma orelha.

—As aparências são disso...

—Supunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?

—Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me separasse de ti, foi preciso que eu entrasse numa época de demência, que me dura há quatro meses.

—Que tens tu feito há quatro meses?

—Tenho envelhecido quarenta anos. Quis-me opôr à natureza, fazendo-me pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz quando a minha sociedade eras tu, e os meus cavalos, palavra de honra!

—Com que então eu e os teus cavalos! O diacho da mistura não é nada amável! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...

—Qual conselheiro?

—O atual... não sabes quem ficou por teu fiador?

—Pois o conselheiro é o teu amante?

—Excelente criatura... Pois foi ele que me disse que uma enteada do visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar contigo. Já casaste?

—Não, nem caso.

—Nem casas? então, tenho mais uma companheira...

Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a Assucena, que neste momento se lhe afigurou de joelhos, pedindo a Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio instantâneo de sol em céu revolto de nuvens escuras.

—Diz-me cá, Luizinho—continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito sobre o ombro, e brincando-lhe com os anéis do longo cabelo—queres ser outra vez meu?

—É impossível.

—Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...

—Não é por isso.

—Pois então?

—Não tenho dinheiro... Aquele manancial das joias de minha mãe esgotou-se; meu pai está doudo, e não me conhece...

—E é por isso que querias casar com a filha do visconde?

—Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe dar como amante, e muito menos como mulher.

—Queres tu uma coisa? Não digas a ninguém que és meu amante, e não se te dê que o conselheiro o seja. Queres?

—Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sair já já de Portugal.

—Porque?

—Quero ver se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na Africa ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.

—És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe há de recebê-la, se a não quiser ver onde vai parar muita gente que também foi honrada. Tu metes-te em casa de teu pai, de dia, e, passada a meia noite, vens para a tua Liberata. Em quanto eu tiver um anel, tens tu um casaco, em se acabando, fizemos trinta anos à justa. Hás de crer que sou tua amiga apesar das tuas ingratidões? Deu-me para aqui! Simpatizei contigo, e se fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada de tristezas. Vamos cear, que já ouvi a campainha três vezes. Inda cá tenho os criados que me deste, e não são capazes de dar um pio. Quando souberam que tu cá vinhas hoje, até dançaram a gota... Tu ficas sendo de hoje em diante o dono desta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo, sim?

Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a cintura, e entrou na sala de jantar, onde cintilavam os cristais variegados, pequena parte de uma soberba copa. A ceia era servida por um criado, de gravata e colete branco. Luiz respondeu com um abraço familiar à cortesia afetuosa do seu antigo escudeiro de quarto.

O et cetera é a palavra latina que eu conheço mais útil nos usos sociais. Com um et cetera, ou dois, fica historiada esta noite; mas ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte, quando se aproximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço, recolheu-se ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:

«Assucena.

«Não te verei mais. Os obstáculos ao nosso casamento são invencíveis. Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sair de Portugal. Escreve a tua mãe, e diz-lhe onde moras para que ela te procure, e te receba em sua casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos meus projetos, tornarei a Portugal, e serás então minha esposa, assim como eu o serei teu, toda a vida, pelo coração. Demoro-me escondido em Lisboa alguns dias; mas, por evitar mais amarguras, antes quero não tornar a ver-te. Lembra-te que eu sou muito infeliz para te resignares na tua infelicidade.

«LUIZ DA CUNHA.»

O portador voltou, dizendo que a carta fora recebida por um velho, que tinha jeitos de padre.

—Quem será este padre?!—dizia Luiz da Cunha a Liberata.

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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