Universo da obra
Universo da obra
Desde agosto de 1842, época da aparição de Luiz da Cunha em Lisboa, Assucena caiu numa tristeza inconsolável, num ansioso desejo de morte que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus princípios de resignação, e abandono à vontade divina.
Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a misantropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demência, porque, muitas vezes, eram desconexas as suas ideias, e incompatíveis até com a sua religiosidade. Tentaram sair com ela, por consentimento do visconde condoído, a uma distração em viagem. Assucena recusava-se, e rejeitava com enfado as oportunas instâncias de sua mãe.
Queriam adivinhá-la, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a sua devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilícios com que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta noite.
As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias encontrá-la douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a julgassem, era alguma ação pecaminosa, que desmentisse a rigidez do seu ascetismo.
Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre à Virgem Mãe que fosse a protetora dele, e o remisse da condenação eterna, descontando-lhe os sofrimentos deste mundo.
E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis anos. Em 1848 morreu a filha do arcediago quase repentinamente: mas desde muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira de uma quinta no Minho, única disposição que a mulher de José Bento podia legar.
Este golpe confirmou as conjeturas do padre Madureira. Assucena teve passageiros acessos de demência. Convalescida, ordenou ao padre que lhe trouxesse um tabelião. À solenidade e bom tino da suplica, não resistiu o padre desconfiado.
Assucena dava o usufruto da sua quinta ao beneficiado Madureira, em quanto vivo, com a condição dele fazer cumprir o legado de três missas diárias: uma por alma do cônego Bernabé Trigoso; outra por alma de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por morte do padre, a quinta passaria à Santa Casa da Misericórdia com as mesmas condições para sempre.
Madureira, sabendo nas vésperas da partida, que Assucena se retirava para a sua quinta de Caldellas, na província do Minho, admoestou, suplicou, mas não conseguiu demovê-la do propósito.
—A minha saída desta casa—dizia ela—é o maior sacrifício que eu posso fazer. Deus mo aceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico. Preciso ser grata aos benfeitores mortos, e ao vivo: os sufrágios para os mortos, e a posse desta quinta, meu purgatório e paraíso, para o meu benfeitor.
—E deixa o seu benfeitor com tamanha presença de espírito, senhora D. Assucena!
—Deixo-o com a mais violenta dor de coração. É o cilicio com que martirizo o meu espírito. Deus me levará em conta esta renuncia da convivência com o meu bom amigo.
Madureira não podia constrangê-la, receando abreviar uma loucura irremediável.
Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desoprimi-la, alargando-lhe o coração pela amplitude do céu, que, naquele local, convida a um cismar suavíssimo, a uma santa saudade de outra existência, que deve ter precedido a das dores terrenas.
A quinta de Caldellas é um éden. As águas prateadas do rio Homem banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franças das acácias, enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente do perfume das flores maninhas. Em antigos tempos, o gênio bucólico de um possuidor criara ali tudo que a invenção pode realizar de mais viçoso, de mais límpida frescura, de mais poético devaneio.
O edifício é antigo, dessa pitoresca arquitetura, sem escola, respigada em todos os modelos, e acizelada pela fantasia do que aí quisera eternizar debaixo desse formoso céu os prazeres inocentes de outras eras, de outros idílios que raros corações concebem hoje.
Aos lados da majestosa entrada, erguem-se os ciprestes seculares, outrora confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhara na casca, perecedoura como tudo em que o homem quer perpetuar-se.
É essa a herança da neta do arcediago. Aí fugiram três meses em deliciosos instantes a padre Madureira.
Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericais, e o quase abandono em que deixara a quinta do Lumiar. Fora, prometendo à lacrimosa Assucena, vir aí passar todos os estios. Deixara-a acariciada pela velha serva que já o fora do cônego Trigoso. Dispôs o arrendamento da quinta para evitar à nova possuidora canseiras de administração. Aflitivo fora aquele adeus! Assucena dos braços dele correra a lançar-se aos pés da cruz.
E, depois, o oratório, a capela, as devoções eram a sua vida. Ninguém a encontrava fora dos muros da quinta. Os próprios caseiros viam-na apenas através de um véu negro, no coro da capela em dias santificados.
Os sintomas de um transtorno intelectual eram sensíveis cada vez mais, não para ela que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se com os moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto, lhe observava os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até a imaginaria convicção de que o cônego, em forma de querubim, a visitava em sonhos.
E, se acontecia descer, à tarde, às margens do rio, sentia refrigerar-se no coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza, punha a mão no seio que se agitava em estranhas comoções de um sentimento incógnito, de uma saudade inexprimível. E, de repente, ao riso sucediam as lágrimas; à instantânea frescura das rosas da face a palidez do susto. Assucena fugia, dizendo que ofendera o Senhor com pensamentos mundanos. Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada vergoada que se abria no corpo com as disciplinas.
Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a moléstia progredia. Empregou uma religiosa severidade para arrancá-la à mistica exaltação; mas era tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não queria entrar na capela, sem aspergi-la com água-benta, por isso que vira erguer-se um homem amortalhado sobre o carneiro onde dormia o sono de duzentos anos o fundador daquela casa.
Um hábil confessor não pudera aclarar o espírito enturbado da misteriosa senhora. Imaginando-a em luta com alguma paixão desditosa, franqueava-lhe as portas do mundo para que se não perdesse na região das quimeras. Assucena respondia com lágrimas ao confessor, e, apertada pela explicação das lágrimas e do silêncio, gritava pela misericórdia divina.
Madureira, despedindo-se dela no outono de 1850, foi seguro de que não tornaria a vê-la senão douda.
Previra bem.
Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena estava vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque em fitas cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito anos, conservados ainda nos seus baús de educanda. O padre respondeu com o pasmo e com as lágrimas à gargalhada.
—Porque chora?—disse ela, com tristeza.
—Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...
—Também eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha fome...
—Quem?
—Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pisam, desde que me mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o infeliz! A desonrada, a infamada, a mártir, fui eu... Não quero que ninguém me vingue...
—Assucena!...
—Se eu fosse outra, procurava-o na cadeia... Fui eu que o abandonei primeiro... quando o meu padrasto o pôs a ferros... Que me importava a mim a sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado este abandono!?...
—Isto parece incrível, meu Deus!—exclamava o padre, voltando a face dos olhos abraçados de Assucena.
—Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus infortúnios. Há de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado, e que lhe deu um bocado de pão, quando ele disse que tinha fome... Ouça-me... Onde está Luiz?
—Não sei, senhora.
—Pois eu quero vê-lo para perdoar-lhe...
—O seu perdão não melhora os infortúnios dele. Deus é que perdoa...
—Sim, sim, Deus...
Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os lábios colados no pavimento, diante do oratório.
Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados daquela nevoa cinzenta da gota coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz trêmula de compunção:
—Minha filha... Venha comigo para Lisboa...
—Deus me livre! Ele há de aqui vir ter.
—Luiz da Cunha?
—Sim.
—Viu-o alguma vez nestes sítios?—perguntou o padre suspeitoso.
—Vi... passou, há um ano, na estrada. Estava eu no portão pela parte de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel de um cavalo. Era ele.
—Falou-lhe?
—Não; nem ele podia ver-me... Tem as barbas até à cintura; vestia uma jaqueta de peles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria ele fome?
—E se ele lhe pedisse de comer?
—Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta, estas cadeiras, esta camisa, se eu morro muito cedo?! Que venha, e eu dou-lhe tudo! Não quero que o persigam, já disse! Hei de acusar diante de Deus quem o matar!
Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns meses. Quando se retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por escolha dele. Era irremediável a demência. Assucena recusava receber facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se deixasse visitar por um médico. Se fugia à vigilância do egresso, ia ao portão fitar o ouvido; ouvindo tropel de cavalo, espreitava; desenganada da sua louca esperança, sentava-se na pedra, chorando com mavioso mimo, com infantil ressentimento, até que o seu guarda, inventando promessas, a conduzia a casa.
E nunca a tão bela alma daquela mulher ressurgiu das trevas!
Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demência!
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