Universo da obra
Universo da obra
Luiz da Cunha aceitara a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande espanto de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato, explicando esta nascente amizade por certo mistério, que ele não dizia, porque não soubera inventá-lo. Proença, suspeitando as intenções de Cunha, porque lhe não eram estranhos os boatos que corriam muito desonrosos para o mulato, deu-se pressa em sair de Buenos-Ayres com a sua carregação de cortumes para a Baía.
Poucos dias depois, desapareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo. Das praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro dois navios com aspeto mercantil, içando a bandeira da república argentina. Costearam a província do Rio-da-prata até ao Paraguay. Aí fizeram-se ao largo, e arrearam bandeiras.
Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira espanhola em dois navios de alto bordo que lhe passavam à proa. A manobra foi rápida. As galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos navios, que lhes fugiam. Ao cair da noite, a trombeta do pirata levou uma ameaça de morte aos espanhóis. Responderam-lhe com uma bala que zumbiu nas gáveas.
Travou-se a luta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria viam-se de um lado e doutro, como visões fantásticas, as faces enraivecidas de agressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos agredidos resolutos à morte com bravura.
O mulato dera o tremendo sinal da abordagem. A galera que se retirava da luta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecera. É que uma bala lhe fizera à popa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a calafetarem inutilmente a fenda.
Os piratas recuavam, e os agredidos acometeram com o entusiasmo da Vitória. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.
—À abordagem!
Bradaram os espanhóis. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os netos de Cortez não admitiram a proposta. Saltaram entre miseráveis ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para puxarem o carro do triunfo. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não tivera coragem de morrer borrifado do sangue dos contrários, como o seu companheiro, e pedira de joelhos a vida. O extremo da ignomínia encontra a covardia. Sem a força moral da honra, o músculo do infame enerva-se, e a existência, que devia ser-lhe um peso, é-lhe ainda cara! Segredos.
Os prisioneiros foram levados às Antilhas para serem garrotados. Alguns foram-no logo. Luiz da Cunha, que prometera aos capitães o resgate da sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.
Chegara a nova à Baía, onde Proença negociava. Não se falava em Luiz da Cunha; mas dizia-se que um português ou brasileiro, que parecia de educação distinta, fora preso, e demorara com astuciosas promessas o seu processo.
Proença não tinha ânimo para encarar o suspeito Cunha nesse último grau da infâmia. Apressou-lhe quanto pôde socorros, e, calando o nome do preso, solicitava a sua liberdade.
Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram descobertos. Parte das autoridades espanholas quiseram desfazer-se dele, pendurando-o num triangulo. Mas o governador não consentira, sem primeiro ouvir esse homem misterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a eloquência astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes que mais deviam tocar-lhe o espírito um pouco romanesco. Luiz da Cunha soubera dar-se prestígio, porque adivinhara a índole da autoridade.
Foi processado e condenado a três anos de prisão em Porto-Rico. Três anos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para esse homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um ladrão, pela grade da enxovia! Não terá ele, ao menos, a coragem do suicídio?!
Não tinha.
O governador mandava-lhe umas sopas, e umas calças velhas. Uma senhora desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os lenções da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a aparente resignação do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma candeia.
Quatro meses deste viver! Eis ali o amante de Assucena! o marido de Marianna! Aquele homem que tira de uma tigela de barro com um garfo de ferro umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos por mês; é o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de reis. E, contudo, não tem ainda trinta anos! Que futuro!
Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mês de prisão de Cunha. Procura o governador, com valiosas cartas de recomendação, e historia-lhe vagarosamente a vida do preso. O governador espanta-se de tanto crime, e crê na magica influencia de Satanás sobre o desgraçado. Uma das circunstâncias que mais o pungem é o ilustre nascimento de Luiz da Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dor colectiva da raça: o vexame e a condolência de uma simpática compaixão. Vencido pelas instantes lamurias de Proença, quis ser árbitro na liberdade do preso, assim como o tinha sido no imediato garrote que os outros sofreram. Luiz da Cunha, com cinco meses de cárcere, é solto. Respira o ar da liberdade, é senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem socorro, sem incentivo algum às forças que lhe sobejam ainda para cometer dificultosas empresas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A que reservatório do inferno irá ele invocar um outro gênio?
Que lhe falta?
Luiz da Cunha fora chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou numa sala particular, onde encontrou Proença. Não corou: a comoção forte que um fácil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de encontrar um homem que, de certo, não viera ali para o deixar sem dinheiro.
O expatriado é que não podia suster as lágrimas. Sentia o vilipêndio de Cunha, como se tirasse dos ombros do infame para os seus o peso da ignomínia.
—Vieste salvar-me?—disse serenamente o pirata infeliz.
—Já ninguém te salva... Vim alcançar a tua liberdade para experimentares uma nova posição social. Caíste muito no fundo. Já não há braço que te levante.
—Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra. Filosofei o melhor que se pode com os meus princípios experimentais. Conclui que sou uma machina. Não tenho vontade, nem ação. Quero ver onde chega isto! Desejava poder calcular aproximadamente, pelos dados da vida, que morte será a minha. Tenho trinta anos. Proença! como se pode ser tudo o que eu tenho sido em quatorze anos!
—E que serás tu?!
—Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.
—E és capaz de pedi-la?
—Que dúvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais indecente.
—E gracejas!
—Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotência que me reduziu a isto?! Zombemos com ela.
—Mas não há outro recurso contra a fome senão pedir esmola?
—Ou roubar.
—E o trabalho?
—Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não sirvo para nada, não tenho força nem vocação.
—Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria alguém, há oito anos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e mais tarde um negociante de cortumes? Eu tive fome, Luiz. Deitei-me algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não pedi esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas? Estão calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre como esmola. Trabalha, Luiz.
—Diz-me lá em que...
—Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas ocupações, e recebes uma parte grande dos meus interesses.
—Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola. Emprestas-me algum dinheiro?
—Que farás com esse dinheiro?
—Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...
—Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?
—Uma mulher.
—Como Marianna?
—Não me fales em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando nessa infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão aflito uma noite na cadeia, que me pus de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via. Era febre; mas olha que a vi tal qual ela devia ser a expirar... Palavra de honra! não me fales nela... Bastam-me os meus remorsos...
—Tu não tens remorsos, Cunha... Não falemos nela; concordo... O nome dessa infeliz soa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua boca... Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te há de fazer feliz... Vejo que a desgraça tem contigo momentos de zombaria... Vai. Dou-te o dinheiro necessário para a passagem, e para a subsistência de alguns meses.
—És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do último real que me emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.
—Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te iludes, a inexperiência do que és, a intimativa com que te confias a uma esperança imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com a sua riqueza? Estou fora de Portugal há oito anos, e conheço a tua vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro. Quem te não conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta de um tal visconde, escrita ao ministro português no Brazil, que te apresentava um prodígio de imoralidades.
—Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.
—De Bacellar, justamente.
—Isso é um miserável a quem puni com um chicote nos Paulistas.
—Não sei se é um miserável que puniste com um chicote; mas de certo não é calumniador. Todas as informações confirmam as dele. O que será feito de uma menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no primeiro mês, trocando-a pelos amores da célebre Liberata?
—Não falemos nisso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a mulher que me há de fazer feliz é justamente a que fugiu das Commendadeiras?
—Vejo que é grata aos teus benefícios... Deve morrer de saudades por ti... Estará ela ansiosa da tua chegada como Marianna?
—Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?! Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se pudesse, dava-lha... Que mais queres?
—Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.
—E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil cruzados, depois que a abandonei?
—Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem caíres nesse chão fulminado de vergonha!
—Vergonha... de que?
—Há em ti um defeito de organização, Luiz!... Tu não és o homem moral. Falta-te a consciência, o senso íntimo do bem, o caráter da sociabilidade. Não te posso responsabilizar pelos teus crimes. O tigre tem a ferocidade nativa. Tu és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as lágrimas nos olhos, que estás perdido, perdido para sempre... Receio muito que encontres um cadafalso no teu caminho.
—Estás fúnebre! Que diabo de profecia! O meu furor todo é desmenti-la... Hei de reabilitar-me! Desafio todos os demônios para que me combatam.
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