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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 8 · A Neta do Arcediago

Providência ou acaso?

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Assucena contara com pueril ingenuidade a sua vida ao cônego Bernabé Trigoso, e a sua irmã. Não lhe ocultou o seu nascimento, nem as menores circunstâncias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o cônego, ao ouvir tal nome, exclamara de modo que não queria ser ouvido:

—Santo Deus!

A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia à sua predileta Senhora das Dores que permitisse a reparação da falta de Assucena. O cônego, crente no remédio do céu, mas inteligente bastante para se não abandonar inerte às operações invisíveis da Providência, prometeu à sua hospeda empregar todos os meios possíveis para destruir os obstáculos ao seu casamento.

—Mas—acrescentou ele—eu não creio que o senhor Luiz da Cunha recompense o amor que a menina lhe tem.

—Porque? Pelo amor de Deus diga-me porque...

—Porque não acho muito próprio de um amante o silêncio de quarenta e oito horas, sem lhe dar por escrito, ao menos, certeza de que vive.

—Se ele está preso!

—Mas os presos não estão privados de escrever.

—Estará doente...

—Estará... não aventemos explicações, menina. O tempo nos dirá tudo. Logo que seja dia, eu vou informar-me do que é feito do senhor Luiz da Cunha. Agora vá descansar um bocadinho no quarto de minha irmã. São quatro horas. Tenha esperanças em Deus, que é pai, e em mim que hei de ser para a menina o que seria para uma filha.

Quando foram horas de se abrirem os tribunais, Bernabé Trigoso colheu informações de Luiz da Cunha. Soube que ele na véspera fora solto, afiançado pelo conselheiro Costa e Almeida. Nenhumas outras informações, além das que lhe deu o carcereiro de uma visita, à cadeia, de certa senhora ricamente vestida, que viera em sege sua.

Recolhendo a casa, sua irmã disse-lhe que Assucena adormecera momentos antes, e era pecado acordá-la daquele dormir, que parecia sereno como o de um anjo.

—Creio que a infeliz—disse ele—deve perder a esperança em tal homem. Eu por mim, julguei-a perdida desde que ouvi pronunciar tal nome.

—Pois quem é ele?

—É um flagelo da humanidade... É um homem que tem dado brado com os seus escândalos. Não te recordas das histórias que nos contava o padre Joaquim?

—O capelão de João da Cunha?

—Que é pai de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras caiu a pobre pomba. Desgraçada menina! É preciso prepará-la para o desengano...

—Quem sabe o que Deus fará?

—Eu não sei o que Deus fará; mas sei o que os homens são capazes de fazer. Não abandonemos esta vítima do erro. Desculpemo-la, que tem o seu perdão na inocência com que nos contou a sua vida. Se esse homem a procurar, achá-la-á em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa casa será o abrigo de Assucena.

A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O cônego mandou descer o portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu que era do senhor Luiz da Cunha, e não tinha resposta. Redarguiu Bernabé, inquirindo a residência do senhor Luiz da Cunha: o moço respondeu que não tinha ordem de a dizer.

As suspeitas do cônego fortaleceram-se. Esta carta era uma despedida na sua opinião. Refletiu se devia entregar-lha, ou lê-la. Perpetua animou-o a abri-la, visto que a intenção era evitar algum desgosto mortal à infeliz menina. O cônego leu a carta; e ficou satisfeito da sua temeridade.

—Não se lhe mostra esta infame carta—disse ele.

—Era capaz de morrer a desgraçadinha!—acrescentou a irmã.—Mas que lhe dirás, se ela te pedir notícias desse mau homem?!

—Digo-lhe... eu sei cá o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se resigne... e pedirei a Deus que lhe dê coragem para o desengano... Veremos... Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras dele, que a matariam, se ela as lesse todas...

Assucena tossira. D. Perpetua foi pé ante pé escutar. Ouviu-a soluçar. Abriu a porta, e uma fresta da janela. Encontrou-a de joelhos aos pés do leito. Abraçou-se a ela com os olhos úmidos das lágrimas, que lhe arrancara seu irmão com as suas, lendo a carta.

—Sabe-se alguma coisa?—exclamou Assucena.

—Vamos lá dentro falar com meu irmão, minha filha. Ele já veio, e alguma coisa lhe dirá.

—Pois, sim, vamos...—disse, correndo impetuosamente meio vestida.

Entrando na saleta em que o cônego almoçava, D. Perpetua fê-la sentar ao pé da cadeira de seu irmão, em quanto lhe apertava com os ganchos o cabelo em desalinho. Bernabé, risonho e com ares de quem vai dar uma boa nova, deu-lhe a sua chávena de chá, escolheu-lhe a torrada mais apetitosa, e os biscoitos mais torrados. Assucena queria rejeitar; mas o cônego teimou com brando afago, e conseguiu que ela sorrisse à pertinácia de um papagaio que, por força, queria participar das sopas de seu amo na mesma xícara.

Findo o almoço, o cônego, por um gesto, fez sair sua irmã. Assucena não despregava os olhos dos lábios dele, e achava insuportável a demora das informações que lhe prometera.

—Está ansiosa pela resposta, minha menina?

—Estou... Falou-lhe? Viu-o?

—Não o vi, nem lhe falei.

—Meu Deus!... então?

—Vi uma carta dele, escrita a um seu amigo, que me procurou já hoje...

—Para que?

Bernabé Trigoso não pensara maduramente nas respostas, e lutava com as dificuldades do improviso.

—Para que?... Não se apresse, minha filha. Quero primeiro convencê-la de que tem Deus a seu favor. Assucena não é tão infeliz como se imaginava.

—Pois diga, senhor, diga tudo o que sabe... Ele vem?

—Há de vir, mas por em quanto não. Ora diga-me qual queria, vê-lo perseguido por seu padrasto, ou salvo da perseguição longe de si?

—Antes longe de mim; mas eu irei viver com ele no fim do mundo.

—Isso é que é impossível...

Assucena estava cor da cera. As lágrimas estancaram-se-lhe; e as pálpebras penderam-lhe amortecidas. Já não ouvia as palavras do cônego, depois do impossível. Quisera em vão suster a cabeça no braço tremulo. Cada vez mais coada, até os lábios se fizeram brancos. Um ai, desentranhado do coração, foi seguido de um vágado; o padre recebeu-a nos braços, e chamou sua irmã, para ajudá-lo a levá-la à cama.

—Este acontecimento não se evitava—disse o cônego.

—Ela sabe tudo?

—O mais necessário. Agora resta imaginar a convalescença que é onde está o maior perigo. Se eu pudesse falar à mãe desta menina...

—Querias entregar-lha?

—Não; hoje o meu maior prazer era restituir a felicidade a esta senhora. Queria salvá-la com a presença da mãe.

—Poderá ser pior...

—Não é. O remédio deste mal são as torrentes de lágrimas, e essas só ela as pode verter com fruto no seio de sua mãe... Perpetua, não te separes dela; fala-lhe em sua mãe, e dize-lhe que saí para bem seu.

Bernabé Trigoso, quando entrou no páteo do visconde de Bacellar, perguntaram-lhe se era o padre que vinha confessar a senhora viscondessa. Respondeu que não era o confessor da senhora viscondessa, mas era um cônego da patriarcal que precisava falar com s. exc.ª

Conduziram-no ao quarto dela. Rosa Guilhermina estava de cama, com dois médicos à cabeceira, que retiraram, quando o cônego entrou. Um dos médicos, quando se retirava, abraçara o cônego, e disse à viscondessa: «Eis aqui o último homem dos tempos de virtude. Estimo bem vê-lo à cabeceira do seu leito, senhora viscondessa!» E ficaram sós.

—Não tenho o gosto de conhecê-lo...—murmurou ela com a voz enfraquecida.

—Não importava conhecer-me antes deste momento. De certo, eu não poderia evitar os desgostos por que v. exc.ª está passando...

—Terminarão brevemente... Estou quase morta.

—Não morrerá. Deus não nos dá a vida como um instrumento, partido no primeiro estorvo, que nos embaraça uma suave carreira. Viemos para trabalhos, senhora viscondessa; e o mais sofredor é o mais benemérito aos olhos do Altíssimo. Venho falar-lhe de sua filha.

—Sim?... Oh! foi Deus que o mandou!.. Onde está minha filha?

—Na companhia de uma senhora que é minha irmã, e na minha companhia, que sou um padre.

—Pois esse homem...

—Quer-me falar de Luiz da Cunha?

—Sim...

—Esse homem abandonou-a.

—Já!... sem a salvar da desonra!

—O que nós queremos é salvá-la da morte.

—É mais feliz se morrer! Levai-a meu Deus, levai-a para vós!

—Deus não se aconselha, senhora viscondessa. Ela vive, porque Deus o quer. Confiou-ma, e eu quero encaminhá-la de modo que Deus a chame, quando a glória do céu lhe seja dada como um premio de virtudes na terra, amaldiçoada para os anjos.

—Mas... é impossível recebê-la em minha casa...

—Eu não quero que a receba em sua casa, minha senhora. Sua filha é como se fosse minha. Debaixo das minhas telhas mora a honra e a abundância. Assucena não precisa senão chorar, para renascer para a felicidade, que eu prometo dar-lhe. Chorar... chora ela sempre; mas é preciso que o seu coração se abra às suas lágrimas, para lhe perdoar...

—Eu perdoo-lhe...

—Bem... mas o seu perdão há de ser-lhe dado a ela, abraçando-a, convencendo-a de que é possível a sua reabilitação. E, depois, seja um segredo para todo o mundo a existência de sua filha em casa do cônego Bernabé Trigoso.

—Se eu viver, dar-lhe-ei tudo o que poder para a sua subsistência.

—Não precisa de nada sua filha. Se v. exc.ª consente que ela seja da minha família, deixe-me inteiro o cargo de pai. O seu mais precioso sustento é o do espírito. Esse é que eu pedirei a Deus que mo não escasseie, e talvez o consiga.

—Quer que eu procure minha filha?

—Suplico-lho.

—Se eu tivesse forças...

—Experimente, senhora viscondessa; parece-me que posso profetizar-lhe que terá forças. Trata-se de salvar uma filha. V. exc.ª sentir-se-há melhorar quando se convencer de que o anjo caído se levanta, com a dor da sua ignomínia adormecida. Não lhe fale em Luiz da Cunha, bem nem mal. Há de abominá-lo, sem que lhe lancemos em rosto a perfídia desse miserável, que, no fim de tudo, não é menos lastimável, porque o seu fim deve ser triste. Deixemos-lhe a ele o cargo de se fazer detestável. Uma mulher apaixonada só recebe bem as censuras da sua consciência. Iluda sua filha com uma piedosa mentira. Diga-lhe que ninguém fala da sua desgraça, que as poucas pessoas que a sabem se empenham em desmenti-la, fazendo crer que Assucena vive na companhia de uns parentes no Porto. É preciso mesmo que v. exc.ª faça acreditar que a enviou para alguma quinta longe de Lisboa.

«Posso dizer que ela está no Minho, onde meu marido comprou uma quinta em meu nome para eu poder legar a quem quisesse por minha morte, e talvez eu conseguisse que meu marido me concedesse dar-lha já; mas ele, depois da desordem com Luiz da Cunha, enfureceu-se contra ela, contra mim, contra todos...

—Já lhe disse, minha senhora, que sua filha não precisa de quintas, se lhe não proíbe ser mais minha filha que sua.

A conversação prolongava-se, quando foi anunciado o confessor da viscondessa. A enferma, pela súbita animação que o cônego lhe emprestara, e pela desordem de ideias que lhe confundiam o exame de uma confissão geral, mandou dizer ao padre que resolvera adiá-la. Entretanto, Bernabé Trigoso retirava-se, porque a viscondessa lhe pedira que ocultasse de seu marido, se ele entrasse no quarto, a causa da sua vinda àquela casa.

As sincopes de Assucena repetiram-se na ausência do cônego. D. Perpetua, receosa dos resultados, chamara médico para consultá-lo se devia chamar confessor. O médico nem receitou nem votou pela precipitação dos sacramentos. Coligiu das tímidas informações da virtuosa senhora que a enfermidade de Assucena era uma forte afecção moral.

O cônego, também assustado, não abandonava o leito de sua filha adotiva. As consequências eram mais graves do que ele supusera. Assucena já não chorava, nem perguntava nada com referência a Luiz da Cunha. Tinha os olhos em êxtase, e a boca meio-aberta respirava aceleradamente. Saíam-lhe do coração gemidos convulsivos, como o arfar tremido da criança, quando cessa de chorar, mas, ainda animada pelos beijos da mãe, parece queixar-se. Estes períodos duravam uma hora. Se lhe perguntavam o que sentia, respondia com melancólico sorriso: «nada.» Se lhe davam consolações, que não podiam deixar de ser fundadas em frouxas palavras de esperança, a filha de Augusto Leite acenava com a cabeça, como se dissesse: «não me salvam com a piedosa mentira.»

Bernabé falava-lhe a linguagem que aconselhava à viscondessa, dizendo-lhe que muita gente se persuadia que Assucena, por causa do namoro de Luiz da Cunha, fora tirada das commendadeiras, e conduzida a uma quinta no Minho por ordem de sua mãe.

Este bálsamo não prestava refrigério algum à ferida. Bernabé Trigoso, sabendo muito, não sabia tudo do coração. Estes remédios aproveitam quando a mulher desprezada esquece o amante para se lembrar da sua reputação. Assucena não tinha ainda pensado no que o mundo diria dela. Luiz da Cunha era a sua ideia única, e a face torpe desse homem não se voltara ainda para que a infeliz lha visse pelos olhos da reflexão. O sistema, pois, de Bernabé não era vantajoso como ele o supunha. O sofrimento silencioso aumentava: o pulso impetuoso recaía num marasmo insensível, para depois referver em borbotões de sangue. O médico aconselhava uma qualquer impostura, se não havia consolações verdadeiras que a salvassem. Era possível a morte, dizia ele;—era possível uma loucura; era tudo possível, menos curá-la daquela desesperada situação com remédios da botica. Se é uma paixão por causa dalgum amor infeliz,—acrescentava o doutor—mintam-lhe de modo que possamos aliviá-la desta crise, e reduzi-la a estado menos anormal para que se colha algum resultado das palavras.

Aproveitou o conselho. O cônego fingiu a recepção de uma carta de um seu amigo em que se lhe prometia o breve enlace de Luiz da Cunha com Assucena. A inocência tem credulidades sem crítica nem senso. A pobre menina, sem discernir quem poderia escrever tal carta a um homem estranho a Luiz da Cunha, acreditou-a. Deu-se uma notável alteração nos sintomas. O médico nunca alcançara um triunfo tão barato, nem tão útil. Conhecer a alma é, em muitos casos patológicos, a mais prestante medicina.

No dia imediato, soube o cônego que a viscondessa visitava de tarde sua filha. Preparou-se, felicitando-a por ter merecido a Deus tão excelente mãe. Dissipou-lhe os receios, a vergonha, e até o medo que se lhe incutiu, temendo que sua mãe viesse dissuadi-la do seu casamento.

—Sua mãe—dizia o cônego—naturalmente não lhe fala em Luiz da Cunha. A menina não deve também falar-lhe nele.

—Porque? não há dele ser meu marido?

—E que tem isso? O coração de sua mãe é bondoso; mas não se segue que a bondade desvaneça o melindre natural. Calar tal nome é uma prova de respeito com que deve retribuir a generosa amizade de sua mãe. É provável que ela pouco lhe diga. A sua primeira expansão será de lágrimas. Receba-as que são, talvez, as que salvam a infeliz senhora da morte.

Não se enganara o cônego. Rosa Guilhermina fraqueou quando recebia nos braços Assucena. Desmaiada, pudera reputar-se morta, se o coração não batesse violento no seio da consternada filha.

Bernabé, amparando-a também, perguntava a Assucena quanto daria por salvar sua mãe.

—Dou a minha vida!—exclamou ela.

—E, se sua mãe lhe pedisse o coração, e não a vida?

—Tudo, tudo, senhor!

—E, se ela lhe pedisse que renunciasse o amor de Luiz da Cunha?

—Para salvá-la?

—Sim, para salvá-la.

—Morreria, mas renunciava...

—Melhor lhe fora então morrer!...—disse em voz soturna Bernabé, afastando a viscondessa esvaída dos braços da filha, e fixando nesta um olhar de severa repreensão. A neta do arcediago deixou cair os braços, e pregou os olhos no chão. Ora o rubor, ora a palidez revesavam-lhe no rosto aflito. Dor e vergonha, amor e arrependimento, esperança e desespero, eram por ventura as variadas sensações que lhe ocorreram, atropelando-se para lhe fazerem mais difícil a consciência da sua situação. A infeliz não podia combinar as palavras esperançosas do cônego com o repelão e olhar severo que acabava de sofrer.

—Venha comigo, menina...—disse D. Perpetua receando algum acidente dos que lhe davam depois do dia anterior.

—Eu não vou sem que minha mãe me fale.

—Deixe-a tornar a si; depois, ficará sozinha com ela.

Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernabé saiu da sala em que ficava a viscondessa, esperando a filha, deitada num canapé.

O cônego disse quase ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:

—Perante Deus é responsável pela vida de sua mãe. Ela não lho dirá; mas digo-lho eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um infame, matou sua mãe.

Assucena entrou na sala atordoada por estas palavras.

Bernabé Trigoso esfregava as mãos em ar de júbilo.

—Porque estás assim contente?—perguntou D. Perpetua, alegrando-se também de antecipação.

—Contentíssimo! Salvei-as ambas! Aqui a grande dificuldade era salvar a filha! Bendito seja Deus, que nunca me abandonou nestas dificuldades!

—Pois então? como é que salvaste a menina?

—Pus em luta dois sentimentos fortes. A mãe que morre por sua filha, e o amado que despreza a sua amante. Há de vencer o mais nobre, que é o primeiro, e tem em seu auxílio um coração ainda puro. Verás, Perpetua; A viscondessa não lhe fala em Luiz da Cunha. Este silêncio só de per si é uma pungente acusação à filha. A viscondessa dá indícios de uma morte próxima. Assucena começa desde já a sentir o remorso de a ter matado. A ânsia de salvá-la há de vencer a ânsia da saudade. Por fim é a mãe que triunfa, e não triunfaria se viesse lançar-lhe em rosto a desonra. É Deus que me manda. Creio que salvaria Assucena sem o conselho do médico. Escusávamos, talvez, uma mentira...

—É verdade, Bernabé!—atalhou pungida a senhora D. Perpetua.

—Mas, emfim, Deus sabe as intenções com que a gente mente para tornar menos hediondo o crime do seu semelhante... Não ouves soluçar na sala?

—Ouço... são ambas...

—Bem, bem!

—Escuta, Bernabé...

—Que ouves?

—Palavras... perdão... não me mates... amaldiçoada... É a mãe que fala...

—Bem, bem!

Pouco depois, abriu-se a porta da sala. Bernabé Trigoso, com sua irmã, entraram. Mãe e filha enxugavam as lágrimas. A viscondessa abraçou-se a D. Perpetua, pedindo-lhe que fosse mãe de sua filha, forçando-lhe a mão para aceitar uma bolsa. O cônego reparava na luta silenciosa em que sua irmã parecia aflita e envergonhada. Cheio de afabilidade, tomou da mão de Rosa Guilhermina a bolsa, dizendo:

—Muito obrigado a v. ex.ª

Depois, no patamar da escada entregou-lhe com dignidade a bolsa, solenizando o ato com estas palavras:

—Aceitei o dinheiro na presença de sua filha para que ela se persuada que é sua mãe que a sustenta, e não se considere em obrigação a estranhos. É a quarta vez, senhora viscondessa, que lhe digo que em minha casa há abundância, e independência, e honra. Espero da sua bondade que me não forçará à repetição, porque me desgosta. Outro assunto: que vaticina?

—Penso que minha filha se condoeu de mim, e esquecerá o infame... É preciso não a abandonar... Virei, todas as vezes que poder, observar o bom resultado das suas diligências, senhor cônego. Se lhe parecer que é útil afastá-la de Lisboa...

—Não convém... A cura há de operar-se aqui, se Deus me conceder vida, que será breve, porque a velhice e os padecimentos trazem sempre a gente em redor da sepultura...

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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