Universo da obra
Universo da obra
Raro será o peito de homem onde não bata apressado o coração, que deixa, na pátria, uma infância com recordações suaves, ou uma adolescência alternada por prazeres e amarguras.
Deve ser-lhe tristíssimo o último adeus dos olhos ao céu do seu berço! Bem digno de compaixão será aquele que lhe vira as costas, com as faces enxutas! Esse irá mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do delito! Esse amaldiçoou-se a si, primeiro que a pátria o amaldiçoasse; e, espedaçando os vínculos, que o ligavam aos deveres de homem, não sabe o que é família, não sabe o que é sociedade, sente, com tédio de si próprio, que não tem pátria nenhuma!
Tal era o filho de Ricarda.
Em quanto o marinheiro, com o barrete na mão, e os olhos turvos de lágrimas, dizia um mudo adeus às montanhas de Portugal, e orava, com a santa poesia da fé, a suplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir a tempestade, Luiz da Cunha observava com risonha curiosidade as várias fisionomias dos seus companheiros. De tantas nem uma só deparou sem sinais de mágoa. Parece que todos levavam da terra uma recordação saudosa! O próprio capitão, de braços cruzados, à popa da galera, absorvido nos longínquos cimos das montanhas cinzentas, não se diferençava, no ar melancólico, do tenro moço, arrancado pela ambição aos braços da mãe, que o deixou ir sem resistência, dando-se como certa a prosperidade em que tornaria a vê-lo.
Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ansioso, era uma senhora vestida em rigoroso luto, com véu preto descido, e com dois meninos, um de dois anos, outro de peito ainda, sentados no colo de uma preta, criada sua.
—Aquela dama chora por ela e por mim!—disse, com zombeteiro sorriso, Luiz da Cunha ao capitão.
—E o senhor não leva saudades de ninguém?
—Não, senhor. Não levo, nem deixo. Não tenho pátria, nem família. Não sei se fora dos lagos da Allemanha também há ondinas. Se neste mar me namorasse de uma, casava com ela, e viveríamos na mesma concha.
—Bem se vê que não deixa em Portugal ninguém que lhe seja caro. A quatro milhas da pátria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de tão boa vontade!
—Pois alguma vez havia de encontrar o ímpio contra a religião do amor pátrio. Não sei o que é isso, e dou-me os parabéns de o não saber. Aquela mulher por que chora? são saudades?
—Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.
—É o único lugar seguro onde podia deixá-lo. Se for ciumosa, pode ir e tornar, na certeza de que o não surpreenderá numa infidelidade...
—Não zombe de coisas tão sérias, senhor Cunha. Cá no mar respeita-se a religião...
—E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libações de canada!... Vejo que é um bom católico, senhor capitão!
—E o senhor não é católico?
—Eu não sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que vê. Tanto sou em terra como no mar. Não me canso a pensar em coisas superiores ao meu bom-senso, e vivo à discrição da fatalidade como este navio à mercê das ondas... Então aquela senhora viúva é brasileira?
—Sim, senhor. Enviuvou há dois meses, e vai ao Brazil tomar conta da administração da sua casa. É uma rica fazendeira de café e cana.
—Não leva com ela algum parente?
—Não, senhor. Leva duas criadas, e aqueles dois meninos. Coitada! como não irá aquele coração! Não há ainda oito meses que ela aqui passou tão contente com o marido, que era doudo por ela! Mal diriam eles! A vida é um engano! Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para amparar dois dias de vida, dá-me vontade de viver em descanso com meus filhos, comendo um bocado de pão estreme, e ensinando-os a desprezarem a enganadora ambição de riquezas, que por fim... ali tem o exemplo!... Quanto daria aquela senhora por ter seu marido vivo! Dava de boamente os trezentos contos que tem...
—Trezentos contos! parece-me muito conto!
—Admira-se? pois tomara eu o que ela tem daí para cima...
As reflexões melancólicas do capitão, acerca da rapidez da vida, não impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria filosófica, os trezentos contos, foi um valente encontrão à sua insensibilidade. Se naquele momento fosse possível abrir-lhe o crânio, e analisar-lhe o cérebro, ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes daquela maquina! O capitão, sem o pensar, jogara um ariete à alma petrificada do passageiro, e abrira larga brecha por onde iam sair planos de infame cálculo.
A viúva retirara, quase nos braços das criadas, à sala de ré. Luiz da Cunha desceu também, dominado por um pensamento que não suportava delongas. Tão radiosa lhe fulgira a esperança de angariar uma fortuna colossal, e tão suscetível de realizar-se lhe parecera um casamento com a fazendeira de café, que, desde esse momento, o experimentado aventureiro julgou-se protegido pelo diabo coxo de Le-Sage, e prometeu não perder ocasião de captar a benevolência da viúva.
Como ela tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos indiferentes as incessantes lágrimas, Luiz meditou de vagar o seu plano, estudando o papel adaptado ao caráter da viúva, e afivelando-se uma mascara, visto que todas se ajustavam à perversa flexibilidade da sua fisionomia moral.
Convindo na conveniência de representar mui seriamente, arrependeu-se das imprudentes facecias com que respondera às graves perguntas do capitão. Entendeu, porém, que a maneira de desvanecer o prejudicial conceito, que merecera ao marítimo, era explicar a sua sarcástica jovialidade como um pretexto para iludir-se de um profundo dissabor, uma dessas pungentes ironias com que o desgraçado imagina vingar-se do verdugo destino, que o persegue.
Entrou em cena, e desempenhou magistralmente. O capitão, sincero e rústico, mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se topam nas tempestades da vida, condoeu-se da patética narração inventada pelo passageiro, aludindo à perda de um coração, que lhe fora caro, à ingratidão de uma aleivosa mulher, que injuriara com a perfídia a sua generosa alma. Por causa dela—dizia o cômico—abandonava o caro berço natal, o céu dos seus amores de moço, cheio de ilusões, mortas, calcadas, perdidas para sempre! E tão grande fora essa dor, tal desespero envolvera de negro a sua alma—prosseguia ele, enrugando a fronte, e correndo por ela a mão com a mais velhaca naturalidade—que protestara afrontar com o escárnio todos os sentimentos nobres, pois que os seus também o tinham sido por uma traiçoeira mulher, coligada com miseráveis inimigos.
E, dito isto, no mais rigoroso ademã do palco, retirou-se, deixando o capitão contristado, e condoído da sorte do pobre moço, que tão cedo perdera o gosto da vida.
Os passageiros da galera Boa-Sorte, informados pelo capitão, olhavam para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O silêncio fúnebre de tal homem, sombrio sempre, movera o natural interesse dos sinceros companheiros, e não passara desapercebido a D. Marianna, suposto que as suas penas fossem de sobra, para se dar cuidado com as estranhas.
Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que dera. O que não parece nada, era já muito para ele. Esse interesse, essa espécie de curiosa compaixão, o atencioso silêncio com que duas palavras suas eram escutadas, eram, com efeito, aquisições, que lhe valiam, na opinião daquele público, uma consideração, que ninguém contrariava.
Havia um só motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos lábios de Luiz: era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dois anos, que, atraída pelos agrados do passageiro, lhe dava a preferencia nos carinhos. A mãe lisongeava-se deste acolhimento, e chorava, porque mais vivas a assaltavam as recordações de seu marido, ao qual tão caros eram os afagos do menino.
Luiz, amestrado pelo contínuo estudo, não tratava de mitigar com o bálsamo banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viúva. Pelo contrário: dizia-lhe que chorasse, se perdera um ente querido, um extremoso marido, metade da sua alma, o melhor da sua existência, um homem digno dela. Como consolação, apenas lhe dizia que o encarasse a ele, e veria ali enxutos os olhos, que derramaram lágrimas de sangue, e por fim mirraram-se, como o coração exangue, árido e ressequido, debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ela não era impossível a ventura, porque, cedo ou tarde, encontraria em um segundo marido o reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque há anjos privilegiados que o Altíssimo não abandona, mesmo quando os deixa sozinhos na terra, onde encontrarão um amparo, que lhes adoce as saudades de um outro partido, sob a lousa da sepultura.
Este estilo de cabeça não era mesquinho em figuras. Os períodos eram artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os ombros de uma estátua. Os discursos, sempre decorados da véspera, não tinham falha que os fizesse tinir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e até nos improvisos, havia uma razão de ordem conexa, um rigor lógico de honradez, um espantoso triunfo da corrupção eloquente sobre o gaguejar da ingenuidade sempre boçal e descosida nos seus discursos.
Luiz da Cunha não se escondia para estes ligeiros diálogos com Marianna. Em ocasião de almoço ou jantar, e não sempre, é que ele se interessava na conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viúva, sempre inconsolável.
O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o não levavam de manhã ao beliche do seu amigo. Marianna agradecia ao carinhoso sofredor de seu filho tantos favores, e ficava contente se Luiz lhe dizia que era devedor àquele menino dos raros momentos de prazer, que Deus ainda lhe concedia por intermédio de um inocente.
Vejam que estudo!
E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham transigido um pouco com a natureza, que parece não ter sido feita para os sofrimentos duradouros, e desmente sempre os propósitos de um luto perpétuo, variando as sensações com magica destreza.
Menos lagrimosa, ou mais resignada, que é o que sempre se diz, a viúva não fugia da mesa, apenas terminava a refeição. Demorava-se na palestra, silenciosa sim como Luiz, mas respondia com um aceno afirmativo às atenções, que os brasileiros de torna-viagem lhe davam, nas suas conversas dissaboridas. Luiz fazia-se estranho a elas, fingindo-se abstrato em cismadoras tristezas de que o compadecido capitão, ou D. Marianna o acordavam com esta ou outra semelhante pergunta:
—Que tem, senhor Luiz da Cunha? Em que pensa!
—No nada, minha senhora.
—Sempre assim! Quando virá um dia de o vermos alegre?
—O dia final.
—Que ideia tão triste! Então não espera, com vinte e oito anos, tão novo, encontrar nesta vida a felicidade?
—Não, minha senhora.
—Não pode ela aparecer-lhe como um acaso?
—A morte.... e essa é certíssima.... espero-a com a segurança de quem a vê continuamente diante dos olhos.
—Não fale na morte.... Eu tenho esperanças de o ver feliz.... Há de encontrar no Brazil uma menina, muito linda e inocente, que lhe encha o coração de um novo amor...
—Não tenho espaço para ele. Onde está o demônio não pode entrar um anjo.
—Mas Deus pode mais que Satanás—replicou Marianna.
—Isso é verdade!—confirmaram três brasileiros.
—Pois Deus realize a sua generosa vontade, minha senhora.
Luiz da Cunha, com esta resposta, lançou a sonda ao coração da viúva. O que ela lá encontrou, não o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de ressentimento, isso foi um fato, que não escapava à fina observação de Luiz da Cunha, nem à do leitor ou leitora, que são pessoas das muito raras, que eu conheço, com vista dupla para ler um coração na ruga repentina da testa, ou no ligeiro morder do lábio.
Seria indiscreta a versão feita por Luiz do repentino baixar de olhos da viúva? Não era, não. O desejo que ela afetava de o ver feliz pelo encontro de uma linda e inocente menina, não era realmente o seu desejo, se a menina linda e inocente não era ela.
Como essa pobre mulher, durante um mês de viagem, chorou todas as lágrimas, que tinha perpetuado à memória de seu marido, isso explica-se pela inatividade das glândulas lacrimais, quando a ação vital se concentra no coração. A sua desesperada angústia, nos primeiros meses de viúva, não podia durar muito. Dor, que se expande em soluços, que rejeita consolações impotentes, e não espera nada dos recursos ordinários, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a dor de uma viúva de vinte e cinco anos está, mais que nenhuma outra, sujeita àquele aforismo, que não li em Hippocrates, mas nem por isso devem deixar de o aceitar como regra de fisiologia experimental.
E, depois, quando o aforismo não frisasse com o fato, dou-vos uma razão mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as teorias incertas acerca do coração.
Fora necessário que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ela se não deixasse ilaquear na rede habilmente lançada à sua fraqueza. O aspeto grave, austero, e melancólico do cavalheiro, que não faltava à menor cortesia de uma refinada polidez; a veneração com que todos os companheiros de viagem respeitavam a sua tristeza sombria; a bondade que o seu sorriso respirava quando Antoninho, fugindo do colo da mãe, voava com um beijo aos braços dele; a sensatez das suas reflexões a respeito do justo pranto da viúva, que perdeu um bom marido, tão raro entre os pervertidos filhos do século; os seus momentâneos êxtase, quando a palavra amor lhe roçava fugitivamente os lábios; e, finalmente, a certeza, dada pelo capitão, do ilustre nascimento de Luiz, visto que na sua carteira levava uma ordem de seis contos de reis, que lhe fora entregue por um padre, espécie de mordomo ou coisa que o valha do misterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e outras muitas que nem a própria viúva saberia explicá-las, davam a Luiz da Cunha um ar de grandeza, de distinção, de simpatia, que, em poucos dias, causara em Marianna vergonha da sua própria fraqueza, e até pesar de ter encontrado tal homem.
De mais a mais, os olhos de Luiz, tão expressivos e ardentes nas suas queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos dela, em que a curiosidade não era menos significativa que a ternura. E porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao coração da mulher quando esta curiosa pergunta a incomoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo de entender esses olhos equívocos, essa modéstia encantadora. Se eles se esquivam em confessar-se, ou se a palavra tímida os não denuncia, o que era desejo, na mulher já ferida, torna-se em ânsia de resolver o problema. Chega a assustar-se dessa aparente submissão, dessa mudez desamorável. Quem sabe se aquele olhar, fugindo aos olhos dela, quer dizer que o coração foge também? E então entra na empresa o mais forte inimigo da mulher: o amor-próprio, esse conselheiro íntimo, que a salva raras vezes da queda, e, demônio de soberba, impele-a quase sempre à perdição, vendando-lhe os olhos do juízo, e dando-lhe aos do amor a vista dupla, o ver penetrante, que, em linguagem do tempo, se chama a razão livre, a santificação do instinto. Era o amor-próprio o que fizera na face de Marianna um sinal de ressentimento. Ainda que Luiz da Cunha representasse o papel de atraiçoado amante, extenuado para novas paixões, a viúva, como todas as mulheres nas circunstâncias dela, formosa e rica, tivera uma vez e outra a vangloriosa ideia de ressuscitar aquele homem, que se julgava morto. Que nos perdoem as feiticeiras florinhas com que o Senhor matizou as agruras da existência; mas uma fragilidade muito sensível, e que muitas vezes as prejudica na sua isenção, é o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos desenfreada, ou insuflar uma existência nova no homem, que adquiriu nota de cansado. Arriscada empresa todos os dias cometida com mau sucesso! A inexorável serpente do éden está sempre assobiando aos ouvidos da eterna Eva. A vaidade, criação contemporânea da primeira mulher, continua a oferecer-lhe em taça de ouro o sumo do pomo, doce na superfície, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus pés o conquistador soberbo, para que a fascinação do seu engodo seja inveja às que não puderam tanto, é sempre vítima, se o homem, que facilmente se dá aos ferros, não tem ainda passado a linha da vida, além da qual está o completo cansaço do corpo e da alma, tristes sócios de um tardio desengano. A que intenta restaurar no coração do homem as potencias, atrofiadas pela perfídia, não sabe que será ela a oferenda expiatória do crime de outra mulher; não sabe que o traído recupera as forças, convertendo-as em vingança, porque tudo que nessa alma existia nobre e santo, bem pode ser que não sobrevivesse à morte de um primeiro amor galardoado com o desprezo.
Leitora, não se enfade v. ex.ª com o longo período que vem de ler, se é que o leu. Não seja ingrata à lhaneza com que se lhe mostra o homem tal qual é, e com que se trazem do insondável da sua alma à luz da analise coisas que v. ex.ª não vê em si, e muito raras vezes descobre nele.
Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma outra Marianna em face de um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia resistir aos primeiros assaltos do amor, Vitória que alcançou a hábil hipocrisia, adestrada em doze anos de infâmias. Não quero, porém, com isto dizer que D. Marianna sucumbisse, como imbecil, ao prestígio do excêntrico companheiro de viagem.
O que ela tinha de pior era não ser imbecil. Foi coisa que seu defunto marido não apoiava a tendência dela para o maravilhoso. A índole, acalorada pelos romances, seu passatempo querido, manifestara-se de um modo assustador para um marido, não convencido da sua superioridade a todos os outros homens, perante sua mulher. O falecido fazendeiro de café era um homem excelente; mas, a respeito de inteligência, não falemos nisso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de Marianna, que sinceramente o presava, desde que ele entrara como feitor em casa de seu pai. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta anos arrebatado por uma febre tifoide, era nosso patrício, nascera nos Arcos de Val-de-Vez, daí saíra aos doze anos, e aí voltara rico para morrer nos braços de seus parentes, que tirou da miséria. Tantas virtudes, mantidas pelo trabalho, são sobeja honra à memória do marido de D. Marianna. Não precisamos, mentindo, encarecer-lha com dotes que ele não tinha, e, por isso mesmo, não aprovava em sua mulher.
Mostrara-lhe, talvez, uma intuição clara que as tendencias romanescas de sua mulher a precipitariam. Viu bem.
Não sei se Marianna tinha sonhado o tipo de Luiz da Cunha, como se diz em verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que é alguma coisa pior. Os traços do astucioso caráter moral não discordavam do físico. Para a sua fisionomia triste e simpática arranjara-se Luiz da Cunha uma alma tão ao natural, que deixara a perder de vista as imperfeições da natureza. A arte, em quanto a mim, pode mais que a sua rival.
Sem arte não encaminhava Luiz da Cunha as coisas a ponto de Marianna ir sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as estrelas do céu, entre as quais dizia o impostor que procurava a fada do seu destino.
—Se a vir—dizia Marianna—peça-lhe que lhe diga o meu.
—O seu destino posso eu dizer-lho, senhora D. Marianna.
—Qual?... diga, diga.
—Há de ser venturosa, venturosa sempre.
—E sou eu venturosa? Sozinha no mundo...
—Quem tem o coração povoado de anjos nunca está sozinha... Qual será o homem que a não adore? Pode v. ex.ª rejeitar o culto, pode julgar-se só em quanto não encontrar uma alma afinada pela sua; mas, em quanto se é adorada, não se pode julgar sozinha...
—E que valho eu para ser adorada?
—Vale as mais santas esperanças de um homem com o coração viçoso, ainda rico de todas as ilusões, puro ainda de toda a mancha; vale um preço inestimável; vale uma existência. Tivesse eu esse coração, com esperanças, com vigor, com pureza.... não me tivessem vazado nele torrentes de fel que mo queimam...
—Sem esperança?
—Nenhuma esperança... tenho-lho dito como uma confidência que se faz a uma irmã...
—E eu não posso crê-lo... Deus não quer que a sua vida acabe tão cedo... Há de haver alguém, que lhe faça esquecer essa mulher, indigna de si...
—Onde encontrarei eu outra?
—Onde a encontrará? Talvez no Rio de Janeiro, onde há tantas... e tão sedutoras...
—Oh! que santa profecia é essa!... V. ex.ª não me conhece... não se conhece...
—Não me conheço!... Que quer dizer?
—Nada, minha senhora.
—Diga... não me deixe dar uma má significação às suas palavras.
—Pois sim, digo; mas que a não vá eu ferir... promete perdoar-me?
—Pois que me dirá que eu não deva perdoar-lhe?!
—Não se conhece; porque, se alguma mulher podia dar-me a mão, afastando de sobre mim a pedra sepulcral... Já me compreendeu...
Marianna baixara os olhos, e estremecera. Subira-lhe às faces o calor do coração. Sentira em si uma confusão de ideias, uma embriaguez de felicidade e receio, uma tal perturbação que, naquele momento, quisera antes não estar ali, suposto que em parte alguma pudesse estar melhor.
Luiz da Cunha, encostando a face à mão direita, pusera a mão de modo que os olhos retorcidos não perdessem um movimento de Marianna.—É o que eu tinha previsto—disse ele a si próprio, sorrindo mentalmente. Passados alguns segundos dramaticamente taciturnos, Luiz, como de um rapto, saiu do seu êxtase, e perguntou com a mais artística comoção:
—Ofendi-a? Lembre-se que prometeu perdoar-me.
—Perdoo-lhe todo o mal que me faz...
—Vê como sou infeliz?
—Infeliz!... qual de nós é mais?
—Tão infeliz que faço mal a quem eu quisera dar todas as felicidades da terra, se tivesse a omnipotência de um Deus.
—O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quisesse, em ventura de ambos...
—Poderia!... eu bem sei que podia... Sr..ª D. Marianna... eu devera tê-la encontrado no princípio da minha juventude.... Eramos hoje tudo que o desejo pode imaginar de mais feliz, de mais invejável... Segue-se que é mentira aproximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem... Quando se encontram, já a desgraça os traz desfigurados; veem-se, e não se conhecem; falam-se, e não se compreendem; abraçam-se, e sentem-se frios como a pedra de um túmulo, como dois cadáveres, que se levantam, a par, da mesma campa...
—E é o que nós somos um para o outro? Julga-me tão mal, senhor Luiz da Cunha!
O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, dá quatro passeios no tombadilho, afastando os cabelos da testa, e para defronte da viúva, com atitude o mais ridiculamente sinistra que pode imaginar-se.
—Senhora D. Marianna!
Ela fixou-o, erguendo-se também assustada.
—Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me? É o instrumento sobrenatural do meu anjo de redenção? Responda...
—Que posso eu responder-lhe?
—Obedeça ao seu coração... Este momento pode marcar uma nova época na minha vida...
—Senhor Luiz da Cunha...
—Responda, Marianna... não receie ferir-me com uma palavra negativa... Eu preciso mesmo do último desengano...
—Que hei de eu dizer-lhe... sem que me tenha dito...
—Que a amo?... Não o adivinhou ainda, Marianna?!
A viúva encostou-se à amurada do navio, e pousou a barba na palma da mão direita, cujo braço tremia em perceptível convulsão. Um raio da lua refletiu-se nas lágrimas dela. Luiz da Cunha teve um desses raros momentos de compaixão, que costumam assaltar o infame: devera então maravilhar-se do magico prestígio da impudência.
O capitão subia ao convés, e olhou com indiferença para os dois passageiros, que não eram suspeitos a ninguém. Marianna, dizendo-se influxada pelo ar da noite, desceu à câmara, pedindo a Luiz da Cunha que se recolhesse também. Era do plano astucioso obedecer.
Desde o dia imediato, repararam alguns passageiros na frequente conversação da viúva com o homem misterioso. O capitão, prevenido por eles, reparara também que os passeios na tolda eram certos todas as noites. O que eles todos notavam era uma sensível diferença nos estranhos costumes do companheiro. Já não era preciso instar com ele para assistir ao almoço. Acontecia muitas vezes encontrarem-no já com Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima quando entrava alguém. Viam-nos, depois de almoço, ao pé da agulha, fugindo da ré onde se agrupavam os passageiros. Para admirarem o fenômeno magnético do ímã com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se que havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto chorara, e tão depressa esquecera o marido. Mas não passava disto a murmuração.
Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por ela a seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado para sua casa, e aceitou com arteira dificuldade, que as instâncias convencionadas de Marianna venceram.
O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada num envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro desse envolucro, junta à ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha. Abriu-a, e leu:
Luiz da Cunha foi remido da ignomínia, do degredo, da fome, e da morte por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre, sirva-lhe ao menos de vergonha perante a sua consciência.
A perplexidade do prometido esposo de Marianna durou poucos segundos. Daquela alma já não era possível arrancar vergonha nem remorso. O padre Madureira enganara-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu que o segredo voava nas cinzas dela. Estabeleceu tranquilas conjeturas acerca da riqueza de Assucena: donde lhe viriam perto de quarenta mil cruzados?
Ocorreram-lhe hipóteses, quase todas ignóbeis, e sórdidas. E, como nenhuma era mais provável que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia, embolsá-la desse empréstimo.
Hospedado em casa de um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que inativa, era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas salas da boa roda, porque D. Marianna as não frequentava, como viúva. Visitava-a todos os dias em família. Escrevia-lhe todas as manhãs, e recebia de tarde o menino, que era o pretexto para a entrega das cartas.
Viúva de onze meses, D. Marianna, administradora da sua casa comercial, declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o luto, casava com Luiz da Cunha. Não se opuseram estorvos, que seriam inúteis. O noivo era bem-quisto: informações de Portugal era tarde para havê-las: o astuto soubera dirigir o plano de modo que se não pedissem a tempo.
Casaram.
No dia imediato espalhara-se no Rio que D. Marianna casara com um infame aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não cabiam.
Esta terrível nova fora levada pelo capitão da galera, que se informara em Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro dia de viagem, ou nos outros.
Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna era verem desmentida a calúnia, ou confirmado o boato pelo procedimento do marido.
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