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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 10 · A Neta do Arcediago

Como os anjos se vingam

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Um ano correra também para Luiz da Cunha. As duas existências, comparadas entre si, afiguram-se-nos o mito de duas almas: uma tirando para Deus um voo; a outra afundando precipitadamente na região das trevas, na infinita desesperação.

O rival do oficial maior de secretaria estabeleceu a sua residência em casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ela o tratara na convalescença dos ferimentos, obrigara-o a sentimentos de gratidão, e a tais protestos de retribuir-lha em prêmios de inestimável preço, que Liberata, tão incapaz de avaliá-los como quem lhos prometia, ria com cínica desenvoltura da sua reabilitação, projetada por Luiz da Cunha.

O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias, entrara na região filosófica dos deveres sociais, e confeccionara certas máximas de alta importância para a sua futura felicidade.

A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito. Primeira máxima.

O escândalo, quanto mais estrondoso, mais grato àquele que o dá, porque assim insulta uma hipocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basílio douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda máxima.

Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião pública, quando é feliz na sua particularíssima, e única respeitável. Terceira.

A felicidade está em nós, não se reflete dos juízos estranhos. Quarta, muito parecida com outra da sã filosofia. Os extremos tocam-se.

A mulher mais digna de nós é aquela que melhor serve as nossas propensões, quer viva na cripta subterrânea das vestais, quer se ostente de seios nus no estrado do alcouce. Quinta.

O homem que pede à opinião pública consentimento para amar uma, ou a outra, é um tolo. Sexta.

Et cetra.

E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era esta a mulher, que mais servia as suas propensões, e mais crédito adquirira sobre o seu reconhecimento.

Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se alia ao nojo, ofereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vê-la saltar-lhe ao pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta a gargalhada mais estridorosa, mais cômica, e mais fulminante! Liberata também tinha as suas máximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas entre as do seu amante não se encontravam algumas, que eram a base fundamental de todas as outras no catecismo dela. Eram estas:

Toda a filosofia sem dinheiro é uma tolice.

Não há nada que se pareça tanto com o mendigo como o filosofo pobre.

Bolsa vazia, inteligência manca.

Sem dinheiro não se afrontam os desprezos da sociedade.

Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te despreza, mas dá-te com o tira-pé.

Mulher, caída em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.

A desonra, que se estorce numa esteira, é que nunca se reabilita.

Reabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.

Estes provérbios explicam a gargalhada de Liberata à muito séria proposta de Luiz da Cunha.

—Estás doudo!—acrescentou ela, batendo as palmas—Tragam-me uma camisa de força para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar comigo!... Tu falas sério?!

—Falo sério... falo-te com o coração.

—Pobre coração! Pois ainda tens disso? Não nos fica bem fazermos de crianças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...—dizia ela, anediando-lhe as guias do bigode—Que será feito dessa ilustre menina?

—Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas diz-me cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!

—É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda asneira. Se casássemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria, pouco mais ou menos, o que era há dois meses. Eu teria um amante rico para sustentar o meu marido pobre.

—Mas hoje não acontece assim.

—Se não acontece hoje, acontecerá amanhã. Desde que o conselheiro foi despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A sege e os cavalos estão à espera de comprador; os brilhantes irão depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessário adquirir outros. Ora agora, imagina tu que és meu marido, e vê lá se te convém ficar atrás da porta, muito caladinho, para não assustar o amante.

—Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te sacrificarias ao amor e à posse de um só homem.

—Criancice! A primeira vítima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os credores. Pois tu pensas que eu valho alguma coisa se despir este vestido de sedã, com rendas de Escócia, e vestir um vestidinho de chita de uma costureira?! Parece que não tens gastado cinquenta mil cruzados a teu pai! Não te lembras que, há dois anos, me deste um luxo extravagante para me fantasiares, como tu dizias, uma dessas romanas que pareciam caídas do céu numa nuvem de perfumes?! E agora estavas resolvido a pôr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balcão!

—É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indenizar-te.

—Não me deves nada: estás recebendo o juro de uma dívida. Sem ti, meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em espetáculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escândalo faz perder. O americano apaixonou-se por mim no teatro, vendo-me contigo. O capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de muitos; mas, em quanto poder sustentar fidelidade, sou tua cativa. Quando não poder, digo-te adeus por algum tempo.

—E despedes-me?

—Que remédio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se não oferece uma conveniência, que valha a pena da nossa separação por algumas horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres aproveitadas...

Eis aqui a posição social de Luiz da Cunha, dois meses depois que fora ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indenizava-a com uma permanente convivência, e, muito instado, ao anoitecer, dava sozinho um curto passeio.

Este viver monótono, e impersistente para a sua inconstância natural, fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se afligiu, porque também ela se sentia marasmada numa continuada repetição das mesmas sensações, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habituara-se a julgar comum de dois os cabedais de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de fora, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levara, não lhe dava canseira a restituição dos fundos.

Luiz da Cunha jogava num terceiro andar na rua do Ouro, onde se congregavam em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bacharéis vadios, poucos literatos, e bastantes empregados públicos. Sempre infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colérico da perda, e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, nessas ocasiões, que foram muitas, sentia assaltos da consciência, discutia com eles, e ficava sempre vencido, reputando-se infame. As máximas, que forjara na cama, durante o período da cura, não lhe serviam auxílio nenhum nesses combates com o senso íntimo. A devassa filosofia não lhe desviara, com lúbricos esgares, os olhos despertos da alma do ponto negro, que a consciência lhe mostrava, lá em baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito meses de hospedagem, Luiz da Cunha teve com Liberata esta importante prática:

—Meu caro Luiz, chegou a ocasião de darmos um saudoso abraço por algum tempo. Há oito meses que temos gasto como se tivéssemos descoberto a pedra filosofal. Feitos os meus cálculos, não podemos assim viver mais quatro meses, sem que eu venda a cama. Cavalos e sege já lá vão; as minhas pulseiras, e o meu colar estão empenhados. Tu tens jogado mais de um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. Já te disse que não simpatizo nada com a honrada miséria, e a miséria a que nos vamos reduzindo é daquelas que tem o inferno da desesperação, embora digam as novelas que uma tranquilidade de consciência, mantida pelo trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu deixo essa ventura à mulher do meu sapateiro; e penso que tu também...

—Isso quer dizer que...

—Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a frase: tens uma penetrante inteligência. Não achas que tenho razão?

—Tens...

—Agora o que deves fazer é as pazes com teu pai, e vê se ele te faz seu herdeiro, ou se o visconde dá à enteada um bom dote. Logo que eu tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto é que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

—Vejo que és sempre a mesma mulher!

—Não te compreendo bem.

—És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

—Justamente a mesma.

—Uma certa Liberata, que apareceu no teatro com um novo amante, na mesma noite do dia em que a deixei.

—Tal e qual.

—A mesma dissoluta.

—Essa censura é mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma garantia para a tua subsistência?

—Não quero nada.

—Pois então, vai, que vais pago, e bem pago dos excessos com que me compraste. As nossas contas estão saldadas.

—Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.

—Fora com a hipocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada; quem perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me queria indenizar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu não fosse dissoluta, o que seria de ti?

—És muito infame lançando-me em rosto tais favores...

—Tu não coras, meu bom amiguinho. A diferença entre nós é toda a meu favor, e, se não há outra, a única, que conheço, está entre o vestido e as calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro há oito meses. Desejei uma ocasião de mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em quanto pude. Tu, nem agora, sabes dizer-me do fundo da escada: «obrigado, rapariga!»

—Hei de embolsar-te das tuas despesas...

—Como quiseres.

—Hei de atirar-te à cara com essas migalhas.

—De certo ma quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim, vê se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica, e de me prometer para a velhice a felicidade, que tu me destruíste...

A disputa acalorou-se, e a lealdade do taquígrafo não pode, sem desonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da Cunha saiu impelido por um forte empurrão, e levou com a porta na cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.

O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrara durante oito meses. Encontrou seu pai, passeando numa sala com dois criados de vigia. Estava completamente doudo: não conheceu o filho, suposto se deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprezo.

Os herdeiros presuntivos de João da Cunha, inimigos figadais do filho bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vínculo. Os bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo estava sujeito à restrita deliberação de uma tutela, que lhe concedera apenas o indispensável para manter uma vida inútil.

Luiz não podia contar com coisa nenhuma daquela casa, a não querer limitar-se aos restos da mesa do pai, e a uma cama, donde seria expulso, logo que o doudo morresse.

O anel de ferro, que o apertava, não tinha um elo mal soldado por onde ele se evadisse à desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um conselho; nem um indiferente que quisesse dar-lho. Procuravam-no os credores unicamente; e desses, alguns eram tão insofridos, que se retiravam apelidando-o ladrão, ou fugindo à boca de um bacamarte com que o devedor insolúvel os ameaçava.

Luiz da Cunha, em casa de seu pai, chegou ao extremo de não ter umas botas, e de pedi-las emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso, que o fazia correr sem destino.

Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. Nessas, a imagem de Assucena era uma brasa de fogo sobre a chaga. O algoz não podia comportar a reminiscência da vítima. Recordá-la não era compadecer-se. Era imputar-lhe a causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração absoluta de todas as suas esperanças.

Viveu assim dois meses.

João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da última congestão cerebral. Dizem que fora terrível a última hora lucida desse homem. O enigma dos dois cadáveres não lho perceberam os circunstantes. Ricarda todos suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadáver, que lhe pedia contas de sua mulher, ninguém conjeturou quem pudesse ser.

Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, sucessor no vínculo, mandou imediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pai, que foi de todos o menor abalo, que podia sofrer aquela alma entorpecida para todas as impressões. A consciência da desgraça vestira-lhe a sensibilidade nobre de uma crusta impenetrável. Ali não entrava nada naquele coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com desonra, por todos os meios infames, com tanto que pudesse tornar ao mundo e convertê-lo em fel, em escárnio, em vingança.

Mas esse dinheiro quem lho daria? Nem ao menos a quimera de uma esperança absurda o lisongeava!

Luiz da Cunha apresentou-se num quartel de cavalaria, disse que queria assentar praça. O comandante conhecia-o, e condoera-se da miséria com que se lhe apresentava um moço, que ele vira disputar em luxo e devassidão com os mais distintos da sua fileira.

Prometeu-lhe protecioná-lo, e elevou-o logo a cabo, com promessas de furriel, na primeira promoção.

Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou incivil, respondia com insultos à menor correção do preceptor. Um dia travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O mestre de esgrima foi ferido seriamente por traiçoeira cutilada, e Luiz da Cunha fugiu a cavalo, inutilizando assim a perseguição do momento.

Sem destino na fuga, achou-se em Vila Franca, a cinco léguas de Lisboa. Aí vendeu o cavalo a um estalajadeiro pela terça parte do valor. Seguiu, Tejo acima, até Santarém. Refez-se de alimento para seguir jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de preso, à qual tentou fazer uma resistência, que lhe custou algumas cronhadas de arma.

No dia seguinte à tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em conselho de guerra. Desta vez não o socorreram as solicitudes de Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicídio, e emprazava para ele o momento posterior à deliberação do conselho de guerra. Dizia-se que o mais encarniçado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar, que prometera uma comenda da Conceição ao auditor, se conseguisse que o conselho militar condenasse o réu a degredo perpétuo.

O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o essencial deste sucesso. Condoído dos revezes daquele infeliz, contou a Assucena, com sua permissão, os doze meses da vida de Luiz da Cunha, desde as punhaladas até à entrada na cadeia. Cedendo à sua boa alma, deixava transpirar a compaixão das palavras, e atribuía a expiação à serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais tarde o levariam à forca.

A compadecida censura do padre tinha um eco no coração de Assucena. Os infortúnios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, num momento de dolorosa exaltação, ela dissera que queria vingar-se, dez meses tinham decorrido depois, e antes desse momento estavam alguns meses de apaixonado delírio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel lhe fora. A religião, sucessora de todas as afeições de Assucena, operara em sua alma a maravilha do perdão para todas as injúrias, donde quer que elas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e não podendo explicá-la, atribuiu-a ao destino, interpretando assim do pior modo o livre arbítrio do homem remido pelos sacrifícios de Jesus, e salvo pelas suas obras meritórias de recompensa, ou condenado pelas infracções da lei divina. Esta anomalia intelectual é a enfermidade de muitas pessoas dedicadas, sem crítica, às coisas da fé, e descaídas, quando mais intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do fatalismo, do destino, do «estava escrito» de Mafoma, e do quó Deus impulerit de César.

Assucena viera a convencer-se do que tem de ser a respeito de Luiz da Cunha. Entendeu que uma vontade, superior à dele, o obrigava a ser mau para os outros, que serviam de instrumento providencial à sua desgraça. A Providência era assim insultada pela inocente menina, e não admira que ela incorresse na heresia, que passa em Roma com os foros de san doutrina.

Desta conjetura ao perdão era lógica a passagem.—Perdoar-lhe para amá-lo—dizia ela na sua consciência—isso nunca, em quanto a mão de Deus me não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina se aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu perdão, que tão recomendado me foi pelos dois anjos que falam do céu...

Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do cônego, e de sua irmã. Está nessa crença a explicação da fervente suplica que ela, em êxtase, fizera, depois que o padre Madureira narrara compungido as desventuras de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam; mas, de todo o meu coração, creio que sim. Não se explicam certos atos que divinizam a criatura, se a não considerarmos tocada de um magnetismo que mana de fonte sobrenatural. Não posso conceber o heroísmo do perdão de Assucena, sem concebê-la sujeita à vontade de um impulso divino, de um condão de predestinada, de uma qualquer força, que não seja esta, que imprime o movimento nas ações triviais de cada homem, incapaz de produzir o que outro homem não produz.

Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia; mas a coragem é o que espanta! Pede-lhe que socorra Luiz da Cunha, visto que não tem pai, nem amigos. Oferece-lhe, para que o preso seja solto, o dinheiro que quiser, com tanto que Luiz não saiba nem por sombras que é ela a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e padre Madureira, tocado pelo entusiasmo da caridade, não tem uma só palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promete esgotar todos os recursos, suposto se tema de não vencer os inimigos poderosos de Luiz.

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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