Universo da obra
Universo da obra
Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sozinha entre os renques de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e fechava com aparente distração um livro, e, se lia, poucas linhas a fatigavam.
Veste ainda de luto pelos seus benfeitores, há três anos mortos. Sobre o lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um colar de contas de azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de lavores de madrepérola. Este adorno está em harmonia com o livro em que lê, e profundamente medita: é o tesouro de Kempis, a Imitação de Christo.
Sentara-se, lendo mentalmente estas linhas:
«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a sociedade. O bom não depara aí senão incentivo para lágrimas. Ou pense em si ou nos outros, reconhece que sem amarguras ninguém vive aqui. E tanto mais angustiado se vê, mais dos outros se compadece. As compunções íntimas, e a nutrição das dores merecidas, são filhas dos nossos vícios e pecados; deslumbrado por eles, não temos vista para contemplar o céu. Se mais vezes pensares na morte, que na vida, fervorosa será a tua emenda. Se cismares nas penas do inferno e do purgatório, e do coração as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e não tremerás de susto.» Fechara o livro, erguera para o céu os olhos lacrimosos, e murmurara:
—E serei eu grande pecadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa santa lei? Terei deixado cair a minha cruz, seguindo-vos?
Parara uma carruagem.
—É minha mãe!—disse alvoroçada Assucena, saindo-lhe ao encontro.
Rosa Guilhermina vinha triste.
—Estranho hoje a sua fisionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum desgosto com o padrasto?
—Não, filha... Como estás?
—Bem vê que estou boa.
—Com lágrimas nos olhos...
—Foi de ler o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.
—Que fizeste ontem, filha?
—O que faço todos os dias. Assisti às três missas na capela; dei ao meio dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei um bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá à noite; rezei a coroa de Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha mãe, e o padre...
—Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções. Padre Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres compreender o incompreensível, e prejudicas o teu espírito... e a tua saúde.
—Não, mãe. Eu não acho nada incompreensível na religião de Jesus Christo. Leio muitos livros misticos, porque não tenho outro recreio, nem o quero; rezo muito, porque não devo ser ingrata aos benefícios que Deus me faz, e peço à sua divina vontade continue a fazer-mos. Com isto não sou pesada a ninguém...
—Mas tudo que é de mais...
—Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.
—Mas há coisas que denunciam fraqueza de razão.
—Em mim?
—Sim. Sei que vais de noite acompanhar o viatico aos enfermos.
—E será isso fraqueza de razão?
—É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e dois anos.
—Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...
—Mas... não fazes bem: pode-se servir a Deus com suavidade.
—Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.
—E que invenção é essa de trazer as contas por fora do lenço?
—Pensei que não importava trazê-las assim, ou de outro modo.
—De certo, não importa; mas poderá alguém chamar-te visioneira.
—Alguém! Eu não conheço ninguém. O padre Madureira não me diz nada; a mãe de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me envergonhavam com a sua zombaria... A mãe não acaba de crer que me não importa nada o mundo?
—Nem queres que te falem em coisas do mundo?
—Se me afligem, não... Queria dizer-me alguma coisa?... Vejo-a triste, e quer desabafar comigo... Diga o que tem...
—Uma aflição que tu não imaginas... e não devo dizer-ta...
—Se não deve dizer-ma, terrível coisa é! Então, não posso eu consolá-la...
—Se eu soubesse que te não afligias...
—Isso não prometo, mãe; mas, ainda que me aflija, quero sofrer consigo.
—E se for coisa que tenha mais relação contigo de que comigo?
—Se tiver remédio, remedeia-se com o auxílio de Deus; se não tiver, paciência. O Senhor há de dar-me forças e resignação... Mas que pode ser? Alguma calúnia?
—Ninguém ousa manchar a tua reputação, minha filha.
—A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me faz quando pronuncia essa palavra...
—Pois porque não hei de pronunciá-la?
—Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...
—Tens ânimo, filha?
—Jesus que me aterra!
—Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?
—Se o sei?... quem mo havia dizer!...
—Tu descoras, filha.
—Deus dá-me ânimo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria dizer?... Deixá-lo estar... Não tenho nada com ele... É feliz?...
—Muito infeliz... Vem pobre...
—Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?
—Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa coisas horríveis deste homem. Casou muito rico...
—Isso já eu sabia, que mo disse o padre Madureira.
—Mas abandonou a mulher...
—Coitadinha!...
—E morreu atormentada.
—Compadeceu-se dela o Altíssimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela alma, minha mãe.
Assucena ergueu as mãos, murmurando o padre-nosso. A viscondessa reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das suspeitas do padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum grande desmancho intelectual.
Assucena obedecia às mais extravagantes preocupações religiosas: abraçava todos os prejuízos populares: desautorizava a razão, calando-a com fanáticos receios. Dera-se na sociedade, como incentivo de risos, se fosse possível sustentar a veemência das suas crenças em público.
Depois da oração, Assucena pediu silêncio a sua mãe, que se retirou maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias de Luiz da Cunha não poderiam nada contra ela. E era essa a sua aflição.
Padre Madureira viera à hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma palavra do diálogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes rodeios, ia dar-lhe, dizia ele, uma espantosa novidade. Assucena atalhou, dizendo:
—Já sei. Não falemos em tal coisa.
—Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.
—Sei tudo. Vem desgraçado...
—E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.
—A mim?!... Santo Deus! Como sabe ele que eu...
—Perdão, senhora D. Assucena. Atenda-me. Eu tive uma imprudência; mas o meu fim era justo e nobre. Quis punir Luiz da Cunha para que a dor da culpa lhe despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que ele soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvara da ignomínia e do degredo, reabilitando-o para o futuro com os meios necessários para experimentar uma nova estrada.
—Deus lhe perdoe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu perdoo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lágrimas em desconto dos meus pecados.
—Luiz da Cunha—prosseguiu o padre—depois de mil revezes, aparece em Portugal, e encontra-se comigo, quando eu saía do coro. Pergunta-me se v. exc.ª ainda vive. Vacilo na resposta. Quero até fingir que não conheço tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que Assucena vive; mas não para o mundo. «Quero vê-la—exclama ele—quero pedir-lhe perdão!» É impossível—disse-lhe eu.
—Sim, sim, é impossível!...—atalhou Assucena sobresaltada.
—Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão, e exclama com desespero: «tenho fome! estou há três dias sem pão! dê-me uma esmola!»
—Oh meu Deus!—bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.
—Eram horríveis as visagens daquele infeliz!—continuou o padre.—Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Saí, deixando-o à mesa. Fui dar ordem numa hospedaria para que o sustentassem, e mandei-o para lá... Que é isto?—interrompeu-se impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braços—Minha filha...
Estava desmaiada.
Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos à quinta do Lumiar. Extremas economias permitiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma dos seus benfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com muito pouco.
Assucena não aceitara nunca uma mealha de casa de seu padrasto, remira-se com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os subterfúgios para melhorar-lhe as comodidades. Que poderia ela fazer em bem de Luiz da Cunha?
Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como beneficiado simples. Também não podia.
—Que faremos?—perguntou ela ao padre.
—Tenho pensado num meio; e não vejo outro.
—Qual? foi Deus que lho inspirou?
—Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o pagamento a prazos, hipotecando esta quinta. Com este dinheiro alcançarei um emprego para Luiz da Cunha, longe de Lisboa.
—Sim, sim, longe de Lisboa.
—Dir-lhe-ei que é o mais que posso fazer-lhe.
—Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...
—Farei a sua vontade. É conveniente que ele o ignore.
Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juízo ordinário do concelho de Ribeira de Pena, na Província de Traz-os-Montes.
João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente nunca subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos mil reis da neta do arcediago.
Na antevéspera da sua saída de Lisboa, Luiz da Cunha quis saber o que era feito de Liberata.
Ao escurecer, porque não saía de dia, foi à rua de S. Bento, e parou defronte da casa n.º 40. Viu as janelas ocupadas por um rancho de senhoras, e deduziu que Liberata já não morava ali.
Acendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por mera curiosidade perguntou quem morava defronte.
—É a família de um empregado.
—Aqui há três anos morava lá uma mulher...
—Era boa rolha! chamava-se Liberata.
—Justamente... Que é feito dessa mulher?
—Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui à minha porta deram umas facadas num tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe comia a ela a mesada que certo figurão lhe dava, a mulher meteu-se com um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a ter duas seges a bêbada![1] Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal jogador nunca mais aí veio. Esteve de cama onze meses, vendeu tudo quanto tinha, os trastes até fui eu que lhos penhorei por cento e cinquenta mil reis que me devia do grão para os cavalos, azeite, arroz, &c. &c. &c.
—E morreu?
—Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. Dali foi para o hospital acabar de se tratar, e não há muito que me disseram que a viram no Bairro Alto; mas mora à porta da rua, para não ter o trabalho de subir e descer as escadas. É no que veio parar a tal matrona das carruagens.
—Sabe em que sítio ela mora?
—Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a vira foi aquele barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em sabê-lo, isso é fácil,
—Faz-me muito favor.
O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Água da Flor.
Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das coisas humanas.
Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de chale vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em grande laço para as costas, saindo de uma taverna abraçada com um marujo.
Pela voz, de certo era ela, cantarolando um landum que outro marujo arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo filarmônico, fazendo um bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:
—Ponha-se à capa, quando não vai a pique, sû paralta!
Luiz da Cunha recuou.
—Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!—tornou o marujo, perfilando-se com o grupo.
E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Água da Flor.
Ela e os marujos sentaram-se na escaleira de uma porta.—Vieram depois outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando às costas dos marinheiros, que as indenizavam dos carinhos com amáveis pontapés.
O escrivão do juiz ordinário permaneceu encostado à esquina da rua da Rosa, até às dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se sozinha.
Luiz bateu à porta.
—Quem nos honra?—perguntou ela.
—Abre.
—Quem és?
—Abre sem receio.
—Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina de ontem, vai-te com o diabo.
—Abre, Liberata.
—Eu conheço esta voz...—murmurou ela.
Abrindo a porta, recuou, exclamando:
—És tu, Luiz?!
—Em que estado te encontro!
—Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me conhecestes, isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum sinal da mulher de há três anos?!
—Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara? parece que te queimaram com vitriolo?
—Estas nódoas vermelhas?
—Sim.
—Eu sei cá o que isto é? Está bom... não falemos em mais nada, senão meto uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me vem falar na minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem carruagens, nem formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu também estás acabado! Disseram-me que estavas rico, é verdade?
—Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.
—Não te faças pobre que eu não te peço nada.
—Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma dívida do pouco que posso, assim como a contraí do muito que podias. Depois de amanhã vou empregado para a província, queres vir comigo?
—Pois tu querias-me lá assim?
—Quero... serei o teu enfermeiro.
—Olha lá o que dizes!
—Não me desdigo.
—Eu tenho este vestido que vês.
—Comprar-te-ei o que for da primeira necessidade.
—Pois tu ainda gostas de mim neste infeliz estado em que me vês?!
—Gosto. Há uma única pessoa que se parece comigo neste momento pela desgraça. És tu. Quero viver contigo. Quero ver se a reabilitação é possível para ambos nós.
—Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha filosofia desapareceu. Eu não to dizia que sem dinheiro não há filosofia? Sabes tu que tudo isto me parece um sonho!... Há mais de um ano que me embriago todos os dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não esperava ver-te mais; mas vê tu o que é o presentimento... Ainda não há quatro horas que eu dizia:—«Que impressão faria eu neste estado a Luiz da Cunha!» O que são as coisas desta vida!... Até parece que recuperei o som da palavra, falando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem me dera ser bela para te agradar ainda! Diz-me cá: esta machina não terá concerto?
—Veremos.
—Eu era ainda bela se me tirassem da cara estas manchas vermelhas. Sinto ainda a robustez dos trinta anos; o que me falta é o fogo da alma... Vê se fazes de mim outra mulher, que eu prometo de fazer a tua felicidade... Não me vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara pela última vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do infame que me reduziu a este estado...
—Não chores, Liberata... Vamos ver o que é o futuro. Até amanhã.
—Pois deixas-me?! Vou contigo já.
—Não. Preciso iludir alguém.
Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho, e saiu.
Liberata não provou sono. As lágrimas incessantes eram-lhe de um sabor novo. Nunca ela fora tão infeliz como nessa noite. Havia no seu sofrimento alguma coisa que disputaria à alma do cínico um momento de compaixão. Naquela degradação não diremos que as lágrimas regeneram; mas por isso mesmo que são inúteis, como o orvalho sobre a flor arrancada e seca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos dela, mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é mostrada com escárnio!
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