Universo da obra
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E Luiz da Cunha?
Deixara Liberata na sua última paragem, e fora ao concelho de Ribeira de Pena exercer o seu ofício. Os lucros de dois anos de contrabando perdera-os na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a coragem animadora de Liberata; caiu num estupor moral, em que o pensamento do suicídio muitas vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal, sem poder entrar com ele no coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.
Os jornais gritaram contra o empregado público, de novo contrabandista. O ministro, que já não era o mesmo que o despachara, demitiu-o. Demitido, desencadearam-se contra ele as malevolências do concelho, onde nunca praticara erro de ofício, que não dirigia, nem extorsão, que não precisava. Retirou-se para o Porto, onde chegou na memorável noite da resistência à contrarrevolução de 9 de Outubro de 1846. Associou-se ao motim popular que prendera o duque da Terceira. Deu morras ao ministério reacionário, indicando-se vítima dos Cabraes.
Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre de um batalhão de artistas, alcançou o despacho de diretor de uma alfandega da raia, e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.
Quando os espanhóis interventores entraram em Valença, o tenente quartel mestre arrostou com impotente heroísmo o colosso. Meteu-se debaixo das balas, e as balas, cruzando-se-lhe em redor, respeitaram aquele homem, que parecia ter o selo invulnerável do primeiro assassino, a prerogativa de Caim.
Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de pequenos empréstimos que alguns amigos políticos lhe faziam, e de pequenas esmolas que algum membro da junta patrioticamente lhe dava. Assim viveu até 1850, na água furtada de uma estalagem da rua de S. Sebastião, donde foi expulso porque não pagava. Casualmente, deparou um seu conhecido camarada que servira a junta, como sargento de cavalaria. Convidado por ele, foi ser seu hóspede aí para os sítios do Marco de Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro amigo era um homem também misterioso. O ex-sargento de cavalaria, nos primeiros dias, teve a delicadeza de não catequizar o seu hóspede aos princípios da comunidade sem as teorias socialistas. Fartava-o regaladamente à sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha à sua disposição uma rica égua de raça para passeios, e ensinava-o a matar perdizes com finíssima pontaria.
Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado (era a graça do hospitaleiro), entusiasta pela glória, propôs uma ovação à memória de Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente recebida pela senhora Joaquina Vêsga, intima do proponente, e bem aceita ao hóspede enternecido.
—Meu caro Neves!—disse, depois, José do Taboado—acabemos com isto! Queres ser dos meus?
—Se quero ser dos teus?
—Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?
—Sei que és um excelente amigo...
—Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe de uma quadrilha de salteadores. Tira o chapéu na minha presença!
—Cá estou descoberto...—disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.
—Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina... À tua saúde, Neves! À saúde do meu chefe de estado maior! Aceitas?
—Aceito!
—Toca!—E deram-se as mãos com vertiginoso transporte.
—Serás rico em pouco tempo...—continuou o chefe—para que diabo queres tu as excelentes forças que tens? Como é que cumpres o protesto de vingança que fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a fazenda nacional?
—Tens razão......................
Dias depois os jornais do Porto pediam força para debelar uma poderosa quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro. Citaram a morte de uma senhora, rica proprietária do Douro; a de um padre muito rico das circunvizinhanças de Vila Real; e vários assaltos em forma a casas inutilmente defendidas. Um destacamento de infantaria dera caça aos salteadores, que resistiram com intrepidez admirável. Contava-se o heroísmo do chefe, que saltava valados com um ferido no arção da sela. O ferido era Luiz da Cunha.
Não obstante a escaramuça, a coorte estendia por longe o terror. Proprietários isolados refugiavam-se nas povoações, e as povoações velavam armadas com os olhos fixos nas fogueiras que os ladrões acendiam nas quebradas das serras. Ninguém, porém, ousava desalojá-los das suas tendas. As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e sobre-roldas velavam durante a noite, e Luiz da Cunha, abraçado à sua clavina de dois canos, dormia tranquilo com a face sobre os aparelhos da sua égua fiel.
José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro, muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma reputação honrada. O seu pensamento era passar à Africa em 1853, com o louvável intuito de comerciar em gêneros lícitos com a metrópole. José do Taboado prometera-lhe acompanhá-lo, e, para isso, liquidava os últimos saldos com alguns proprietários, incursos na condenação de Proudhon.
O filho de Ricarda tinha quarenta e um anos. Julgá-lo-iam de cinquenta; mas os cabelos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu fito era voltar a Lisboa, rico, alardeando a passada infâmia, com tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito público. Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ela lhe emprestara. Desejava levantar no cemitério público um faustuoso monumento a Liberata, como insulto às mulheres do «grande mundo.» Quatro anos de fortuna, e o seu sonho seria visto à luz da realidade! A sua fama teria alguma coisa de horrível heroísmo. O seu nome, partido o braço vingativo, seria levado aos vindouros como a tradição de um meteoro que abrira um rasto de fogo entre os homens.
José do Taboado, que não se alteava às concepções arrojadas do camarada, admirava-o como um grande homem, gostava de ouvi-lo, e dizia que a sua linguagem não parecia de um simples escrivão do juízo ordinário. Levava-o a casa de cavalheiros de nome, que hospedavam afavelmente o salteador (não importa explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do estilo puritano do suposto Neves, e mais ainda da vasta notícia que ele dava de países estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os vira.
Encontraram-se uma noite em casa de um fidalgo de Basto, onde concorreram outros, discutindo linhagens. Exceto os presentes, que eram todos representantes de ilustres governadores das possessões portuguesas, todos os outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de ciganos, afora os eivados de sangue judeu, que eram muitos.
Um dos detratores citou, como em distração, seu tio João da Cunha e Faro. Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do parentesco à conversação, dizendo que conhecera João da Cunha e Faro, em Lisboa, onde fora caixeiro em 1838. Perguntou se morrera.
—Morreu doudo—respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de Castro e Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e Faro &c. &c. &c.—Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.
—O bastardo?!—atalhou Luiz.
—Sim: o filho de uma mulata que ele roubou em Coimbra...
—Sabes se já morreu esse homem?—perguntou um senhor com quinze apelidos.
—Não sei; mas é de crer que sim. Ainda vos não contei a passagem dos ossos?
—Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romântica.
—Pois lá vai. Haverá sete anos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em casa de meu primo Ignácio da Cunha, que sucedeu no vínculo de meu tio João da Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias numa bonita casa de campo que meu primo tem em Benfica. Foram conosco o primo Álvaro de Castro, o primo conde de Santa Justa, o primo D. Pedro de Malafaia, o primo D. Antônio de Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c. &c. &c. Estávamos sentados debaixo de um caramanchão, e disse o primo João da Cunha, apontando para a álea das amoreiras: «Ali foi que morreu a amante de meu tio João.» Contou-nos que um velho criado, morto alguns meses antes, lhe contara tudo, e lhe dissera o sítio onde fora enterrado o marido e assassino dessa tal Ricarda, porque os criados deram cabo dele.
Quando ouvimos isto, tivemos, todos à uma, desejos de procurar os ossos do tal marido. No outro dia, viemos cavar no sítio, e com efeito demos com os ossos, e o primo D. Antônio de Alvim, mexendo na terra, encontrou um riquíssimo anel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos mais, e achamos a folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de Janeiro.» Não topamos mais nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves, é que o anel foi vendido por duzentas moedas, por sinal que o primo Ignácio da Cunha as perdeu todas contra um valete, em casa do primo D. José de Castro e Alvim.
—É uma interessante história!—disse Luiz da Cunha em abstrata meditação—E a tal brasileira onde foi enterrada?
—Na igreja, é o que disse o tal criado.
—E o filho dessa brasileira era o tal bastardo que matou o pai!
—Justamente.
—E não acha que o pai foi bem morto pelo filho?
—Homem! essa é de cabo de esquadra!
—Se o tio de v. exc.ª, o senhor João da Cunha, foi causa da morte da mulher desse homem, não era justo que o filho de tamanho crime fosse o verdugo do pai, a viva reminiscência desses dois cadáveres, o aguilhão constante de remorso que o enlouqueceu?
—O nosso amigo está muito razoável nos seus discursos... Essas doutrinas são de bons tempos...
—E o caso é que ele diz bem!—atalhou um fidalgo depondo as cartas do voltarete—o filho foi o instrumento com que a Providência castigou o pai.
—Então, nesse caso, muita gente pagou inocentemente—replicou o senhor Bernardo de Malafaia &c.—O tal bastardo foi o açoute da humanidade. Perdeu umas poucas de mulheres, matou outras, esteve preso nas Antilhas por pirata... fez o diabo.
—E, por fim, é natural que se suicidasse...—disse Luiz da Cunha.
—É o que ele devia ter feito há muito—concluiu o expositor da cena dos ossos.
O filho de Ricarda projetou ajuntar às suas futuras obras um monumento a sua mãe.
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