Universo da obra
Universo da obra
São 24 de Setembro de 1853.
É meia noite.
Assucena pergunta ao egresso inseparável:
—Que barulho é esse que fazem lá dentro?!
—Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de ladrões aparecera ao anoitecer na freguesia de S. Vicente, recearam que esta casa seja atacada, porque dizem lá por fora que vive aqui uma senhora muito rica.
—Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...
—Pois sim; mas os ladrões não se persuadem disso, e quem sabe se virão cá? Os caseiros, à cautela, chamaram gente, e tratam de se pôr em defesa no caso que eles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha medo.
—Mas de que serve matá-los?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho nada, e eles vão-se embora.
—As coisas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam na palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo que eles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão pregar a outra freguesia.
O ruido de passos e vozes aumentou na sala. O egresso chamou a criada para ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.
—Que temos, rapazes?—perguntou ele.
—Os homens aí estão.
—Quem os viu?
—Nós. Ouvimos estropear cavalos, e depois rugiu a ramada do portão, e vimos um homem, ou o diabo por ele, que saltava do muro para dentro. Depois buliram na tranca e abriu-se a porta.... Quer vê-los?... Olhe... senhor frei Antônio.... olhe aqui por entre estas faias.... Eles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu disser «fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os vir... Olha... quatro já eu lobrigo... Ali!... ali não se perde um quarto.... Deixa-os chegar mais.... É agora!... Fogo!
Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e à detonação sucedera uma infernal algazarra dos defensores.
—Leva arriba, rapazes!—gritava o regedor aos seus—Cerca, tem mão, por esse lado...
E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da capela dava àquela infernal orquestra de berros e tiros um tiple horroroso. Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: acometiam com denodo, um momento; mas a população que os cercava não cedia aos ímpetos da coorte, militarmente, organizada em batalha à voz do chefe.
A sineta chamava chusmas de povo que afluíam disparando as armas. A quadrilha conheceu o perigo, e retirou acelerada; mas nem todos retiraram: um tinha caído, e não se erguera mais. Em redor deste cadáver aglomerou-se a multidão. Aproximaram-lhe da cara um archote de palha, e viram-lhe uma fenda de bala sobre a orelha direita.
Não era menos infernal o alarido do triunfo! Pegaram no cadáver e levaram-no para debaixo das janelas, depositando-o sobre um banco de pedra. O egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...
—Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento de contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã, porque é necessário que o administrador o mande levantar...
Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como num tremor de catalepsia.
—Não tenha medo, minha senhora.
—Mataram alguém?
—Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.
—Rezemos por alma desse que morreu...
—Pois sim, rezemos—disse o egresso, ajoelhando ao pé dela.
—Poderá salvar-se?—disse ela, interrompendo a oração.
—Deus é pai de misericórdia.
—Quem sabe se ele roubava por ter fome?...Vá ver se ele não estará morto... poderemos ainda curá-lo.
—Aquele está bem morto, minha senhora.
—Então rezemos: Padre nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito aflita... Quero tomar ar... Ana... quero-me vestir... Traz-me o meu vestido de seda preta de manga curta; os meus canhões de veludo preto; o meu lenço de ramos amarelos; a minha saia de renda; o meu chale de casimira vermelho...
—Está com o acesso; não traga nada—murmurou o padre ao ouvido da criada.
—Não ouves, Ana? Então! Também tu me desobedeces! Ora vamos!
—Vá, vá dar-lhe essas coisas—tornou o egresso, e saíra para que ela se vestisse.
Assucena colocou-se diante do espelho.
—Como são grandes estes cabelos!...—disse ela, puxando dois graciosos pinceis de cabelos, que lhe saiam dos ângulos da maxila inferior. Procurou ansiosa uma tesoura, e aparou-os.
—Agora sim—disse ela com risonha satisfação—Assim estou mais bela para o noivado.
A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho, enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarelos, e puxando para a garganta a grade preta do afogado no vestido.
—Agora, vamos.
—Onde, minha querida senhora?!
—Vamos passear no jardim... Quero esperá-lo.
—Esperá-lo... a quem?
—És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?
—Oh minha Mãe Santíssima, compadecei-vos dela!
—Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?
O egresso entrou, chamando por Ana.
—Que é?! Onde vai?!—perguntou ele a Assucena espavorida.
—Vou esperá-lo.
—Não sairá daqui... Sente-se nesta cadeira.
—Não quero! Vou sozinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...
—É melhor acompanhá-la....—murmurou o padre.
E saíram pela porta do jardim.
—Que linda noite!—disse ela, saltando entre os buxos.
—Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.
—Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos anos tenho eu? Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso sim!... Quem conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece... morre por ele... Sou sua mulher... Jurou-mo nos braços dele quando eu fugia.... Porque estou eu aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor violentado vence ou mata. Eu me desforrarei em risos de esposa das lágrimas que tenho chorado neste desterro... Ele não tarda, e depois fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o meu esposo é muito valente!
—Recolha-se, minha senhora.
—Recolher-me?! às Commendadeiras?
—Ao seu quarto...
—Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperá-lo.
O egresso seguiu-a.
Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadáver, com a fogueira do costume ao lado, Assucena perguntou:
—Que é aquilo?!
—É o corpo do ladrão que morreu—disse o padre, querendo afastá-la.
—Quero vê-lo... coitadinho!
—Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradável.
—Quero vê-lo... não tenho medo aos mortos...
E forçou a desprendê-la o braço do padre. Levantou um tição da fogueira, aproximou o clarão azulado da face do cadáver,... soltou um grito que se não descreve, nem se imagina, deixou cair o lume, correu num ímpeto vertiginoso, com as mãos agarradas à cabeça pela quinta abaixo, na ladeira que conduzia ao rio Homem.
É ocioso dizer-vos de quem era o cadáver. O primeiro momento de repouso para Luiz da Cunha principiava ali. Foi abençoada a bala que o salvou do patíbulo.
O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por socorro, por ela, por Deus, por Maria Santíssima. Tinha-a já perdido de vista, quando ouvia o chofre de um corpo que baqueava na água.
No Braz Tizana de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:
«Um cadáver.—No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, apareceu o cadáver de uma mulher de trinta e seis a quarenta anos; tinha vestido de sedã preta, e parece ser pessoa de consideração.»
No mesmo jornal de 28 do mesmo mês e ano lê-se o seguinte:
«Sinais de um cadáver.—A mulher que apareceu morta acima da ponte de Caldellas, tinha os sinais seguintes: idade trinta e seis a quarenta anos; cabelo e sobrolho castanho-escuro; boca e nariz regular; rosto redondo; lábios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns cabelos que mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de seda preta com pouco uso; manga curta; canhões de veludo preto; grade preta no afogado do mesmo vestido, e o corpo forrado de paninho entrançado, cor de flor de alecrim e vermelho, com três espartilhos no peito; chale de cachemira vermelho em meio uso, com franja em volta, barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande azul, com ramos amarelos, de algodão, e barra da mesma cor; saia de morim branco em bom uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda branca com cinco panos quase novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e moderno; camisa de paninho com manga curta. Ainda se não sabe quem seja.»
Lê-se no Portuense de 10 de Novembro de 1853:
«Há dois meses anunciaram os jornais do Porto a aparição de um cadáver de uma senhora num dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornais a falar neste cadáver dando as mais minuciosas informações de vestidos, de fisionomia, de idade, e até de conjeturas sobre o gênero de morte que sofreria a suposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo silêncio e nem ao menos respirou a notícia de menor ato administrativo na investigação deste acontecimento. Pode ser que se desse um drama muito misterioso, com peripécias muito horríveis, mas o público tem direito a perguntar se a senhora ou mulher foi assassinada ou se se suicidou?»
A resposta ao Portuense é um livro.
Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.