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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 4 · A Neta do Arcediago

Contágio

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Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em fisiologia, que é a ciência do homem físico, não se sabe. A psicologia também não diz nada a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da matéria, não avançam coisa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até à neta do arcediago e o filho de Ricarda.

Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é falsidade desmentida pela experiência. Há um amor que não rasteja nunca no raso estrado das propensões orgânicas.

Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de visionários, que trazem sempre as mulheres pelas estrelas, ao mesmo tempo que elas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem à maneira dos mortais, e até das divindades do cantor de Achyles.

Eu conheço homens, sem faísca de espírito, que se abraçam tocados pelo amor como o fosforo em presença do ar. Eis aqui um fenômeno eminentemente importante. Ele, só, sustenta em tese que o amor não tem nada com o corpo nem com o espírito. Eu creio que é um fluido. É pena, porém, que eu não saiba o que é fluido para me dar aqui uns ares pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, coisas que, de certo, o não privavam de continuar a comer, e a dormir.

A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da Cunha e Faro tinha uma cabeça incapaz de calcular as consequências de uma ação boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, apodrecido para nutrir em si uma flor das que nascem aromatizando a imagem que o amor lá insculpiu com maviosos traços.

Assucena, pelo hábito da convivência, perdera a estranheza, e familiarizara-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe. O sobrecenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornara-lhe a ela mais simpático o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua mãe, com ela sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava aí a razão da grosseira indiferença com que Luiz era recebido.

Um dia, acharam-se sozinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho de João da Cunha da sua saída à noite, nem proibira, por inadvertência talvez, a sua filha a recepção de visitas.

Os embaraços de Luiz, a sós com ela, eram impróprios de um rapaz de sala, imperturbável falador em todas as conjunturas de que o homem se salva falando muito, e pronto improvisador de palavras que não deixam nunca descair a conversação nas trivialidades aborrecidas.

Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ela, deduziu do seu acanhamento que a amava muito. Assucena já não corava na presença de Luiz da Cunha; e, só com ele, percebeu, no ardor da face, que se estava denunciando.

Era necessário dizer alguma coisa, esgotadas as primeiras palavras de um cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.

—Está v. ex.ª em vésperas de recolher-se às Commendadeiras...—disse Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais facilmente, chegaria a um vasto assunto.

—É verdade...—respondeu ela com mimo e tristeza—De amanhã a quinze dias...

—Tão cedo!... E está desejosa de se ver lá, não é assim?

—Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...

—E ela não lhe faz a vontade?

—Por vontade dela nunca eu sairia de casa; mas meu padrasto, não sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo aborrecido, que me incomoda, e de certo há de incomodar minha boa mãe.

—O senhor visconde tem essa singularidade. Por cálculo ou por gênio, parece que toda a gente o incomoda, que todos lhe são pesados e suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremessos, como v. ex.ª terá observado. Se encontro francas as portas desta casa, favor é que devo à senhora viscondessa, minha amiga desde a infância, mais que minha mãe, porque uma mãe deixa muitas vezes perder um filho, e esta nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste, salvou-me.

—Tenho reparado que ela é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão, de certo minha mãe lhe não daria mais estima...

—E porque me não faria Deus seu irmão?—atalhou Luiz com ar infantil, e meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silêncio, também desabrochando um ligeiro sorriso, no nácar dos lábios, que pouco sobressaía à cor purpurina do pejo.

—Esta pergunta—prosseguiu ele, com afetuosa tristeza—fez-lhe uma impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª cora, e a pergunta não é das que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu inocente desejo de ser seu irmão?

—Não me magoou...

—Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que ainda lhe não disse uma só palavra indiscreta...

—Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lho disse... O que eu senti... não foi pesar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta, por que...

—Diga, não se arrependa... o seu coração ia falar...

—Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito bom que...

—Eu fosse seu irmão?

—É verdade...

—E cora por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se esconde...

—Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ela perguntou-me coisas estranhas para mim... Se não fosse ela, isto que lhe disse com dificuldade, não teria dúvida em dizê-lo às minhas mestras do colégio, por que não sei onde está o mal deste desejo.

—Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe proibiu-a de manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?

—Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor Luiz da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe muito depois a desfazer-se delas quando vem a realidade. E acho que minha mãe tem razão. V. ex.ª não pode ser meu irmão.

—Mas amigo, mais que irmão, não poderei também?

—Amigo... sim...—Assucena corou de novo, e balbuciou estas duas palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer daquela quase imperceptível oscilação nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a força expansiva do espírito com os estorvos compressores da educação.

—Pois então... sejamos—continuou ele—sejamos o mais que podemos ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a responsabilize pela promessa? Também não serei capaz de mortificá-la, e, se o fosse, não poderia chamar-me seu amigo. Quando aconteça que a minha amizade lhe seja pezada...

—Pezada?!

—Sim; quando se deem motivos fortes para que me esqueça...

—Que motivos?!

—Se lhe derem um marido...

Assucena levou instintivamente o lenço aos lábios, como para esconder o rubor que lhe assomava.

Neste momento, entrou João da Cunha, e surpreendeu ainda o escarlate, que destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, compreendeu o caso, que não tinha nada de misterioso senão o fato de se acharem sozinhos seu filho e a filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o abalo profético de alguma desgraça. A ansiedade não lhe concedia delongas. Como Assucena pediu licença para retirar-se, João da Cunha perguntou ao filho, ainda absorto num silêncio muito significativo para o pai:

—Como venho encontrar-te sozinho com Assucena?

—Entrei nesta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha encontrá-la sozinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.

—Tu compreendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem sacrificado?

—Compreendo, meu pai. E donde é que v. ex.ª deduz que eu namore Assucena?

—Surpreendi-a de um modo que revelava emoções que não são as de uma singela conversação.

—Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como pode sê-lo uma irmã.

—Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito anos. Irmãos só os faz a natureza. A arte, que aproxima o homem da mulher com laços fraternais, é uma ficção. Os teus amores tem sido todos fáceis, daqueles que a sedução não precisa mascarar com um título impostor; e por isso não sabes ainda prever as consequências desse improvisado parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta que tu adotas, e todas elas quebraram o vínculo da fraternidade, quebrando primeiro pela honra.

—Meu pai cuida que fala a seu filho dois meses antes. Eu devo à Providência um novo coração.

—Quero, devo acreditá-lo: Deus me livre de pensar o contrário. Mas é preciso que meu filho saiba muitas coisas que não aprendeu na vertigem da dissolução em que viveu onze anos. Quando o coração é nobre, também há paixões que principiam nobremente, e acabam pela ignomínia como as outras que começam pela infâmia. O amor violento, o amor que desonra, o amor que faz vítimas, não é o infame privilegio dos homens pervertidos. Os de nobre coração também desonram, também pervertem, e fazem vítimas. O avarento pode viver uma longa existência sem um remorso, sem roubar o pão do seu semelhante, logo que ele alimente a sua sede de ouro com o seu próprio suor. O general, coberto de condecorações, pode ter sido um bárbaro nas batalhas, matando inermes, e incendiando choupanas que encerram velhos e crianças. É um algoz condecorado, ao qual Deus não pergunta o que fez de seu irmão; é uma consciência tranquila de remorsos, como a lamina da sua espada está limpa de sangue. O avarento do ouro, e da glória caminham ambos por estrada desimpedida: um legaliza a posse do ouro com a astúcia e com o trabalho; o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura sanguinária. Na sociedade há um homem que vive também de ambições, que aspira também às glórias; mas glórias e ambições do coração, as que ele julga mais inocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu princípio, as que por fim se lhe convertem em cilícios de remorso, em apertos de coração, e em tédio de si próprio, no declinar das forças físicas para a sepultura das quimeras. Este homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos, Luiz. O homem que se dá exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre alcatifas de flores, e resvala num abismo. Principia, com o propósito de ser honrado, um comércio de sensações brandas; e acaba enfastiado delas, ansioso de outras que não depara. Depois, como indenização do que perdeu, encontra o desprezo dos outros; como companhia das suas horas solitárias, tem a imagem de uma pobre mulher que se levanta do charco, onde ele a lançou, agarrando-se-lhe aos cabelos; e, como refrigério das sedes que o calcinaram na mocidade, encontra na velhice... um filho, que lhe encrava uma coroa de espinhos sobre o stigma do crime com que a sociedade o manda à presença de Deus...

—Meu pai!—atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquência.—Eu não sei o que fiz para merecer-lhe admoestações tão severas!

—Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me que o meu fim era uma coisa muito importante... Não dediques uma afeição perigosa à filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que possas fazer tua esposa, ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu amor tem o contagio da morte...

Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal fingida. Se quisesse ser verdadeira, diria que estivera no seu quarto, saboreando, sozinha, uma felicidade que principiava por lágrimas.


As confusas recriminações de João da Cunha não caíram em coração inerte. Luiz nunca respeitara tanto seu pai. Suposto lhe não compreendesse as comparações do ambicioso e do general com os afetos do coração, achara uma dor sublime nessa desordem, um gemido de remorso nessa condenação a si próprio, nessa tocante ideia de uma coroa de espinhos, cravada pelo filho, na fronte de seu pai, onde a sociedade gravara o lema da desonra.

Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da última em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véu do coração de Assucena.

A causa da falta extraordinária, e sensível para a viscondessa, era o incomodo de João da Cunha, que periodicamente sofria acessos de sangue à cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas repetidas sangrias, seu alívio único. Luiz passava os dias e as noites, ao pé de seu pai, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as doenças do pai eram indiferentes ao filho, e até a formalidade de um cumprimento lhe era pezada.

—Que diferença!—dizia D. Rosa a sua filha—Quem diria que Luiz da Cunha passaria as noites ao pé de seu pai! Onde estava um nobre coração! À vista disto, ninguém deve perder a esperança de salvar um homem abandonado de todos! A sociedade é a que atira o desgraçado à miséria...

—À miséria!—atalhou Assucena.

—Sim, minha filha. O desprezo com que são repelidos os infelizes, que não podem ser bons sem os conselhos de um bom amigo, é muitas vezes a causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando em maldade. Deixam-no sozinho, e ele precisa de viver em sociedade. Procura a única que o recebe, a dos abandonados como ele. Aí encontra irmãos mais perdidos que ele, e acha sempre um amigo. Dizia teu pai, minha filha, que o último amigo do criminoso era o carrasco... Não entendes esta linguagem, Assucena... Oxalá que nunca recordes palavras de tua mãe, ditas como um desafogo a quem lhas não entende... Foi talvez com elas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem só para desgraçados... e tu, filha, és feliz, és inocente, és um anjo.

—Ele é ainda desgraçado?

—Pode ser feliz...

—Eu queria que ele o fosse; mas é tão triste... Ele era assim dantes?

—Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia às minhas admoestações com agradecimentos irônicos, e contava-me os seus desatinos como quem conta ações meritórias. O primeiro dia em que lhe ouvi queixar-se da sua má estrela, foi no dia em que te viu...

—Em que me viu!?...—atalhou Assucena, sem poder conter as palavras, que vinham do coração sobressaltado.

—Porque me fazes esse reparo tão admirada?!

—Admirada... não!... É que...

—Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inútil, minha filha. Leio em todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu... Amas Luiz da Cunha?

—Minha mãe!...—exclamou ela, tomando-lhe carinhosamente a mão, e fazendo um aceno negativo.

—Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa afeição, que é muito natural. Se o tivesses conhecido, há dois meses, de certo o não amarias. Hoje... era quase impossível que o não amasses... Luiz tem alguma coisa fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe apertar a mão em público. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem afetos. Mas olha, Assucena... tua mãe vai falar-te como todas as mais deviam falar a uma filha que sai de um colégio aos dezoito anos. Se tivesses vivido cá fora, não era necessário dizer-te que só há uma posição que te convém com Luiz da Cunha. Se não fores sua esposa, que poderás tu ser para ele?

—Sua irmã.

—Não há irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?... Responde, Assucena... Faz de conta que falas com a tua única amiga. Agora não sou tua mãe, visto que é de uma mãe que sua filha de ordinário se esconde. Querias ser sua esposa?

—Queria...

—Que tristes coisas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda de cobre como dote, e eu não posso também dar-ta porque sou pobre como tu. Luiz da Cunha não tem patrimônio, não pode suceder na herança de seu pai, é pobre como ambas nós, logo que seu pai lhe morra. Vês o que é o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho às suas precisões, é uma desgraça. Tu serias muito infeliz, quando teu marido te dissesse «não temos pão.» Minha filha, eu já soube o que é não ter pão. Já desfiz um meu vestido para que tu não andasses nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu não tivesses fome. Já me ajoelhei contigo nos braços, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes que tivéssemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu privo-me de muito para que ela tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria Elisa... porque se deixou arrastar pelos cabelos onde a leva o mau anjo das suas paixões... Coitadinha! no que deu aquela mulher!...

—Não chore assim, minha mãe...

—Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença... São mais dolorosas as lágrimas, sem testemunhas. Preciso de uma confidente, e, se o não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir sempre. Com meu marido, é necessário ser o que ele é... Contigo posso ser o que sou... Minha filha, tua mãe vai pedir-te um favor...

—Favor!... que quer, minha querida mãe?

—Esquece Luiz da Cunha.

—Esquecê-lo...

—Se não podes esquecê-lo... resigna-te, não alimentes esperanças, não lhas dês a ele...

—Isso sim... isso posso fazê-lo... Quer minha mãe que eu me recolha já hoje ao convento?

—Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...

—Mas eu não devo vê-lo mais...

—Porque não? Assim o amas?!

—Pensei que poderia vê-lo todos os dias. Não queria senão ser sua irmã. Diz a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei como hei de dizer-lhe que o não sou, porque ele há de perguntar-me a razão porque não sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de responder-lhe.

—Mas... prometeste-lhe tu essa estima de irmã?... Coras!... responde, Assucena.

—Prometi...

—Quando?!

—Uma noite que a mãe saiu, ele veio adiante do pai...

—Porque me não disseste esse encontro, se ele te pareceu inocente?

Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lágrimas, que lhe tremiam nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no seio de sua mãe, que chorava com ela.

—Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?—disse a mãe com a voz cortada, procurando ver a face de Assucena.

—Não foram... Eu serei o que minha mãe quiser que eu seja; mas não sei porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.

—Eu não te digo que o maltrates...

—Se ele me procurar, não lhe falo.

—E porque não?

—Porque... seria pior... seria enganá-lo, porque não posso esquecê-lo.

—Desde quando o amas, minha filha?

—Tinha eu dez anos, e ele dezessete...

—Oh filha!—interrompeu a mãe, sorrindo—isso não era amor!

—Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi, depois de oito anos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de minha mãe...

—E disseste-lho?

—Nunca... mas, se ele mo perguntasse, dizia-lho. A razão não me crimina deste afeto de irmã...

—Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra razão, a da experiência, venha desmentir a que te fala hoje...

—Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei tudo o que posso. Se é possível esquecê-lo, empregarei todos os esforços para isso. Diga-me a mãe quais eles são.

—Terrível pergunta!—disse a filha do arcediago, no fundo da sua consciência.

—Não me responde, minha mãe?

—Não o evites de todo... Recebe-o, se ele te visitar... Entretanto, pode ser que Deus permita um milagre.

—Esquecê-lo?

—Esquecê-lo, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da Cunha?

—Não sei. Não temos tido a liberdade de falar nessas coisas. Se ele me tivesse falado nisso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me lembrar que é necessário um dote.

—E sem o consentimento de tua mãe?

—Minha mãe quer a minha felicidade...

—Confia-te a mim, Assucena... eu contínuo a ser a tua amiga. Hei de falar hoje com teu padrasto... Agora mesmo que ele aí vem... Retira-te.

O visconde de Bacellar entrava, com a pena na orelha, e uma carta aberta nas mãos.

—Rosa—disse ele, franzindo a testa, e tirando os óculos—lê essa carta. É chegada agora do Porto. Basta que leias as últimas linhas. Senão, eu tas leio:

«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa mesada que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender cinquenta mil reis cada mês, para sustentar dois viciosos. Ela tafula, como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que sua senhora lhe mandou há um ano, dissipou-os em menos de três meses. Não sei, ainda assim, como ela pode fazer tanto com cinquenta mil reis mensais. Disseram-me hoje que ela recebia outros cinquenta; não posso coligir donde venham. Os meus respeitos &c. &c.»

Rosa Guilhermina estava pálida e fria. As últimas linhas desta carta eram a denuncia do emprego que ela dava às suas economias. O filho da senhora Ana Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a, soprando, limpando os óculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da mão esquerda.

—Que dizes tu a isto, Rosa?

—Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a levar deste mundo.

—Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a maneira como?

—Diz, meu amigo.

—Levantar-lhe a cesta. Os benefícios que lhe deves estão pagos com usura. Em quanto esteve conosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o diabo da asneira na cabeça, e fez tropelias que me obrigaram a sair do Porto. Saiu da companhia do S*** C***, deste-lhe uma casa mobilada de tudo, e uma mesada que sustentava uma família. Vendeu casa e moveis, e andou de amante em amante, até que lhe deste cinco mil cruzados para ela comprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapuça! Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cinquenta mil reis, e outros cinquenta, que naturalmente são remetidos por ti. Não te ralho Rosa: o mal feito não tem remédio; mas reprovo de hoje em diante o desfalque da nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma libertina de quarenta anos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a entrar num convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim há de dizer-se que o meu dinheiro serve de alimentar mulheres perdidas, e vadias. Não estou por isso.

—Eu pensarei no que se há de fazer: entretanto peço-te que lhe não suspendas a mesada. Faz isto que te súplica tua mulher.

—Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que não tem nada de seu?

—Qual rapariga? minha filha?

—Pois quem?

—É a respeito dela que eu desejava muito alguns momentos de atenção. Tenho pensado no futuro desta menina.

—Pois já não queres metê-la no convento?

—Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo: tu dás um dote a minha filha?

—É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: há de casar com grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote não serve senão a algum amanuense de tabelião. Pediu-ta alguém em casamento?

—Não; mas se tu quisesses, poderíamos casá-la, talvez, com...

—Com quem?

—Com Luiz da Cunha.

—Estás tola! Deus te livre dessa asneira! Pois tu acreditas que ele valha hoje mais do que valia há três meses?!

—Acredito: não tem nada do antigo homem.

—Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal casamento não sai um pataco da minha gaveta. Tomara eu o que por lá anda por casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo! Já não tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos cruzados que me deve, afora a fiança que eu lhe prestei para um título de dívida que o extravagante do filho assinou de um conto de reis. Tem juízo, Rosa. Não te deixes enganar com aparências. Ali onde o vês com ares de convertido, tudo aquilo é hipocrisia. Agora vou entendendo a razão de tal mudança. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com a tal dissoluta que levava ao teatro, ou com outra que tal; e a mulher, qualquer dia vinha, com dois pontapés, pedir-te que lhe desses um bocado de pão. Às vezes pareces tão esperta... e cais em cada alhada, que nem uma cozinheira! Querem ver que a rapariga está namorada com o senhor Luizinho?!

—Basta, José... Não falemos mais neste assunto. Fiz-te uma pergunta muito simples, e respondeste mais do que era necessário. Ficamos entendidos. Posso contar com a subsistência de Assucena no convento?

—Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis moedas por mês, e uma criada de cozinha, e outra do quarto. Se é necessário mais alguma coisa, é pedir por boca, em quanto está aberto o cofre.

—Não é preciso mais nada, meu amigo.

—Poucos padrastos fazem outro tanto...

—Tens razão, José.

—E quando lhe apareça um digno marido, não terei dúvida em lhe dar um dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que tais. Ficas zangada?

—Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem de minha filha é uma esmola de caridade.

O visconde desceu ao escritório a descontar letras do governo, e Rosa Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.

Antes de anunciar-lhe o que se passara, tinha dito com as lágrimas o mais que poderia dizer-se.

Assucena, beijando-a meigamente, dizia:

—Adivinho tudo, minha querida mãe. Não se aflija, que eu para ser feliz, não preciso do dinheiro de meu padrasto.

—Precisas... precisas...—respondia a mãe, abraçando-a com frenética ternura.

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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