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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 5 · A Neta do Arcediago

Um anjo caído

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Luiz da Cunha era estranho às apressadas solicitudes da viscondessa de Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedira, nem mesmo significara a alguém intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço punha para vencer as dificuldades do casamento, quando se dessem. Votado inteiramente a velar a convalescença de seu pai, as saudades de Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e pouco; mas não tanto que ele não esperasse com impaciência, todos os dias, notícias indiretas de sua «irmã.»

Luiz da Cunha quisera iludir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe ressuscitara nas ruínas do coração, era um sentimento de fantasia, um impotente esforço da vontade. Depois de onze anos de vida aparcelada de revezes na alma, de ignominias que entram como hábito nas propensões do homem, que se crê irresponsável de seus escândalos, acredite-se de boamente a conversão religiosa como consequência do remorso como temor de Deus; mas negue-se a reforma do espírito em coisas do amor, em nobreza de afetos, em dedicações fervorosas. É impossível essa reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais desabrocha no tremedal a flor dos perfumes ideais, que, só no ar puro de um coração juvenil, embelece a vida, e promete a felicidade.

O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena. Um saía da inocência, outro do crime. Luiz, depois das paixões impetuosas, entrava cansado no amor tranquilo para o qual é necessária muita alma. Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se, mais cega do que se imaginava, à paixão impetuosa.

Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito anos, não se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente falando. Aprenderia, desde os quatorze, a estremar o aparente do real, o homem que se namora por entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de lisonjas, qual delas mais impostora, perderia depressa a memória dos diferentes turibulários, e, ao sentir no coração impressos os traços de uma imagem, outra imagem viria desfazê-los depois. O amor repartido é o amor sem consequências perigosas. A razão conserva sempre o seu domínio. A luta com três é-lhe menos difícil que a de um só; e a donzelinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe experimentada, leva a cabo empresas arriscadas com a sisudez que os quarenta anos não tem. Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida erma, no perfume inocente dos colégios doutro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e extravasava de um amor sem cálculo, de uma aspiração sem condições.

Tal fora Assucena.

As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressioná-la de passagem; mas o amor, que vencera o pejo, que se formara em si, e de tal força que nem os desdéns do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os mesquinhos estorvos de um dote, contra a dependência ignóbil das algibeiras de um padrasto.

Luiz da Cunha, restaurada a saúde melindrosa de seu pai, continuou regularmente as suas visitas à viscondessa. O trato grosseiro do visconde era cada vez mais acrimonioso. A afabilidade de Rosa desmerecera um pouco; e as maneiras de Assucena pareciam-lhe, em compensação, mais ternas, mais meigas e insinuantes do que o tinham sido antes da sua declaração.

E, certo, eram.

Assucena despediu-se de João da Cunha na véspera da sua entrada nas commendadeiras. De Luiz despediu-se também; mas toda a arte foi vã para esconder as lágrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras balbuciantes denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da Cunha que a não imaginava tão frágil à tentação do filho.

A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o desejo que o fazia crédulo. Era a pergunta, que ele muitas vezes se fizera depois da emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa pergunta que o fazia procurar a resposta no amor de Assucena.

E sabem, leitores, quanto duram estas ilusões em homem que deu da sua alma tudo quanto podia às puras ou às impuras paixões? É devaneio de um dia: acesso febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso rejuvenescer de algumas horas.

«Se eu pudesse lutar com as dificuldades de uma afeição desprezada!... Se houvesse aí uma mulher que me ameigasse para me cativar, e, depois de cativo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu sentisse aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor próprio!»

Há homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o encontram.

Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontânea e descuidosa da mulher que vem procurá-los, sem ser chamada? Pobre dela, se a última cintila de piedade generosa se apagou no coração do seu verdugo amado. E ele que lucraria?... O tédio de si próprio.

O amor angélico de Assucena fora outra vez recebido por Luiz da Cunha, esquecido já das primeiras emoções.

A filha de Rosa entrara no convento, onde encontrara fáceis amigas que se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras, ilustres em nascimento, e até ilustradas no espírito, olhavam as coisas deste mundo, pouco mais ou menos, como elas são. Menina de dezoito anos, melancólica, sofre de amor: entenderam as mais penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infalível a farmácia, muito acreditada nas beneditinas. A quem penava do coração aplicava-se-lhe amor a grandes doses. Ora a barateza da droga nunca deixou morrer ninguém à míngua de antidoto.

O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse no locutório quem quer que fosse, que se não deixasse possuir de uma heroica abnegação, porque o mundo não valia o sacrifício. A sua mais presada amiga, secular também, que passava três meses no convento, e nove na sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de seu primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus anos.

Assucena foi surpreendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima, nem entrara em tal convento. Aceitara o convite porque desejava mostrar que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamá-lo ao convento.

A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida inteligência, dois e dois eram quatro, e, segundo ela, toda a mulher devia ter um amante, e particularmente aquela que reza vésperas num coro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que há de realçá-la mais no baile, ou no teatro. Ei-la, pois, em oposição com os estatutos de todos os patriarcas, que apadroaram conventos.

Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quase diárias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava era Assucena.

A viscondessa sabia destas visitas, e não as proibiu a sua filha, desprezando assim as insidiosas prevenções da intriga, que deste modo procurava vingar-se de ódios domésticos a D. Leonor Machado, a prima prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina saiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os melindres de um amor contrariado, não falava de propósito em Luiz da Cunha, nem consentia que sua filha de propósito lhe falasse nele.

O visconde também teve as suas duas cartas anonimas, a respeito dos escandalosos amores da sua enteada, protegidos pela escandalosa secular Leonor Machado.

José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro de Assucena, impôs-se a dolorosa obrigação de proibir a sua filha inteligências com Luiz da Cunha.

Assucena recebeu silenciosa a correção; mas, em silêncio, se prometia não lhe dar o peso que sua mãe lhe dava. Era tarde para ela, e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor, e por ventura o patrimônio de Assucena, alcançado por astúcia, faria as delícias da sua vida.

Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes atenções à prima. O visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as cartas que recebera. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um pouco parecido com o que fora em tempo, respondendo-lhe que a reforma de costumes não consistia na renuncia completa dos mais inocentes prazeres do espírito. Como não falou em matéria, o caso não era tão pavoroso como o afiguravam os tímidos informadores do padrasto.

Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retroseiro da rua das Flores, espaçou as suas visitas a casa dele. Romperam-se, portanto, as hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe as mesadas. Luiz da Cunha oferecia-se como irmão a Assucena, quando seu estupido padrasto a desamparasse.

E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente humilde, não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tirano da sua alma.

A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então, exercera sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.

Animada pela indômita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia, correndo pressurosa à grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Ali, a pobre menina aliviava da sua dor opressiva, chorando, e bebia a longos sorvos o bálsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia preparado em estudadas palavras de esperança.

Mas qual esperança era essa? Que planos eram os dele?

Muito comuns, e muito infames.

Luiz da Cunha, invocando o seu eu de outros tempos, encontrou-o. Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada extraordinária, porque não cansam por aí cavalheiros muito probos, e exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prósperos resultados.

O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pai, os sucessores do vínculo viriam desalojá-lo do último palmo de terra. O futuro dava-lhe cuidado. Os poucos bens de livre nomeação estavam hipotecados a dívidas enormes, contraídas por sua causa, depois que as preciosas joias de Ricarda foram desbaratadas em desperdícios do pai e do filho. João da Cunha, segundo o pensar dos médicos, não resistiria a um dos ataques cerebrais que repetidas vezes o ameaçavam com a morte, anunciando-se por uma sombria tristeza, e desordem de ideias, à maneira daquela em que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso de se julgar desvalido apenas seu pai fechasse os olhos. Precisava enriquecer-se e angariar com tempo uma fortuna, empregar para isso esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralização.

Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde, quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da desonrada filha de sua mulher. Para isso era necessário tirá-la do convento, difamá-la, forçar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.

O cálculo parecia-lhe infalível a ele. Assucena prestava-se maquinalmente à vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe fazer sentir que o visconde resolvera fazê-la entrar num convento do Minho, em Bairão. Era necessário apressar o desfecho. Leonor Machado abundava nas ideias do seu primo, e prometeu coadjuvar Assucena na fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da cerca, sobre que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelão, que devia abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a tímida menina a descer uma escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos braços murmurando o vigésimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe merecia, e entrou com ela na mesma sege em que muitas vezes entrara com Liberata. Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?

Deus! como presenciais, sereno e tranquilo em vossa majestade tremenda, a precipitação de um anjo em cada dia!?

Homem, que crês na efetiva vigilância da Providência, responde-me:

Se Assucena vai inocente a resvalar num abismo, quem lhe dará a consciência do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe presta? A contrição? Seja. E, se ela morrer, blasfemando? O inferno?...

Valha-nos Deus!......................


A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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