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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 13 · A Neta do Arcediago

Explosão da infâmia represada

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Eram passados três meses. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama, confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecera nada nas esperanças de Marianna, e vivia à mercê da vontade dela, que era a primeira a lembrar-lhe os bailes, o teatro, e os passeios, que o bom marido frequentava com ar de aborrecido.

Os que tinham como certos os escândalos de Luiz em Portugal, estavam com ele em suspeitosa guarda, não querendo aceitar como possível a sua emenda. Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da caprichosa lhe dera; o todo, porém, desses cabedais, em terrenos e prédios urbanos, não podia considerar-se propriedade alienável da viúva, que era simples administradora de seus filhos. Ainda assim, a sua meação avaliavam-na em cem contos de reis.

Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração econômica da casa, em poucos anos, podia dobrar o que era legitimamente seu por mutua escritura.

O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das suas íntimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era a sua; mas também não sentia os imperiosos estímulos de procurar emoções nas outras. A paz, as comodidades, o luxo, a consideração, bem-estar que nunca experimentara, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações idas de Portugal, e queria, até por capricho, desmenti-las. Sinal era de que a opinião pública alguma coisa valia já na sua. Este sintoma enganaria o mais sisudo fisiologista do coração, quando o próprio Luiz da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.

Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com soberba a sua boa escolha na presença dos que faziam coro com a maledicência, mordendo a reputação de seu marido.

Deliciosos três meses!

Mas ao quarto.... Porque não morreu aquela pobre senhora no terceiro? Porque não se aplacou o inexorável destino daquele homem? Porque há de ser tão brutal, tão déspota a desgraça atirando abaixo das felizes ilusões a vítima a que deu tréguas de alguns meses?

Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no teatro, e fixou-a com tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente. Quis desviar-lhe a atenção da perigosa mulher, e não pôde. Quis, no dia seguinte, com um subtil pretexto, sair para os arrabaldes da capital, mas seu marido, com pretextos ainda mais sutis, adiou a saída.

A dançarina era francesa. Tinha a seu favor todos os demônios alados da sedução. Era fresca como um ramalhete de camélias. Tinha os olhos mais maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de uma costela do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão expostas à avidez da analise, não invejavam a correção proverbial das de Diana caçadora. Nos braços, de um cetim transparente, destacava-se a rede das veias azuladas, onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar se eram aqueles os braços roubados à Venus de Milo. O pé, que nenhuma sevilhana teve nem mais pequeno nem mais arqueado, obedecia ao frenesi das evoluções, ou encontrava o dente da tarantula, cada vez que tocava o invejado pavimento do palco. Era a Paquita que Asmodeu inventara para Cleófas. Era a criatura de Lúcifer em competência com as criaturas de Deus.

Luiz da Cunha não experimentara ainda as paixões tempestuosas do teatro, a mordedura desses desejos enfurecidos pelo ciúme de muitos concorrentes, essa garganta que sorve com o ouro as ilusões nobres do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triunfo à custa do desdouro em público, e das lágrimas no recinto domestico.

Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.

Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessários os avisos das suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a sombra de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria tranquila que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lágrimas acusarem o que os lábios não acusam. Vem a pálida melancolia enturvar os sorrisos descuidados da doce paz.

Era assim que ela se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a essas tímidas manifestações de ciúme. Se os lábios deixavam passar um gemido, ninguém a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz costumava enrugar a testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de sua mulher.

Entretanto, o alucinado empregava todos os processos conhecidos para satisfazer a ânsia pertinaz. Fez grandes ofertas de dinheiro, repelidas sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da brandura hipócrita, outras da violência natural. Nem de uma, nem da outra maneira. Ao lado da francesa estava um amante, francês também, caprichoso, ciumento, e espadachim. Luiz da Cunha fora ameaçado por ele, e conteve-se em quanto as esperanças lhe não faliram.

Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria ver-se sacrificada, no coração do esposo, ao amor sensual de uma mulher sem alma. Os seus amigos lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da Cunha batiam as palmas. A infeliz tentou uma dolorosa luta consigo mesma. Advertiu seu marido do que se dizia; pediu-lhe que não desse aos seus inimigos o prazer de o apregoarem tal qual as informações de Lisboa o pintavam.

Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus inimigos podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de presente ao diabo.

As promessas redobraram, e a bailarina caiu do pedestal do capricho, onde quisera ter-se como em pedestal de virtude.

Cedeu, e com tanto escândalo que na noite de próximo teatro, em pleno espetáculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, à qual respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na luta. Tratou-se um duelo, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um dos mais nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um troca-tintas da França. O francês, dias depois, abandonava o Rio para evitar um assedio de traiçoeiros punhais, comprados por Luiz da Cunha.

A bailarina estava sob o exclusivo domínio do novo amante. O seu fausto centuplicou em grandeza. Prendas de um valor enorme, arrancadas pela prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da escandalosa rival de Marianna.

Os amigos desta, finda a estação do teatro, expulsaram a dançarina, com artificiosa violência, ou por dinheiro que Marianna deu como se o restabelecimento da sua ventura dependesse da ausência da francesa.

Luiz da Cunha foi surpreendido pela fuga da segunda Liberata que lhe tocara o coração. Disfarçou a afronta em público; mas, de portas a dentro, desforçou-se do ultraje desprezando Marianna. Esta mulher era sublime! Quis convencer a sociedade de que era outra vez feliz, para readquirir o bom nome de seu marido.

Luiz da Cunha compreendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.

Dois meses depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua casa sofrera, estava remido. As dissipações com a mulher do teatro, posto que exorbitantes, não doíam no coração da nobre senhora. Esses cálculos deixava-os ela à curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus haveres. O que ela queria era o coração de seu marido, e esse capacitou-a ele de que fora sempre seu, até mesmo na embriaguez vertiginosa dessa fatal loucura com a francesa.

Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projetou com sua mulher uma visita às primeiras capitais da Europa. Marianna desejava ver Paris, Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.

Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha saiu a colher informações da dançarina Carlota Gauthier. Fora escriturada para Madrid. Em breves dias viu com sua mulher os objetos menos notáveis de Paris. A impaciência ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometeu a Marianna voltar.

Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o abandonado amante, fantasiando a violência com que fora arrastada a bordo a uma embarcação.

Luiz propôs-lhe abandonar o teatro, a troco de doze contos de reis anuais. O seu desenlace devia ser imediato: nem uma só vez apareceria no palco. Luiz da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina, e explicasse a viagem à Europa, e a saída precipitada de Paris.

Carlota aceitou: rompeu as escrituras; e o amante pagou a condenação.

Marianna não podia compreender as saídas frequentes de Luiz, deixando-a só numa hospedaria! Não se queixava para não ser, talvez, injusta com as abstrações de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro com alguma madrilense dentre tantas tão sedutoras, e cujo garbo ela não podia invejar. Por necessidade de conviver, relacionou-se com uma família portuguesa, hospedada no mesmo hotel. Fugia de revelar os seus pesares; mas uma das senhoras portuguesas adivinhou-lhos. O marido desta sabia quais eram as distrações de Luiz da Cunha. O rompimento da escritura era sabido de todos. O amante de Carlota era apontado. Só Marianna ignorava o que em Madrid era matéria de ociosa analise, até ao momento em que a senhora portuguesa lhe aclarou o segredo das frequentes saídas.

Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em esconder de sua mulher o escândalo, que dava a todo o mundo, galardoando-se dele, e guardando-se apenas dela.

Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua viagem. A desgraçada, apegando-se ao derradeiro fio da esperança, imaginou que a dançarina ficaria em Madrid.

A ânsia de sair restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o último adeus à dama portuguesa, disse-lhe esta ao ouvido:

—Se vão para Paris, saiba minha amiga, que a dançarina já para lá partiu há dois dias.


—Não vamos para Paris...—dizia, depois, Marianna a seu marido.

—Porque, minha filha?

—Porque receio a epidemia.

—Sou informado de que já não há peste em Paris.

—Há, há...

—Como sabes que há?!

—Não é só a peste, é também a morte para esta desgraçada mulher, que trazes pelos cabelos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos teus desprezos...

—Isso é uma calúnia, Marianna.

—Não vamos para Paris, meu querido amigo... não vamos, não? Já vi tudo.... não quero ver mais nada de lá. Vamos para a Itália... sim?

—Iremos; mas é necessário fazer escala por Paris.

—Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...

—Que mulher?!

—Carlota...

—Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu não sei dessa mulher.

—Desde que te despediste dela em Madrid?

—Tem juízo minha criança... Tu já sabes que a parte que tens em minha alma não pode ser substituída por ninguém, e muito menos por cômicas...

—Desgraçadamente tenho a certeza do contrário... Queres dar-me uma prova de estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?

—Que é, Marianna?

—Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu esqueço-me de tudo; nunca te falarei desta mulher; mas vamos já...

—Não tem jeito nenhum esse contrassenso. É um disparate que faria rir os nossos conhecidos!

—Pois que riam eles, e não chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me a vontade?

—Não posso.

—Não podes?! Que maneira é essa de responder-me?! Lançaste-me um olhar que nunca te vi! Santo Deus, que começo a ter medo do teu aspeto! Será possível que tu sejas o homem que se disse?

—Não sei o que sou: fica naquilo que te parecer.

—Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.

—Não irás, Marianna. Hás de ir comigo.

—Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei longe dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quiseres; mas não sejas tão mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.

Esta aflitiva cena passava-se numa estação onde parara a diligência para os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixara sua mulher, quase de joelhos, e viera para uma janela trautear uma aria. Depois, irritado pelo imperioso hei de ir já! voltou-se para dentro com arremesso, cruzou os braços, fez um gesto afirmativo de cabeça, e deu uma destas risadas cortadas que significam desprezo e ameaça.

Marianna sentiu-se cair desamparada, desvalida, na convicção de que seu marido era um malvado. Vendo-se sozinha, tremeu da sua situação. Forte em todos os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela vida. Como a avezinha, escondendo a cabeça sob a aza para não ver o assassino que lhe mede com a pontaria o coração, Marianna escondeu a face entre as mãos, cambaleou um momento, e recuou sobre um canapé, onde caiu desfalecida.

Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados de um possível divórcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, repreendeu-se da inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e começou o seu novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços, chamando-a com ternura, e cobrindo-a de beijos.

Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz, e por pouco não cede ao impulso de abraçá-lo. A que, momentos antes, tremera de medo diante do malvado, ei-la agora, quase perdoando, arrependida do criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! Quantas transfigurações da mártir que pena, para o anjo que perdoa! Quantas lágrimas o homem enxuga com um falso sorriso!

—Não me tenhas ódio, Marianna...—dizia ele, inclinando-a sobre o braço esquerdo, e anediando-lhe os cabelos.

—Ódio... não tenho; mas queres que eu não sofra?!

—Quero... farei o que tu quiseres... Não queres que vamos a Paris? Não iremos. Vamos para a Itália, sim?

—E de lá para nossa casa?

—Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de lá embarcaremos para a Itália... queres?

—Sim, sim, agradeço-te de todo o meu coração o sacrifício...

—Sacrifício! nenhum, Marianna! Tu não crês que és para mim a primeira mulher, que não tens uma rival que possa mais que a tua vontade?

—Queria acreditar; mas tu...

—Eu que? Sou fraco... sou um miserável ludíbrio do destino; mas tu vences esse destino, quando queres... És hoje para mim o que eras há um ano sobre o mar...

—Oh!... se eu fosse!...

—És, filha. Não me vês arrependido? Queres-me de joelhos a teus pés?

E o farcista fez menção de ajoelhar, quando Marianna se lhe lançou ao pescoço, beijando-o, banhando-lhe de lágrimas a face, soluçando, comprimindo-o com a veemência de toda a sua paixão acrisolada pelo ciúme, e expansiva pelo prazer do triunfo sobre a rival.

Em Madrid, Luiz da Cunha foi tão caricioso, que Marianna recordava os primeiros dias do seu noivado, e não os achava mais gratos, mais ligeiros nas suas rápidas horas do delicioso arroubamento.

Furtando-se poucos instantes à companhia dela, Luiz da Cunha escrevera a Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com um pseudônimo, porque assim convinha à tranquilidade de ambos.

Quando, pois, D. Marianna, cheia de júbilo, saía para Cadiz, a dançarina, nomeando-se Júlia Lamotte, chegava a Veneza, e isolava-se num hotel, sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, à prestação anual de sessenta mil francos, dos quais apenas recebera em Madrid cinco mil.

Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou, fixando-o com ar provocador, foi o francês, que fugira aos sicários escravos do amante de Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde de Bacellar, e acutilara o mestre de esgrima, tinha tanta maldade como bravura. Não se apavorou do gesto ameaçador do francês, rodeado de franceses. Caminhou para eles, com duas pistolas engatilhadas, na presença de sua mulher, que permanecera estupefata sem atinar com a causa nem com o desenlace deste estranho encontro. O grupo dos franceses, os homens mais delicados do mundo, respondera com um sorriso à arrogância de Luiz. Um deles, aproximou-se de Marianna, com o chapéu na mão, e disse-lhe com afetuosa urbanidade:

—Sabemos respeitá-la mais que seu marido. Não receie consequências tristes. Os agredidos são cavalheiros.

Luiz da Cunha, depois da ridícula provocação, meteu as pistolas nas algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os esperava.

Marianna pedira inutilmente a explicação daquele sucesso. O marido evadia-se às perguntas, dizendo que detestava os franceses, e imaginara que um daqueles o escarnecera.

Deu-se um encontro que respondeu às apreensões da brasileira.

A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava outra gondola com uma dama, e um jóquei. A perturbação de Luiz não foi visível para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da dama, que se aproximava na direção da sua gondola. Já perto, Marianna fez-se livida, convulsa, encostou-se, quase esvaída, ao braço do gondoleiro, repelindo o de seu marido, e, ajudada a saltar ao cais, sentou-se, murmurando:

—Como eu sou desgraçada, meu Deus!

Acontece que um mau marido, repetidas vezes surpreendido em flagrante por sua mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra ela, por não poder vingar-se do demônio invisível que lhos frustra. Esse tal, em quanto uma ardilosa desculpa o pode justificar, transige com as lágrimas da esposa, e finge serenamente a contrição; mas, se a contumácia no crime, todas as vezes descoberto, lhe inutiliza as invenções refalsadas, e o exautora de prometer emendar-se, o que até ali eram brandas desculpas converte-se depois em ódio às algemas, em emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o cinismo que se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da verdade.

Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna. Luiz da Cunha, se naquele instante devia odiar a imprudente Carlota que não evitara tal encontro, irritou-se contra as lágrimas de sua mulher, que não proferira uma só palavra ofensiva, nem, sequer, queixosa.

—Vamos—disse ele com aspereza.

Marianna ergueu-se, quis aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.

—Não posso.—E sentou-se.

—Se não pode, tornemos a entrar na gondola.

—Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a minha presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...

Estas palavras, quase ditas como um segredo, para que o gondoleiro as não escutasse, não comoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era mais de crer que lhe exacerbassem a cólera. As contrações da testa, o morder dos beiços, o arfar das azas do nariz, os ímpetos das mãos aos cabelos e ao bigode, denunciavam a súbita renascença de toda a perversidade do coração que lhe atirava golfadas de sangue negro à face.

D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante aspeto. Alguma coisa havia aí que só pode ver-se e imaginar na cara assinalada pela predestinação do patíbulo!

Os frágeis vínculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha seria escandaloso sem justificar-se; imporia silêncio a Marianna; fruiria todos os direitos da infâmia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus atos.

O programa desta nova fase vamos nós ouvir-lho no Albergo di Itália. D. Marianna está encostada ao peitoril de uma janela, com a face apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lágrimas, fitos na lua que se levanta sobre o Lido, purpureada como os arrebóis que bordam o horizonte das montanhas tirobanas.

Está só. É meia noite, e seu marido não vem. Depois que a deixou no hotel, saiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Há cinco horas que chora, e sente-se menos oprimida: não sabe ela dizer se deve este bem às lágrimas, se às orações. É que orou muito; e, depois, quando levantou da taboa os joelhos, raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperança, qualquer coisa divina que não era da terra.

E foi sentar-se, às escuras, fitando o céu, com a imaginação mais tranquila, com as palpitações mais serenas, com a face aljofrada de lágrimas suavíssimas. Mas a esperança qual seria? Não sabia ela dizê-la.

À uma hora entrou Luiz da Cunha.

—Ainda a pé?!—perguntou ele em tom suave.

—É um prazer contemplar este céu—disse Marianna no mesmo tom.

—Que lindas noites se gozam em Veneza!

—Muito lindas.

—Gosto de te ver assim, Marianna.

—Assim!... como?

—Sem as impaciências terríveis do ciúme.

—Ah!... Também eu gosto de me sentir assim.

—O ciúme é coisa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não há ciúme.

—E amor?

—Um pouco, em quanto dura. A civilização é a liberdade das pessoas e das coisas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos juízos da cabeça, e enraíza-se nas aspirações da alma.

—Não te entendo, Luiz...

—Entendes, que tens muita inteligência. E queres que te diga? Nenhuma mulher de fina educação pode ser feliz, como esposa, se não estiver possuída de certos sentimentos de tolerância com as faltas do marido.

—Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorância de há pouco... Ora diz, meu amigo, fala, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas olha, Luiz... Esta noite não te recorda aquela primeira noite, no mar, quando me dizias: é mentira aproximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem: quando se encontram já a desgraça os traz desfigurados; veem-se e não se conhecem; falam-se e não se compreendem... Era uma noite assim formosa como esta... Se então nos não compreendemos, Luiz, hoje compreenderemo-nos melhor?...

—Eis-aí um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza há de necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação das minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memória...

—Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens zombar comigo, Luiz.

—Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando contigo. Vamos combinar bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos os casamentos são felizes, quando entre marido e mulher se dá uma perfeita harmonia de vontades. Negas isto?

—Não.

—Da desarmonia resultam a desordem doméstica, as contrariedades pequenas, as desavenças constantes, e tudo isto porque se não entendem, nem se combinam. Entenderem-se e combinarem-se é fazer uma aliança de se não importarem reciprocamente das suas ações.

—Não entendi, Luiz; ou entendi uma infâmia de que te não considero capaz.

—Pois que entendeste, Marianna?

—Não ouso dizê-lo.

—Eu me explico, e bem vês que o faço com toda a serenidade. Serei muito teu amigo, não teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu quiseres ser indiferente ao meu procedimento com as outras mulheres.

—Serei, Luiz; mas com uma condição...

—Qual?

—Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quiseres.

—E qual é o teu fim?

—Educar os meus filhos.

—Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa não podia socorrer as minhas dissipações...

—Esse receio fica-te bem; mas é vileza que ainda me não lembrou.

—E porque não queres tu ser feliz como eu posso sê-lo? Eu pago tolerância com tolerância....

—Isto não se crê, Luiz! Dar-se-há caso que tu vens...

—Embriagado?

—Sim...

—Não venho embriagado, Marianna; e a prova de que o não estou, é que se fosses um homem, neste momento, tinhas a cabeça partida nas lages da rua.

—Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.

—Basta! não lhe sofro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu quarto!

Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os gritos brutais de Luiz lhe alteraram a palidez. Passou por diante dele com os olhos no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou chorando a escrava que a criara, e lhe criara os filhos. Era uma amiga. Lançou-se nos braços dela, sufocando os soluços.

Luiz da Cunha saíra.

—Não se deixe morrer, minha senhora—disse a escrava.

—Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para eles e... é preciso fugirmos, Genoveva.

—Fugirmos!

—Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.

—Como há de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguém...

—Pela manhã hás de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil em Vienna. Vou escrevê-la. Se vires entrar esse homem, avisa-me...

A carta para o ministro brasileiro seguira o seu destino. D. Marianna, se pudesse reavê-la uma hora depois, sustaria o seu desesperado projeto de fuga. A infeliz iludira-se. O coração desta mulher não deixara sair o amor pelas feridas das incessantes punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um ano antes, imaginara-o ela sob a influencia de algum diabólico prestígio da dançarina. Não podia conceber semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa tolerância que ele lhe oferecera! Amava-o ainda.

Mas ele não a deixava muito tempo iludida. O seu proceder parecia um propósito para desenganá-la. Indiferença, desprezo, e até abandono de dias inteiros, seguiram-se ao último diálogo que lhe ouvimos. Já não rebuçava a afronta, nem pretextava saídas. À hora do dia, embalava-se com Carlota nas gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba impudência, ao lado dela, ao fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.

Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga, como taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem lhe espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Caíra extenuada de sofrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o tempo necessário para calçar umas luvas, quando saía de manhã para vir, se vinha, jantar à noite. Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e para isso lhe vestira um jóquei que a acompanhasse, e lhe dera plena liberdade de gozar, na sua ausência, não só os prazeres do límpido céu, mas os da terra que valiam bem a pena de sair dos amuos que a molestavam.

Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavéricas da infeliz!

Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevera ao ministro brasileiro, chegou a Veneza o primeiro adido daquela embaixada, e procurou no hotel uma senhora brasileira.

Marianna ergueu-se para recebê-lo, e soube que era ele o encarregado de dispor a sua saída para o Brazil. O adido, em poucas horas, colhera acerca de Luiz da Cunha as precisas informações: assim lho ordenara o ministro para não anuir imprudentemente ao capricho de uma senhora casada. As informações eram muito piores do que a ultrajada esposa fizera saber ao ministro, velho amigo de seu pai, e de seus tios.

Um navio estava prestes a fazer-se à vela para o Rio de Janeiro. Marianna apenas tinha três dias para preparar-se. Na sua situação, três horas seriam de sobejo. O adido devia retirar-se de Veneza, quando o navio tivesse saído. Marianna não hesitou, nem pediu delongas.

Acabava de sair o adido, quando Luiz da Cunha entrou. A brasileira estava chorando.

—Minha amiga—disse Luiz—tinha tenção de jantar contigo; mas, se me dás molho de lágrimas, retiro-me.

—Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não janto hoje.

—Nesse caso, não jantarei só... Como estás?

—Boa.

—Ótimo. Mas essas lágrimas não se esgotam...

—São lágrimas de alegria.

—Ainda bem. Vê se te reanimas para irmos a Milão, na semana próxima.

—Estou reanimada.

—Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Nápoles, et cetera.

—Iremos. Estas viagens regalam-me o coração.

—Estou gostando do teu joco-sério! Vais-me saindo uma pretensiosa faladora.

—Estarei calada, Luiz!

—É melhor.

—Mas, se me não levas a mal, sempre te farei uma pergunta...

—Não há pergunta sem resposta... Venha de lá isso.

—Como se pode ser homem tão cruel?

—Como se pode ser mulher tão impertinente?—respondo, perguntando.

—Não tenho mais que te diga.

—Fala, se tens lá mais alguma pergunta de algibeira.

—Não tenho nenhuma; contudo... se tens paciência, hás de ouvir-me. Eu tenho filhos, de cujo patrimônio sou administradora.

—Já sei.

—Os meus filhos podem pedir-me contas desta administração.

—Não digas mais nada, que eu já te matei a charada no ar. Queres dizer que eu gasto mais do que os rendimentos da tua meação. Dir-te-ei que não consinto que me lances em rosto a minha dependência da tua fortuna. Isso é vil.

—Sou vil, é o que se segue; mas repara, Luiz, que te não lancei em rosto a tua dependência.

—A coisa bem traduzida lá vai dar. Queres despedir-me do comércio de bens?

—Não: o pior é se te despedem...

—Quem?! Que quer isso dizer?...—replicou ele, colérico.

—Nada...

—Minha querida senhora, para não irmos adiante, fiquemos aqui... Até amanhã...

—Até amanhã, Luiz.

No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier não veio a casa. A escrava soube que o marido de sua ama saíra para Peschiera com a francesa, que disse, no hotel, voltaria passados três dias.

O imediato era o dia aprazado para a saída do navio.

O adido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo. Genoveva levou sempre sua ama desfalecida nos braços. Dizia-se a bordo que a pobre passageira parecia morta, e não desmaiada.

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

A Neta do Arcediago

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