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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 9 · A Neta do Arcediago

Herança de virtude e ouro

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Não era possível tirar um sorriso dos lábios de Assucena. Muito era já evitar as ocasiões das lágrimas, no primeiro mês da sua convalescença.

A recaída era possível à menor tentação de Luiz da Cunha. E, por isso, os cuidados do cônego eram solícitos em prevenir um bilhete, ou qualquer meio de que o perverso se servisse, em algum momento de caprichoso desejo. Bem sabia Bernabé Trigoso que Luiz da Cunha existia, quase invisível, em Lisboa. As informações eram-lhe dadas por um beneficiado da Sé, seu discípulo em virtudes e em ciência, única pessoa, que frequentava sua casa. Para corresponder às recomendações do cônego, o padre Madureira entrara no segredo do viver de Luiz da Cunha. Não o vira nunca no teatro, nem nos cafés, nem no Passeio Público; mas soubera casualmente de um boleeiro que uma sege de praça o ia buscar todas as noites, depois das onze e meia, a Campolide. O padre Madureira, que, em pesquisas, teria sido um hábil agente do santo ofício, indagou da casa em Campolide, e pôde apenas ver-lhe o portão. Era justamente aquela onde, vinte e cinco anos antes, tinha sido assassinada Ricarda, e enterrado seu marido.

O prescrutador alapou-se num casebre fronteiro, e viu que, às onze horas e meia, uma sege parava defronte do portão. O padre estava a pé: era necessário segui-la, e, para isso, desceu da sua dignidade sacerdotal às astucias de gaiato, e sentou-se na taboa. O ímpeto da corrida não dava tempo à desconfiança do sota. A sege parou na rua do Colégio. O padre apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na travessa do Pombal. Depois, seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma casa da rua de S. Bento, reparando na subtileza com que a porta fora aberta e fechada. O padre não era de meias informações. Queria, por força, distinguir à luz azulada da lua o número. Nesta dificultosa empresa, demorara-se, sem atender a um vulto, que desembocara da travessa de Santa Teresa, e caminhava para ele, deixando, alguns passos atrás, dois outros vultos parecidos, pelo capote e chapéu derrubado, com os importantes sicários de qualquer drama em cinco atos.

O primeiro dos três chegou, ombro com ombro, a par do irrefletido Madureira.

—Que quer aqui o senhor?

—Não queria nada—respondeu, retirando-se o observador.

—Não quer nada, e está com os olhos espetados naquela janela! Olé—disse o encapotado para os da retaguarda—Conhecem este homem?

Aproximaram-se os dois, e responderam negativamente.

—Que está você aqui fazendo?—tornou carrancudo, com voz de tirano, sem descobrir a cara, o interruptor de uma analise inocente.

—Responda!—recalcitrou um dos dois—quando não meto-lhe quatro polegadas de ferro na barriga.

O padre não era conivente na proposta, e evitou o melhor que pôde aceitá-la, explicando deste modo a sua paragem naquele sítio:

—Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa é esta.

—E conhece o sujeito?—perguntou o que tinha certa autoridade, e certa polidez no metal de voz.

—Conheço, sim, senhor, mas só de vista.

—E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?

—Para satisfazer a minha curiosidade.

—Pois, se está satisfeita, retire-se.

Madureira estava satisfeitíssimo até com o inesperado desenlace.

Ainda assim, mudou de propósito, quando ouviu três pancadas na mesma porta onde entrara Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa Nova, e esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrara: dois foram postar-se na travessa de Santa Teresa. Vinte minutos depois, vira sair um vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre ele os outros dois, ouviu gritos de socorro, e divisou um corpo cambaleando até cair. Duas patrulhas correram ao local do grito. Madureira confiou nas garantias da guarda cívica, e aventurou-se a tirar a última conclusão dos seus princípios. Foi, e viu, nos braços dos soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que lhe transudava do colete branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo menos: uma no peito, e outra no pescoço.

—O senhor viu como isto foi?—perguntou um soldado ao padre.

—Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.

—Conhece este homem?

—Nada, não conheço.

—Quem é o senhor?—perguntaram a Luiz da Cunha, que saíra do torpor em que o deixara o abalo.

—Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.

—Olha que firma!—murmurou um soldado para o seu companheiro de patrulha—Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o murro com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! Desta vez parece que topou com a forma do seu pé...

Luiz da Cunha foi conduzido por dois galegos do chafariz, apenados por cabos de polícia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa de seu pai.

Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias, correu à rua do Príncipe, onde expôs na melhor ordem as aventuras da noite; só não soube dizer que o vulto, que o acometera, e desempalara o furão da casa de Liberata, fora o conselheiro Costa e Almeida, que não era tão excelente criatura como a sua amante o imaginava.

Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais dentro o que ele não viu, nem saberá contar ao espantado cônego, e à espavorida Perpetua.

O conselheiro fora avisado por cartas da infidelidade de Liberata. À primeira não deu crédito. À segunda deu algum, porque lhe marcava a hora da entrada. Viu com os seus próprios olhos, porque a sua dúvida era tal, e tamanha como o pleonasmo da frase. Depois que o viu entrar, quis bater à porta; mas faltou-lhe o ânimo na conjetura de ter de encontrar-se com o rival. Na segunda noite, sem inspirar desconfianças a Liberata, entrou armado, fortalecido pelo ciúme. Procurou-o em todos os cantos, com finura e resolução, e não o viu. No dia seguinte, recebe a terceira anonima: dizem-lhe que o concorrente saía quando ele entrava. Preparou-se. Chamou dois criados, e deu-lhe instruções, que eles desempenharam de um modo que não deixou nada a desejar, porque o julgaram morto, e as instruções eram assim pontualmente executadas.

Liberata ouvira os gritos de socorro, quando o conselheiro parecia querer distraí-la vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno, significou-lhe a catástrofe. A enfurecida amante de Luiz veio à janela, e perguntou a um grupo de soldados e cabos de polícia o que acontecera. Responderam-lhe que fora ali apunhalado um rapaz de boa família do Campo Grande. Liberata voltou para dentro, entrou no seu quarto, correu desfigurada com um punhal à sala, onde passeava o conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que ele amparou no braço.

—Já fora de minha casa—bradou ela—quando não grito aqui-de el-rei contra um ladrão, contra um assassino!

—Cale-se, que eu retiro-me.

—Já sû assassino! amanhã hei de publicar o seu nome nos jornais, como matador de Luiz da Cunha, se ele morrer. Fora de minha casa, patife!

O oficial maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da língua que do punhal.

Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso para o Campo Grande! Encontrou defronte do palácio do conde das Galveas a cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com frenesi; fê-lo entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um médico; deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa com o filho de Ricarda desfalecido nos braços, pela perda de sangue, que ela em vão quisera estancar com os lenços, e até com as meias de sedã branca, servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.

O médico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortais. Luiz da Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mês depois dava um passeio de sege, ao escurecer, a par da sua estremecida amiga.

As indagações da polícia aclararam todo este mistério. O conselheiro não foi poupado à irrisão pública, e a dedicação de Liberata era celebrada como um heroísmo incompatível com tal mulher. Alguns literatos prometiam um drama em três atos sobre bases tão dramáticas. Outros escreviam poesias em versos grandes intercalados de pequeno, sem que se prometia a reabilitação de todas as Liberatas. E com isto, os pobres rapazes, se fizeram algum mal, foi a eles, porque, desde esse dia, até no Bairro Alto procuraram vítimas a salvar do abismo, e saíram de lá espancados por algum marujo, que entendia melhor de fado e vinho, que de regeneração e amor, e elas também, pelos modos.


Bernabé Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante à indiferença. Eram passados quatro meses, depois da sua queda. A infeliz erguia-se sem sensibilidade: parece que perdera, com a esperança, a memória do passado. Ainda assim, Bernabé não se atinha às aparências. Era necessário sondá-la.

Falou-lhe em Luiz da Cunha como incidente numa conversação sobre o seu passado no colégio. Assucena pedira-lhe que não falasse em tal homem. Replicara o cônego, perguntando-lhe se lhe seria então indiferente a vida ou a morte de Luiz.

—Antes quero que viva.

—Porque o ama ainda?

—Porque me queria vingar...

—Vingar-se!...

—Sim... vingar-me pelo remorso... É impossível que ele não venha a senti-lo...

—Isso é do coração?

—Do coração, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje ódio a esse homem, porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por ele, depois de me perder... Minha mãe que devera desprezar-me, ama-me... V. s.ª, e sua irmã adoram-me como se eu fosse desta casa... Só ele!... é ele o que me esquece... o que me deixou, desamparada!...

—Desamparada?... E Deus não a acolheu?

—E sabe ele se eu a estas horas peço uma esmola!

—Não... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a última aventura desse homem?

—Não... não me importa... Onde está ele?

—Em Lisboa.

—Em Lisboa?! Não me disseram que fora para o Brazil?!

—Quando foi conveniente dizer-lho. Hoje pode saber que Luiz da Cunha vive em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a única mulher digna dele...

—Cale-se, por piedade, meu amigo...—interrompeu ela.

—Pois que? Não me disse que lhe era indiferente...

—Basta-me o ódio que tenho no coração... Não posso com mais...

—Ódio é muitas vezes demasiada importância ao que é somente desprezível. Eu quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para perdoar-lhe no seu coração, conversando com Deus, se os infortúnios desse homem forem tais, que possam atribuir-se a expiação do crime em que Assucena foi a primeira vítima.

—Perdoar-lhe... eu!

—Não gosto dessa exaltação de cólera, filha. Em quanto ela existir, não está cauterizada a ferida. Eu vou experimentá-la.

Bernabé Trigoso contou as cenas observadas por Madureira, e as outras colhidas de informações que eram já do domínio público. Assucena escutou-as com atenção. A arte valeu-lhe muito. Manteve silenciosa impassibilidade, quando o cônego esperava alguma comoção. Mas, apenas livre das vigilâncias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O seu sofrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dores: ódio, amor, ciúme, saudade, desesperação, consciência da sua queda nos braços de tal homem, a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!

O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o cônego lhe dava despertando-lhe o gosto pela música, pela pintura, prendas em que se distinguira no colégio; e, de mais, a enraizada afeição com que pagava pequena parte da amizade que lhe dava esta família, considerada a sua, pareciam torná-la indiferente às reminiscências, se elas existiam, das suas passadas desventuras.

Assim correram dez meses, que eu deixo passar sem analise, porque em poucas linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperara, se não um resto de contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um ar de saúde, que os médicos lhe não prometiam. O visconde, preocupado com a alta e baixa de fundos, esqueceu a afronta recebida nos Paulistas, e nunca perguntou o destino de Assucena. Luiz da Cunha de quem no próximo capítulo falarei mais de vagar, vivia com Liberata. João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao menos três partes do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa coisas ininteligíveis.

Ao cabo de dez meses Bernabé Trigoso adoeceu, e profetizou a sua morte, antes que os médicos lha mostrassem numa das pontas do fatal dilema.

O seu primeiro ato foi um testamento verbal, dito a sua irmã, fechando-se com ela em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves, tranquilos, e auxiliados de todos os socorros espirituais. A viscondessa de Bacellar ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito. Assucena, sempre ao lado do enfermo, não podia chorar na presença dele, porque o venerando velho dava visíveis sinais de que lhe era custosa a morte, se via lágrimas inúteis nas faces da que ele chamava a sua coroa de triunfo sobre os vícios da terra. A filha de Rosa Guilhermina só acreditou na perda do seu benfeitor, quando o moribundo apertou entre as suas, quase frias, as mãos de Perpetua e as dela, dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos sobre tudo que lhe era caro, fechando os lábios com a palavra «Deus» e aceitando, já no limiar da eternidade, convertidas em flores, as lágrimas, que enxugara aos seus irmãos de exílio.


O cônego Bernabé Trigoso passava por pobre, atendendo à sua velha chimarra, às suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado tricorne. O seu espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança de seu pai, de seus avós, tesouro até preciosíssimo para a numismática, pela variedade de moedas de prata e ouro desde D. Affonso III.

D. Perpetua não tocou nessa caixa quadrada, com dimensões bastantes para conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ela. Mostrou-a, sem abri-la, dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu patrimônio está aqui, minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é a dona. Meu bom irmão não teve ânimo para lhe dar os seus últimos conselhos. Já morreu, já lá está na presença de Deus; mas ele vê e ouve o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem cedo vou ter com ele. Tenho sonhado todas as noites, que meu irmão me chama para si... É tempo de cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, Assucena será também minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui nascida e criada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus chamar a contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva nessa quinta, que fuja desta terra donde vai fugindo a religião e o temor dos juízos divinos. Tome como diretor da sua vida o padre Madureira, que aprendeu a ser virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a menina há de entrar na casa de sua mãe, e então estará livre de todas as perfídias do mundo; mas, em quanto o não fizer, viva recolhida com a sua boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus desgostos, dando-se ao prazer de dar esmolas sem ostentação, que foi sempre a constante virtude do santo, que Deus nos levou para a corte celestial. Há quase um ano que vive nesta casa: já agora há de fechar os olhos às duas pessoas, que mais lhe quiseram, e que a deixam no mundo a pedir ao Senhor pelas suas almas. Nunca se há de esquecer dos seus amigos, porque meu irmão está no céu pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo nosso anjo.»

A singela prática acabou por lágrimas, que a interromperam.

Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicável efeito de uma causa superior ao entendimento.

Como o seu desejo era morrer onde nascera, a irmã do cônego mudou para o Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.

D. Perpetua Trigoso, durante dois meses, foi exemplar em obras de caridade, como se devesse ser essa a última lição de Assucena.

Setenta e tantos anos, com todos os achaques de velhice, explicam a rápida consumpção que, nesses dois meses, convenceu Perpetua de que em verdade seu irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com sintomas ainda de vitalidade para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao padre Madureira. E fechou o ciclo das suas virtudes, convidando a sua atribulada amiga a presenciar a morte de uma mulher sem a consciência de uma injustiça. Só ela conheceu o seu fim, como se o anjo da bem-aventurança lho segredasse. Morreu, abençoando Assucena, e passando-lhe às mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto pela aridez cadavérica.


Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão desvalida. Não sabia a significação enciclopédica da palavra «dinheiro.»

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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