Universo da obra
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E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartório de escrivão do juízo ordinário no concelho de Ribeira de Pena. É escusado dizer-vos que Liberata o acompanhara, e, ao décimo dia de convivência com Luiz da Cunha, eram visíveis os melhoramentos naquela fisionomia macerada. Passado um mês, raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas cor de açafrão, uns longes da descomposta formosura. Luiz tinha soberba de poder tanto no espírito daquela mulher, única no mundo para ele, única pessoa que o não repelira, que se confiara à sua vontade, entregando-se-lhe sem condições.
O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociais, revoca as potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da única pessoa que o não abomina. Há exemplos de afeições ferventes do salteador de estrada para a mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia o dia do patíbulo, do assassino por ofício para a mulher que a chorar lhe dá esperanças de perdão. O instinto do sangue não adultera o da sociabilidade. A ânsia de uma afeição recresce, quando o opróbrio vem de todas as bocas pedir o exílio do execrado de entre os homens.
Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não há hipocrisia no afã com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Sucedem-se os dias sem um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno, sem outra convivência, encontrá-los sentados ao fogão, contando-se mutuamente lances de duas biografias, que muitas vezes são saudadas com estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo atoleiro, é necessário que aí se amem, que aí se reconheçam, aí se centralizem na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o outro, de infâmias passadas.
Reconheceram-se, e amaram-se.
Pois não seria amor a sofreguidão daqueles beijos? Não seria amor a ansiedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais, nos paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha falava de sua esposa aos cavalheiros da terra?
Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviais rudimentos dos processos judiciários. Valera-se de um velho amanuense que tomara sobre si a administração do cartório. Entretanto, o proprietário não curava de estudar, e cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos, que eram poucos.
Luiz da Cunha conhecera um contrabandista de Chaves, que lhe picara o desejo de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se opunha ao arbítrio do seu amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso contrabandista aventurara os seus capitais, e outros contraídos de empréstimo em arrojadas empresas.
—Se a fortuna não encravar a roda—dizia ele a Liberata—em dois anos, iremos viver em Paris.
E, com efeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus caprichos. O escrivão não curava do ofício, e raras vezes pedia contas ao regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no concelho, ninguém zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia das melhores sedãs os arredores por preços módicos, e enviava para o Porto e Braga valiosas carregações. No fim de dois anos, o contrabandista celebrava os anos de Liberata com um rico adereço comprado em Madrid, e adiava a sua saída de Portugal por mais um ano, visto que não achava doze contos dinheiro suficiente para de Paris meter, em grande, o contrabando em Portugal.
Tentara uma arriscadíssima entrada de sedãs, quando os guardas fiscais, logrados sempre, velavam as fronteiras desde Monção a Verim. Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o contrabandista preso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que possuía. Liberata foi a Chaves com o precioso pecúlio a salvar o amante. Choraram, abraçando-se no cárcere? Não. A antiga amante do conselheiro dizia a Luiz, sorrindo:
—Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mês seis anos que eu te fui buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que nos dê a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito amor para prato de meio.
As autoridades queixaram-se ao governo, alegando que o funcionário público João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornais de Lisboa reproduziram a acusação. Ia ser demitido, quando o ministro se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma história de uns quatrocentos mil reis...
O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o galhardamente nas empresas. Montava com varonil perfeição. Grudava um bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a perna em brunida bota de água um bacamarte, e lançava com um piparote para a nuca o chapéu sevilhano.
—Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze anos!—dizia o filho de Ricarda.
Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprara a liberdade dois anos antes. Resolvera dar o último assalto à vigilância dos guardas. Eram doze cargas de panos de alto preço, que podiam aumentar seis mil cruzados ao seu pecúlio. Deviam entrar por Almeida.
Luiz da Cunha apresentou-se aí com a corajosa Liberata. As cargas pisaram algumas milhas de território português, quando os guardas a cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram os bacamartes, com o contrabandista à frente. Liberata não se afastara de ao pé do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Aumentaram os guardas. As cargas foram tomadas; dois almocreves morreram. Luiz da Cunha fugiu, e a destemida cavaleira, com a clavina despejada, esporeava ao lado dele.
—Estás salvo—disse ela—mas eu estou ferida.
—Ferida! aonde?
—No peito... e creio que morrerei!
—Não digas tal... Apeia-te.
—Não, que ouço ainda o tropel de cavalos. Quero que te salves... Se eu cair, não me levantes, que me não dás vida.
Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavalos nas extensas veigas de Pinhel.
—Apeemos—disse Luiz.
—Pois sim... Estou quase morta, Luiz... Desaperta-me este colete... Vês?
—Vejo sangue...
—É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remédio...
—Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.
—Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.
—Isto é atroz!... Não te posso salvar!...
—Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas contas estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quis defender-te da morte do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres virtuosas... raras são as que assim morrem... Se me não encontrasses perdida de todo, não poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos, Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu coração... Como é bom morrer-se com o perfeito juízo para se conhecer a pessoa que se deixa... com tanta saudade.. Que dor!... o pior é deixar-te pobre... e... só... no mundo.
Liberata expirou.
As primeiras e últimas lágrimas de Luiz da Cunha caíram sobre as faces mortas dessa mulher......
São quatro horas da madrugada.
Bateram à porta do pároco da matriz de Pinhel. O padre vem à janela e vê um vulto disforme na escuridão.
—Quem é?
—Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder enterrar o cadáver de um seu companheiro de jornada, morto de repente.
—Eu não concedo que se enterre ninguém sem ordem da autoridade civil. Não conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e depois falaremos.
O compassivo pastor deu-lhe com a janela na cara, e retirou-se instado por uma voz roufenha de mulher que lhe recomendava carinhosamente que se não constipasse, que estava suado.
Era saber muito!
Luiz da Cunha pousou o cadáver na parede do adro. Ouviu passos. Eram jornaleiros que saiam para o trabalho. Chamou dois com promessa de boa paga. Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o cadáver. Beijou-o na face. Assistiu ao enterro. Pagou aos operários, e montou o cavalo de Liberata, que farejava o sangue de sua dona.
—Ainda me não venceste, demônio!—Hei de vingar-me da sociedade que me quebrou o último amparo! Hei de vingar-te, Liberata!
Era um como rugido facinoroso esta exclamação.
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