Universo da obra
Universo da obra
Navegando contra a corrente do Lima—o rio das saudades e dos pavores da mitologia—vereis, a meia légua distante de Viana, na margem direita, uma casa apalaçada, em parte cantaria que os séculos denegriram, em parte edificação moderna, caiada, tingida, variegada, coisa sem graça, sem poesia, que toda lhe tira a majestosa e veneranda avó, ali à beira, com o seu toucado de ameias e Colares de embrincadas laçarias.
Da margem do rio ao edifício conduz uma vereda relvosa ladeada de álamos, cilindras, hidranjas, e outras árvores e arbustos, que ensombram a convidativa álea. Lá no topo entrevedes um chafariz, rodeado de bancos de pedra, e abobadado por um pavilhão de chorões,
cujos troncos a mão do tempo torneou e retorceu em caprichosos feitios.
Se mandais parar o barquinho diante desse obscuro alcáçar das esquecidas musas do idílio, desse manancial dos gratos devaneios, ao abrir de uma manhã de agosto, ou ao entardecer de um dia da estação do outono—a mais amável do Minho—aí ficareis como arrobados, sentindo sem saber o que, desejando sem dar limites ao desejo, aspirando a enlevos que vos não parecem da terra, nem os sabereis dizer, se cuidais que vos transportam ao céu. O que vedes, se sabeis copiar a natureza na tela, no verso, ou na prosa, podereis conseguir que nós também o vejamos em sombra; o sentir, porém, que semelhante espetáculo, a tal hora, vos sugere, sede embora Rafael, Fénélon, ou Delille, que não lograreis verter em nossas almas a poesia das vossas. Folheai o livrinho, todo mimo e deleite, do poeta Bernardes, sentido e escrito ali em aquelas margens; cuidareis ver nele as harmonias que vos soam ao coração em descompassadas notas; e, melancolicamente, abrireis mão das maviosas poesias, que dizem menos que o sussurro da veia límpida na flutuante frança do salgueiro, ou o regorgeio do rouxinol, que vos fugiu da margem, para de longe vos estar conversando com o espírito alheado. Nos versos e nas poéticas prosas do mais canoro bardo do Minho[1], se vos deparam relanços de delicado sentimento, doçuras
campesinas, que todas recendem os aromas daqueles relvados e arvoredos. No mavioso romance doutro cantor e prosador sentimental do jardim desta formosa terra[2], lá inspirado, lá haurido no mel de tantas colmeias, nem aí achais senão o bosquejo das visões que adentraram vosso ânimo, e de vós se apartam, mal vos embaralhais com homens vascolejados em negócios da vida real. Não há coração que sustenha em si poesia, quando cuidados o empegam no comum esterquilínio, onde todos, uns mais que outros, nos rebalçamos, embora à luz do sol das praças, e à luz das serpentinas das salas, as imundícies brilhem como ouro, ou alvejem como arminhos.
Não há, pois, dizer o que sente cada um, ao abrir da manhã, ou descair da tarde, se ali parou e contemplou do seu barquinho a avenida arborizada, o repuxo com seu dossel de ramagem, e as cornijas denticuladas da vetusta metade do edifício.
Se por lá derivasseis, ao fim de uma tarde de agosto de 1844, e o rumorejo da corrente vos não houvesse entorpecido a vida exterior, veríeis, ao cimo da avenida, em um dos bancos circumpostos à fonte, uma senhora reclinada com o descuido de quem se crê sozinha, sobre um respaldo de mássico, que brandamente se amolentava, para, a prazer da solitária cismadora, se lhe modular às formas gentis.
A seu lado estava uma carta de muitas páginas, sobre a qual ela assentava a mão descaída em langoroso quebranto. O que certamente não veríeis eram as lágrimas, que umedeciam a carta, e outras que desciam nas faces, e paravam aos cantos dos lábios, como se aí esperassem que um sorriso de esperança outra vez as embebesse no coração.
De veras creio que o meu leitor aí se ficaria enquanto o vestido branco da formosa visão se estremasse da escuridade das árvores; quando, porém, a noite lhe fechasse o encanto de olhos, o leitor ir-se-ia, rio-abaixo, cismando um pouco na solitária criatura, amante das noites belas; e, chegando a Viana, escassamente se lembraria de tê-la visto, e só, a muito propósito, perguntaria quem fosse a mulher da pitoresca vivenda do Minho.
Tivesse eu a honra de ser a pessoa interrogada, e responderia com o seguinte capítulo, se o leitor me desse ares de sua complacência em ouvi-lo.
Notas:
[1] O Sr.. Antônio Pereira da Cunha.
[2] O Sr.. José Barbosa e Silva, autor do romance==Viver para sofrer.
Leia gratuitamente Estrelas Propícias, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público publicado em 1863. Esta edição Literunico preserva os 20 capítulos, a conclusão, o epílogo e as notas da fonte, com normalização conservadora para PT-BR moderno.
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