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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 2 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo II: O Major e sua chácara

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Agora, meu bravo leitor, não há remédio senão irmos com os estudantes até a chácara do major Damásio. A comitiva é alegre e numerosa; consta de uma troça de sete acadêmicos de anos superiores, todos inteligentes, espirituosos e galhofeiros, e cada qual mais desmiolado. A companhia é excelente, e nos servirá para disfarçar o enfado do caminho através de um dos mais solitários e menos poéticos bairros da antiga Pauliceia.

Transponhamos depressa a ponte sobre o Anhangabaú, triste nome, que bem corresponde ao miserável regato que aí corre, separando a freguesia central da cidade da de Santa Ifigênia. Se o nome é dissonante e lúgubre como o piar do mocho, não o é menos o ribeiro turvo e lodoso, que parece esconder-se envergonhado no fundo de seu imundo leito. Temos de atravessar ainda uma espécie de largo, no meio do qual há um charco, que se intitula Tanque dos Zunegas, fecundo viveiro de rãs e sapos de toda a qualidade. Mais uma esporada ou uma chicotada em nossas cavalgaduras, e teremos deixado atrás esse arrabalde formado de quintais sem dono, cercados de taipas velhas e arruinadas, e abandonadas às formigas e aos tatus.

Depois de termos saído da cidade e andado cerca de dois quilômetros pela estrada que conduz à freguesia de N. S. do Ó, caminho insípido entre áridos rincões entremeados de moitas de mato rasteiro, entremos por uma vereda à direita, procurando as margens do Tietê. É o caminho que leva à chácara do major Damásio.

Apenas se tem avançado uns quinhentos metros por entre matagais, abre-se subitamente um largo horizonte, onde a vista, até ali encarcerada entre estéreis e tristonhas charnecas, expande-se livremente pelas extensas e risonhas lesírias alagadas pelos transbordamentos do Tietê, campeando ao longe no fundo do vasto painel o imenso cordão da serra da Cantareira.

Na falda de uma colina, que se eleva sobre esses grandes vargedos alagadiços, está situada a chácara do major, com sua casa térrea, mas bonita, alegre e asseada. Por detrás dela se estende o vasto pomar de jabuticabeiras, laranjeiras, bananais, enfim uma floresta profunda de árvores frutíferas indígenas e exóticas, que vai terminar na orla dos vargedos, sendo deles separada por uma sebe de espessos espinheiros.

Apenas avistaram a casa, os estudantes, dando gritos de alegria e agitando os lenços brancos, puseram a meio galope suas magras cavalgaduras pelo suave lançante que descia para lá. Um negrinho de libré agaloada veio depressa abrir a cancela de madeira oleada, dando entrada para um pátio, que fechava a frente da casa, e pelo qual os estudantes entraram de tropel. O major, que já de longe os avistara, esperava-os em pé em um alpendre construído bem no meio da risonha vivenda, servindo-lhe de peristilo, e sustentado por duas colunas de madeira, em volta das quais se enrolavam trepadeiras cobertas de folhagem e flores de diversas formas e matizes. A figura do velho major sobressaía de modo pitoresco e quase poético no seio daquele nicho de verdura e flores. Os estudantes o compararam, um a S. José no presépio de Belém, outros ao deus Pan no seio de sua gruta.

— Entrem, entrem, meus amigos!... — exclamou ele esfregando alegremente as mãos. — Já me tardavam... passa de uma hora... moleque, recolhe os animais destes senhores... Doutor Azevedo, então?... como vai essa flor? já estava receando que me roessem a corda... em estudantes não há muito que fiar.

Estas últimas palavras eram dirigidas ao Azevedo, com quem já tinha antiga familiaridade, e cuja destra apertava afetuosamente entre ambas as mãos.

— Pelo contrário, major: — replicou Azevedo com sua habitual e risonha afabilidade. Estamos afeitos à disciplina acadêmica e somos mais pontuais que os ingleses.

Entretanto os estudantes subiram rapidamente os quatro ou cinco degraus do pequeno alpendre, que mal os podia conter, e portanto o major deu-se pressa em conduzi-los para uma sala de espera imediata, bem clara, fresca e arejada.

— Descansem aqui alguns momentos, — disse-lhes; — enquanto vou mandar vir algum refresco.

Dito isto, retirou-se e os deixou discretamente em liberdade.

Enquanto os estudantes descansam um pouco, tratemos nós de esboçar em traços leves e rápidos o todo moral e material do major Damásio, assim como também de falar em alguns pontos de sua vida passada, bem entendido; porque da futura ficaremos cientes pelo decurso desta história.

Era ele um homem maior de cinquenta anos, de estatura regular, magro, porém de compleição robusta, refeito e espadaúdo. Apesar da idade, tinha os dentes alvos e sãos, e os cabelos ainda negros, luzentes e corredios, como os dos indígenas. Tinha feições regulares e fisionomia agradável, onde todavia ressumbrava por vezes certo ar de feroz desconfiança.

Por este pequeno esboço bem se vê que devia circular-lhe nas veias não pequena dose de sangue tibiriçá.

Era político exaltado, e como compadre e amigo do notável cidadão brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, militara com ardor sob as bandeiras do partido liberal exaltado daquela época. Tomou parte na memoranda revolução de 1842, que conflagrou por alguns meses as províncias de São Paulo e Minas; por essa ocasião assistiu ao famoso combate de Ponche-Verde, no qual consta que se distinguira como tenente de uma companhia, embora diga a história que aí não se disparou um só tiro, não se desembainhou uma espada. Não obstante, foi posteriormente promovido ao posto de major de guardas nacionais, e condecorado com o hábito da rosa. Muladeiro desde os verdes anos, com essa profissão, graças ao amparo e proteção que lhe barateava o compadre Tobias, conseguiu adquirir não pequena fortuna, e posição respeitável na sociedade.

Era viúvo de uma mulher pobre e de baixa extração, que dizem fora mui linda, e com quem se casara por amor. Dizia-se também pela boca pequena que a sogra do major fora cativa, e que a esposa tinha sido libertada na pia batismal.

Não o podemos asseverar, e nem tampouco provar com documentos; mas como este boato muito influi no desenvolvimento da presente história, força é consigná-lo aqui. A mulher do major morrera ainda jovem, deixando ao inconsolável esposo um par de filhos, dos quais o varão morreu em tenra idade.

Na época em que nos achamos, o bravo paulista já havia renunciado à vida ativa e repousava à sombra de seus louros marciais, desfrutando em paz a fortuna que à custa de suores e fadigas havia honrosamente adquirido. Ufano de seus haveres, e inculcando-se parente das mais ilustres e antigas famílias de São Paulo, folgava de relacionar-se com as pessoas altamente colocadas, e não poucas vezes jactava-se da nobre prosápia, a que julgava pertencer, e da justa influência, de que gozava, em razão dos relevantes serviços prestados ao seu partido. Não era contudo um fanfarrão vulgar; sabia guardar as conveniências, e aparentar modéstia, quando lhe teciam elogios à queima-roupa; baixava os olhos, e corava um pouco por baixo da tez bronzeada, embora sorrisse a furto com íntimo contentamento.

Sua filha e sua chácara, porém, absorviam quase toda a sua atenção, constituíam seus principais cuidados, e cumpre notar que ambos mereciam bem esses desvelos. O jardim era notável, não só pela profusão e imensa variedade de flores raras e formosas, que o cobriam, como principalmente pela aprazível posição em que se achava colocado como um belvedere dominando o pomar, por cima do qual a vista se estendia ao longe por vastos horizontes.

Consistia ele em uma área quadrada de cerca de dez metros de face, dividida em canteiros dispostos com arte e agradável simetria. Dois bonitos caramanchões cobertos de trepadeiras ornavam-lhe os ângulos, como dois torreões de verdura e flores.

Era esse jardim como um gigantesco ramalhete, ou como um tabuleiro de flores, onde mal se divisavam as estreitas ruelas que os separavam; tão escondidas se achavam debaixo das ondas de moitas perfumadas e floridas que as abafavam.

Era ali que o major, nas lindas e frescas manhãs, ou nas tardes calmosas e serenas vinha espairecer as vistas, tomar o fresco e respirar o perfume das auras embalsamadas, alardeando nos trajes e no modo de viver certa indolência voluptuosa à moda oriental.

Na ocasião em que o encontramos, traja como de costume um amplo robe de chambre de chita adamascada, e cobre a cabeça com um gorro de seda cor de viola bordado de garridas cores. No pescoço, à guisa de gravata, traz um grande lenço vermelho de pura seda da índia, preso por um alfinete de brilhantes.

Quando ali se achava em seu jardim, ao lado de sua filha, contemplando suas flores e seu vasto pomar, julgava-se tão feliz e poderoso como um sultão nos palácios de Estambul ou de Bagdá.

É quanto basta por agora saber a respeito do major e de sua chácara. Quanto à filha em breve trataremos do esboçar o seu retrato, pois o major não tarda a chegar, e já sabemos quanto o velho paulista é desconfiado. Portanto sobre este particular, por ora, chiton!...

Alguns minutos depois que o major se retirara, entrou um escravo trazendo uma ampla bandeja carregada de copos, facas, colheres, açúcar, limões azedos, e uma garrafa de aguardente, preparos indispensáveis para um ponche frio, e tudo depositou sobre a mesa. Depois retirou-se sem dizer palavra, como quem diz: arranjem-se. Isso mesmo é que os estudantes queriam.

— Vamos, rapaziada, vamos ao ponche! — exclamou o Aurélio levantando-se de um salto do banco em que se achava reclinado.

— Vamos a ele, — acudiu prontamente Belmiro. — Com o calor que faz, nada podia vir mais a propósito.

Imediatamente puseram mãos à obra, prepararam cada um seu copo de ponche, e começaram a saboreá-lo lentamente, exceto o Azevedo, que apenas tomou um cálice de aguardente pura, e acendeu um charuto.

Assim passaram cerca de meia hora, a beber, fumar e conversar, enquanto esperavam pelo major para conduzi-los ao pomar.

— Com mil diabos!... exclamou o Aurélio já impacientado com a demora do dono da casa. — Azevedo, tu que tens mais liberdade na casa, manda dizer ao nosso Anfitrião que nós aqui viemos para passear, percorrer a chácara, admirar a beleza de sua filha, e não para ficarmos encerrados nesta sala a tomar ponche eternamente.

— Tem paciência, — replicou o Azevedo, — o major não pode tardar. Sem dúvida está a dar algumas providências para nosso tratamento, e foi avisar a filha, a fim de que nos seja apresentada de um modo condigno e próprio de sua alta hierarquia.

— Ora essa! — interveio o Belmiro. — Que tenho eu com a chácara, com as jabuticabas, e nem mesmo com a filha do m major? Da minha parte preferia ficar aqui mesmo nesta liberdade a tomar ponche, e, se houvesse um violão, a tocar e cantar...

— Cala-te daí, pateta; — interrompeu o

Azevedo. — É porque não sabes quanto é encantadora a filha do major. Também a mim pouco me importam as jabuticabas; mas dera de bom grado metade de minha vida para passar a outra metade nos braços de Adelaide à sombra da jaboticabal...

— Oh! bravo!... pelo que vejo, há muito que andas apaixonado?

A palestra foi interrompida neste momento pela voz estridente do major, que já de longe vinha bradando no interior da casa.

— Vamos, meus senhores, vamos às frutas, que já vai ficando tarde.

— Prontos, major! prontos! — acudiram todos com entusiasmo.

— E dona Adelaide?..., ainda não nos apareceu!... não vai conosco?... — ousou perguntar o Azevedo.

— Oh! vai sem dúvida; — respondeu o major; — lá está no jardim à nossa espera.

É justo; — replicou galantemente Azevedo: o jardim é o lugar das flores.

Guiados pelo major, os estudantes atravessaram diversos corredores e compartimentos, e passando pela sala de jantar e por perto da cozinha pressentiram com íntima satisfação pela vista e pelo olfato, que à volta do pomar os esperava uma suculenta e opípara refeição. Sem mostrarem todavia prestar atenção a esta circunstância, passaram além, desceram a um espaçoso pátio cheio de galinhas, perus, patos e toda a casta de aves domésticas, e por um largo portão, que o major lhes abriu, fizeram sua entrada no jardim.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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