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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 26 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo VII: Conrado capitalista

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Já que Conrado, que por tanto tempo passava por morto, agora nos aparece de novo vivo, rico e feliz ao menos na aparência, é-nos indispensável dar conta por alto ao leitor de como essa notícia se propagou com caráter de tanta veracidade, e do que sucedeu ao amante de Adelaide, depois que tão ignominiosa e brutalmente foi expelido da casa do major. Conrado saiu de São Paulo com o desespero na alma e a mais pungente dor cravada no coração. Tinha bastante dinheiro para um rapaz solteiro, e achando-se inteiramente isento de dívidas e compromissos, saiu a divagar pelo mundo sem destino certo a ver se pelas distrações da viagem conseguir mitigar a mágoa, que lhe atormentava a existência. Assim andou por espaço de dois anos peregrinando pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas e Bahia, dispendendo a pequena fortuna, que em seis meses o amor lhe fizera adquirir para ir depor aos pés de sua querida Adelaide, mas a despeito de todas as suas tentativas não conseguia esquecer-se da formosa companheira e amiga de sua infância, da apaixonada e extremosa amante, que na mocidade lhe vertera pelos caminhos da vida o perfume do amor e da felicidade. Escreveu-lhe por diversas vezes, esperando sempre uma resposta, que nunca lhe chegou, porque como sabemos Adelaide não recebera nenhuma de suas cartas. No fim de dois anos chegou-lhe às mãos uma carta, não dirigida a ele, que em São Paulo passava por morto, mas a um paulista, então residente no Sincorá, onde Conrado também se achava, na qual entre outras coisas se noticiava o casamento de Adelaide. Este rude e doloroso golpe o prostrou por muito tempo, sua razão esteve a extinguir-se, e sua existência vacilou às bordas da sepultura; seus amigos e mesmo os médicos, que o assistiam, chegaram a desesperar de sua vida. Mas sua juvenil e robusta organização não permitiu que sucumbisse aos sofrimentos físicos e morais, que o atormentavam. Restabeleceu-se se bem que com custo e lentidão, e logo que sentiu-se com o juízo mais firme e a saúde mais vigorosa, começou a pensar no que deveria fazer. O amor de Adelaide não era para ele dali em diante mais do que um túmulo, sobre o qual não deveria derramar nem as lágrimas da compaixão, nem as flores da saudade, mas sim calcá-lo aos pés com ódio e com desprezo. Suas mágoas desde então converteram-se em rancor e desejos de vingança. Protestou do fundo d’alma que tomaria do major Damásio, autor principal dos seus infortúnios a mais solene e cabal vingança; não vingança sanguinosa, Conrado não tinha instintos de ferocidade, mas vingança moral abatendo-lhe o orgulho e esmagando-o debaixo do peso da mais pungente humilhação. Nada lhe era mais fácil; o major em sua vida passada oferecia largas brechas, pelas quais podia ser atacado e abatido até o rés do chão. Para esse fim só lhe era mister agora tornar-se rico o mais que lhe fosse possível. Não possuía dinheiro suficiente para entrar em altas especulações; mas já era muito conhecido e considerado entre os estancieiros de Curitiba, e não lhe faltava crédito, graças ao feliz êxito de seus primeiros negócios.

Entrou de novo na vida de muladeiro, e em poucos anos adquiriu uma fortuna, que naquela época em São Paulo bem se podia dizer colossal. O que o amor outrora lhe fizera alcançar, hoje o obtinha em mais alta escala o desejo de vingança. Achando-se já suficientemente rico para passar vida independente entre os esplendores de luxo e da opulência, deixou a vida fragueira de muladeiro, e veio estabelecer-se na capital da província, onde comprou no centro da cidade um vasto prédio, que ornou e mobiliou com todo o luxo e magnificência. Possuía uma cocheira sempre guarnecida dos mais belos e vigorosos animais, e um formoso e elegante caleche, no qual se apavonava com aristocrático desplante com personagens altamente colocadas, percorrendo as ruas mais públicas da cidade. Com esta ostentação que nem estava em seu caráter lhano e despretensioso, nem se harmonizava com suas ideias eminentemente democráticas tinha somente em vista esmagar a estólida vaidade do major, ao qual pretendia não só humilhar, como também expor ao último ridículo perante a sociedade paulistana. Três ou quatro vezes mais rico do que ele, conhecendo a baixa linhagem de que procedia o seu velho ex-patrão e sabedor de todas as suas manias e de seus precedentes, Conrado jogava com inquestionável superioridade, e o capataz outrora achincalhado e expelido podia agora calcar aos pés a filáucia ridícula e imbecil de seu antigo patrão. Todavia as vingativas intenções, com que chegara a São Paulo, esmoreceram e esfriaram completamente com as informações que teve logo depois da sua chegada. Só então soube que há muito tempo passava por morto. Este boato, que correra em São Paulo e fora geralmente acreditado, tivera por origem o fato de ter realmente morrido no Sincorá um outro negociante do mesmo nome e da mesma província que Conrado, e tendo chegado essa notícia a São Paulo, onde o outro era desconhecido, todos facilmente acreditaram que o falecido era o amante de Adelaide. O major Damásio foi o mais empenhado em propalar esta notícia, que muito estimou, fingindo até ter recebido cartas que confirmavam, pois ele até seria capaz de inventá-la só para destruir as esperanças que sua filha por ventura ainda nutrisse a respeito do capataz. O tempo, os trabalhos e os sofrimentos não tinham podido extinguir de todo no coração de Conrado aquele amor profundo e ardente, que concebera por aquela que fora o enlêvo de seus primeiros anos, e o sonho inebriante de sua mocidade, amor de que conservava ainda amarga e saudosa recordação. Ao saber em São Paulo que Adelaide fora iludida como todos, acreditando em sua morte, que não de muito bom grado consentira em se casar, e que como esposa e mãe tinha tido sempre uma vida honesta e exemplar, teve dobrado motivo para lastimar sua sorte por ter perdido aquele anjo que o céu lhe havia destinado, e que a estólida vaidade de um pai insensato lhe havia roubado para sempre. Desvaneceu-se de todo o despeito, que conservava contra Adelaide, perdoou-lhe de todo o seu coração, mas sua animosidade contra o major por isso mesmo mais recrudesceu, e se o poupou, e não levou sua vingança ao extremo que desejava, foi em atenção à estima e consideração que lhe merecia a filha. A única e ligeira vingança, de que usava, era quando repoltreado em seu lindo caleche em companhia de pessoas de alta consideração, se por acaso encontrava pelas ruas o major, o saudava com a ponta dos dedos, dizendo-lhe com zombeteira familiaridade: — Adeus, major; como vai essa bizarria! — O major horrorizava-se como se tivesse visto o diabo, enterrava ainda mais o chapéu na cabeça, e seguia seu caminho a tossir, escarrar e resmungar, com o que muito Conrado se divertia. Conrado era capitalista; não tinha armazém, nem loja; sua fortuna girava produtivamente, sem que suas mãos morenas e musculosas, mas delicadas, precisassem descalçar a luva para pegar no côvado. Era correspondente de grande número de estudantes, com os quais entretinha relações de amizade. Os estudantes o estimavam e frequentavam, não só por suas belas qualidades, como também porque Conrado através das vicissitudes de sua vida agitada soubera cultivar seu espírito, amava a leitura e apreciava a sociedade dos literatos. Muitos e vantajosos casamentos se lhe tinham oferecido; mas a todos ele se havia esquivado; a triste recordação de seu primeiro amor tão mal-aventurado o fazia recuar ante a ideia do casamento. Achava-se ele pois nesta brilhante e invejável situação, quando se deram os fatos, que temos referido, e que vieram de novo pô-lo em contato, ainda que em condições bem diferentes, com a família do major, com a qual suas relações há mais de doze anos achavam-se quebradas. Na tarde pois desse mesmo dia, em que Lucinda teve com sua senhora a conversação, de que demos conta no capítulo antecedente, a velha escrava foi bater à porta do aristocrático prédio em que Conrado residia. Era já sol posto, e felizmente para Lucinda, achava-se Conrado sozinho em seu salão de visitas, donde ainda há pouco se tinham retirado alguns ilustres personagens. Estava ele nessa ocasião meio reclinado em um sofá, justamente embebido em ternas e dolorosas recordações dos amores de sua mocidade, da sua querida Adelaide, aos pés da qual com quanto prazer não teria deposto toda aquela riqueza e opulência, de que gozava, se uma estrela funesta não tivesse vindo perturbar o seu destino, e entenebrecer para sempre os horizontes de sua vida!... Quando um criado veio anunciar-lhe que uma preta velha o vinha procurar e desejava como um grande favor falar-lhe em particular. Conrado que era benfazejo e esmoler, julgou que seria alguma desgraçada, como tantas outras, a quem costumava fazer generosas esmolas. Quando porém depois de a ter feito entrar no salão, reconheceu a velha escrava do major, sentiu um choque inexplicável.

— Oh! és tu, Lucinda! — exclamou com surpresa e emoção. — Tu em minha casa! é uma grande novidade. Há mais de doze anos que não falo com pessoa alguma de tua casa, à exceção do teu belo senhor, a quem às vezes cumprimento, quando o encontro na rua.

— É mesmo, nhô Conrado, é mesmo uma grande novidade, que hoje me traz à sua casa.

— Deveras! deve ser mesmo assim, pois já vão para seis anos, que moro aqui em São Paulo, e é a primeira vez que vens à minha casa.

— Podia e devia ter vindo há mais tempo se há mais tempo tivesse sabido da grande novidade, que hoje me traz aqui; mas só ontem é que vim a saber.

— Enches-me de curiosidade, Lucinda; senta-te aí numa cadeira e vamos à tua novidade. És uma excelente rapariga, e estou certo que por tua vontade só eu não teria sofrido o que sofri em casa de teu senhor. Mas antes de tudo, dize-me, como vai tua senhora? goza saúde, e vive satisfeita?

— Ela vai indo bem, louvado seja Deus. Mecê ainda se lembra d’ela?

— Como não, Lucinda? replicou Conrado algum tanto desconfiado da pergunta; — lembro-me sempre dela e com muita saudade, mas com amor não; bem vês que isso hoje é impossível.

— Mecê não me entende; eu queria saber se não ficou querendo mal a ela pelo que aconteceu.

— Por ela ter-se casado?

— Senhor, sim.

— A dizer-te a verdade, Lucinda, a princípio fiquei com bastante ódio dela, porque não sabia das tramóias, que por cá se armaram dando-me por morto. Mas depois que soube de tudo, perdoei-lhe do fundo d’alma, e só fiquei com um grande pesar, que há de durar sempre em meu coração, e um grande ódio e rancor, que também nunca se há de extinguir, contra teu senhor, que foi o único causador de toda nossa desgraça.

— Mecê tem toda a razão, nhô Conrado; meu sinhô velho é homem que não tem coração. Como mecês dois se queriam bem desde criança, ah! meu Deus! nunca vi um amor assim. Se ao menos sinhá Adelaide lhe tivesse dado uma filhinha. como mecê havia de querer bem a ela!...

— Que lembrança é essa, Lucinda! — atalhou Conrado atônito e estremecendo ao ouvir tais palavras. — Que queres dizer com isso?... mas bem vês que isso era impossível.

— Mas faça de conta, — insistiu a preta com certo sorriso, que fez cismar a Conrado; se assim acontecesse... se um filho ou uma filha...

— Oh! se assim fosse, seria para mim uma grande consolação, a única talvez, que poderia mitigar a dor profunda, que sempre me acompanhará por ter perdido Adelaide. Tu tens razão, eu sou como o viúvo que perdeu a esposa idolatrada ainda na flor dos anos, sem que de sua união ficasse um fruto, em que empregasse os extremos de seu coração. Olha, Lucinda, — continuou ele abrindo um cofrezinho e tirando dele um papel, que embrulhava um pequeno ramalhete de flores murchas, que estavam quase pulverizadas. — Vês estas flores murchas? já nem se sabe o que são. Foi ela, que mas deu no jardim da chácara um dia, em que declarou-me francamente o seu amor. No dia em que eu soube do casamento de Adelaide, quis deitar fora estas flores; mas não tive ânimo, parecia que o meu coração adivinhava que ela era inocente. É, tudo que resta de nosso antigo amor; são estas flores murchas e poídas, fiel emblema de minhas ilusões perdidas, de minhas esperanças esmagadas pelas mãos do destino. Se eu conservo com tanto amor e tão religioso cuidado estas relíquias mortas de nossa afeição. de que extremos, de que adorações não rodearia o fruto vivo e animado de nosso amor!... Mas Deus assim não permitiu, nem isso era possível... Conrado interrompeu-se; a emoção, que se apoderava de sua alma com aquelas recordações, provocavam-lhe as lágrimas. Pousou a fronte sobre a almofada do sofá, e escondeu o rosto entre as mãos procurando dominar sua perturbação. Lucinda o contemplava com ar satisfeito e enternecido, e não quis perturbá-lo em sua passageira cisma; as coisas corriam do modo o mais propício para o intento, que ali a trouxera.

— Mas dize-me, Lucinda, — disse bruscamente Conrado, levantando a cabeça da almofada, — a que propósito te veio essa lembrança de um filho meu e de Adelaide, de uma coisa impossível?

— Impossível!... Ah! meu branco, perdão, eu sei de tudo.

— De quê, Lucinda? — exclamou o moço impacientando-se.

— Não se zangue com sua preta, nhô Conrado, disse Lucinda abafando a voz e com ar suplicante. — Eu sei de tudo o que mecê sabe, e de mais alguma coisa, que mecê ainda não sabe.

— Matas-me a paciência!... fala de uma vez, Lucinda.

— Pois bem, eu vou falar bem claro. Sinhá Adelaide teve uma filha, que nasceu poucos meses depois que mecê desapareceu de São Paulo.

— Que estás dizendo, Lucinda! — gritou Conrado levantando-se de um salto, e colocando-se defronte da preta arquejante e pálido de surpresa e emoção. — Adelaide teve uma filha... de mim?

— Pois de quem mais, nhô Conrado?...

— E é viva ainda?

— É sim, senhor.

— E onde está ela?

— Lá em casa.

— Em casa de quem?

— De meu senhor; com sinhá Adelaide.

— Santo Deus!... como pode ser isto!... minha filha, se a tenho, deve estar já entrada em quatorze anos; entretanto há mais de cinco anos, que moro aqui São Paulo, nunca me constou que em casa do major existisse essa menina. Oh! porque não me contaram isso há mais tempo?...

— Ah! meu senhor moço! quer mecê creia, quer não creia, é porque nós também não ficamos sabendo de tal coisa, senão de ontem para hoje, e há apenas um mês que a menina está lá em casa. E saiba mais uma coisa, que lhe vai doer bastante no coração, mas tenha paciência, é preciso que saiba de tudo para poder valer à sua filha. Saiba que sua filha foi para lá como escrava, e como escrava lá está até agora.

— Como escrava!... minha filha como escrava! e em casa de sua própria mãe!... tu estás zombando comigo, Lucinda! explica-me isso já, se não queres me pôr doido.

— Tenha paciência, nhô Conrado; sente-se outra vez no seu canapé, sossegue seu coração, que eu lhe vou contar tudo o que aconteceu depois que mecê se foi embora de São Paulo.

— Sim! sim!... conta-me tudo, e depressa, que estou morrendo de impaciência.

Conrado chamou um criado, e ordenou-lhe que dissesse a quem quer que o procurasse, que não se achava em casa. Interessava-lhe ao último ponto a narração que ia escutar, e não lhe convinha por modo algum ser interrompido. Não quis que se acendessem luzes no salão, — pois já vinha descendo a noite, recomendou que todos os fâmulos e escravos se recolhessem ao fundo do edifício, trancou algumas portas, e voltou para junto de Lucinda. Todas estas precauções, inspiradas pelos nobres e delicados sentimentos de Conrado, eram necessárias, porque só ele devia ouvir o que a preta ia revelar; tratava-se da honra de uma senhora, a quem muito amara, a quem muito estimava ainda, e cuja reputação até aquela data se tinha conservado ilibada.

— Que diabo de negócio terá ele com aquela bruxa velha? — murmuravam entre se os criados curiosos e pasmados de tão estranha e misteriosa conferência.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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