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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 32 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XIII: Nhá-Tuca e sua crônica

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Apenas apearam-se, Conrado chamou de parte o francês, dono da taverna, e depois de ter sido por ele informado de que todas as suas ordens tinham sido cumpridas, pediu-lhe que fosse assistir como testemunha a uma declaração solene que a velha Nhá-Tuca tinha de fazer em confissão pública para desencargo de sua consciência. Pediu-lhe também que dentre os circunstantes escolhesse para o mesmo fim mais duas pessoas que soubessem a escrever, e que gozassem de bom conceito.

Não só o desejo de servir a Conrado, que por sua generosidade e boas maneiras lhe tinha captado a benevolência, como também a curiosidade, que semelhante fato excitava, contribuíram para que não só o taverneiro, como todos os seus numerosos fregueses se prestassem com a melhor vontade a tudo quanto deles exigia o cavalheiro. Vinte ou trinta testemunhas, que lhe fossem necessárias naquela ocasião, com facilidade os acharia prontos por aquela vizinhança. Eram já quatro horas da tarde, e quase todas as pessoas, que pela manhã encontramos juntas na taverna do francês, ainda ali se achavam presas pela viva curiosidade, que neles excitara a visita de um tão guapo e distinto cavalheiro em casa de uma velha bruxa, que no entender deles estava prestes a dar a alma ao diabo. Se algumas dessas pessoas se tinham retirado, em compensação tinham chegado outras atraídas pelo rumor que se ia propagando, de que a velha bruxa, estando a expirar, tinha-se resolvido a fazer confissão pública e pôr todos os seus podres na rua. Conrado e o frade, seguidos pelo francês e pelas duas outras testemunhas, dirigiram-se a pé para o rancho de Nhá-Tuca. Os mais fregueses também os foram acompanhando em distância, e um a um ou em pequenos grupos, foram pouco a pouco se avizinhando e acercando em torno da mísera choupana da moribunda.

A curiosidade vence o pavor e desmancha todos os escrúpulos. Toda aquela gente, que ainda há pouco fugia do rancho de Nhá-Tuca como de um lugar malsinado, e que quando por ali passavam tinham o cuidado de nem olhar para ele, benzendo-se cheios de terror quando acontecia enxergarem a velha, agora sentiam-se irresistivelmente atraídos para aquele ponto. Era a curiosidade, esse ímã misterioso, que para ali os arrastava. Nas massas populares a curiosidade suplanta o medo, e faz arrostar todos os perigos reais ou imaginários. É assim, por exemplo, que por ocasião de um grande incêndio, a turba se aglomera por sob as paredes de um edifício em chamas, que a cada momento pode desabar sobre ela, sendo necessário intervir a ação da polícia para desviá-la. Às vezes também para gozar de um espetáculo o mais trivial e corriqueiro, a turba não hesita em colocar-se nas posições mais incômodas e perigosas, em risco de quebrar um braço ou uma perna. O espetáculo ou mistério, que atraía a curiosidade de nossos caipiras, nada tinha de realmente perigoso, mas abalava-lhes a imaginação, como se tivessem de ver Satanás em pessoa.

— Santo Deus! exclamava um deles. — Que irá fazer ali Frei João?... Um santo em casa de uma bruxa!...

— Vai fazer obra de caridade, — respondeu outro. — Vai ver se ainda pode livrar das penas do inferno a alma da pobre velha.

— Isso é impossível... pois mecê não sabe que ela é mula sem cabeça?...

— E demais a mais tem o diabo no corpo, acrescentou outro.

— Pois que tem isso?... é que o padre vai tirar o diabo do corpo dela. Ah! se eu pudesse estar lá dentro e ver o tinhoso sair aos pinchos da boca daquela tartaruga v e lh a!...

— Deus te livre!... ver o quê!... a cara de Satanás!... até estou com medo de ver agora mesmo pegar fogo no rancho, e a velha sair de lá na figura do cão tinhoso.

— C hé! que esperança!... então o frade não está lá dentro?...

— Mas esse é homem de Deus; não há mal que o pegue; há de sair são e salvo.

Enquanto o povo por fora se entretinha assim com estes e outros apodos e conjeturas, o frade e seu amigo penetravam no aposento da enferma, o qual, graças à generosidade de Conrado e aos cuidados do francês, apresentava um aspecto menos lúgubre e menos nauseabundo.

Antes porém de assistirmos à cena da confissão da velha, nos é mister dar aqui ao leitor uma rápida notícia biográfica da personagem que agora jaz no leito da agonia com a alma abarrotada de pecados e crivada de remorsos, Isto nos é indispensável, porque a parte pública da confissão da velha versa somente sobre um fato, que já conhecemos, a substituição de uma criança escrava e morta por outra viva e livre, donde resultou a escravização de Rosaura. O resto porém passa-se debaixo do misterioso sigilo da confissão auricular, e como não somos sacerdote, e nem foi em nosso peito que ela depositou os segredos de sua abominável e execranda vida, segredos que depois foram conhecidos e propalados a todos que tivessem ouvidos para ouví-los, cremos que não será pecado da nossa parte divulgá-los agora. Alguma coisa já dissemos acerca do caráter e dos costumes de Nhá-Tuca; mas apenas levantamos um canto do véu que encobre as torpezas e atrocidades, que constituíram a ocupação única de sua longa vida.

Nhá-Tuca não era natural da cidade de São Paulo. Nascera em Mogi-Mirim em mil setecentos e setenta, pouco mais ou menos. Portanto já não podia descer ao túmulo com menos de setenta e muitos a oitenta anos. Foi somente depois que recebeu a herança de seu falecido irmão, que tomou a resolução de mudar sua residência para a capital da província, então capitania. Essa herança, como já sabemos, na sua melhor parte consistia em uma boa porção de crioulas e mulatas, todas novas e bonitas, vigorosas e sadias. Parece que por desgraça sua o irmão de Nhá-Tuca tinha sangue turco nas veias; tinha pendor imenso para o serralho! nascera para ser um sultão, ou pelo menos um vizir. Por isso toda a fortuna que havia herdado ou adquirido à custa de algum trabalho, ia consumindo toda em colecionar essa formosa tribo, que por força do destino teve de transmitir à sua irmã única, sem mesmo ter o trabalho de fazer testamento. A sensualidade de um serviu admiravelmente à avareza da outra. A irmã, que não podia tirar o mesmo proveito de tão preciosa deixa, excogitou outro meio de fazé-la render o maior lucro possível.

O vício capital desta mulher era, como sabemos, a avareza, pecado mortal incompreensível para muitos e só compreendido por aqueles que lhe sentem as delícias. Obedecendo a esta sua tendência inata, Nhá-Tuca concebeu e realizou o projeto de fundar com as raparigas, que herdara, uma espécie de prostíbulo ou alcouce, dirigido por ela em pessoa, do qual esperava auferir grandes vantagens pecuniárias. Mas Mogi-Mirim era então uma pobre vila, talvez arraial ainda, e não podia oferecer campo assaz vasto para suas altas especulações. Portanto Nhá-Tuca tomou o acordo de vender tudo quanto possuía em sua terra natal, e de emigrar com seu formoso rebanho para a capital da província, onde poderia desenvolver em mais larga escala sua lucrativa indústria. Em São Paulo comprou fora da cidade o prédio em que pela primeira vez a encontramos, e onde estabeleceu com excelentes cômodos e por preços módicos venda, rancho e hospedaria.

A freguesia, logo desde princípio, tornou-se cada vez mais numerosa. O serviço da hospedaria era feito com grande esmero e asseio pelas seis ou oito escravas, jovens e vistosas, e sempre trajadas com certo luxo provocador, que atraía a atenção dos sibaritas. Elas, habilm ente industriadas pela abelha mestra, cercavam os viandantes de mil cuidados e atenções, a que não era possível resistir. Eram outras tantas Hebes, ofertando o Jove a taça de ambrosia.

Muita vez acontecia que o viajante, esquecendo-se de interesses que reclamavam a pronta continuação de sua viagem, encantado pela deliciosa hospedagem, que ali encontrava, falhava quase sem querer um, dois, três e mais dias; tanta era a obsequiosidade, tantos os carinhos de que se via rodeado. Em todo caso, quando o viandante não falhava, lá ficava, além da despesa ordinária, uma grossa soma, ou uma rica jóia, que as fiéis servidoras nunca deixavam de entregar à senhora. Nem lhes era mister guardar coisa alguma. Nada lhes faltava, nem quanto a alimento nem quanto a vestuário. Gozavam de liberdade quase absoluta, e comprehendendo o recíproco interesse que as ligava à sua senhora, viviam com ela em perfeito pé de inteligência e harmonia. A própria dona da casa, apesar de velha e adoentada, trabalhava tanto ou mais do que as escravas, que tafulonas e peraltas só se ocupavam em serviços delicados e em fazer sala aos hóspedes, enquanto a senhora era apenas ajudada por uma preta velha no serviço grosseiro da casa. Tudo isso porém se fazia por gosto da senhora, que o dava por muito bem empregado.

E não era só com os passageiros, que se especulava. A rapaziada da vizinhança também lá acudia atraída pela fama da boa bebida, que lá havia, e das bonitas raparigas, que serviam de caixeiras e de serventes na hospedaria. Mais de um filho de caipira bem arranjado ali deixou, sem saber como, os rendimentos de todo o bom negócio que havia feito na cidade, e arruinou seu pai com as repetidas invernadas na taberna de Nhá-Tuca.

E não ficavam só em casa as vergonhosas especulações da velha; estendiam-se a mais longe. Todos os domingos e dias santos Nhá-Tuca expedia para a cidade três ou quatro de suas mais lindas raparigas, bem vestidas e prontas a armar laço à bôlsa dos estudantes. Em toda parte onde há academia, universidade, ou coisa que o valha, há sempre numerosa cáfila de moços ricos, pródigos e libertinos, que não hesitam em sangrar consideravelmente a bolsa paterna em benefício das cantoneiras.

Voltavam portanto as Vênus para a casa sempre com rica propina, que entregavam fielmente à senhora; diziam porém alguns que ela sempre lhes deixava alguma porcentagem para os alfinetes a fim de desempenharem com mais zêlo e boa vontade sua afanosa profissão.

Outra traficância, porém, senão tão sórdida, ao menos igualmente imoral e repugnante, fazia ela por meio dessas miseráveis criaturas. Sadias e bem tratadas como andavam as escravas de Nhá-Tuca, não deixavam de dar de vez em quando algumas lindas crias, que ao chegarem à idade de oito ou dez anos a senhora vendia por bom dinheiro, sem que as mães educadas naquela escola de abjeção prostibular opusessem a menor resistência, nem manifestassem mágoa alguma com a separação dos filhos.

Em abono da verdade cumpre-nos dizer que Nhá-Tuca só vendia os machos, reservando as mulheres para reforma do serralho substituindo as mães, quando estas envelhecessem ou morressem; e mesmo os machos ela não os vendia senão a pessoas do lugar. Com isto tinha duas vantagens; não só obedecia aos impulsos de seu sensível coração não desterrando para longe de suas mães aqueles queridos pimpolhos, como também neles adquiria excelentes alcaiotas, para a sua grei e habilíssimos corretores para todo gênero de traficância.

Um dia uma de suas mais belas mulatas deu à luz uma linda menina, e tão alva, que ninguém a diria descendente de africanos. Era a própria Nhá-Tuca, quem assistia aos partos de suas escravas, e sempre com habilidade e mestrança que o resultado nunca desmentiu. Desta vez porém tão desastrada andou no cortar o umbigo da criança, que esta esvaindo-se em sangue finou-se poucas horas depois de nascida. Nhá-Tuca sentiu cruelmente esta perda, e levou uma boa hora a praguejar-se, e a vomitar blasfêmias e maldições.

Isto era pela madrugada. Mal despontou a primeira alva do dia, ela, que era sempre a primeira a levantar-se, ao abrir a porta da frente, deu com os olhos em um berçozinho em que se achava enfaixada uma criança, cuja procedência já conhecemos. Recuou espavorida, e benzeo-se dando três passos para trás.

— Cruzes!... credo!... que será isto, Deus do céu! — exclamou ela em atitude de espanto, e com os olhos pregados no berço. — E não é que é uma criança, que vieram engeitar à minha porta!... ora!... ora!... ora esta!... esta não lembrava nem ao diabo!... Achão-me então com cara de mãe da humanidade!... Mas enfim, que hei de eu fazer?... não hei de deitá-la aos porcos, oh! isso não... Mas... mas..., — continuou ela, coçando a cabeça, avizinhando-se do berço, inclinando-se sobre ele, e reparando com atenção a criança. — Ora esta!... eu sou mesmo uma pateta?... ó coisa que está entrando pelos olhos. Foi minha boa fortuna que aqui me trouxe esta criança... Vejamos, — prosseguiu ela, murmurando sempre em voz baixa e arredando as faixas, que envolviam a criancinha. — Coitadinha! está dormindo!... como é bonitinha!... oh!... e é fêmea!... tanto melhor. E é tal qual como a defuntinha, sem tirar nem pôr. E esta!... Sai-me uma morta pela porta afora, e entra-me outra viva pela porta a dentro!... mil graças a quem me fez tão delicado presente, e tão a propósito!... Dizendo ou antes resmungando estas horríveis palavras, a velha recolheu o berço, e tirando dele com todo o jeito a criança adormecida, a levou para o quarto da mulata puérpera, e a depôs nos braços dela dizendo secamente:

— Toma tua filha.

— Como é isso, nhanhã? — exclamou surpreendida a rapariga. — Pois minha filha não morreu?...

— Qual morreu, o quê, toleirona!... quem te disse isso?... foi vágado, que deu na menina; eu fomentei com arruda e cachaça e ela voltou a se. Quem morreu foi uma engeitadinha, que encontrei aí na porta agorinha mesmo quase a expirar.

Nhá-Tuca, saindo do quarto da mulata, teve o cuidado de ir imediatamente colocar a escravinha morta dentro do berço, donde há pouco tirara a enjeitada viva. Não se sabe se a mãe da menina morta e as outras escravas perceberam esta manobra de Nhá-Tuca, e se nela foram coniventes; o certo é que ali nunca se ouviu nem de leve murmurar sobre tal coisa.

O cadáver da verdadeira escrava foi nesse mesmo dia dado à sepultura, como o de uma enjeitada, e quinze dias depois a exposta era batizada na Capela de Santa Ifigênia como escrava de Nhá-Tuca, e recebia na pia batismal o nome de Rosaura.

Dessa data em diante os negócios de Nhá-Tuca começaram a desandar em progressivo desarranjo e decadência. Com a idade, a devassidão e as moléstias, a beleza das raparigas foi murchando e se esvaecendo com assustadora rapidez. Vendo cada vez mais ir-se lhe escasseando a freguesia, Nhá-Tuca, que era mestra jubilada em toda casta de tricas, abusões e torpezas, industriou as raparigas em certas práticas infames, ensinando-lhes a preparar filtros amorosos por meio de processos imundos e nocivos a fim de prenderem o coração dos desditosos amantes. Com este expediente nem por isso obtiveram grandes vantagens. Todavia, sempre conseguiram enviar para a eternidade, depois de bem depenados, uma boa meia dúzia de patinhos, e deixar para sempre entisicados dos pulmões e da algibeira não menos de outra meia dúzia.

Por estas e outras proezas, Nhá-Tuca começou a granjear uma enorme reputação de bruxa, feiticeira e mestra em malefícios diabólicos, passando como coisa incontestável entre os povos daquela redondeza, que ela tinha pacto com o diabo. Por essa razão começou ela a ser detestada, e temida, execrada e evitada por toda aquela gente. As raparigas foram-se cobrindo de uma lepra, que se propagou por todas, devida a moléstias sifilíticas mal curadas, tornaram-se hediondas, e foram morrendo uma a uma sucessivamente. Os fregueses, que outrora com tanta alegria e sofreguidão acudiam àquela animada e ruidosa locanda, agora fugiam de lá como quem foge da peste.

Dorotéia era talvez a mais linda de todas as odaliscas do serralho de Nhá-Tuca, e a única que ainda conservava alguns restos da saúde e frescura da mocidade. Era ela a favorita e a confidente de Nhá-Tuca, e a quem esta não receava confiar seus segredos e suas chaves. Em uma noite de orgia, em que houve suma profusão de bebidas espirituosas, de parceria e combinação com um taful, com quem se ligara estreitamente, lá pela madrugada Dorotéia filou sutilmente a chave do mealheiro, esvaziou-o completamente, e eclipsou-se de uma vez para sempre em companhia do amante. Ao dar pela falta da escrava e de todo o dinheiro que possuía, a velha deu urros de desespero, e caiu fulminada por uma congestão; mas não morreu. Apesar de todas as diligências que empregou, nunca mais lhe foi possível deitar a mão nem na escrava, nem no dinheiro.

Foi nesta ocasião que Nhá-Tuca achando-se inteiramente exausta de recursos, viu-se na dura necessidade de vender Rosaura, que então contava dez anos, e era a única cria que lhe restava de suas escravas. Posto que vivesse no meio daquela escola do vício e da abjeção, Rosaura, graças à sua índole privilegiada, e também ao cuidado que Nhá-Tuca, por exceção de regra, tinha tido de esquivar-lhe aos olhos as cenas de devassidão, que se davam em sua casa, havia conservado até ali pura e intacta a inocência de sua alma. Se era uma fada pela formosura do rosto e pelo airoso porte de seu corpo esbelto, era um anjo pela candura e pureza do coração.

Foi um assinalado favor que o céu fez à pobre menina, permitindo que ainda em verdes anos fosse arrancada ao ambiente infecto daquele imundo lupanar.

O preço de Rosaura porém não tendo aplicação alguma lucrativa, bem depressa se exauriu, e a miséria veio bater à porta da desgraçada velha, que já não tinha por companheira, senão uma escrava, tão edosa e inválida como ela. Já Nhá-Tuca se dispunha a vender o prédio em que morava, para ter de que subsistir, quando para cúmulo de males, em uma bela noite, foi ele devorado por um incêndio, do qual a custo e como por milagre ela e sua companheira puderam escapar com a roupa do corpo. No outro dia as duas míseras velhas vagavam pela estrada, mendigando pelo amor de Deus um bocado de alimento, sem um telheiro em que se abrigassem, e bem poucos se compadeciam delas.

— Foi bem feito. — murmurava o povo desalmado; é castigo de Deus. Nem outra sorte merecia semelhante feiticeira.

Portanto a infeliz, condenada a tragar até às fezes a taça do abandono e da miséria, era por quase toda parte mal acolhida, e até repelida e insultada. O povo ou porque tem por costume fazer a vista grossa sobre os defeitos e nódoas que enxovalham a vida de qualquer, enquanto este se acha em condições de riqueza e prosperidade, ou porque só depois que Nhá-Tuca caiu em desgraça, começassem a divulgar-se as torpezas e malefícios por ela praticados, o povo não teve dela a menor comiseração. De feito, eram execráveis as atrocidades que se lhe atribuíam, e foram as próprias escravas que, vendo o descalabro dos bens da senhora, e o desconceito em que ia caindo, se encarregaram de propalá-las. Por boca dessas desgraçadas, que a miséria e a crápula tornavam cada vez mais abjetas, toda a gente daqueles arredores ficou sabendo não só as façanhas, que temos relatado, como também que fora Nhá-Tuca quem abreviara os dias de seu irmão para empolgar-lhe a herança.

O francês que tinha taverna à beira da estrada foi o único que se compadeceu dela, permitindo-lhe morar no miserável ranchinho, em que a encontramos.

Aí definhava ela há dois anos em companhia da preta velha, de que já falamos.

Era esta que de quando em quando saía a esmolar pela cidade para se e para sua companheira, porque se saísse a própria Nhá-Tuca, bem mingoada seria a coleta. Essa mesma pobre preta, que era seu único arrimo, havia morrido subitamente dois dias antes, deixando sua senhora entrevada sobre seu mísero grabato e no estado de indigência e desamparo em que Conrado veio encontrá-la.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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