Leia agora
Rosaura, a Enjeitada

Universo da obra

Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 18 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo XVIII: Tirania paterna

18 de 45 ≈ 10 min de leitura

Conrado, como se pode imaginar, saiu da casa do major com a cabeça em brasa e com o coração em torturas. Á vista da ferrenha e feroz obstinação do velho, nenhum outro recurso lhe restava para apossar-se do objeto de seu amor, senão um rapto. Conrado concebeu esse plano, e combinou todas as medidas necessárias para arrancar furtivamente Adelaide ao poder de seu pai. Para logo porém opuseram-se à realização de seu projeto, dificuldades insuperáveis.

Em primeiro lugar tinha-se tornado impossível toda e qualquer comunicação com sua amante. O major com um espírito de previsão e desconfiança, qual não teria o mais ciumento dos maridos, receando alguma tentativa de Conrado, havia tomado as mais severas precauções. Adelaide era vigiada de perto dia e noite por duas escravas, a quem o senhor tinha feito restritas recomendações debaixo das mais terríveis ameaças, e não podia dar nem receber a menor carta, nem o mais insignificante recado. Quatro capangas de aspecto feroz e repulsivo, armados até os dentes, haviam sido instalados em casa, e noite e dia faziam boa guarda à chácara, como a um castelo ameaçado pelo inimigo. Além disso dois atrevidos e truculentos cães de fila estavam sempre alerta e prontos a dar rebate ao menor rumor, que se desse em torno da casa. Um ou outro dos capangas rondava continuamente em toda a extensão do caminho, que medeava entre a chácara e a cidade.

Antes que pudesse empreender qualquer tentativa, chegaram ao conhecimento de Conrado todas estas formidáveis precauções. Viu que sua segurança e mesmo a sua vida andava exposta a grandes perigos. Todavia, durante quinze dias, por se e por meio de agentes fiéis e dedicados, baldou esforços e diligências a ver se podia entrar em comunicações com Adelaide, e informa-la do seu intento, sem o que nada poderia empreender com esperança de sucesso.

Adelaide, vítima da tirania e loucura paterna, vivia em uma reclusão mais triste e apertada do que uma freira em sua cela, ou uma odalisca no harém. Lucinda, sua escrava favorita, que mais receio e desconfiança podia inspirar, não só pelo afeto e dedicação, que votava a sua senhora como também por sua sagacidade e atilamento, tinha sido arredada para bem longe.

A tia Eulália, mulher quase idiota, sem alma e sem coração, essa nem mesmo parecia dar fé do que se passava, e mal notava o estado de tristeza e abatimento, em que vivia a sobrinha. Por esta sorte a mísera moça, nem mesmo tinha com quem abrir seu coração e desabafar suas mágoas.

Conrado desanimou: em desespero de causa só lhe restava um último, mas perigosíssimo expediente; era assaltar a chácara a mão armada, e tomar Adelaide a viva força. Não lhe faltavam coragem, disposição nem recursos para tão arriscada empresa, e o moço no cúmulo da raiva e da impaciência chegou a afagar no espírito esse temerário projeto. Refletindo porém com mais calma, lembrou-se das terríveis ameaças do major; ponderou que talvez não fosse possível por em prática sem efusão de sangue uma tentativa, que poderia custar a vida a ele, ao major e a muitos outros, e recuou horrorizado principalmente diante da consideração de que Adelaide poderia ser vítima da cólera insensata e brutal do pai.

Ainda quinze dias da mais pungente angústia e ansiedade se passaram para o desditoso mancebo, durante os quais seu espírito atribulado não sabia, nem podia tomar deliberação alguma. Entretanto, chegou aviso a seus ouvidos de que o major, ciente de suas tentativas para roubar-lhe a filha, estava disposto a mandar quebrar-lhe os ossos, e mesmo tirar-lhe a vida a fim de faze-lo desistir de uma vez para sempre de suas pretensões. A crônica do major, que corria pela boca pequena, não era muito para tranquilizar sobre este particular; ainda não estavam esquecidas certas façanhas de sua mocidade, e contava-se com ar de mistério que para obter a mão da defunta mulher não tinha hesitado em mandar para o outro mundo certo rival, que lhe fazia sombra.

Conrado não era homem, que se arreceiasse de perigos, e recuasse diante da sanha dos facínoras; mas nada vale a coragem e a valentia contra as insidias de sicários traiçoeiros, e demais afrontar o perigo nas circunstâncias em que se achava, era vã temeridade, da qual nada de bom podia lhe resultar. Assentou, portanto, que o melhor alvitre que podia tomar, era ausentar-se de S. Paulo, esperando que o tempo e as circunstâncias, a reflexão e os impulsos do amor paterno acalmando as fúrias do major pusessem termo às contrariedades, que o assoberbavam.

Uma coisa porém lhe torturava o coração, e quase lhe tirava o ânimo para pôr em prática esta resolução extrema; era ter de partir sem poder ver a sua idolatrada amante, sem poder dizer-lhe um adeus de despedida, confirmar-lhe seu eterno amor, pedir-lhe que o não esquecesse, confortá-la a sofrer com resignação as adversidades do presente, esperando que no futuro o céu lhes deparasse quadra mais favorável. Mas refletindo que, enquanto permanecesse em S. Paulo, jamais cessaria a triste reclusão e incomunicabilidade em que vivia Adelaide, e que assim se prolongariam indefinidamente os sofrimentos dela, sem que ele em nada pudesse valer-lhe, e que por esse modo tanto valia ficar ali como a cem léguas de distância, confirmou-se no propósito inabalável de ausentar-se.

Antes de partir escreveu uma longa carta dirigida a Adelaide, em que lhe dava conta do que pretendera e não pudera fazer depois da cena terrível, em que pela última vez se viram; confirmava-lhe seu ardente e inextinguível amor, exortava-a a não desesperar do futuro, e participava-lhe que ia ausentar-se para bem longe, esperando que o céu se amerceasse deles, acalmando as iras do major e inspirando-lhe sentimentos mais humanos e razoáveis.

Como era de esperar que com sua ausência se relaxasse o rigor da reclusão incomunicável em que vivia Adelaide, confiou essa carta a um amigo, para que quando se oferecesse oportunidade a fizesse chegar às mãos de Adelaide, sua amante.

Conrado desapareceu de S. Paulo sem ter comunicado à pessoa alguma sua viagem, nem o destino que levava, à exceção do discreto amigo com quem deixara a carta para Adelaide. Mesmo fora da capital, receava ainda as ciladas do major, cuja sanha contra ele mais recrudecera, depois que soube de suas tentativas para roubar Adelaide. O major, que tinha na cidade e seus arredores uma polícia ativa de apaniguados e capangas, teve logo informações de seu desaparecimento, mas nunca pode saber em que direção se havia retirado. Se bem que um pouco tranquilizado, todavia por espírito de desconfiança e precaução, não deixou de manter ainda por algum tempo certa vigilância e cuidado em torno de sua habitação. Foi só no fim de quinze a vinte dias, depois de bem verificada a ausência do mancebo, que ele resolveu afrouxar a rigorosa vigilância exercida sobre a pessoa de Adelaide, e dispensar o serviço dos capangas, que faziam guarnição à sua casa.

— Minha filha, — disse ele, dirigindo-se então a Adelaide pela primeira vez, desde o dia, em que Conrado pela última vez lhe aparecera, — espero que já estejas curada da loucura que te passou pela cabeça, de te casares com o ex-capataz de teu pai.

Entretanto é tempo de tomares estado; se aceitas o marido que eu te escolher, — e a dificuldade está na escolha, — irei imediatamente tratar disso. Senão apronta-te e dispõe-te para entrares no recolhimento de Nossa Senhora da Luz ou de Santa Teresa. Não quero mais que me faças passar pelo desgosto de te ver dar cabeçadas como essa que querias dar, casando-te com um camarada, um pé-de-poeira.

— Meu pai, — disse tristemente a moça, — não tenha o menor receio de que meu coração se entregue a novos afetos. Sou bem infeliz com o primeiro para poder pensar em outros. O meu desejo é mesmo recolher-me à solidão de um convento, embora não possa professar, como era meu desejo. Já estou acostumada ao retiro e ao isolamento.

Só peço a meu pai, que guarde isso para daqui a mais alguns meses.

O pai anuiu, não de muito bom grado, aos desejos da filha, e sem indagar dos motivos, que a levavam a adiar o cumprimento da sua resolução, desta vez comovido pelo estado de melancolia e abatimento em que a via, não ousou contrariá-la.

Entretanto avizinhava-se o tempo em que Adelaide devia ser mãe; sua situação tornava-se cada vez mais apertada e melindrosa, e já nem sabia como ocultar à gente de casa as aparências de sua falta, já muito manifesta a olhos mais perspicazes e escrutadores do que os do major.

A pobrezinha não tinha com quem se entender, nem a quem confiar seu coração e os cruéis apuros, em que se achava. A reclusão e isolamento a que seu pai a condenara durante quase dois meses, foi um mal, que ela aceitou como um favor do céu, porque assim, sem dar motivo a desconfianças, podia esconder-se e subtrair-se às vistas curiosas; desejaria que se prolongasse por mais algum tempo; mas as circunstâncias mudaram, e ela via-se nos mais aflitivos embaraços. Lembrou-se então de pedir a seu pai que fizesse voltar para a casa a preta Lucinda, única pessoa que conhecia suas fraquezas, e que lhe poderia valer em tão críticas e delicadas conjunturas.

Felizmente foi atendida. Adelaide com as lágrimas nos olhos contou tudo à boa e fiel escrava.

— Não tem nada, sinhazinha; sossega seu coração, que tudo se há de arrumar, — disse ela, procurando tranquilizar e consolar sua senhora; — Deus é grande, e sua negra está aí.

Como todos os males deste mundo têm alguma compensação, e nos maiores infortúnios sempre se dá alguma circunstância favorável para os minorar, aconteceu que o major, desgostoso com o malogro dos casamentos aristocráticos que pretendia angariar para sua filha, e enjoado da vida insípida, que levava no retiro de sua chácara, tomou a resolução, para se distrair, de sair de casa e andar de novo em giro de negócio como muladeiro. Posto que algumas leves suspeitas lhe assaltassem o espírito a respeito das relações da sua filha com o capataz, elas foram pouco a pouco se desvanecendo, e graças à penumbra em que Adelaide vivia recolhida, e à pouca perspicácia de seu pai, este nem de leve suspeitou o grave e melindroso estado da filha. Demais Adelaide já lhe tinha declarado que estava no firme propósito de entrar para um recolhimento, e o pai, capacitado da sinceridade e da persistência dessa resolução, perfeitamente tranquilo a respeito do procedimento da filha durante a sua ausência, ajustou camaradas, fez todos os preparativos, e partiu para o seu giro, deixando Adelaide e o governo da casa aos cuidados de sua irmã Eulália.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

Rosaura, a Enjeitada

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Rosaura, a Enjeitada

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Rosaura, a Enjeitada Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 18 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Rosaura, a Enjeitada

Capa de Rosaura, a Enjeitada
Continue a leitura Parte I — Capítulo XVIII: Tirania paterna Capítulo 18 · 18 de 45 · ≈ 10 min
Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir