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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 38 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XIX: Um estudante sinceramente enamorado

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— Que tem, meu Carlos, que há tempos a esta parte andas triste e amuado, assim com cara de Romeu pálido com saudade de sua Julieta, e outras vezes com gestos de Otelo furibundo prestes a sufocar Desdêmona?...

— Tu falas galhofando, Frederico, porque não sabes o que eu sofro. É um sentimento íntimo e profundo, que tenho vergonha e até medo de comunicar a vocês, que tudo metem a ridículo.

— Menos eu, Carlos; principalmente, quando estamos a sós, longe da algazarra de nossos turbulentos companheiros. Pergunto-te com verdadeiro interesse o motivo desse abatimento de espírito, que há mais de um mês todos notam em ti, e que, digo-te com sinceridade, não deixa de me afligir e inquietar bastante.

— Obrigado, Frederico; sei que me tens sincera amizade, e que embora na turba dos outros sejas tão caçoador como outro qualquer, tens caráter sisudo e sensível, e não zombas dos sofrimentos alheios. Por isso não faço a menor dúvida em contar-te a causa deste aborrecimento e tristeza, que há tempos me acabrunha.

— Pois bem; vamos a isso; desembucha tudo sem receio. Sou um pouco menos frívolo e leviano do que nossos companheiros, e saberei guardar segredo, se o exiges.

— Não será mau; os gracejos indiscretos, as caçoadas cínicas no estado em que me acho, soam-me muito mal.

— Portanto, enquanto fumamos um pouco, — disse Frederico, oferecendo um charuto a seu amigo, — vai-me desfiando o teu drama, que seguramente não deixará de ser algum idílio amatório.

Este diálogo passava-se entre dois estudantes do quarto ano jurídico de São Paulo. Tinham acabado de jantar e ainda se achavam à mesa em casa de Frederico, que morava só no alto da Consolação, um dos bairros mais isolados e solitários da cidade. Era isto cerca de dois meses antes dos interessantes sucessos, de que demos conta nos dois últimos capítulos desta história. Os dois quartanistas eram da província de Minas, e amigos íntimos de longa data, não dessa amizade fundada em relações passageiras e de ocasião, que frequentemente se dão entre estudantes, as quais tanto têm de francas e sinceras, como de pouco duradouras; são laços que não se rompem, mas que com o tempo e ausência acabam por desatar-se insensivelmente.

Os dois mineiros consagravam-se reciprocamente uma afeição sólida, firmada pelo tempo desde os estudos colegiais e fundada nas belas qualidades que cada um deles reconhecia com prazer em seu amigo. Frederico era um mancebo de alta estatura, louro e de olhos castanhos.

A índole bondosa, a lisura e franqueza d’alma transluziam em sua fisionomia sempre plácida e expansiva, como seu nobre coração, sobre o qual as paixões tumultuosas da juventude jamais tinham conseguido exercer império absoluto. Lia-se em sua fronte espaçosa e bem conformada o bom senso, o juízo reto, a inteligência luminosa, sobre a qual a imaginação podia bem exercer sua influência encantadora, mas nunca poderia dominá-la. Parecia mais um batavo, descendente de algum dos companheiros de Maurício de Nassau, do que um brasileiro de pura raça latina.

O outro apresentava um tipo inteiramente diverso; era um verdadeiro filho do Brasil e da província de Minas; assemelhava-se a um napolitano.

Estatura regular, cabelos e olhos escuros, tez clara e levemente colorida, olhar cintilante e profundo revelavam nele imaginação viva, natureza ardente e apaixonada.

Tanto um como outro eram tidos em conta de mui distintos estudantes por sua inteligência, assiduidade e bom comportamento, considerados pelos lentes e estimados pelos colegas.

Entretanto Carlos há dois meses começara a dar muito más contas de si, falhava muitas vezes, balbuciava a muito custo a lição, quando era chamado, e às vezes se escusava alegando incômodo de saúde, que sua progressiva magreza e deperecimento não deixavam de justificar. Seus companheiros notavam a grave e profunda alteração, que se ia operando no físico e moral de Carlos, alteração que, a não ser devida a alguma afecção do organismo, não podia ser atribuída senão a sofrimentos morais. Quando lhe inquiriam o motivo de tão estranha modificação em todo o seu ser, dava respostas evasivas, que em nada satisfaziam a curiosidade dos colegas.

Frederico era o que mais se afligia com o lastimoso estado de abatimento em que via o amigo, e foi com o propósito de obter dele uma declaração confidencial e franca, que nesse dia o convidou a jantar em sua casa a sós com ele.

Carlos não pôde esquivar-se à solicitação cordial e sincera de seu amigo, e tendo acendido o seu charuto começou assim:

— Depois que moro na rua do Tabatinguera, adquiri um conhecimento quase misterioso, que tem exercido, e há de exercer sempre, eu bem o pressinto, poderosa influência sobre o meu destino. Além da casa em que moro, deves ter reparado que há outra casa baixa, separada da minha por um terreno vazio, que não pertence nem a um, nem a outro prédio. Nessa casa habitada por um senhor Basílio, mora uma criatura encantadora, dotada de tantas perfeições, tão cheia de atrativos, que são capazes de transtornar a cabeça mais firme, e inflamar o coração mais empedernido.

— Ah! já ouvi falar nessa menina, — atalhou Frederico, — dizem que é um prodígio de beleza; mas apenas é visível por momentos, e esconde-se como Diana entre os véus do mais tímido recato.

— É verdade; tem mais esse prestígio a seu favor. Dizer-te que é um anjo, uma fada, que respira em todo o seu ser um perfume de celestial candura e inocência, que impõe o respeito e adoração é proferir palavras banais, que nada exprimem. É preciso vê-la para poder formar perfeita ideia de sua deslumbrante formosura. Meus companheiros, que apenas a têm visto de relance, também ficaram impressionados ao aspecto de tão rara beleza.

— E tu?... a tens contemplado mais a vontade?

— Felizmente não sei porque, parece-me que agradei-lhe mais do que qualquer outro. No lado da casa que olha para a nossa, há apenas uma pequena janela, que dá para o tal terreno neutro, de que te falei, o qual fica também por baixo da janela do meu quarto.

— Oh! que condições favoráveis para o mais renhido namoro! — exclamou Frederico.

— É verdade; mesmo da minha mesa de estudo posso vê-la, quando chega à sua janelinha, moldura bem pouco digna daquele busto mais lindo e mais ideal do que as virgens de Rafael... Ali aparece ela algumas vezes, mas se acaso avista algum dos meus companheiros, retira-se imediatamente.

— Mas de ti nunca ela foge?...

— Não; fica, enquanto eu fico, e creio que só se retira quando é chamada por alguém de casa.

— Oh! quanto és feliz, meu Carlos!... aí temos outra vez quase a mesma aventura de Píramo e Tisbe. Mas dize-me; teu namoro não passa dessas olhadelas de longe? ainda não pudeste conversar de perto com ela?

— Converso da janela quase que somente por mímica. Entretanto ultimamente pude obter uma entrevista.

— Uma entrevista! oh!... pois que mais desejas?... pela maneira com que as coisas te vão correndo, só vejo motivo para andares pulando de contente, e não assim como andas, torvo e sombrio, como o Hamlet de Byron.

— Ah! meu amigo! foi mesmo essa entrevista que me lançou o desânimo n’alma, fazendo-me conhecer toda a complicação e estranheza de minha situação.

— Como assim? não posso compreender-te.

— Vou já explicar-te tudo. Por palavras conversadas cautelosamente ela concedeu-me uma entrevista em horas mortas da noite. Saltei ao pátio na hora aprazada e fui colocar-me junto à janelinha, onde ela não tardou em aparecer. É escusado, e seria enfadonho para ti estar a descrever-te as emoções que senti.

— Oh! bem dizia eu; temos Romeu e Julieta.

— Mas a minha Julieta...

— Que tinha ela?

— Vais já saber. Depois de termos feito em termos bem explícitos mútua declaração de nosso amor, disse-me ela por fim com voz trêmula e vacilante:

— Eu sei que o senhor me quer muito, e eu também lhe tenho muito amor... mas este nosso amor não deve continuar...

— Ah! não me fales assim; não deve continuar porque, minha querida?...

— Ah! bem me custa lhe confessar isto; mas... mas eu... eu não sou digna do seu amor.

A estas palavras um calafrio percorreu-me todo o corpo. Por que razão a menina se julgava indigna do meu amor? A interpretação mais natural que se me apresentou ao espírito, foi que aquela menina, apesar de parecer tão ingênua e pura como um anjo, já poderia ter maculado o véu da inocência no lôdo da devassidão, e por isso, conservando ainda um pouco de sinceridade, se confessava indigna de ser por mim amada. Esta sinistra ideia pungiu-me cruelmente o coração.

— Mas porque me diz isso? porque se julga indigna do meu amor, minha senhora? — perguntei-lhe em tom um tanto brusco.

É porque eu não sou nenhuma senhora, — respondeu ela com voz tímida e angustiada.

— sou uma simples escrava do senhor Basílio.

— Escrava! escrava a senhora! gritei com surpresa e indignação, esquecendo o lugar e as circunstâncias em que me achava. Foi preciso que a menina me tapasse a boca, para que eu não continuasse a prorromper em gritos e exclamações, que teriam traído a nossa entrevista. Foi mister que ela asseverasse mais duas e três vezes e confirmasse com juramento para eu acabar de crer que ela era realmente escrava. Fiquei por alguns instantes acabrunhado sob o peso de tão cruel e estranha revelação. Como é concebível com efeito, meu caro Frederico, que aquela mocinha de tez tão clara, de feições tão regulares e perfeitas como as de qualquer moça de pura raça caucasiana, tenha sangue dessa raça desventurada, que nossa desumanidade e cobiça condenou à escravidão?

— Nada mais simples, Carlos; com a continuação do cruzamento, a raça africana se depura e aperfeiçoa, e eu tenho visto mais de uma escrava mais branca e mais bonita que sua senhora.

— Seja embora assim, mas é revoltante que haja no mundo quem tenha ânimo de manter na escravidão criatura tão linda; servir um homem, e a que homem, santo Deus! aquela formosura ideal e celeste, digna de viver no céu em companhia dos anjos!... Mas essa é a pura esmagadora verdade. Rosaura percebeu a cruel impressão que sua declaração produzira em meu espírito, recolheu-se e encostando-se com a fronte à parede e escondendo o rosto entre os alvos braços meio nus, começou a chorar. Não sei explicar-te a emoção que senti nesse momento. Todos os horrores praticados com formosas e nobres escravas, a começar pela infeliz Agar barbaramente sacrificada às conveniências da família de Abraão, me vieram à lembrança; senti-me aniquilado,

— Estás quase a chorar, Carlos; continua e deixa-te de emoções.

— Se exiges que me não comova, não continuo, porque me é impossível prosseguir de sangue frio.

— Pois vá; lamenta-te e chora à tua vontade; mas prossegue.

— Estendi o meu braço para dentro da janela e arranquei-a suavemente daquela lastimosa atitude. Então ela com um tom de voz que me doeu no íntimo d’alma, disse-me:

— Agora, que o senhor sabe que eu não passo de uma pobre escrava, vai me desprezar e fazer bem pouco caso de mim, não é assim? não mereço outra coisa, e nem posso ser objeto de seu amor. Foi contra minha vontade que fiquei lhe querendo bem; mas eu sou cativa; fuja de mim. Foi só para lhe dizer isto, que deixei o senhor vir conversar comigo.

Como única resposta tomei ambas as suas mãos, cobri-as de beijos ardentes, e disse-lhe já não me lembro bem que palavras loucas e apaixonadas; mas foi pouco mais ou menos isto:

— Agora que sei que és escrava, amo-te mais que nunca, minha querida. És escrava por um capricho da sorte; Deus te fez livre, porque Deus não permite a escravidão. Nasceste escrava, mas eu te farei livre, porque é um insulto feito à natureza, à humanidade, ao próprio criador conservar na escravidão um anjo, como tu és. Se a escravidão fosse uma coisa possível aos olhos da moral e da religião, tu serias a senhora, porque todo o mundo deve respeito e obediência, amor e adoração à inocência e à formosura, e tu possuis a beleza, a inocência e a imaculada candura dos anjos. Não penses que desmereceste o amor que te consagro, com a declaração que acabas de fazer-me. Tu és escrava! pois bem!... és uma escrava que pode ter milhares de escravos a teus pés, e o mais dedicado, o mais submisso deles sou eu. Linda escrava, eu sou teu escravo, e de hoje em diante considero meu principal dever empregar todo o meu esforço em quebrar-te os ferros da escravidão.

Disse-lhe muitas outras coisas com uma eloquência apaixonada, que me borbotava da abundância d’alma. Se bem me lembro, no meu entusiasmo febril e delirante, cheguei a dizer-lhe que para conseguir-lhe a liberdade seria capaz até de matar e roubar.

— Arre lá!... misericórdia! — exclamou Frederico rindo-se. — Salteador, e assassino! um novo Luigi Zampa!... apre! é demais, meu caro.

— O certo é, continuou Carlos,— que ela com essa ingênua credulidade, própria das almas cândidas e imaculadas, que ainda não conhecem o fingimento e a linguagem artificial dos sedutores, deu pleno crédito a meus protestos e expansões; e tinha razão porque de fato eram puros e sinceros; eram a expressão de um amor profundo e ardente, que jamais poderei arrancar do coração. Estás a sorrir, Frederico?... tens razão; bem sei que é uma loucura; mas que hei de eu fazer?... não posso, não posso de todo subtrair-me a ela.

— Mas em fim de contas o que pretendes tu fazer?...

— Eu sei lá, meu amigo!... acho-me na mais horrível perplexidade, e ao mesmo tempo na mais inabalável resolução de arrostar todas as dificuldades, transpor todas as barreiras que me separam dessa encantadora menina.

— Mas acaso não tens consciência de tua fraqueza? para superar essas dificuldades, transpor essas barreiras, de que meios dispões, não me dirás?...

— É verdade, que posso eu fazer? — suspirou Carlos com desânimo. — É agora, que compreendo quanto é real e verdadeira a importância do dinheiro, e quanto é parvo e imbecil o desdém que alguns pretendidos filósofos afetam ter por ele. Estólido é aquele que diz que a tranquilidade do espírito, os júbilos do coração não se compram com dinheiro. É certo que muitas vezes a verdadeira felicidade, que consiste na satisfação de todos os prazeres lícitos do espírito e do corpo, no bem-estar físico e moral, pode-se obter sem a riqueza; mas quantas vezes também não depende dele?... Quantas vezes o destino nos prepara todos os elementos de ventura, todas as circunstâncias conspiram para nos elevar ao cúmulo da felicidade, e a falta de dinheiro nos despenha no abismo da dor e do infortúnio?!...

— Estás hoje um moralista de primeira força, capaz de competir com Labruyere ou com o marquês de Maricá.

— Zombas de minhas reflexões?... duvidas de sua exatidão?... Se duvidas, aqui estou eu que sou o exemplo vivo do que acabo de avançar. Fosse eu rico, e hoje mesmo ela estaria livre, embora sua liberdade me custasse toda a minha fortuna, a receberia como esposa, embora liberta, e não teria inveja à felicidade de ninguém, porque ela vale mais para mim do que todos os tesouros e todas as grandezas do mundo.

— Que exaltação, meu Deus!... deveras tu tinhas ânimo de te casar com uma liberta?...

— Pois que tem isso, quando essa liberta vale uma princesa?! Digo-te mais, continuou levantando-se e dando a sua voz um tom de extraordinária firmeza e exaltação; — cativa como é, se eu não pudesse quebrar-lhe os ferros, dar-me-ia por feliz em tê-la por esposa, e unir o meu destino de homem livre ao de tão formosa e adorável escrava, empregando minha vida em ajudá-la a arrastar os grilhões do cativeiro.

Ó nobre e magnânima dedicação, digna de um filósofo da antiguidade, ou do mais ultrarromântico poeta dos tempos que correm! — exclamou Frederico em tom solenemente cômico. — Agora resta saber, se o tal senhor Basílio consentirá que te cases com a sua escrava.

— E que não consinta; um rapto e um casamento clandestino sanaria todas as dificuldades.

— Irra!... levas bem longe a tua audácia! nunca pensei que fosses tão afoito.

— Demais não será necessário chegar a tais extremos; posso conseguir tudo por meios mais naturais ou menos violentos. Está por um ano a minha formatura, e um ano escoa-se bem depressa. Vou estudar com afinco, e depois de formado trabalherei como um mouro, e privar-me-ei mesmo do necessário até adquirir uma soma considerável, com que possa comprar a liberdade da menina.

— Isso é mais razoável; mas assim mesmo a quanta vicissitude não vai ficar exposto o teu pobre amor! ...A rapariga é escrava, e como tal pode ser vendida, ou o que é pior, pode ser obrigada a casar-se com outro, se não lhe acontecer coisa pior.

— Ah! não me digas tal; isso é impossível, ela antes se deixaria matar. Demais ela me disse que seus senhores não a vendiam por dinheiro nenhum.

— E como esperas que a vendam a ti?

— Desesperas-me com as tuas objeções; não sei resolvê-las por agora; mas o amor, como diz Salomão, é forte e poderoso como a morte; ele saberá a seu tempo quebrar todos os obstáculos.

— Pelo que vejo, tua loucura é incurável, meu pobre Carlos; esse teu infausto amor grudou-se ao teu coração, como ostra ao rochedo. Entretanto sempre te direi que o melhor partido que tens a tomar, para que ela não se torne crônica, é procurar combater por todos os meios essa paixão romanesca e desassisada. Tua situação é com efeito das mais estranhas e originais, e dá assunto para um bonito romance; mas o romance é bom nos livros; na vida real é sempre uma atrapalhação, que devemos arredar. É preciso pois dar pronto desenlace a tua complicada situação, e o mais pronto e mais decisivo é cortar o nó górdio com a espada de Alexandre; é renunciar à tua paixão.

— Concordo; mas isso é que é absolutamente impossível.

— Impossível, porque não queres, porque não fazes o mínimo esforço para suplantá-la. A primeira coisa que deverias fazer, era mudar de casa, fugir da vizinhança dessa mulher, que te fascina. Dado esse passo, é preciso procurar distrações no estudo, na leitura de romances, nos passeios, nos pagodes mesmo.

— Não há distração possível para paixões desta ordem, meu Frederico; não tento nada disso, porque estou intimamente convencido de que tudo isso será ineficaz.

— Ah! bem! já que assim te entregas sem resistência ao teu insensato amor, não vejo salvação para ti; empreendes contra o destino uma luta, em que seguramente tens de sucumbir. Se não puderes conseguir, como é certo, nem a mão, nem a liberdade da menina, o que será de ti, maluco, com essa tua desastrada paixão?

— Bem sei que vou arcar com mil dificuldades, vou arrostar os preconceitos do mundo, e que além disso estou exposto a eventualidades, que podem de um momento para outro derrocar todos os meus planos, e destruir toda a minha felicidade. Sei tudo isso; mas não posso, não posso esquivar-me à fascinação, que exerce sobre mim aquela adorável menina. Não penses que isto em mim é exaltação romanesca, delírio de imaginação; não, não. Bem sabes que sempre fui avesso aos namoros e amoricos, a que nossos colegas pela maior parte são tão avezados. Este meu amor é um amor puro, verdadeiro, sincero, profundo, inextinguível; é o primeiro e creio que há de ser o único da minha vida.

— Assim o quero crer, meu Carlos, mas desgraçadamente é um amor impossível.

— É impossível, mas entretanto existe! e existe de parte a parte com recíproco fervor e sinceridade!... Logo que existe, tem uma razão de ser. Deus é bom e justo, e eu confio no meu destino, e na pureza de meus afetos.

— Ora, pelo amor de Deus!... deixa-te dessas exaltações. Uma escrava sempre é uma escrava; mais cedo ou mais tarde te verás forçado a matar essa paixão que te amofina.

— Mais depressa ela me matará...

A confidência dos dois amigos foi neste ponto interrompida pelo tropel de uma troça de estudantes, que nesse momento invadiam ruidosamente a casa de Frederico.

Carlos calou-se instantaneamente, como o sabiá que suspende seus plangentes arpejos, quando ouve rumores pelo bosque. Era um estudante sinceramente enamorado; coisa rara!

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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