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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 23 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo IV: Descoberta

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Perseguições e tentativas as mais audaciosas não cessavam por parte de Morais, que cada vez mais fascinado pelos provocadores encantos da cativa já tinha perdida a cabeça e pervertido o coração. Um dia, aproveitando ocasião, que lhe pareceu azada, seus esforços tocaram a excessivo grau de audácia e violência; a menina a muito custo pôde escapar-lhe dos braços toda desalinhada e com as roupas dilaceradas. Não teve ânimo de correr para junto de sua senhora naquele estado de agitação e desalinho, receiosa de provocar uma cena do mais deplorável e vergonhoso escândalo, e talvez das mais terríveis consequências. Eram quatro para cinco horas da tarde. Rosaura arrojou-se anelante e trêmula, como corça escapada às garras do jaguar, para um quarto interior, que era ocupado por Lucinda, que nessa hora estava a fiar em um fuso de mão. Rosaura entrou bruscamente e atirou-se desatinada sobre a cama da velha preta, arquejante e abafando lágrimas e soluços que lhe empolavam os seios e lhe queimavam as pálpebras.

— Que é isso, menina?... — exclamou a preta, levantando-se assustada e chegando-se para perto de Rosaura. — O que é que te aconteceu?...

Rosaura debruçada sobre a cama, escondendo o rosto e o seio, nada respondia e continuava a chorar e soluçar. Lucinda pegou-lhe brandamente nos braços, que estavam cruzados sobre o peito, e com carinho a fez sentar-se. O corpilho do vestido da menina todo lacerado e descosido deixava ver completamente nus os brancos e mimosos seios, que arfavam violentamente, trêmulos e medrosos como duas alvas pombas, que se recolhem ao ninho fugindo às garras do gravião.

De súbito Lucinda soltou um grito de espanto, como se um raio luminoso lhe tivesse travessado o espírito.

— Ah!... meu Deus! exclamou ela, — espera, menina; deixa ver o que é isto que

você tem aqui debaixo do peito esquerdo.

A preta abaixou o rosto sobre o peito de Rosaura, e observou com atenção.

— Jesus! . . . santo nome de Jesus! — murmurou ela com voz sumida, quase falando consigo mesma, — Que é isto, Deus grande!? será possível, que esta Rosaura seja a filha de sinhá Adelaide!... Rosaura, o que foi isto; conta-me, — continuou ela com voz mais clara; — o que é que você tem?.,. sinhá te ralhou?

— Não, — respondeu soluçando a pobre menina;— sinhá não me ralha; meu senhor é que me persegue.

— Ah! coitadinha!... logo vi. Você pensa que eu já não percebi a má intenção de sinhô moço?... cruz...! que homem ruim é aquele! mas sossega, minha filha, não há de ser nada. Eu vou buscar roupa para você mudar, e depois você há de me contar uma coisa.

— Pois sim, tia Lucinda; vai mesmo, vai me buscar outro vestido, que eu assim não posso aparecer; o que é que sinhá Adelaide há de pensar de mim vendo-me neste estado?

Lucinda, como o leitor deve lembrar-se, foi quem recebeu nos braços, quando veio à luz do mundo, a mimosa e infeliz criança fruto dos amores clandestinos de Conrado e Adelaide; foi ela quem lavou, pensou, vestiu e depois expôs, com boas e louváveis intenções, a mísera recém-nascida à porta de Nhá-Tuca. Tinha-lhe feito impressão e trazia gravado na lembrança um sinalzinho muito distinto, que a criança tinha do lado esquerdo pouco mais ou menos na altura do coração, em forma de cruz semelhando um hábito do cruzeiro.

Rosaura apresentava agora um sinal em tudo igual e semelhante, se bem que um pouco deslocado.

Demais Lucinda já havia notado uma tal ou qual semelhança das feições de Rosaura com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado.

Entretanto estava certíssima que vira estendida em seu pequeno féretro ornado de flores e capelas o cadáver da filhinha de sua sinhá.

A preta entrou a scismar sobre esta estranha coincidência, e uma forte suposição, quase com o caráter da certeza, penetrou-lhe no espírito. Rosaura era a enjeitada; Rosaura era a filha de Adelaide e Conrado; a criança que vira morta, era outra.

— Anda, minha filha, toma, muda essa roupa, — disse Lucinda entrando e entregando à Rosaura um vestido.

— Agora, — continuou ela depois de ter ajudado a menina a vestir-se, — agora você há de me dizer uma coisa, que ainda não me disse, porque eu ainda não perguntei. Donde é que você é? ... quem foi teu sinhô ou tua sinhá, que te vendeu para sinhô Morais?... você é daqui mesmo de S. Paulo?... fala verdade, minha filha.

— Tia Lucinda, que precisão tenho eu de mentir? sou mesmo aqui de S. Paulo; sou cria da casa de uma mulher velha, que mora na beira da estrada, que vai para as bandas de Jundiaí, chamada Nhá-Tuca. Minha mãe morreu, já vai para cinco anos...

— E de que cor era tua mãe?... — atalhou Lucinda.

— Minha mãe?!... minha mãe era... era um pouco mais trigueira do que eu.

— Ah! logo vi; era mulata, — murmurou consigo a preta.

— O que eu desconfio, vai tomando rumo. E depois, minha filha.

— E depois, eu havía de ter uns dez anos, minha sinhá me vendeu a um homem velho, que costumava comprar para vender por fora comboios de escravos. Ele e a mulher dele ficaram gostando de mim, me estimavam muito, e não me queriam vender por nada. se não fosse o senhor Morais, que tanto teimou e ofereceu tanto dinheiro, eles não me vendiam.

— Mas escuta, menina; você nunca ouviu dizer que lá na casa de Nhá-Tuca, quando você nasceu, aconteceu alguma coisa?...

— Não, tia Lucinda; não me lembro de nada.

— Puxa pela memória, menina; lembra bem ... talvez...

— Ah! ah!... agora me lembro, tia Lucinda, — replicou Rosaura batendo na alva testa com os rosados dedinhos; — agora me lembro que lá em casa de sinhá velha ouvi contar que no dia em que eu nasci, apareceu na porta de casa uma menina enjeitada, que morreu no mesmo dia.

— Santo nome de Jesus!... — murmurou Lucinda benzendo-se.

— Eis aí como são as coisas deste mundo?... Ah! Rosaura! Rosaura!... está me parecendo que essa menina enjeitada não morreu nada.

— Como assim, tia Lucinda!...

— Não sei, minha filha, mas tenho cá minhas cismas... Deixa estar, menina; ou eu não sou filha de minha mãe, ou hei de desmanchar esta candonga, seja lá como for.

Neste momento apareceu Estela, que vinha chamar Rosaura, e Lucinda achando-se a sós ficou a banzar sobre o estranho caso, que acabava de presenciar, e quanto mais scismava, mais se convencia de que Rosaura era a filha de Adelaide, que ela havia exposto, na porta da casa da velha Gertrudes.

— Deus de misericórdia! — pensava ela. — Como é que pode acontecer uma coisa destas!... a mãe, sem saber, comprar sua própria filha e tê-la em casa como escrava!... E há de continuar a tê-la nessa conta sem nunca poder saber a verdade!?... Não; isto não pode continuar assim ... Deus não quer isto. Agora, que pouco mais ou menos já dei na malhada, hei de botar tudo isto em pratos limpos, custe o que custar.

Assim refletindo, a preta começou a excogitar os meios que empregaria para rasgar completamente o véu daquele mistério, que um acaso, ou antes um assinalado favor da providência lhe ia revelando.

Para Lucinda já era fora de dúvida que Rosaura era a filha de Adelaide; mas nem a sua convicção pessoal, nem sua mera asseveração, nem mesmo a alegação dos veementes indícios, que corroboravam sua suspeita, seriam suficientes para restituir Rosaura à posição que pelo nascimento lhe era devida.

Depois de muito pensar convenceu-se de que ela, pobre e ignorante escrava, por si só nada podia fazer de acertado e eficaz naquela conjuntura; pensou que o melhor expediente, de que podia lançar mão, era comunicar imediatamente sua descoberta à Adelaide. Esta, em vista de tão valentes indícios, sem dúvida não hesitaria em reconhecer quanto era natural e plausível a suposição da escrava. Demais a boa e sensível preta, que apesar de sua condição conhecia os mais delicados sentimentos do coração humano, sabia que a ser exato o que supunha, a voz da natureza, esse poderoso instinto que jamais engana, juntando-se a tantas outras provas auxiliares, viria cortar toda a dúvida e dizer a última palavra.

Firme em seu propósito Lucinda esperou pelas horas mais adiantadas da noite, em que o senhor Morais saía a passeio, como era de costume, e em que as crianças estavam dormindo, para fazer à sua sinhá a revelação do mistério, que lhe preocupava o espírito.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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