Leia agora
Rosaura, a Enjeitada

Universo da obra

Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 42 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XXIII: Vinte e quatro horas de ansiosa expectativa

42 de 45 ≈ 15 min de leitura

Conrado, como dissemos, ficara seriamente impressionado ao saber que Carlos e Rosaura já se conheciam. Isto para um homem experiente e perspicaz como era ele, e à vista dos sintomas que rapidamente observara naquele primeiro encontro, queria dizer que os dois jovens já se amavam. Por alguns momentos uma vaga e sombria desconfiança lhe adejou pela mente, lembrando-se da humilde e desgraçada condição, em que até então tinha vivido sua filha. Mas essa nuvem para logo se dissipava toda a vez que contemplava a fisionomia de Rosaura, em que se espelhavam a candura e a inocência de sua alma. Também conhecia a Carlos como um moço de sentimentos nobres e delicados, e o modo por que ambos se houveram naquele encontro inopinado, bem estava revelando que se havia ali paixão, era de uma e outra parte uma paixão virginal e pura, um sentimento honesto e recatado.

Havia apenas quinze dias que Rosaura se achava em casa de seu pai, e não diremos que se havia operado nela uma completa transformação, porque Rosaura era elegante, discreta e graciosa por natureza; mas tinha feito tais progressos no desenvolvimento desses seus dotes naturais, que parecia ter sido nascida e educada no meio da mais polida sociedade. É verdade que ela durante sua escravidão fora sempre tratada com mais algum mimo e delicadeza do que os outros escravos, mesmo por Nhá-Tuca, sua primeira senhora; mas mesmo assim era para admirar como em sua brusca passagem da humilde condição de escrava e de sua vida simples e retraída para os salões da opulência se familiarizasse tão depressa com a sua nova posição. Também a sua estada por espaço de um mês em casa de Adelaide, onde era tratada como parte da família, contribuiu para habituá-la ao trato de uma sociedade mais distinta, e serviu como de transição ou tirocínio, para que não entrasse por demais bisonha na opulenta e luxuosa casa de Conrado.

Este se comprazia com justo e bem fundado orgulho em apresentar Rosaura como sua filha aos seus íntimos amigos, e em lhes contar o modo extraordinário e quase miraculoso, pelo qual o céu lhe concedera uma filha já grande, formosa e dotada em tão alto grau de todos os atrativos físicos e morais. Omitia entretanto ou alterava certas circunstâncias a fim de evitar indagações, e desviar toda e qualquer suspeita que pudesse pairar sobre a verdadeira mãe de Rosaura. Assim dizia que ela nascera em Curitiba, e que sua mãe já não existia. Quanto ao mais alterando somente os nomes das pessoas e dos lugares narrava com toda minudência e fidelidade o singular acontecimento que lhe tinha dado uma filha, com cuja existência ele nem sonhava. Com o coração ermo de afetos, como até ali tinha vivido, tendo sempre presentes ao espírito tristes e amargas recordações do seu infeliz passado, Conrado não cessava de congratular-se com sua sorte, e bendizer o céu que, preservando e restituindo-lhe a filha, vinha reatar seu doloroso passado a um risonho e esperançoso futuro pelos laços tão suaves e afetuosos do amor paterno. Rosaura era uma flor cândida e mimosa, que de chofre lhe desabrochou sob os passos como por encanto em toda a plenitude do viço e louçania para embalsamar-lhe o outono da vida com seu delicado perfume.

Conrado, pois, que tinha especial simpatia e estima pelo seu correspondido, não podia deixar de apresentar-lhe sua filha e dar-lhe conta também do modo singular por que o destino o levara a deparar com tão precioso achado. A surpresa que causou-lhe o conhecimento recíproco dos dois jovens, o tornou pensativo.

O amor que já mutuamente se consagravam, era fato que quanto mais refletia, mais claramente se lhe apresentava ao espírito.

A enfermidade e abatimento físico e moral de Carlos e a declaração, que lhe havia feito de que seus incômodos não eram daqueles que se curam pelos recursos da medicina, nem pelos cuidados dos homens, bem denunciavam que havia ali uma causa moral profunda e persistente, e essa causa não podia ser outra senão o amor de Rosaura. Como porém seu espírito se perdesse em um caos de conjecturas mais ou menos razoáveis, sobre as quais lhe era mister refletir com mais sossego, deliberou aprazar para o dia seguinte o que tinha de comunicar ao mancebo.

Tudo conspirava para convencê-lo de que entre os dois jovens existia paixão recíproca, amor puro e sincero; os ventos todos sopravam na direção de suas conjecturas, e talvez mesmo de seus desejos.

Todavia, antes de fazer a Carlos declarações mais íntimas, julgou prudente sondar de antemão as disposições do coração da filha. Isto foi-lhe mui fácil; o coração puro é como a fonte límpida que nada esconde em seu fundo.

Desde que tinha em casa sua filha, Conrado havia notado, que a despeito da imensa alegria, que ela sentia por ter por assim dizer nascido de novo em um mundo estranho, por ter sido arrancada pela mão benéfica da Providência do inferno da escravidão para um céu de venturas, onde ao lado da liberdade vinha encontrar pai e mãe; uma leve nuvem de tristeza pairava de quando em quando sobre aquela fronte tão pura, tão radiante de candura e de inocência. Por vezes a surpreendera em tal estado de melancolia, que não podia deixar de interrogá-la; ela porém respondia que seu desgosto provinha unicamente de ter mãe tão boa e tão perto de si, e não poder viver com ela, abraçá-la e beijá-la todos os dias, e nem mesmo poder dar-lhe em público o doce nome de mãe. — Em motivo tão justo, e aliás verdadeiro, mas que não era o único nem o mais poderoso de seus melancólicos devaneios, não deixava de satisfazer algum tanto a ansiosa e solícita curiosidade de Conrado. Depois, porém, que se deu o encontro entre ela e o seu jovem correspondido, as ideias de Conrado tomaram outra direção. Não conhecia bem ainda a índole e o temperamento de Rosaura, mas mesmo assim compreendia perfeitamente que aquela melancolia não era muito compatível com a sua idade, nem podia constituir seu estado normal, e devia ser resultado de algum sentimento contrariado; que alguma coisa, fosse o que fosse, faltava para a completa felicidade de sua filha.

Depois porém que em sua presença Carlos e Rosaura se encontraram em face um do outro, a luz foi-se fazendo diante de seus olhos.

Desde que Cartos lá apareceu, a fisionômico da moça foi-se modificando de um modo tão sensível, que não pôde escapar às vistas perspicazes e escrutadoras de Conrado.

O vivo rubor que lhe assomara às faces, logo que deu com os olhos no mancebo, nunca mais se apagou, apenas desmaiou um pouco, depois que ele se retirou, e assim se conservou até o dia seguinte. Eram as rosas do amor que refloriam de novo ao bafejo da esperança naquela cândido e encantador semelhante. Os sorrisos lhe adejavam espontâneos pelos lábios, e nos olhos lhe cintilava um fulgor sereno e bonançoso como o de uma manhã de abril. Nesse dia Conrado não viu mais no rosto de sua filha nem a mais leve sombra de tristeza.

Depois de ter notado com particular atenção aqueles sintomas, Conrado procurando encobrir sua intenção e sem muita insistência fez à sua filha algumas perguntas a respeito de Carlos.

— Então já conhecias este moço que te apresentei hoje, — perguntou, afetando indiferença.

— Já, sim senhor; era nosso vizinho na rua do Tabatinguera, respondeu Rosaura bastantemente enleiada.

— E que tal te parece ele?

— Me parece muito bom moço.

— Qual bom moço! é um estúrdio como todos os seus companheiros... basta ser estudante.

— Oh! meu pai!... não diga isso, — exclamou com toda a vivacidade e com toda a ingenuidade a menina. É porque meu pai não o conhece. Este não é como os outros; é muito bem criado, e tem tão bons modos...

— São aparências, minha filha; não acredites muito nesses sujeitinhos. Não é de hoje que os conheço. Esse Carlos mesmo, se não é um maluco ou um devasso como os outros, talvez não passe de um refinado hipócrita.

— Ah! meu pai! será possível! — murmurou Rosaura com voz sentida, e tornou-se triste e amuada...

Conrado sorriu-se; tinha surpreendido no fundo da alma o segredo da filha.

— Não te aflijas, Rosaura; eu também conheço Carlos, e até o vi pequenino em Minas na fazenda do pai, que é muito meu conhecido e meu amigo.

— Ah! deveras! — replicou Rosaura reanimando-se. — Quanto estimo isso!...

Conrado não precisava saber mais para ficar inteirado da natureza dos sentimentos de sua filha para com o seu correspondido. Só lhe faltava agora sondar o coração de Carlos, para o que esperou com impaciência o dia seguinte.

Quando Carlos saiu da casa de Conrado, e achou-se no meio da rua, ia tão aturdido com o que lhe acabava de acontecer, que parou perplexo sem saber para onde dirigir seus passos. Nesta hesitação ficou parado alguns momentos; mas depois, levantando os olhos para o sobrado, viu Conrado e Rosaura, que da sacada o contemplavam com ar risonho; envergonhou-se, fez um ligeiro cumprimento, e como quem despertava de um sonho dirigiu-se resolutamente para casa de Frederico, com quem morava desde que este o arrancara da rua do Tabatinguera. Caminhava porém por tal sorte distraído, tal era a preocupação e enlevo, em que ia embebido, que não via onde pisava, abalroava um e outro transeunte, e não correspondia aos comprimentos dos colegas e conhecidos, com quem ia encontrando. Levava a alma como que fechada dentro de uma nuvem cor-de-rosa, cheia de visões e miragens encantadoras, que não lhe permitiam ver nada do mundo exterior, enquanto o corpo se movia automaticamente procurando o rumo de casa. O achado que acabava de fazer, sem o procurar, sem o saber, o atordoava. Encontrar Rosaura que ele julgava para sempre perdida, encontrá-la de um dia para outro, livre, rica, em uma posição brilhante, transformada de escrava que era em uma distinta donzela filha de um opulento e amável cavalheiro, o qual além de tudo era o seu correspondente, o amigo de sua família, era com efeito um acontecimento que tinha um não sei quê de prodigioso; era um sonho das mil e uma noites.

Todavia o azul do horizonte, que lhe sorria, não era ainda de todo puro e calmo; pairava sobre ele uma nuvenzinha escura, que lhe turbava a serenidade. Terrível suspeita lavrava por instantes no espírito de Carlos. Apesar de estar bem convencido da honradez e sinceridade do caráter de Conrado, não podia conformar-se com a ideia de que Rosaura fosse sua filha. Conrado era rico, podia satisfazer todos os seus caprichos. Viu Rosaura, encantou-se de sua beleza, não poupou esforços nem dinheiro para obtê-la, comprou-a, libertou-a, levou-a para a casa, e não querendo casar-se com uma liberta, fê-la, ou pretende fazê-la sua amásia. Para coonestar aos olhos do público sua convivência com a gentil menina, procura fazer crer que é sua filha, para o que pouco lhe custará inventar qualquer história. Carlos também não deixara de perceber a alteração, que se manifestara na fisionomia de Conrado ao saber que ele e Rosaura já se conheciam, e esse fato servia para confirmá-lo em suas sombrias apreensões.

Bem se vê que eram apreensões quiméricas e disparatadas de um espírito enfermo, que tendo surgido como por encanto dos abismos tenebrosos do infortúnio e do desalento, a custo pôde abrir os olhos à luz da esperança e da ventura, tendo ainda diante deles as cataratas da desconfiança.

Não obstante estes pensamentos, por insensatos que fossem, atormentavam cruelmente a imaginação do moço, se bem que fossem contrabalançados por algumas reflexões mais razoáveis, que imediatamente lhe acudiam ao espírito. Mas persistia sempre a dúvida, esse cancro roedor, que tanto martiriza o espírito e o coração, e Carlos raivava contra o seu correspondente por ter diferido para o dia seguinte essas revelações, que deviam pô-lo ao fato do nascimento de Rosaura, e terminar de uma vez todas as incertezas que o atormentavam.

Embebido em seus pensamentos. Carlos percorreu a rua Direita, desceu a Ponte do Pique, subiu a longa rua que conduz ao alto da Consolação, em cuja extremidade morava com Frederico. Este não estava em casa; era sábado, e segundo o seu costume tinha saído a passeio, e a visitar os amigos.

Carlos não sabia como passar aquele longo dia de novembro, que tão ardentemente desejava ver caído nos abismos do passado, não para amaldiçoá-lo, mas para glorificá-lo como a data mais feliz de sua vida, se acaso o dia seguinte viesse confirmar as risonhas esperanças da véspera. Em casa achou somente o cozinheiro de Frederico, que preparava o jantar. Na situação em que se achava o espírito de Carlos, o que mais lhe convinha era mesmo ou a solidão, ou um amigo íntimo, com quem desabafasse suas emoções; como Frederico não aparecia, ficava-lhe por companheira a solidão. O cozinheiro serviu-lhe o jantar; Carlos sentou-se à mesa, mas apenas ingeriu automaticamente alguns bocados, e logo levantou-se. Consultava de contínuo o relógio, mas os minutos volviam-se com tal lentidão, que pareciam horas. Ficar ali sozinho dentro de casa não lhe pareceu o melhor modo de acelerar a carreira do tempo.

— Vamos passear, — pensou ele, — dar um passeio bem largo e bem fatigante, andar, andar, pouco importa por onde, até anoitecer. O longo exercício trará a fadiga, e a fadiga o sono, e nada há melhor para dar velocidade às asas do tempo que o sono; a dormir, um século volve-se em um minuto.

Tinha bastante razão, como a experiência e o resultado vieram demonstrar. O amante de Rosaura tomou o chapéu e saiu; foi até à Ponte Grande do Tietê, que distava de sua casa cerca de meia légua, procurando esquecer-se mas lembrando-se sempre do dia seguinte, que tinha de resolver o problema de seu futuro destino. Quando voltou, já vinha caindo a noite; apesar de bastante fatigado, continuou ainda a passear à toa por todas as ruas da cidade, até que badalaram dez horas no relógio da Sé. Então voltou para a casa, que como de dia achou completamente deserta; Frederico tinha ido ao teatro. Fatigado tanto de andar como de pensar, Carlos deitou-se e dormiu profundamente até o dia seguinte. Quando abriu os olhos e viu que já raiava a luz do dia, estremeceu de júbilo.

— É hoje! é hoje o dia! — murmurou consigo. — Dia feliz ou nefasto?... não sei, mas em poucas horas estarei ciente do destino que me espera.

Consultou o relógio; já era bem tarde, quase nove horas.

— Bom! — exclamou ele. — Bem-aventurado sono, que assim me encolheu o tempo! já me faltam poucas horas; enquanto lavo o rosto, visto-me e almoço, aproxima-se o momento suspirado. Entretanto vamos a ver o Frederico.

Frederico tresnoitado do teatro ainda dormia a sono solto.

— Melhor! — refletiu Carlos, — deixemo-lo dormir. Não quero dar-lhe uma notícia incompleta, ler-lhe um romance, cujo desfecho ainda não está escrito. Logo saberá tudo.

Carlos vestiu-se e preparou-se com vagar e esmero, coisa que há muito tempo não era seu costume, almoçou mal e apressadamente, enquanto Frederico dormia, tomou o chapéu e saiu. Todavia muito a seu pesar eram apenas dez horas. Como era domingo, vendo uma igreja aberta entrou para ouvir missa e ganhar tempo. Depois de ter dado ainda muitas voltas, ouvia em transportes de alegria soar meio dia na torre da Sé. Quão harmoniosas lhe soaram aos ouvidos aquelas doze badaladas!... Era chegado enfim o momento, que há vinte e quatro horas esperava com tão impaciente ansiedade. Conrado tinha-lhe dito que do meio dia em diante estaria em casa à sua espera.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

Rosaura, a Enjeitada

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Rosaura, a Enjeitada

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Rosaura, a Enjeitada Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 42 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Rosaura, a Enjeitada

Capa de Rosaura, a Enjeitada
Continue a leitura Parte II — Capítulo XXIII: Vinte e quatro horas de ansiosa expectativa Capítulo 42 · 42 de 45 · ≈ 15 min
Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir