Universo da obra
Universo da obra
Posto que sejamos inimigos mortais de todo o gênero de maledicência, forçoso nos é gozar ainda um pouco na pele do major Damásio. Se bem que não deixasse ele de ter alguns bons instintos, e certo fundo de honradez e cavalheirismo todavia sua nímia filáucia unida a muita ignorância o tornava um personagem algum tanto ridículo, e às vezes até mesmo odioso, próprio para servir de joguete entre as mãos de estudantes não pouco desenfreados e libertinos. Sua balda de fidalgo e branco sem mescla se revelava a cada instante nos modos, nas palavras e nas ações tratando, com revoltante desdém a todas as pessoas de cor e de condição humilde. Parecia ignorar que em São Paulo todo o povo conhecia sua baixa linhagem, que o público maligno e desapiedado ainda mais procurava rebaixar como para puni-lo de sua estólida presunção. Talvez mesmo que à força de mentir à sua própria consciência, se lhe encasquetara nos miolos a convicção íntima e profunda de que era realmente fidalgo, em consequência de uma dessas monomanias quixotescas, de que se dão não raros exemplos. Se este fraco se limitasse somente à sua pessoa, o mal não seria tão sensível; ele porém refletiu-se na educação de sua filha, e veio a influir de modo lastimoso em seus ulteriores destinos.
Imbuída em todos os preconceitos e parvoíces do pai, não tendo tido outro mestre senão ele e alguns preceptores lisonjeiros e fáceis, que lhe deram algumas lições superficiais de música, dança e desenho, e algumas noções de francês, faltou inteiramente à Adelaide a educação moral e religiosa. Formosa e dotada de bastante espírito e inteligência, teria sido uma das mais perfeitas criaturas, se não fosse a falsa e má educação que lhe perverteu consideravelmente a excelente índole, de que a dotara a natureza. Para cúmulo de males, ainda no berço havia perdido sua mãe, e a única mulher a que ficara confiada a guarda da pobre menina, era um velha tia celibatária, irmã do major, mulher ignorante e quase idiota, que passara a vida a rezar e criar galinhas, e da qual Adelaide fazia tanto caso como de suas escravas.
O major,
— não sem bastante fundamento,
— fazia de sua filha o mais elevado conceito, não só como formosura, mas também como um modelo de elegância, graça e inteligência, e a colocava muito acima de todas as celebridades do mundo elegante daquele tempo em São Paulo. Como Adelaide já tinha completado os seus dezesseis anos, o major não podia deixar de pensar em casa-la; tão ilustre raça não devia extinguir-se em sua filha e era preciso escolher um noivo digno dela. Ora, o corpo acadêmico era justamente um viveiro de noivos na altura de suas aspirações. Uma mocidade brilhante e esperançosa frequentava a Academia; uns ricos, outros fidalgos de sangue azul, outros com a aristocracia do talento tinham suspensa sobre a fronte a auréola de um esplendido futuro. O major não ignorava que era especialmente dessa classe que saíam os deputados, senadores, ministros, barões, condes e marqueses. Estava também intimamente convencido de que era bastante mostrar-lhes a filha para ficarem todos morrendo por ela, e a disputarem com encarniçamento a posse de tão inapreciável tesouro. Portanto e neste intuito tratava de relacionar-se com o que havia de mais ilustre e prestigioso nessa classe, procurando especialmente os da corte, e evitando com a maior cautela pessoas de cor equívoca. Entretanto, de envolta com esses jovens de famílias distintas, não deixavam de ser admitidos em sua casa alguns estudantes pobres e obscuros, mas notáveis pelo talento, principalmente se distinguiam-se por alguma aptidão artística, ou se eram poetas, pois o major e sua filha eram apaixonados pela poesia: Adelaide sobretudo era muito lida em romances.
O que todos não podiam suportar, era a intimidade de mulatos ou caboclos.
Belmiro pouco mais ou menos já adivinhava, qual o motivo por que Azevedo havia convidado novos companheiros, e instava tanto com ele, para que não faltasse ao passeio de domingo; desconfiava que outra não podia ser a sua intenção, senão, de mãos dadas com seus diabólicos companheiros, promover todos os meios de expô-lo à mais solene irrisão em presença de Adelaide. Na companhia de seus amigos e comensais, dispunha ainda de alguma presença de espírito para fazer face às caçoadas; mas com gente estranha perdia-se de todo, e sua perturbação bastaria para que fizesse o mais triste papel. Quanto mais refletia, mais se convencia de que lhe não era possível resistir à conspiração que contra ele se armava. Por outro lado atormentava-o irresistível desejo de tornar a ver aquela que lhe havia roubado o coração. Toda a noite passara a cismar com ela. Fora tão meiga para com ele; testemunhara-lhe tanto interesse e simpatia!... não seria grande indelicadeza de sua parte deixar de comparecer ao primeiro convite?... mas como arrostar a petulância daquela legião de garotos, que o Azevedo havia arrebanhado para o acabrunharem ao peso de motejos e caçoadas?...
Neste estado de indecisão adormeceu e acordou o irresoluto Belmiro na noite de sábado para domingo. Acordou e levantou-se muito cedo, e a primeira resolução que as auras matinais lhe inspiraram, foi que não devia comparecer. Antes uma retirada honrosa do que uma derrota vergonhosa,
— pensou ele.
E para se esquivar às importunações do Azevedo e mais companheiros, logo que levantou-se, foi amoitar-se em casa de um estudante, seu amigo, que morava nas vizinhanças. Era uma deserção algum tanto vergonhosa; mas antes isso do que ser vítima de caçoadas e pilhérias pesadas em presença de uma mulher amada.
Na hora aprazada,
— onze para meio dia,
— em vão procuraram Belmiro; ninguém sabia onde se alapardara. Azevedo deu a mil diabos a fuga de sua vítima; a vingança escapava-lhe das mãos de um modo lastimoso.
— Ah! raposa matreira!
— exclamava ele;
— mas, deixa-te estar, que mesmo sem a tua presença hei de preparar-te uma cama, com que não te hás de dar mal. Olhem o sonso!... tem convite de um homem de importância e de uma menina bonita, e esconde-se como um urso bravio! Mas pela falta de um companheiro não havemos de perder o pagode, de ele no que der. Vamos, meus amigos!
Azevedo levava o seu menestrel, o Couto, grande violonista e cantor de primeira ordem, e com ele e os mais companheiros contava passar um dia cheio e regalado, e portanto, rogando mil pragas a Belmiro, puseram-se alegremente a caminho para a casa do major.
Belmiro entretanto não ficou tranquilo, e logo que soube que a comitiva de Azevedo tinha partido, começou a achar feio e ridículo o seu procedimento. Demais a mais, gravemente namorado, como realmente se achava, começava a sentir fisgar-se-lhe ao coração a farpa do ciúme.
— Não!
— dizia consigo;
— não devo deixar de comparecer. Adelaide com minha ausência ficará fazendo bem fraca ideia de mim; pensará que fiz pouco caso de suas atenções, ela que as merece tanto, e me entregará ao desprezo, que realmente merecerei, se lá não for... Sou deveras um amante bem frio, tosco e pusilânime!... Ter medo de meia dúzia de peralvilhos, só porque se trajam com algum primor, e sabem dizer às moças meia dúzia de banalidades e parvoíces adocicadas?!... Ora!.. Também o Azevedo é um dândi de primeira ordem, e anteontem, sem o menor esforço e quase sem querer, o pus fora de combate!... Vamos! vamos!... ao menos ficarei sabendo se a deferência, que teve comigo, foi um capricho de momento, ou dó por causa da minha queda, ou se é mesmo coisa mais séria.
Nesta resolução dirigiu-se a casa, vestiu-se às pressas e o melhor que pode, e encontrando ainda encilhado o animal que lhe tinham preparado, enforquilhou-se nele e dirigiu-se para a chácara do major.
Ao avistar a casa de Adelaide, o coração lhe palpitou com violência, como o do soldado que vai entrar em renhido combate, do qual não sabe se sairá vivo ou morto, vencido ou vencedor. Ia-se expor a um terrível tiroteiro, do qual para sair vitorioso só esperava o auxílio de uma pessoa, e essa era Adelaide.
Achou a companhia instalada no salão em animada e alegre conversação. O Azevedo levara, além de dois ou três companheiros de Belmiro, mais seis ou sete novos amigos, jovens elegantes, primorosamente trajados, afeitos às maneiras cerimoniosas dos salões.
Um deles, se bem que igual aos outros na elegância e no trajo, era de cor bastantemente fusca e tisnada, e no rosto e no cabelo apresentava o tipo mais pronunciado de um verdadeiro tupi. Era este o grande cantor, o excelente músico, que o Azevedo tinha inculcado, no intuito de eclipsar a Belmiro.
Azevedo e seus companheiros receberam Belmiro com uma explosão de cumprimentos irônicos, que o atordoaram.
— Ainda bem que vieste, meu caro Belmiro, que falta nos ias fazer!...
— Por que razão te eclipsaste na hora da partida?... não vais melhor do pé?...
— Oh! felizmente cá o temos!... Oh! insigne trovador!...
— Bem-vindo sejas, meu Belmiro!
— disse por sua vez o Azevedo, tocando-lhe no ombro;
— se faltasses, faltava-nos o ar, a luz, a vida... mas olha que daqui em diante não é mais permitido destroncar o pé.
Belmiro nada respondia; notou, porém, que o major naquele dia tratava seus hóspedes com mais reserva e cortesia, e mesmo com certa frieza, que não condizia com as maneiras francas e familiares com que os recebera da primeira vez; mas não podia atinar com o motivo de semelhante procedimento.
Adelaide foi a última que se dirigiu ao recém-chegado.
— Pensava que não vinha mais,
— disse ela depois de cumprimentá-lo;
— e já estava ficando com raiva do senhor.
— Eu não podia deixar de vir, minha senhora; um transtorno insignificante me fez demorar um pouco; espero que me desculpe.
— Uma vez que apareceu, está desculpado. Meu pai havia de ficar bem aborrecido, se o senhor não viesse.
— Oh! decerto,
— acudiu o major,
— muito apreciamos a sua companhia, e havemos de apreciá-lo também hoje no violão.
— Lá por isso não, meu caro major; nenhuma falta eu faria; aí está o nosso amigo Couto que o vai fazer esquecer-se.
— Oh! o senhor!
— replicou o major, inclinando-se com cerimoniosa gravidade para o Couto,
— havemos de ter o gosto de ouvi-lo também.
— Toco alguma coisa, senhor major,
— retorquiu o Couto,
— senão tão admiravelmente, como o nosso incomparável Belmiro, sempre sirvo e não me faço rogado. Mas creio que seria para todos nós muito mais agradável ouvir a senhora Dona Adelaide, que segundo dizem meus amigos, possui uma voz maravilhosa.
— Não é tanto assim,
— replicou Adelaide
— canto alguma coisa; mas não sou mestra; tenho muito pouco estudo.
— Isso nada importa,
— disse o Couto, levando a sua cadeira para bem junto da moça e assentando-se com grande familiaridade ao pé dela;
— o que mais se aprecia são os dons naturais, que a senhora pode aperfeiçoar com o exercício e a direção de um bom mestre.
Adelaide corou toda perturbada, e procurou disfarçadamente afastar algum tanto sua cadeira da de seu interlocutor. O major por seu lado enfiou e mordeu os beiços com impaciência, ao ver aquele fusco trovador chegar-se com tal desembaraço, a bafejar tão de perto a sua idolatrada Adelaide.
— Não duvido,
— disse esta, respondendo ao Couto;
— mas não tenho pretensões a ser grande cantora; canto para distrair-me.
Ah! mas isso é ser muito egoísta; quem dispõe de uma bela voz, tem o dever de cantar também para distrair e encantar aos outros.
— Perdão, meus senhores;
— interveio o major impacientado.
— Deixemos a música para depois; são horas de irmos às frutas. Vamos, senhores; vamos para o pomar.
— Prontos,
— responderam os estudantes, levantando-se, e todos precedidos pelo major e sua filha se dirigiram ao pomar pelo caminho que já conhecemos.
Aí nada ocorreu de interessante; somente o major, escarmentado com o que acontecera Belmiro, não consentiu mais que os estudantes subissem às jabuticabeiras, e mandou servir as frutas já colhidas por seus escravos. Este fato, além de mostrar-se o major nesta ocasião muito mais frio e cerimonioso em seu trato, concorreu grandemente para tornar a função pouco animada, e bastantemente desenxabida. Azevedo e seus apaniguados em vão procuraram divertir a companhia chasqueando à custa de Belmiro; Adelaide pouco apreço dava às suas pilhérias, não as aplaudia, mostrava não entende-las, e às vezes até parecia desaprova-las. Muito ao contrário do que pretendiam, ela como que de propósito mostrava-se solícita e bondosa para com Belmiro, dirigindo-lhe muitas vezes a palavra e oferecendo jaboticabas, que ela mesma colhia.
Isto desconcertava completamente o Azevedo, que via ir-se malogrando de modo deplorável todo o plano de sua conspiração. Seus companheiros igualmente foram-se sentindo cada vez mais desanimados e até mesmo despeitados, principalmente o Couto, a quem Adelaide tratava com uma indiferença que às vezes cheirava a desdém.
Ao jantar, por efeito das libações, os espíritos se animaram, e a conversação tomou algum calor. Os ditérios e epigramas choveram ainda contra Belmiro, que os recebia impassível, à sombra do olhar benigno e protetor de Adelaide. Ufano com a vitória, que sem o mínimo esforço ia alcançando contra seus companheiros, ia cobrando sangue frio e audácia, que lhe não eram naturais.
— Estás amuado hoje, Belmiro!
— disse-lhe um deles;
— falar tão pouco!.... será ainda efeito do tombo que levaste!
— Nem disso me lembro mais, retorquiu Belmiro.
— Mas é que quando vocês falam, não fica tempo a ninguém para dizer uma palavra.
— Oh! oh!... podes falar; podes soltar alguma das tuas sandices; prometemos prestar-te toda a atenção.
— Obrigado!... podem continuar a desfiar suas pérolas; no meio delas minhas sandices vão produzir muito mau efeito,
— Não sei que o senhor Belmiro diga sandices,
— acudiu Adelaide com adorável ingenuidade;
— mas se as diz, é com tal graça, que não parecem tais.
Com um olhar expressivo Belmiro manifestou a Adelaide a sua gratidão.
— Meus senhores!
— bradou o dono da casa de copo em punho.
— já temos feito muitos brindes; agora peço-lhes que façamos um especial ao meu amigo, insigne violonista, o senhor Belmiro!...
Este brinde foi correspondido com sinceridade por Adelaide e alguns poucos amigos do estudante, mas pelo resto dos convivas com atordoadores urras, misturados com gargalhadas, que não podiam exprimir nem prazer, nem entusiasmo.
Está bem claro que ele foi levantado pelo major mui de propósito para humilhar o Couto, cuja cor lhe fazia arrepiar os cabelos.
Azevedo desesperava ao ver irem-se malogrando uma por uma todas as suas tentativas para ridicularizar e por fora de combate o seu rival; Adelaide o amparava com sua égide; não era possível atingi-lo. Só lhe restava uma esperança na ocasião de se tocar e cantar. Sabia quanto Belmiro era acanhado, e se bem que soubesse tocar violão e cantar com algum gosto e perfeição, só o fazia raras vezes e entre pessoas com quem já tivesse contraída alguma familiaridade. Portanto expô-lo a cantar em pleno dia, de violão em punho, no meio de uma sala cheia de pessoas, que ele bem sabia estarem mais dispostas a debicá-lo do que a apreciá-lo, era o maior dos suplícios, que podiam infligir-lhe. De feito, mesmo para os mais desembaraçados haverá provação mais cruel do que ser condenado a cantar de dia bem claro, em uma pequena sala bem cheia, de face para todos, que com os olhos fitos na cara do cantor lhe observam todos os movimentos, e de ouvidos atentos estão à espera, que ele abra a boca?... e principalmente quando no auditório há uma pessoa diante da qual nos seria dolorosíssimo fazer um mau papel?... isto é para fazer suar sangue, e por em torturas o mais delambido cômico de profissão. Era nesta terrível arena que Azevedo e seus comparsas esperavam ver o pobre Belmiro completamente aniquilado sob o peso do ridículo.
Depois de um breve passeio pelo jardim, onde se serviu o café, os convivas se reuniram na sala de visitas. Por instigação de Azevedo, o Couto lançou logo mão do violão, e com notável perícia e agilidade executou lindas peças, que encheram o auditório de prazer e admiração. O major porém e sua filha apenas o aplaudiram com muita frieza; reproduzisse ele as harmonias dos coros angélicos, a sua cor tisnada lhes fazia parecerem ásperas e desentoadas as mais suaves notas que extraía das cordas do instrumento.
— Senhores,
— disse o Couto,
— eu estou tocando somente para preludiar; é bom, que se cante alguma coisa; quem principiará?
— O Belmiro! o Belmiro!
— exclamaram todos os estudantes, que para isso já se tinham combinado.
— É verdade; nada mais justo, mesmo para corresponder ao brinde com que ainda há pouco o honrou o senhor major, é preciso, que cante. Ande, vamos a isso, dizia o Couto, entregando o violão a Belmiro.
Este enfiou e enrubesceu até a raiz dos cabelos; mas tinha formado firme e inabalável propósito de não cantar, e por esse fim já tinha estudado uma escusa, que aliás parecia ser muito atendível.
Tinha tido febre e insônia em consequência da lesão do pé. Sentia vertigens toda vez, que falava mais alto e com alguma vivacidade, e por conseguinte muito menos lhe era possível cantar.
— É manha! é manha!
— exclamaram os estudantes.
— Não admitimos desculpa; não acredite, minha senhora; podemos afiançar-lhe que está de perfeita saúde; a senhora não reparou como ele comeu e bebeu com invejável sede e apetite?...
— Pode-se estar de saúde para comer e beber, e para muitas outras coisas mais, e não se estar de saúde para cantar,
— replicou tranquilamente Belmiro.
— Ora!... não se faça rogado.... Vamos! tome o violão e cante,
— retrucaram os estudantes, acercando-lhe o violão com um ar quase ameaçador.
— Não, decididamente não; não posso. Peço desculpa ao senhor major, e à senhora Dona Adelaide,
— disse Belmiro, lançando a esta um olhar de súplica.
— De nossa parte, senhor Belmiro,
— respondeu ela,
— está dispensado; não queremos agravar seus incômodos só para nos dar prazer.
— Oh! sem dúvida!
— confirmou o major;
— guarde-se para quando estiver de todo restabelecido. Então sim, não havemos de poupá-lo.
O Azevedo naquele instante teve ímpetos de arrojar-se ao gasnete do major e de Belmiro e esganá-los ali mesmo, e de passar pelo menos uma furiosa descompostura em Adelaide, a despeito de toda a sua formosura.
O Couto esperava que visto o Belmiro ter sido dispensado, o major ou sua filha lhe rogassem para cantar; mas nem um nem outra se lembraram ao menos de dirigir-lhe a palavra. Com este desencanto, que era quase um desacato, o Azevedo foi às nuvens; nunca pensou que o menestrel, a quem tanto havia preconizado, fosse tão cruelmente menosprezado. Entretanto, ele e seus companheiros, mesmo para dar uma diversão ao desapontamento e despeito que os molestava, tomaram a seu cargo instar com o Couto, para que cantasse alguma coisa. Este, que mais que ninguém se achava enfadado e de mau humor, acedeu de má vontade à súplica dos companheiros, e entoou uma cançoneta, e alguns lundus chulos e bem pouco próprios da boa companhia. Isto acabou de indispô-lo com o major, que dava a perros a lembrança que teve seu amigo Azevedo, de trazer-lhe à casa semelhante tapuia, como lá de si para si o qualificava.
Por fim os estudantes, menos o tapuia, que não podia nem queria disfarçar o seu despeito, rodearam Adelaide e rogaram-lhe, com muita instância, para que cantasse qualquer coisa. Não lhe foi possível recusar-se.
— A senhora decerto vai acompanhar-se ao piano, não é assim, Dona Adelaide?
— perguntou-lhe o Azevedo.
— Não, senhor; prefiro o violão. O senhor Belmiro me fará o favor de acompanhar.
Esta última bomba atordoou e fez perder toda a esperança ao Azevedo e a todos os seus companheiros.
Adelaide cantou, e Belmiro acompanhou uma modinha, que só eles dois ouviram, mas que afinal todos aplaudiram ex-ofício.
Já o sol se inclinava rúbido sobre a serra das Cantareiras, e desmaiava seu vivo fulgor engolfando-se nos diáfanos vapores da tarde. O sol estava a despedir-se do nosso hemisfério, os convivas do major Damásio ansiosos por despedirem-se de seu hóspede, e este também não menos aflito por vê-los pelas costas.
O major entretanto não quis despedir os seus convivas sem dar-lhes uma satisfação, e como não podia dá-la à face de todos, chamou de parte para esse fim o Azevedo, com quem tinha mais antigas relações, e maior familiaridade.
— Desculpem-me,
— disse-lhe ele,
— se hoje não os tratei no mesmo tom de familiaridade. Veio gente nova, e além disso o senhor trouxe consigo um sujeito, que, perdoe-me lhe dizer, não condizia muito com o resto da companhia. Que necessidade tinha o senhor de trazer cá aquele tapuia?
— É do Couto que V. S. quer falar?... perguntou Azevedo formalizando-se...
— Sim, senhor; o tal tocador de violão.
— Oh! senhor major!... que suscetibilidade a sua!... é um quartanista, um moço muito distinto, bem-educado e inteligente... Quanto à cor é talvez tão branco...
Azevedo ia talvez dizer
— como V. S.
— mas conteve-se a tempo.
— Como muita gente, que anda por aí campando de branca e de fidalga, continuou concluindo a frase. Demais, senhor major, a cor é um acidente.
— Será um acidente,
— interrompeu o major,
— não duvido, mas há certas misturas que repugnam.
Ah!... murmurou Azevedo completamente atônito e desafinado.
— É preciso haver mais cuidado na escolha dos companheiros, meu amigo.
— Eu o trouxe apenas como um insigne músico, que poderia dar algumas lições à senhora sua filha.
— Nesse caso o meu capataz também toca e canta menos mal; e eu havia de pô-lo a ensinar a minha filha!?...
— Oh!... não há o menor paralelo... mas desculpe-me, senhor major; não sabia que os seus melindres aristocráticos chegavam a tal ponto.
— Se há melindre, não é para com o senhor, meu caro amigo, esta casa está sempre às suas ordens, e de seus amigos, contanto que..
— Muito obrigado! atalhou Azevedo, e despediu-se do major, ficando um pouco abaladas as suas relações de amizade.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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