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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 12 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo XII: Conrado

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Agora nos é indispensável dar ao leitor mais intimo e completo conhecimento de um personagem, de quem até aqui só nos temos ocupado acidentalmente, mas que tem de representar um dos mais importantes papéis no desenvolvimento dos sucessos, que temos de historiar. Queremos falar do jovem capataz ou camarada do major Damásio, a quem os estudantes, aliás sem fundamento algum sólido, mas só por pura malícia, atribuíam relações amorosas com a filha do patrão. Conrado, — tal era o seu nome, era natural de Curitiba. Uma feita, em que Damásio ali fora comprar muladas, encontrou o pobre menino na idade de onze a doze anos, órfão e desvalido, mas já traquejado na escabrosa lida de camarada muladeiro. Ágil e vigoroso, já sabia atirar um laço com toda a destreza, pegar um burro xucro, passar-lhe os arreios, e doma-lo como o mais destemido peão. Era o tipo de um lindo e genuíno gaúcho.

Damásio teve ocasião de apreciar o préstimo e atividade do adolescente, e encantado de sua extraordinária habilidade e desembaraço, como tinha precisão de um camarada, o chamou a seu serviço. Além de sua habilidade profissional, Conrado se tornava recomendável por sua dedicação e zelo no serviço do patrão, cuja afeição com o andar dos tempos foi captando de mais a mais.

Chegado em S. Paulo e instalado em casa do major, Conrado era considerado em conta algum tanto menos do que um filho, porém bastante acima de simples camarada. Colocado debaixo do mesmo teto com a filha do major, a formosa e interessante Adelaide, viva e mútua inclinação para logo os ligou, concorrendo todas as circunstancias para cimentar entre eles uma dessas afeições intimas e profundas, que jamais se extinguem, laços, que não se podem romper sem o mais doloroso sacrifício; é assim que de tênues e quase imperceptíveis filamentos, aglomerados durante séculos se forma o amianto, que nem o fogo pode consumir. Conrado era o companheiro, o guarda, ou antes o aio, que sempre acompanhava a menina, quando esta ia à escola ou a qualquer passeio. Por esse tempo ainda o major Damásio não tinha feito da chácara sua residência favorita, e morava no centro da cidade, onde tinha negócio de fazenda seca. Quando ao voltar da escola Adelaide sentia-se fatigada, Conrado dava-lhe o braço, e às vezes mesmo, quando fazia mau tempo a carregava aos ombros já bastantemente vigorosos. Em todos os passeios, espetáculos e divertimentos de qualquer espécie, o pequeno gaúcho fazia parte da limitada família, que se compunha do major e sua filha, uma mucama, e um moleque fardado de pajem, figurante que ele, a bem do decoro de sua alta linhagem, nunca dispensava. Esta vida em comum, e a imprevidente tolerância do major, que quase os equiparava deixando-lhes ampla liberdade de brincarem e passearem juntos, fomentaram em breve tempo a mais afetuosa intimidade entre os dois meninos, que passavam os dias rindo e folgando no suave abandono dessa quase fraternal união.

Conrado não sabia ler nem escrever. O major, que no pequeno curitibano só queria ter um bom capataz, ignorante e egoísta como era, não curou de cultivar-lhe a inteligência, e só ambicionando aproveitar seus bons serviços, nem mesmo se lembrou de faze-lo frequentar a escola. Entretanto o rapazete sentia-se mordido de inveja, quando via sua gentil patroazinha abrir um livro qualquer e lê-lo com desembaraço, ou tomando uma pena entre os dedinhos rosados passear a mão delicada por sobre o papel, deixando nele gravado o pensamento. Sendo mais velho do que ela, ficava sumamente envergonhado, e ardia em desejos de tornar-se neste particular igual àquela a quem tanto bem queria. Um dia manifestou a Adelaide o pesar que o acompanhava, por não poder aprender a ler e a escrever.

— Ora! é tão fácil! — disse-lhe a menina. — Se você quer, eu lhe ensino, e você fica sabendo tudo, o que eu já sei, e o que eu for aprendendo daqui em diante.

Conrado aceitou o oferecimento como um presente do céu. Aprender alguma coisa, e aprender com aquela linda criaturinha, a quem tanto idolatrava, era o mesmo que ser introduzido no paraíso pelas mãos de um anjo. Inteligente e ávido de saber, o curitibano em pouco tempo fez progressos, que admiraram sua pequena mestra, que além do ensino lhe ministrava também papel, tinta, penas, exemplares, etc. Conrado aproveitava-se com avidez de todos estes favores, e não perdia tempo. Pelo caminho da escola, em casa nas horas vagas, a sós ou junto com Adelaide, aplicou-se por tal modo, que em poucos meses igualou e veio a tornar-se superior à mestra; para isso contribuiu o ser ele homem, mais velho dois anos, de inteligência mais robusta, e entregar-se ao estudo com muito mais ardor, do que a jovem mestra, a qual como quase todas as meninas apenas o considerava como um passatempo entre as bonecas e os doces. Em aritmética principalmente Conrado ganhou logo grande superioridade sobre Adelaide, de modo que trocaram-se daí em diante os papéis, vindo o discípulo a ser mestre, e isto com grande contentamento de ambos, sem a menor sombra de inveja nem rivalidade.

Passaram-se assim dois anos, durante os quais Conrado deslizou vida serena de inocência e felicidade em companhia de sua gentil patroazinha, sem inquietações no presente e com os olhos fechados ao futuro. Passou-se mais um ano; Conrado havia completado os dezesseis anos, e Adelaide achava-se entre os treze e os quatorze. O véu da inocência começava a adelgaçar-se ante os olhos dos dois adolescentes; através das flores do presente já começavam a entrever vagamente os espinhos do futuro. Conrado, principalmente já não desconhecia a natureza do afeto, que o ligava à sua gentil mestra e patroa, e compreendia vagamente que aquelas doces relações até ali entretidas não poderiam continuar por muito tempo; que uma grande distância na ordem social separava o órfão desvalido, camarada ou capataz da rica e ilustre herdeira de uma família distinta. Já previa uma dolorosa e inevitável separação, e uma nuvem melancólica lhe pairava sobre a fronte envolvendo-a em cismas de desalento e amargura. Adelaide mais nova ainda não sentia bem o peso de sua situação; mas o sentimento instintivo do recato ia por si mesmo impondo um freio às infantis e ingênuas expansões, que costumava ter com seu companheiro de infância. Já ele não frequentava mais a escola, e o major havia definitivamente fixado a sua residência na chácara. Conrado, já tendo entrado no período da puberdade, era com mais frequência empregado por seu patrão, que nele tinha toda a confiança, apesar de sua pouca idade, em serviço de muladeiro, negócio em que ainda continuava mais por inclinação do que por interesse. Desejava também que o seu jovem capataz empreendesse algum negócio por sua própria conta, a fim de ir, começando algum pecúlio, que lhe garantisse o futuro, e para esse fim já o tinha abonado com certo número de bestas.

Estes afazeres motivavam frequentes ausências, e os dois meninos já não se viam tanto a miúdo, e bem raras ocasiões tinham de se falarem. A sala do major abria-se às vezes a famílias distintas, e a nobres cavalheiros, que o iam visitar e fazer a corte à formosa e interessante Adelaide. O infeliz Conrado, simples e humilde camarada, não podia tomar lugar no meio de tão ilustre companhia, e tinha de morder aos beiços de raiva e de despeito, quando o major às vezes o chamava para trazer um copo de água a algum jovem elegante, que se repoltreava ufano junto de sua jovem patroa. Além disso Adelaide tinha mestres de música, dança, desenho e francês, cujas lições lhe consumiam largas horas, e Conrado, que não podia tomar parte nelas, amaldiçoava, e bem quisera manda-los a todos os diabos.

Este afastamento inevitável, em que novas circunstancias vieram coloca-los, enchia de angustias e amarguras o coração do pobre rapaz. Adelaide, de índole mais leviana e volúvel, se bem que não perdesse o afeto que consagrava ao seu camarada de infância, achava todavia distração bastante no piano, no estudo, e nas homenagens e gabos, que recebia na sala das visitas; a vaidade afagada lhe enchia a imaginação de sonhos dourados, e fazia com que adormecesse algum tanto o sentimento íntimo e profundo, que desde a infância lhe germinara no coração. O mancebo, a quem não escapava esta modificação no procedimento de Adelaide, sentia apertar-se-lhe o coração entre as garras da mais cruel angústia.

Um dia estavam ambos no jardim. Adelaide sentada em um banco de pedra aspirava negligentemente o aroma de algumas flores, que se desdobrava a seus olhos, envolta nos diáfanos vapores de uma tépida e serena tarde de agosto. As vastas lesírias, que se estendem pelas margens do Tietê, verdejavam além, ampla e viçosa tapeçaria, marchetada aqui e acolá por moitas de coqueiros e bananeiras, no meio das quais alvejava sorrindo uma casinha, como branca pomba atufada em ninho de musgo. Adelaide com o pensamento absorto em vagas cismas parecia comprazer-se em acompanhar com as vistas as voltas da corrente preguiçosa do rio através das balsas verdejantes. Conrado em pé, colocado em respeitosa distância alguns passos atrás dela, a contemplava com um olhar repassado de melancolia, que exprimia a um tempo o mais terno enlevo e o mais amargurado desalento. Ela estava resplendente de beleza; surgia-lhe o busto por entre as moitas de flores, que a circundavam, como o de uma hamadríade nos bosques da Arcádia, ou como fada, que sai do seio das flores para alar-se às regiões etéreas. Os raios do sol poente amortecidos pelos vapores da atmosfera, resvalando-lhe pelo rosto, matizavam sua tez morena e acetinada com uns reflexos dourados.

Conrado contemplando-a cuidava estar vendo um anjo, que abrindo as asas ia alçar o voo para o céu e desaparecer para sempre a seus olhos, e todo embebido naquela visão que o fascinava, não via, não ouvia mais nada. Adelaide também profundamente distraída não olhava para ele. Um suspiro mal abafado a despertou; volveu de súbito as vistas para o mancebo, que não teve tempo de enxugar duas grossas lágrimas, que lhe rolavam silenciosas pelas faces.

— Que tens, Conrado?... exclamou Adelaide, consternada e comovida; — que tens que estás assim a chorar?!...

— Eu!... é verdade!... — balbuciou perturbado o pobre moço — Sim! eu estava mesmo a chorar.

— Mas porque, meu Deus!...

— Ah! nem eu sei... uma coisa, que eu mesmo não sei explicar, uma ideia triste veio me apertar o coração. Eu estava olhando para a patroa, bonita como está, mas tão calada e pensativa, e estava me parecendo que era o meu anjo da guarda, que estendia as asas para o céu, e me ia abandonar para sempre; fiquei triste, e as lágrimas me acudiram aos olhos.

— Eu também nada tinha de alegre em meu coração, Conrado; meus olhos se estendiam por essas várzeas e nada viam; não sei que pensamento sinistro me passava pela mente.

Dizendo isto à moça tirou de seu ramalhete uma perpétua, levou-a aos lábios, e entregando-a a Conrado retirou-se precipitadamente.

Ela também tinha necessidade de chorar.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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