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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 29 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo X: Estará viva ou não?

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Enquanto Conrado sôfrego e ansioso dava estes passos na cidade, não menos solícita e inquieta andava a boa Lucinda lá pelos lados da freguesia de Nossa Senhora do Ó. Nessa manhã, como prometera, foi à Santa Ifigênia, onde ouviu missa às nove horas, e dali seguiu em marcha a mais acelerada que lhe foi possível, pela estrada de Jundiaí. Não tomou pelo caminho da chácara do major; nada tinha lá que fazer; continuou direito pela estrada real até a altura, que era bem conhecida, onde existia a casa de Nhá-Tuca. Não é possível explicar qual foi o seu espanto e consternação, quando ao chegar ali não avistou senão ruínas. Da casa não restavam senão os esteios carbonizados e algumas paredes derruídas; o teto tinha desabado, as cercas estavam arrombadas, e o abandono, a solidão e a tristeza reinavam naquele sítio, que outrora fora uma vivenda tão ruidosa, alegre e animada. A casa de Nhá-Tuca era erma tapera, onde não se via viva alma, a quem se pudesse dirigir qualquer pergunta. A tal espetáculo um frio e angustioso desalento se apoderou do coração de Lucinda, que quase desfaleceu. Sentou-se à beira da estrada em frente das ruínas, e pôs-se a refletir. Lembrou-se de que a uns quinhentos passos mais ou menos pela estrada adiante havia também à beira do caminho a casa de um francês, que tinha negócio. Era o vizinho mais próximo de Nhá-Tuca, e devia saber qual tinha sido o destino dessa mulher. A casa tinha sido queimada, não havia dúvida; mas isso não queria dizer que a dona também já não existisse. Lucinda reanimou-se de um resto de esperança, levantou-se e pôs-se a caminhar para diante. Como era domingo, à porta da taverna do francês havia numeroso concurso de gente. Eram de dez para onze horas; grande número de caipiras da vizinhança, que já tinham ouvido missa, uns na cidade, outros na capela de Nossa Senhora do Ó, ali se achavam a palestrar e a molhar a goela para empurrar o domingo, conforme a frase vulgar.

— Bom! — murmurou Lucinda consigo.

— No meio de tanta gente é impossível que não haja alguém que me saiba dizer o que é feito de Nhá-Tuca.

Dirigiu-se pois resolutamente para a venda, comprou uma quitanda, bebeu um gole de vinho para cobrar alento, e depois, dirigindo-se aos circunstantes com uma hesitação e receio fácil de compreender-se, mas difícil de explicar-se:

— Mecês não me saberão dizer, — perguntou ela, — que fim levou uma mulher velha, que morava aqui para atrás, chamada Nhá-Tuca?...

A companhia, que ali se achava, trazia já a cabeça bastante aquecida pelos frequentes tragos, com que no correr da conversação iam molhando a palavra. A pergunta de Lucinda portanto, em vez de obter resposta, foi recebida entre mil risadas e apodos zombeteiros, que confundiram e desorientaram completamente a pobre preta.

— Ei! há! minha tia! pois tu ainda perguntas por essa bruxa esconjurada! diziam eles.

— Cruz! arreda daqui, rapariga; só o nome dessa mulher traz mau azar; vou-me embora.

— E eu também; já a pinga que tomei, está me fervendo na garganta só de ouvir esse nome. Antes o diabo me apareça.

— Quem sabe, minha tia, se mecê também é da rodinha das pretas feiticeiras, que moravam com essa velha de uma figa?

— Eu não! Cruz! Ave Maria! — exclamou Lucinda espavorida.

— Pois então que diabo de negócio tens com essa carcaça excomungada, de que ninguém quer ouvir nem o nome?

— Ué! meu branco.... conheci ela noutro tempo! agora estou perguntando; que mal faz isso?...

— Não passaste pela casa dela aí na estrada?...

— Passei, senhor sim; mas a casa está toda queimada, e lá não encontrei viva alma.

— A casa ardeu há de haver três para quatro anos. Assim também deve arder a dona nas caldeiras do cão tinhoso.

— Então já morreu?! exclamou Lucinda transida de susto. A boa preta interessava-se pela vida dessa mulher perversa e detestada, como se ela lhe fora mãe idolatrada.

— Não sei, nem quero saber, — respondeu o caipira sem reparar na comoção de Lucinda.

— Se não deu ainda, não tardará muito em dar a alma ao diabo que a carregue.

— Mas enfim... — balbuciou Lucinda.

— Mas enfim, — interrompeu o interlocutor, — se quer saber mais alguma coisa, vá acolá naquela casinha; não está vendo? é lá que a bruxa mora, se é que o diabo ainda não a carregou.

Dizendo isto, o homem apontava para um miserável casebre, coberto de capim, que se avistava a uns trezentos passos de distância, e algum tanto arredado do caminho.

— Ali, meu Deus! naquele pobre ranchinho!

— exclamou Lucinda. — Coitada! ela que era tão bem arranjada!... como são as coisas deste mundo!

— Cala-te dali; se tu a conhecesses melhor não estavas aí com tanta pena dela. Ou és da mesma laia, ou não conheces bem a tal bruxa.

— Mas eu desejava tanto saber se ainda é viva.

— Pois vá lá saber, — respondeu brutalmente o interlocutor.

— Mas olha que não te agarre ela pelas orelhas, e não te leve consigo para os infernos, — acrescentou outro caipira.

Atarantada com tantas chufas, e apavorada com o medonho retrato que faziam de Nhá-Tuca, a pobre Lucinda não sabia o que devia acreditar, nem o que devia fazer. Bem via que aquela gente estava toda com a cabeça esquentada com as amiudadas libações alcoólicas, e que todos aqueles ditos contra a pobre velha poderiam não ser mais que meros gracejos inspirados pela bebida; mas por outro lado a antiga casa de Nhá-Tuca, que acabava de ver em ruínas e quase toda devorada pelo incêndio, e o miserável ranchinho que lhe estavam mostrando como sua nova vivenda, tornavam mais que provável o que estavam dizendo os caipiras. Esteve por algum tempo em estado de hesitação olhando' para a casinha como querendo resolver-se a lá ir; mas faltava-lhe o ânimo. Por fim um homem algum tanto idoso, que ali estava na roda, porém com a cabeça mais calma e fresca do que seus companheiros, observando a ansiosa inquietação em que se achava a crioula, para saber ao certo a sorte da velha, compadeceu-se dela, e chamando-a de parte assegurou-lhe que aquele ranchinho era de fato a atual morada de Nhá-Tuca, que ainda era viva, mas que há muitos dias se achava às portas da morte. Contou-lhe mais em poucas palavras que essa mulher tinha perdido tudo quando possuía e caído na mais profunda miséria, vendo morrerem uma por uma em pouco tempo de moléstias ruins e contagiosas todas as suas escravas, que constituíam seu principal cabedal; que também de certo tempo em diante fora diminuindo rapidamente toda a freguesia de seu negócio, até que por fim para cúmulo de males pegou-lhe fogo na casa, que ardeu toda em uma noite, mal podendo escapar os moradores, e que Nhá-Tuca, vendo-se reduzida à última pobreza, se havia refugiado naquele ranchinho que por compaixão lhe haviam cedido, e onde vivia das minguadas esmolas, que bem pouca gente lhe dava; que dois dias antes morrera de repente a única escrava que lhe restava, que lhe fazia companhia e esmolava para ambas, se bem que em estado quase tão lastimoso como a senhora. O povo atribuía todas essas desgraças a castigo pelas maldades que essa mulher tinha praticado, e que por muito tempo andaram encobertas. Por isso todos fugiam dela, e a deixavam abandonada naquele miserável ranchinho, onde se achava morrendo à míngua. Lucinda não quis ouvir mais nada, se bem que o velho se mostrasse disposto a narrar-lhe por miúdo todas as horríveis façanhas daquela execrável mulher. Pediu desculpa alegando que era cativa e morava longe, despedio-se, e se depressa tinha vindo, mais depressa voltou para a cidade, onde chegou pela volta do meio-dia. A notícia de que Nhá-Tuca estava viva, mas às portas da morte, dava-lhe asas, e a robusta crioula, a despeito de sua idade e corpulência, em menos de meia hora venceu a distância de mais de meia légua, que a separava da cidade. Conrado, com o espírito desassossegado e entregue a cruéis tribulações, achava-se em casa pensando no modo porque havia de passar as longas horas que ainda tinham de decorrer até o prazo em que Lucinda prometera voltar com a resposta tão impacientemente esperada, quando inesperadamente a crioula, que o criado da porta tinha ordem de deixar entrar a qualquer hora que aparecesse, se lhe apresenta arquejante de cansaço e coberta de suor.

— O que é isto, Lucinda? — perguntou o moço sobressaltado. — Que novidade temos?... vens tão cansada e tão antes da hora marcada!...

— Sossega seu coração, Nhô Conrado. — respondeu Lucinda a ofegar. — O negócio não vai mal por ora... Vim depressa e antes da hora, porque assim era preciso. A mulher ainda vive...

— Vive!... louvado seja Deus! — exclamou Conrado levantando as mãos ao céu; — tudo está remediado. Rosaura, minha filha, vais ser livre e restituída aos braços de teu pai!...

— Vive, sim senhor; mas está mal, quase a morrer. Deixemos de mais conversa. Nhô Conrado é preciso ir lá já e já, quanto antes; a cada momento ela pode expirar.

— Tens razão, Lucinda; tens razão; vou já.

Conrado chamou imediatamente o seu pajem, e deu-lhe ordem para que selasse depressa o seu melhor cavalo. Enquanto isto se fazia, Lucinda dava a Conrado as indicações necessárias, para que acertasse com o lugar em que se achava situado o rancho de Nhá-Tuca. Lucinda retirou-se para a casa, e Conrado partiu a galope para as bandas da freguesia de Nossa Senhora do Ó.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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