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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 13 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo XIII: Começa a desilusão

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Conrado e Adelaide continuaram a amar-se mas com essa paixão triste, reservada e resignada, que não amortece, mas antes pelo contrário se fortifica e afervora com as contrariidades, que estremece, mas não desalenta com as apreensões do futuro. Não podiam e nem se animavam a dar franca expansão a um amor, cujas funestas consequências entreviam vagamente. Posto que jovens, eram inteligentes e tinham tino bastante para calcular as contrariidades e desgraças, que os aguardavam no futuro. Eis porque os encontramos acabrunhados de tristeza da cena do jardim. Vagos pressentimentos começavam a enturvar com uma ligeira nuvem de melancolia essas frontes juvenis, até ali tão serenas e radiantes de felicidade.

Depois que o major teve a desastrada mania de atrair à sua casa uma chusma de estudantes, bem se pode compreender, em quantas novas torturas as inquietações e ciúmes fariam estorcer-se o agitado coração do mancebo.

Não podia escapar à sua penetração o motivo que levava seu patrão a promover essas frequentes reuniões de estudantes de classes elevadas; para ele era evidente que o major tinha em vistas ajeitar entre eles um bom marido para a menina. Para cúmulo de angústia ele bem percebia, que sua vaidosa patroa deixava-se inebriar nos turbilhões de incenso que a envolviam, e ao menos na aparência abandonava-se de bom grado ao enlevo das sedutoras homenagens, que todos os dias de tribulação, que passou, e as noites de angustiosa insônia, que velou nessa quadra fatal, seria uma jeremíada enfim.

No dia, em que Adelaide recebera a carta fatal, que conhecemos, Conrado estava em seu quarto solitário, dando livre curso às suas mágoas e cuidados, quando ela entrou rápida e inesperadamente com a fisionomia alterada e mais rubra que de ordinário, trazendo na mão um papel, que amarrotava entre os dedos convulsos. O simples fato de apresentar-se ela sozinha em seu quarto já era um motivo de surpresa para Conrado, onde Adelaide, depois que se tornara moça, entrava raras vezes, e sempre acompanhada por alguém. A singular expressão do gesto arrebatado e da fisionomia transtornada da moça fizeram subir de ponto sua estranheza.

— Que é isto, patroa?... que há de novo?!

— exclamou, levantando-se bruscamente da cama, onde se achava meio reclinado com a face encostada sobre a mão.

— O que há, o senhor vai ver já, se quiser ler este papel, — respondeu com acento áspero e convulso, entregando o papel a Conrado. — Leia, mas só para si; poupe a meus ouvidos semelhantes infâmias. Que insolência, meu amigo!... que ultraje!...

Estas palavras, — meu amigo, — que na expansão de sua cólera escaparam aos lábios de Adelaide, soaram como um hino mavioso aos ouvidos de Conrado. Travou do papel e começou a ler com ávida curiosidade os versos injuriosos, de que fizemos menção. É difícil explicar as impressões múltiplas e encontradas, que semelhante leitura suscitou de chofre no espírito do mancebo. Por um lado não podia deixar de indignar-se contra a audaciosa petulância do perverso, que não hesitara em insultar a uma linda, inofensiva e cândida donzela, arrancando lágrimas de despeito e vergonha àqueles olhos formosos, pelos quais era capaz de dar a vida, conhecesse ele o autor de tão miserável procedimento, que iria sem hesitar naquele primeiro ímpeto de cólera cravar-lhe uma bala na cabeça.

Por outro lado porém lhe parecia que aquele injurioso papel era o prenúncio de inevitável ruptura entre o major e os estudantes, que dali em diante achariam sempre as portas trancadas, e não teriam mais ocasião de requestar a sua querida patroa. Era um peso, que lhe tiravam de cima do coração, e quase bem dizia o maligno estudante que teve a satânica lembrança de endereçar a Adelaide tão insultuoso pasquim. O pobre moço portanto, depois da leitura, que fez lentamente para dar tempo à reflexão, viu-se em supremo embaraço, e ficou largo tempo silencioso sem saber o que devia dizer a sua jovem patroa.

— E então?... que diz a isto?... — perguntou impaciente a moça, que esperava da parte de Conrado uma explosão de invectivas e ameaças ferozes. — Não acha um desaforo inqualificável, um atentado, que não pode passar sem castigo?...

— É verdade, minha bela patroa; isto é revoltante, e no meu entender não pode partir senão dessa corja de estudantes, que o patrão velho tinha a imprudência de chamar para a casa.

— Disso estou eu certa; não me diz nada de novo, — atalhou Adelaide com enfado, — O que eu desejava saber, era qual deles foi, que teve a petulância...

— Isso há de ser custoso. — replicou o mancebo; — eram tantos, e cada qual mais insolente.

— Não creia nisso; a nenhum deles maltratei para dar-lhes o direito de me desfeitearem assim. Suponho que isto não pode proceder senão daquele maldito bugre muito feio e muito fusco, que queria a todo transe ser meu mestre de música. Como o tratei com o desprezo que merece, assentou de vingar-se por este modo infame.

— Pode ser que sim, e pode ser que não.

A patroa não podia fazer igual agrado a todos eles; bastava mostrar mais agrado a um, para que os outros ficassem despeitados. A patroa não sabe, com que gente perversa lidava!...

— Mas eu nunca mostrei preferência a nenhum, retorquiu a moça erguendo, a fronte com altivez.

— Não digo isso; perdão, minha bela patroa, mas às vezes, mesmo sem se querer, conversa-se mais com um do que com outro. Eu penso, que o autor destes versos tanto podia ser o bugre, de que a patroa falou, como o tal senhor Azevedo, esse antigo amigo do patrão, que ultimamente também andava emburrado em razão do... da amizade, que a patroa mostrava ao sonso do senhor Belmiro.

Até Conrado iludia-se e tinha ciúmes do pobre Belmiro!

— Não sei, mas é preciso saber, — respondeu Adelaide com precipitação. — Fosse lá qual fosse, me é absolutamente necessário saber quem foi.

— Isso há de ser bem difícil, minha bela patroa, porque eu entendo cá para mim, que foi toda essa corja, que de comum acordo dirigiu-lhe esta desfeita.

— Não; isso não é possível... Diga-me uma coisa; o senhor não tem relações com algum desses estudantes?... não costuma ir a casa deles?...

— Por desgraça minha tenho ido, quando o patrão tinha a maldita lembrança de mandar-me com algum recado ou carta de convite.

— Pois bem; é quanto basta. Nada lhe custa ir a casa de um ou outro, escutar o que se diz, puxar uma ou outra conversa... por este meio por força havemos de saber quem foi, e... ah!...

Adelaide interrompeu-se exalando um suspiro de indignação.

— E depois, patroa?... perguntou respeitosamente Conrado.

— E depois... eu julgo, que o senhor me tem bastante afeição, não é assim?...

— Oh! muita! muita! — exclamou o mancebo, quase caindo aos pés de Adelaide.

— Portanto não consentirá que fique sem vingança semelhante ultraje feito à sua patroa, não é assim?...

— Sim, sem dúvida; mas o que quer a patroa que eu faça?...

— Que me vingue.

— Bem! estou pronto... mas como e de quem hei de vinga-la?... se ao menos eu conhecesse o autor desse miserável papel, eu o iria procurar até o fim do mundo; tenho um bom cavalo, um clavinote e um par de garruchas, que nunca negaram fogo, nem erraram o alvo...

— Não, não; não é preciso que mate; basta uma sova de chicote, ou umas bofetadas em lugar bem público na cara do insolente.

— Oh! senhora!... eu preferiria dar um tiro, ou uma estocada... mas se eu nem sei qual é o insolente...

— Ah!... hesita!... não tem ânimo!...— replicou Adelaide com melancólico desdém.— Eu julgava que o senhor me linha algum afeto; que se doía de minhas afrontas; mas agora vejo o contrário. Adeus!

E Adelaide voltando as costas com um gesto desdenhoso ia retirar-se.

— Perdão, minha querida patroa; escute-me ainda um instante. Eu quero, eu devo mesmo dizer-lhe certas coisas, que talvez lhe esfriem esses desejos de vingança; mas tenho tanto medo de enfadá-la! — disse Conrado, embargando-lhe a saída.

— Certas coisas!... que certas coisas são essas? ficarei enfadada, se não mo disser.

Antes de ouvir a resposta de Conrado, cumpre-nos interromper aqui o diálogo entre os dois jovens para dar certas explicações necessárias para compreender o seguimento do mesmo.

Conrado há muito tempo e sem o querer já sabia, que a pretendida fidalguia do major Damásio não passava de fumo, que só existia em sua cabeça, fatuidade que se lhe encasquetara nos miolos e aderira a eles por modo tal, que com o andar dos tempos se transformara em conscienciosa e profunda convicção. Talvez alguém para lisonjeá-lo ou zombar dele, aproveitando-se da fraqueza de seu espírito tomara o trabalho de persuadi-lo que ele era descendente genuíno do tronco dos Buenos e dos Andradas. Um dia nas ruas de S. Paulo um homem vendo passar o jovem curitibano, e atraído por sua bonita figura, querendo talvez tomá-lo a seu serviço, travou com ele conversação e perguntou-lhe, com bom modo, quem e donde era, e em que se ocupava. O adolescente respondeu franca e lisamente a todas as perguntas, e declarou que estava empregado como camarada em casa do major Damásio.

— Oh! muito bem! está otimamente arranjado; disse o tal homem; — o major é excelente pessoa; só tem o defeito de ser um fanfarrão muito tolo, que tem fumaças de branquidade e fidalguia, que nunca teve; mas lá isso é uma sandice, que a ninguém prejudica... — Como! — exclamou o rapaz muito surpreendido. Pois ele não é mesmo branco e fidalgo, como diz?...

Não creia tal, — respondeu o homem; — quem é aqui em S. Paulo que não sabe que ele é filho de um cigano e de uma índia guarani, que foi peão ou domador de burros, e que casou-se com uma mulata da casa de um figurão, que o fez gente, e que teve dela uma filha, que... essa sim é a fazenda fina.

Conrado não contestou, mas a princípio não quis dar inteiro crédito ao dito desse homem, e daí em diante, em vez de ser interrogado era ele quem interrogava com jeitosa precaução a uns e a outros, procurando esclarecer-se sobre a verdadeira genealogia do patrão. De todos em geral ouviu a confirmação do que lhe dissera seu primeiro interlocutor, e ficou plenamente convencido de que a aristocrática estirpe de sua idolatrada Adelaide tinha um dos seus troncos imediatos na senzala do cativo e outro na barraca ambulante do cigano e na taba do selvagem. Estas revelações a princípio não deixaram de molesta-lo, não porque em virtude delas Adelaide decaísse a seus olhos da esfera encantada, a que seu amor a tinha elevado; mas porque antevia com mágoa extrema a cruel humilhação, por que teria de passar o coração da pobre moça, quando chegasse ao conhecimento de sua verdadeira origem, como tarde ou cedo teria de acontecer.

Entretanto também não podia deixar de comprazer-se no íntimo d'alma por ver sua querida patroa apeada desse aristocrático pedestal, em que a fanfarronice do pai pretendia coloca-la, vendo assim destruída em seu espírito a barreira que parecia separá-los.

Somos iguais, — refletia ele, — se é que não sou superior, pois não me consta que meu berço resvalasse pela senzala. A superioridade, que existe, é portanto só da riqueza; mas eu sei trabalhar, e um dia posso também tornar-me rico.

Estas reflexões vinham dar mais azo e mais livre expansão à paixão do mancebo até ali tão tímida e concentrada; sentia porém que Adelaide estivesse ainda em tão completo engano a respeito de sua genealogia, e como não tivesse ânimo para desiludi-la, esperava que algum feliz acaso viesse fazer cair-lhe a venda dos olhos. Quando a viu rodeada dessa turba de moços elegantes que o major costumava reunir em casa, mil vezes teve ímpetos de ir declarar-lhe tudo; mas continha-se imediatamente; receava com todo o fundamento não ser acreditado; semelhante revelação podia ser tomada até como um insulto, e o menos, que lhe poderia acontecer, seria ser enxotado ignominiosamente da casa. O acaso portanto nesta ocasião, fazendo chegar às mãos de Adelaide o horrível pasquim dos estudantes, vinha servi-lo de um modo que ultrapassava todos os seus desejos e esperanças.

Agora que o leitor já se acha inteirado de quais eram essas certas coisas, que Conrado tinha tanto medo de revelar à patroa, prossigamos no diálogo, que deixamos interrompido.

— Certas coisas! — exclamou Adelaide; — porque não as diz? pode falar sem rebuço.

— Não sei se devo dizer... a patroa promete que não se enfadará?...

— Pior é tanto rodeio; isto mata-me a paciência. Agora quero absolutamente que me diga que coisas são essas.

— Mas a patroa promete...

— Prometo tudo; tudo que quiser, — atalhou Adelaide impaciente. — Vamos ao caso.

— O caso, minha bela e querida patroa, perdoe-me se lhe falo com franqueza, o caso é este... é que...

Conrado hesitou ainda; a cruel revelação ficava-lhe entalada na garganta sem ousar chegar aos lábios.

— É o que!? meu Deus! gritou a moça batendo o pé, e mordendo os beiços de impaciência. — Acabe com isto, senão vou-me embora, e nunca mais falo com o senhor.

Esta terrível ameaça acabou com toda a hesitação de Conrado.

— O caso é, — disse ele resolutamente, que isso que dizem os versos, não deixa de ser verdade.

— Verdade!... isto verdade!... até o senhor!... o senhor também atreve-se a... a insultar-me!... ah!... exclamou Adelaide empalidecendo e com os olhos fuzilantes de cólera.

— Bem sabia eu que ia magoá-la, replicou o mancebo, consternado; mas perdoe-me, minha boa e linda patroa; não sou eu que o digo; é o povo todo desta cidade.

— O povo todo!... e como o senhor sabe?

— Sem o querer, minha senhora; não me leve isso a mal; todos por aí dizem a quem quer ou não quer ouvir que a fidalguia do patrão não passa de ridícula fanfarronada, e atestam tudo quando está escrito nesse maldito papel.

— Basta! basta, senhor Conrado! — faltava-me ainda esta triste vergonha para tornar-me a mais infeliz das criaturas!

Dizendo isto, Adelaide deixou-se cair sobre um tamborete, que ali estava junto a uma mesa, e escondendo o rosto entre os braços desatou a chorar.

— Não chore, minha patroa. Que é isto!... ah! meu Deus quanto me arrependo de lhe ter contado semelhantes mexericos!... quem dá importância a tais falatórios?! tudo isso sem duvida não passa de pura invenção de alguns maldizentes e invejosos, que não gostam do patrão por ser possuidor de uma boa fortuna, e pai da moça mais bonita, que pisa nas ruas de S. Paulo. E que importa que o seu sangue não seja de fidalga? nem por isso a patroa deixa de ser quem é, a mais bela, a mais nobre, a mais encantadora das moças... Ah! por quem é... não continue a chorar assim. Desastrado que eu fui!... perdoe-me, minha linda patroa; essas lágrimas, que está chorando, me parece que são espremidas do meu coração.

Estas palavras que Conrado proferiu todo consternado e confundido, procurando consolar Adelaide, não produziam sobre ela a menor impressão, e parecia mesmo que ela nem as ouvia. Levantou-se pálida e trêmula, e sem dizer mais nada ia retirar-se.

— Está mal comigo? — perguntou timidamente o mancebo.

— Não, — respondeu Adelaide com tristeza.

— mas bem vê que a notícia que me traz nada tem de agradável. Quero saber se sou isso mesmo que o senhor diz.

— Perdão, patroa; não sou eu que digo; é o povo.

— Pois bem; seja assim. Quero e hei de saber se é verdade o que diz o povo. É bom que cada um conheça o seu lugar.

— Ah! minha senhora não há motivo para se afligir tanto, — continuou Conrado, tentando ainda um esforço para atenuar o efeito do golpe doloroso com que acabava de fulminar a vaidade da moça. — O nascimento nobre ou obscuro é coisa que nada significa em nosso país. Se formos apurar a geração de muita gente graúda, que por aí anda blasonando fidalguia, há de se ver que os troncos, de que descendem, não são em nada melhores do que o da patroa. Em nossa terra é uma sandice querer a gente gloriar-se de ser descendente de ilustres avós; é como dizia um velho tio meu : — no Brasil ninguém pode gabar-se de que entre seus avós não haja algum que não tenha puxado flecha ou tocado marimba. O talento, a bondade, e principalmente a riqueza é que dão importância às pessoas. A patroa, além de rica, é boa, pura e bela como um anjo, e por isso há de sempre ocupar na sociedade uma posição brilhante... — Brilhante!... ah! sim! servindo de chacota ao povo, e de joguete aos estudantes!... Ditas estas palavras Adelaide retirou-se bruscamente, deixando Conrado entregue à mais ansiosa inquietação.

— Que irá ela fazer?... — ficou ele pensando — cheio de arrependimento e tremendo pelas consequências da revelação, que acabava de fazer. — Se vai levar tudo aos ouvidos do patrão, estou perdido. Desarrazoado como é ele, principalmente neste particular, vai fazer uma estralada de mil demônios, e por certo não serei eu o poupado, eu que lhe machuquei o melindre, que pisei em cheio no rabo da cainana!... Ah! permita Deus que tal ideia não passe pela cabeça de Adelaide!

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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