Universo da obra
Universo da obra
Conrado e Adelaide continuaram a amar-se mas com essa paixão triste, reservada e resignada, que não amortece, mas antes pelo contrário se fortifica e afervora com as contrariidades, que estremece, mas não desalenta com as apreensões do futuro. Não podiam e nem se animavam a dar franca expansão a um amor, cujas funestas consequências entreviam vagamente. Posto que jovens, eram inteligentes e tinham tino bastante para calcular as contrariidades e desgraças, que os aguardavam no futuro. Eis porque os encontramos acabrunhados de tristeza da cena do jardim. Vagos pressentimentos começavam a enturvar com uma ligeira nuvem de melancolia essas frontes juvenis, até ali tão serenas e radiantes de felicidade.
Depois que o major teve a desastrada mania de atrair à sua casa uma chusma de estudantes, bem se pode compreender, em quantas novas torturas as inquietações e ciúmes fariam estorcer-se o agitado coração do mancebo.
Não podia escapar à sua penetração o motivo que levava seu patrão a promover essas frequentes reuniões de estudantes de classes elevadas; para ele era evidente que o major tinha em vistas ajeitar entre eles um bom marido para a menina. Para cúmulo de angústia ele bem percebia, que sua vaidosa patroa deixava-se inebriar nos turbilhões de incenso que a envolviam, e ao menos na aparência abandonava-se de bom grado ao enlevo das sedutoras homenagens, que todos os dias de tribulação, que passou, e as noites de angustiosa insônia, que velou nessa quadra fatal, seria uma jeremíada enfim.
No dia, em que Adelaide recebera a carta fatal, que conhecemos, Conrado estava em seu quarto solitário, dando livre curso às suas mágoas e cuidados, quando ela entrou rápida e inesperadamente com a fisionomia alterada e mais rubra que de ordinário, trazendo na mão um papel, que amarrotava entre os dedos convulsos. O simples fato de apresentar-se ela sozinha em seu quarto já era um motivo de surpresa para Conrado, onde Adelaide, depois que se tornara moça, entrava raras vezes, e sempre acompanhada por alguém. A singular expressão do gesto arrebatado e da fisionomia transtornada da moça fizeram subir de ponto sua estranheza.
— Que é isto, patroa?... que há de novo?!
— exclamou, levantando-se bruscamente da cama, onde se achava meio reclinado com a face encostada sobre a mão.
— O que há, o senhor vai ver já, se quiser ler este papel, — respondeu com acento áspero e convulso, entregando o papel a Conrado. — Leia, mas só para si; poupe a meus ouvidos semelhantes infâmias. Que insolência, meu amigo!... que ultraje!...
Estas palavras, — meu amigo, — que na expansão de sua cólera escaparam aos lábios de Adelaide, soaram como um hino mavioso aos ouvidos de Conrado. Travou do papel e começou a ler com ávida curiosidade os versos injuriosos, de que fizemos menção. É difícil explicar as impressões múltiplas e encontradas, que semelhante leitura suscitou de chofre no espírito do mancebo. Por um lado não podia deixar de indignar-se contra a audaciosa petulância do perverso, que não hesitara em insultar a uma linda, inofensiva e cândida donzela, arrancando lágrimas de despeito e vergonha àqueles olhos formosos, pelos quais era capaz de dar a vida, conhecesse ele o autor de tão miserável procedimento, que iria sem hesitar naquele primeiro ímpeto de cólera cravar-lhe uma bala na cabeça.
Por outro lado porém lhe parecia que aquele injurioso papel era o prenúncio de inevitável ruptura entre o major e os estudantes, que dali em diante achariam sempre as portas trancadas, e não teriam mais ocasião de requestar a sua querida patroa. Era um peso, que lhe tiravam de cima do coração, e quase bem dizia o maligno estudante que teve a satânica lembrança de endereçar a Adelaide tão insultuoso pasquim. O pobre moço portanto, depois da leitura, que fez lentamente para dar tempo à reflexão, viu-se em supremo embaraço, e ficou largo tempo silencioso sem saber o que devia dizer a sua jovem patroa.
— E então?... que diz a isto?... — perguntou impaciente a moça, que esperava da parte de Conrado uma explosão de invectivas e ameaças ferozes. — Não acha um desaforo inqualificável, um atentado, que não pode passar sem castigo?...
— É verdade, minha bela patroa; isto é revoltante, e no meu entender não pode partir senão dessa corja de estudantes, que o patrão velho tinha a imprudência de chamar para a casa.
— Disso estou eu certa; não me diz nada de novo, — atalhou Adelaide com enfado, — O que eu desejava saber, era qual deles foi, que teve a petulância...
— Isso há de ser custoso. — replicou o mancebo; — eram tantos, e cada qual mais insolente.
— Não creia nisso; a nenhum deles maltratei para dar-lhes o direito de me desfeitearem assim. Suponho que isto não pode proceder senão daquele maldito bugre muito feio e muito fusco, que queria a todo transe ser meu mestre de música. Como o tratei com o desprezo que merece, assentou de vingar-se por este modo infame.
— Pode ser que sim, e pode ser que não.
A patroa não podia fazer igual agrado a todos eles; bastava mostrar mais agrado a um, para que os outros ficassem despeitados. A patroa não sabe, com que gente perversa lidava!...
— Mas eu nunca mostrei preferência a nenhum, retorquiu a moça erguendo, a fronte com altivez.
— Não digo isso; perdão, minha bela patroa, mas às vezes, mesmo sem se querer, conversa-se mais com um do que com outro. Eu penso, que o autor destes versos tanto podia ser o bugre, de que a patroa falou, como o tal senhor Azevedo, esse antigo amigo do patrão, que ultimamente também andava emburrado em razão do... da amizade, que a patroa mostrava ao sonso do senhor Belmiro.
Até Conrado iludia-se e tinha ciúmes do pobre Belmiro!
— Não sei, mas é preciso saber, — respondeu Adelaide com precipitação. — Fosse lá qual fosse, me é absolutamente necessário saber quem foi.
— Isso há de ser bem difícil, minha bela patroa, porque eu entendo cá para mim, que foi toda essa corja, que de comum acordo dirigiu-lhe esta desfeita.
— Não; isso não é possível... Diga-me uma coisa; o senhor não tem relações com algum desses estudantes?... não costuma ir a casa deles?...
— Por desgraça minha tenho ido, quando o patrão tinha a maldita lembrança de mandar-me com algum recado ou carta de convite.
— Pois bem; é quanto basta. Nada lhe custa ir a casa de um ou outro, escutar o que se diz, puxar uma ou outra conversa... por este meio por força havemos de saber quem foi, e... ah!...
Adelaide interrompeu-se exalando um suspiro de indignação.
— E depois, patroa?... perguntou respeitosamente Conrado.
— E depois... eu julgo, que o senhor me tem bastante afeição, não é assim?...
— Oh! muita! muita! — exclamou o mancebo, quase caindo aos pés de Adelaide.
— Portanto não consentirá que fique sem vingança semelhante ultraje feito à sua patroa, não é assim?...
— Sim, sem dúvida; mas o que quer a patroa que eu faça?...
— Que me vingue.
— Bem! estou pronto... mas como e de quem hei de vinga-la?... se ao menos eu conhecesse o autor desse miserável papel, eu o iria procurar até o fim do mundo; tenho um bom cavalo, um clavinote e um par de garruchas, que nunca negaram fogo, nem erraram o alvo...
— Não, não; não é preciso que mate; basta uma sova de chicote, ou umas bofetadas em lugar bem público na cara do insolente.
— Oh! senhora!... eu preferiria dar um tiro, ou uma estocada... mas se eu nem sei qual é o insolente...
— Ah!... hesita!... não tem ânimo!...— replicou Adelaide com melancólico desdém.— Eu julgava que o senhor me linha algum afeto; que se doía de minhas afrontas; mas agora vejo o contrário. Adeus!
E Adelaide voltando as costas com um gesto desdenhoso ia retirar-se.
— Perdão, minha querida patroa; escute-me ainda um instante. Eu quero, eu devo mesmo dizer-lhe certas coisas, que talvez lhe esfriem esses desejos de vingança; mas tenho tanto medo de enfadá-la! — disse Conrado, embargando-lhe a saída.
— Certas coisas!... que certas coisas são essas? ficarei enfadada, se não mo disser.
Antes de ouvir a resposta de Conrado, cumpre-nos interromper aqui o diálogo entre os dois jovens para dar certas explicações necessárias para compreender o seguimento do mesmo.
Conrado há muito tempo e sem o querer já sabia, que a pretendida fidalguia do major Damásio não passava de fumo, que só existia em sua cabeça, fatuidade que se lhe encasquetara nos miolos e aderira a eles por modo tal, que com o andar dos tempos se transformara em conscienciosa e profunda convicção. Talvez alguém para lisonjeá-lo ou zombar dele, aproveitando-se da fraqueza de seu espírito tomara o trabalho de persuadi-lo que ele era descendente genuíno do tronco dos Buenos e dos Andradas. Um dia nas ruas de S. Paulo um homem vendo passar o jovem curitibano, e atraído por sua bonita figura, querendo talvez tomá-lo a seu serviço, travou com ele conversação e perguntou-lhe, com bom modo, quem e donde era, e em que se ocupava. O adolescente respondeu franca e lisamente a todas as perguntas, e declarou que estava empregado como camarada em casa do major Damásio.
— Oh! muito bem! está otimamente arranjado; disse o tal homem; — o major é excelente pessoa; só tem o defeito de ser um fanfarrão muito tolo, que tem fumaças de branquidade e fidalguia, que nunca teve; mas lá isso é uma sandice, que a ninguém prejudica... — Como! — exclamou o rapaz muito surpreendido. Pois ele não é mesmo branco e fidalgo, como diz?...
Não creia tal, — respondeu o homem; — quem é aqui em S. Paulo que não sabe que ele é filho de um cigano e de uma índia guarani, que foi peão ou domador de burros, e que casou-se com uma mulata da casa de um figurão, que o fez gente, e que teve dela uma filha, que... essa sim é a fazenda fina.
Conrado não contestou, mas a princípio não quis dar inteiro crédito ao dito desse homem, e daí em diante, em vez de ser interrogado era ele quem interrogava com jeitosa precaução a uns e a outros, procurando esclarecer-se sobre a verdadeira genealogia do patrão. De todos em geral ouviu a confirmação do que lhe dissera seu primeiro interlocutor, e ficou plenamente convencido de que a aristocrática estirpe de sua idolatrada Adelaide tinha um dos seus troncos imediatos na senzala do cativo e outro na barraca ambulante do cigano e na taba do selvagem. Estas revelações a princípio não deixaram de molesta-lo, não porque em virtude delas Adelaide decaísse a seus olhos da esfera encantada, a que seu amor a tinha elevado; mas porque antevia com mágoa extrema a cruel humilhação, por que teria de passar o coração da pobre moça, quando chegasse ao conhecimento de sua verdadeira origem, como tarde ou cedo teria de acontecer.
Entretanto também não podia deixar de comprazer-se no íntimo d'alma por ver sua querida patroa apeada desse aristocrático pedestal, em que a fanfarronice do pai pretendia coloca-la, vendo assim destruída em seu espírito a barreira que parecia separá-los.
Somos iguais, — refletia ele, — se é que não sou superior, pois não me consta que meu berço resvalasse pela senzala. A superioridade, que existe, é portanto só da riqueza; mas eu sei trabalhar, e um dia posso também tornar-me rico.
Estas reflexões vinham dar mais azo e mais livre expansão à paixão do mancebo até ali tão tímida e concentrada; sentia porém que Adelaide estivesse ainda em tão completo engano a respeito de sua genealogia, e como não tivesse ânimo para desiludi-la, esperava que algum feliz acaso viesse fazer cair-lhe a venda dos olhos. Quando a viu rodeada dessa turba de moços elegantes que o major costumava reunir em casa, mil vezes teve ímpetos de ir declarar-lhe tudo; mas continha-se imediatamente; receava com todo o fundamento não ser acreditado; semelhante revelação podia ser tomada até como um insulto, e o menos, que lhe poderia acontecer, seria ser enxotado ignominiosamente da casa. O acaso portanto nesta ocasião, fazendo chegar às mãos de Adelaide o horrível pasquim dos estudantes, vinha servi-lo de um modo que ultrapassava todos os seus desejos e esperanças.
Agora que o leitor já se acha inteirado de quais eram essas certas coisas, que Conrado tinha tanto medo de revelar à patroa, prossigamos no diálogo, que deixamos interrompido.
— Certas coisas! — exclamou Adelaide; — porque não as diz? pode falar sem rebuço.
— Não sei se devo dizer... a patroa promete que não se enfadará?...
— Pior é tanto rodeio; isto mata-me a paciência. Agora quero absolutamente que me diga que coisas são essas.
— Mas a patroa promete...
— Prometo tudo; tudo que quiser, — atalhou Adelaide impaciente. — Vamos ao caso.
— O caso, minha bela e querida patroa, perdoe-me se lhe falo com franqueza, o caso é este... é que...
Conrado hesitou ainda; a cruel revelação ficava-lhe entalada na garganta sem ousar chegar aos lábios.
— É o que!? meu Deus! gritou a moça batendo o pé, e mordendo os beiços de impaciência. — Acabe com isto, senão vou-me embora, e nunca mais falo com o senhor.
Esta terrível ameaça acabou com toda a hesitação de Conrado.
— O caso é, — disse ele resolutamente, que isso que dizem os versos, não deixa de ser verdade.
— Verdade!... isto verdade!... até o senhor!... o senhor também atreve-se a... a insultar-me!... ah!... exclamou Adelaide empalidecendo e com os olhos fuzilantes de cólera.
— Bem sabia eu que ia magoá-la, replicou o mancebo, consternado; mas perdoe-me, minha boa e linda patroa; não sou eu que o digo; é o povo todo desta cidade.
— O povo todo!... e como o senhor sabe?
— Sem o querer, minha senhora; não me leve isso a mal; todos por aí dizem a quem quer ou não quer ouvir que a fidalguia do patrão não passa de ridícula fanfarronada, e atestam tudo quando está escrito nesse maldito papel.
— Basta! basta, senhor Conrado! — faltava-me ainda esta triste vergonha para tornar-me a mais infeliz das criaturas!
Dizendo isto, Adelaide deixou-se cair sobre um tamborete, que ali estava junto a uma mesa, e escondendo o rosto entre os braços desatou a chorar.
— Não chore, minha patroa. Que é isto!... ah! meu Deus quanto me arrependo de lhe ter contado semelhantes mexericos!... quem dá importância a tais falatórios?! tudo isso sem duvida não passa de pura invenção de alguns maldizentes e invejosos, que não gostam do patrão por ser possuidor de uma boa fortuna, e pai da moça mais bonita, que pisa nas ruas de S. Paulo. E que importa que o seu sangue não seja de fidalga? nem por isso a patroa deixa de ser quem é, a mais bela, a mais nobre, a mais encantadora das moças... Ah! por quem é... não continue a chorar assim. Desastrado que eu fui!... perdoe-me, minha linda patroa; essas lágrimas, que está chorando, me parece que são espremidas do meu coração.
Estas palavras que Conrado proferiu todo consternado e confundido, procurando consolar Adelaide, não produziam sobre ela a menor impressão, e parecia mesmo que ela nem as ouvia. Levantou-se pálida e trêmula, e sem dizer mais nada ia retirar-se.
— Está mal comigo? — perguntou timidamente o mancebo.
— Não, — respondeu Adelaide com tristeza.
— mas bem vê que a notícia que me traz nada tem de agradável. Quero saber se sou isso mesmo que o senhor diz.
— Perdão, patroa; não sou eu que digo; é o povo.
— Pois bem; seja assim. Quero e hei de saber se é verdade o que diz o povo. É bom que cada um conheça o seu lugar.
— Ah! minha senhora não há motivo para se afligir tanto, — continuou Conrado, tentando ainda um esforço para atenuar o efeito do golpe doloroso com que acabava de fulminar a vaidade da moça. — O nascimento nobre ou obscuro é coisa que nada significa em nosso país. Se formos apurar a geração de muita gente graúda, que por aí anda blasonando fidalguia, há de se ver que os troncos, de que descendem, não são em nada melhores do que o da patroa. Em nossa terra é uma sandice querer a gente gloriar-se de ser descendente de ilustres avós; é como dizia um velho tio meu : — no Brasil ninguém pode gabar-se de que entre seus avós não haja algum que não tenha puxado flecha ou tocado marimba. O talento, a bondade, e principalmente a riqueza é que dão importância às pessoas. A patroa, além de rica, é boa, pura e bela como um anjo, e por isso há de sempre ocupar na sociedade uma posição brilhante... — Brilhante!... ah! sim! servindo de chacota ao povo, e de joguete aos estudantes!... Ditas estas palavras Adelaide retirou-se bruscamente, deixando Conrado entregue à mais ansiosa inquietação.
— Que irá ela fazer?... — ficou ele pensando — cheio de arrependimento e tremendo pelas consequências da revelação, que acabava de fazer. — Se vai levar tudo aos ouvidos do patrão, estou perdido. Desarrazoado como é ele, principalmente neste particular, vai fazer uma estralada de mil demônios, e por certo não serei eu o poupado, eu que lhe machuquei o melindre, que pisei em cheio no rabo da cainana!... Ah! permita Deus que tal ideia não passe pela cabeça de Adelaide!
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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