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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 36 · Rosaura, a Enjeitada

Parte II — Capítulo XVII: Exalta os humildes

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Passaram-se alguns momentos de pasmo e de silêncio, durante os quais o major e seu genro ficaram como fulminados, e Adelaide entregue à mais cruciante angústia. Morais todavia, posto que aturdido por aquele cruel e inopinado golpe, não quis ainda acreditar, e tentou reagir contra a terrível verdade, que o esmagava.

— Nossa filha! — bradou ele espumando de raiva e avançando para Conrado de punho alçado. — Mentira! infâmia! vil impostura!...

— Que pretende, senhor? — disse Frei João avançando também, estendendo o braço e com um gesto firme e imponente contendo a cólera insensata de Morais. — Espere ainda; não se exaspere tanto; já que assim o quer e não dá crédito a nossas palavras, tendo-nos em conta de embusteiros e caluniadores, a verdade vai-lhe ser revelada em toda a sua cruel realidade pela boca mais competente.

— Mentira! embuste!... para apadrinhar um roubo querem trazer a desonra ao seio de uma família honesta! — bradou ainda Morais.

— Senhor Morais, — disse Conrado, — é Vossa senhoria quem força um pai a lançar mão deste meio extremo, mas legítimo, para arrancar a filha das garras do cativeiro e da desonra. Do cativeiro, é coisa manifesta; da desonra, o senhor Morais melhor que ninguém sabe o motivo por que assim me exprimo.

— Não insulte por esse modo a toda uma família honrada.

— Não insulto a ninguém; digo simplesmente a verdade. Minha senhora, — continuou Conrado voltando-se para Adelaide com acento repassado de amargura, — espero que me não ficará odiando por tão estranho procedimento, a que as circunstâncias me obrigam. Perdoe-me; a senhora também é mãe, e não quereria por preço nenhum ver a sua filha reduzida à escravidão, exposta continuamente às seduções... Ah! minha senhora, é escusado dizer-lhe mais... não posso sacrificar a liberdade e a honra da filha à reputação da mãe. É preciso que a senhora declare quem é a mãe

Adelaide não respondeu diretamente a esta pergunta, mas caindo de joelhos aos pés de seu marido, contorcendo convulsivamente as mãos, debulhada em lágrimas, e afogada em soluços, mal podia pronunciar:

— Perdão!... perdão!...

— Levanta-te daí, mulher indigna! — gritou Morais repelindo-a brutalmente. — Levanta-te, e nunca mais me apareças.

— Perdão! perdão! — continuou ela abraçando as pernas do marido. — Em nome de nossos filhinhos, perdão, meu marido! perdão, meu pai!... perdão, meu Deus!...

— Perdoar-te eu!... disse Morais. — Ah! se eu soubesse há mais tempo que não passavas de uma...

— Basta! — bradou Conrado atalhando a palavra ignominiosa, que irrompia dos lábios de Morais. — Insultar a uma senhora em tão aflitivas circunstâncias não é só uma crueldade, é uma indignidade, uma covardia; quatorze anos de uma vida pura e de um procedimento exemplar são mui suficientes para fazer esquecer uma primeira e única fraqueza, devida a imprudência e ardor da mocidade. Embora! se V. S.ª não perdoa, Deus perdoará. E V. S.ª, — continuou Conrado voltando-se respeitosamente para o major, que mal voltara a se do efeito esmagador, com que o fulminara tão triste revelação, — também não perdoa à sua filha?

— Eu! eu nunca! — respondeu ele com olhar desvairado e voz lúgubre e cavernosa. — Quando pensei eu que estava reservada por minha filha semelhante vergonha para meus últimos dias!... ah! meu Deus! antes nunca semelhante opróbrio tivesse chegado ao meu conhecimento!

O velho cravou os cotovelos sobre os joelhos, e escondendo o rosto e a fronte entre as mãos trêmulas e convulsas, caiu em triste e profundo abatimento. Adelaide em pé a um canto da sala, debruçada sobre um aparador, envolvendo o rosto entre os braços procurava em vão abafar os soluços, que lhe abalavam os seios. Morais sentou-se a um canto, e para disfarçar a confusão a vergonha e o desespero, que lhe flagelavam a alma, trincava desapiedadamente entre os dentes as pontas de seu áspero e comprido bigode. Conrado e o frade, oprimidos pela mais dolorosa impressão contemplaram por instantes silenciosamente aquela pungente e contristadora cena.

— Tem razão, senhor major, disse por fim Frei João em tom brando e benévolo, aproximando-se do major; — melhor seria, que vossa senhoria e seu genro ficassem para sempre ignorando esse mistério, que estava escondido nas sombras de um passado inescrutável para vós e para todo o mundo, e era esse o nosso maior empenho, para o qual envidamos os meios a nosso alcance. Mas quem é o culpado dessa revelação? quem provocou esta cena angustiosa, que ameaça destruir para sempre a paz e felicidade, que até aqui tem reinado no seio de sua família?... Vossas senhorias mesmos, fazendo-se surdos às nossas propostas, a nossos avisos e conselhos, inspirados por sentimentos de honra, de justiça e de humanidade. Por que razão não se decidiram a conceder logo e sem condições, como aconselhavam a razão, a justiça e a conveniência, a liberdade a essa menina, que nasceu livre, como tudo estava denunciando? Se assim tivessem procedido, o triste segredo que acaba de ser revelado, ficaria para sempre sepultado entre nós três, entre mim, o senhor Conrado, e a senhora Adelaide. Mas vossas senhorias, bem a pesar nosso, nos forçaram a esta cruel revelação. Ainda mesmo que não aparecesse o próprio pai reclamando sua filha, nem eu, nem qualquer outro, que tivesse coração nobre e sensível, uma vez ciente do ocorrido, poderia jamais consentir que o avô e a mãe continuassem a conservar em casa entregue aos vexames da escravidão, a neta e a filha.

Agora cumpre-lhes aceitar com resignação as consequências de sua imprudente e mal-avisada obstinação. Cumpre-lhes sobretudo eliminar para sempre do espírito e do coração a lembrança de uma falta, que já está amplamente expiada por longos anos de uma vida exemplar e sem mancha, e que já se perde sepultada nas trevas profundas de um remoto passado.

— Console-se, meu amigo, — continuou Frei João pousando brandamente a mão sobre o ombro do ancião, que ainda se não reerguera de seu abatimento. — Não se entregue a um pesar, que não tem muita razão de ser. Nenhum opróbrio pesa sobre sua família, nem mácula alguma veio marear a bela reputação de sua filha, que por suas virtudes e pelos excelentes dotes de seu coração e de seu espírito, tem sabido conquistar na sociedade o respeito e a estima de todos. A solicitude, a paciência, o zelo religioso, com que por largo tempo tem desempenhado os deveres de filha, de esposa e de mãe, a têm tornado tão pura, e talvez mais respeitável do que o era antes de sua falta. A fraqueza de sua mocidade é um segredo, que ficará para sempre entre Deus e nós. Senhor major, sou eu quem lhe pede em nome da humanidade e da religião, abençoe sua filha. Senhor Morais, em nome da honra e da dignidade, e sobretudo em nome de seus inocentes filhinhos, abrace sua esposa.

As palavras graves, mas brandas e insinuantes do carmelita produziram profunda impressão no ânimo dos que o escutavam. Depois que terminou, reinou ainda completo silêncio por alguns instantes, durante os quais só se ouvia a respiração ofegante de todos, e os soluços mal abafados de Adelaide.

O espírito de Morais nadava na mais cruel perplexidade. As palavras do frade lhe haviam penetrado no coração; não podia deixar de reconhecer quanto eram cordatas e sisudas; mas o orgulho, o pundonor, e a honra do esposo ofendida de um modo tão brusco e doloroso, ofuscavam-lhe a razão e quase o faziam surdo aos ditames da justiça e da humanidade. Debalde porém tentaria resistir à cruel situação, que o assoberbava; se quisesse recalcitrar, iria torná-la ainda mais complicada e escandalosa. Deu a mão a Adelaide, que de novo tinha vindo prostrar-se a seus pés banhada em lágrimas, e ajudou-a a levantar-se.

— Levante-se, senhora, — disse friamente dando-lhe a mão. — Da minha parte está perdoada.

Não quis porém abraçá-la.

O major sentia-se abalado até o íntimo da alma; as palavras do carmelita tinham operado nele profunda e salutar revolução. As rijas fibras d’aquele coração endurecido pelos preconceitos da educação e da ignorância, agora amolgadas pelos gelos da idade e pelas severas lições de amarga experiência vibraram pela primeira vez a um impulso nobre e generoso, e tornaram-se sensíveis à voz da razão e da natureza. Duas grossas lágrimas lhe escorregaram pelas faces rugosas e macilentas; eram talvez as primeiras que lhe corriam das pálpebras, desde que se conhecera homem; mas por isso mesmo quanta dor, quanta amargura, quanto arrependimento deviam encerrar!... Levantou-se, e avançando de braços abertos para sua filha a cingiu contra o coração.

— Não, minha filha, não és tu que deves pedir perdão a mim, nem a ninguém, — disse com acento da mais íntima e sincera compunção. — É teu velho pai que o vem pedir-te agora. Perdão, minha filha!

E o velho apertava a filha entre os braços, e ambos derramavam lágrimas no seio um do outro.

— Perdoar-lhe eu!... meu pai, por quê? — dizia a filha entre soluços.

— Agora vejo que te fiz muito, muito mal. Eu sou a principal causa de tudo isto; fui eu o autor de tua desonra... fui eu, quem escravizou minha neta!... Perdão, Adelaide!... perdão Conrado!...

— Não meu amigo, — atalhou Frei João, — o perdão generoso que acaba de dar à sua filha, o absolve de qualquer falta, e o torna digno do respeito de todos nós.

— É verdade o que diz o meu amigo, senhor major, — disse Conrado. — Eu também de hoje em diante, banindo inteiramente da lembrança nossa antiga desavença, beijo a mão do pai generoso e bom, que sabe perdoar.

E dizendo isto beijava com respeitosa efusão a rugosa mão de seu antigo patrão.

— Mas, — continuou ele, — a minha culpa é talvez a maior e a mais grave de todas; e eu também preciso do seu perdão.

— Se não fosse a minha, senhor Conrado, — replicou o major, — a sua culpa não existiria, nem a de Adelaide. Nada tenho que perdoar-lhe; mas se assim o quer, em minha consciência e em meu coração está perdoado.

— Fico-lhe agradecido do fundo da alma. Agora só me resta fazer ainda um pedido. O segredo, que aqui entre nós já não existe, deve ainda desgraçadamente ser conservado até entre irmãos. Rosaura ainda não sabe quem é seu pai; mas hoje mesmo o saberá; e se o senhor Morais consentir, hoje mesmo saberá quem é sua mãe. Rosaura já tem quatorze anos, e parece-me que será capaz de guardar o segredo até para com seus próprios irmãos.

— Não posso me opor, — respondeu Morais com ar triste e abatido, — a que Rosaura fique sabendo quem é sua mãe; o que desejo é que meus filhos ignorem sempre a falta de Adelaide.

— Tem toda a razão, — confirmou o carmelita; — seus filhos são ainda mui crianças, e a indiscrição própria da idade os levaria naturalmente a divulgar um segredo que deve ficar para sempre oculto aos olhos do mundo. Mas eu também não sairei daqui com a consciência tranquila, se não fizer ainda um pedido por minha parte e por parte do amigo que aqui me trouxe. Este pedido, que não importa sacrifício algum para a família, tem por si a justiça, a humanidade, mesmo a gratidão. É inegável que quem mais contribuiu para que se reconhecesse o verdadeiro nascimento e a liberdade de Rosaura, foi a escrava Lucinda. Sem ela a pobre menina ficaria talvez para sempre condenada à condição de escrava em casa de sua própria mãe, quando muito à de liberta, sem que jamais se pudesse saber a sua verdadeira origem, e se tivesse de ter filhos toda a sua descendência ficaria com essa nódoa original. Decerto nem o senhor major, nem o senhor Morais sabem ainda por que meios misteriosos a divina Providência se serviu dessa boa rapariga como de um instrumento para seus altos e misericordiosos desígnios; mas em breve serão informados de tudo isso, e se convencerão de que digo a verdade. Lucinda é a verdadeira libertadora da menina Rosaura. Ora, não é justo que aquela que dá liberdade aos outros, que acaba de desatar os nós que amarravam ao poste do cativeiro a filha de seus senhores, continue a ser cativa. É enfim a liberdade de Lucinda que lhes pedimos. O meu amigo dará por ela qualquer soma que exigirem.

— Não aceito soma alguma, nem grande, nem pequena; não quero nem mesmo agradecimentos, — disse o major, — porque é esse o meu dever. Lucinda desde este momento é livre.

— Deus lhe levará em conta a santa e generosa ação que acaba de praticar. Agora podem mandar abrir essas portas; nosso principal empenho era reconhecer Rosaura como livre de nascimento; isto felizmente está conseguido; é quanto basta e quanto se deve saber fora daqui. Peço a Deus, senhor major, que a paz e felicidade, que tem reinado até aqui em sua casa, não se perturbe com este incidente, e se conserve sempre inalterável.

Conrado e Frei João se retiraram comovidos e pensativos, mas satisfeitos com o resultado da espinhosa missão que tinham desempenhado.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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