Universo da obra
Universo da obra
Agora, que temos apresentado ao leitor Adelaide casada e com quatro filhinhos, vivendo com certo luxo e ostentação no centro da cidade tranquila e feliz ao menos aparentemente no seio de sua família, forçoso nos é voltar atrás uns doze a treze anos a fim de explicar que fatos se deram para operar essa transformação no destino de uma mulher, que tanto nos interessa.
O major Damásio voltara de sua excursão comercial depois de uma ausência de seis a sete meses. Encontrou Adelaide já completamente restabelecida dos incômodos da maternidade, se bem que acabrunhada ainda por certo languor e abatimento, provenientes mais dos sofrimentos do espírito, do que de incômodos físicos, e não lhe entrou pela mente nem a mais leve suspeita do misterioso acontecimento, que lhe tinha maculado o santuário da família. Felizmente também nada tinha transpirado em público a respeito da fraqueza da infeliz moça. A discrição de Lucinda, a vida solitária e retraída de Adelaide, a imbecilidade da tia Eulália, e a morte imediata da pobre criança, que caiu do seio materno à sepultura, fizeram com que o público, sempre ávido de escândalos, ficasse em perfeita ignorância desse facto, e a filha do major conservasse intacta e imaculada sua reputação aos olhos do mundo.
Adelaide não falou mais no seu propósito de entrar para um recolhimento, ou porque de facto semelhante resolução, não sendo firme nem sincera, se tinha desvanecido em seu espírito, ou porque não tendo conseguido riscar do coração a lembrança de seu amante, queria ganhar tempo nutrindo a esperança de poder talvez um dia unir ao dele o seu destino. O major também por sua parte nem de leve tocava em tal assunto. Tendo para si que a filha se achava inteiramente curada da louca paixão que concebera pelo jovem capataz, não perdia a esperança de vê-la um dia casada com algum alto personagem, que viesse dar mais honra e lustre à sua árvore genealógica.
Conrado, saindo de S. Paulo em uma peregrinação sem rumo e sem destino certo, de diversas localidades, cm que se achava, tinha por vezes dirigido cartas à sua amante para serem entregues cautelosamente por intermédio de terceiro; mas infelizmente nenhuma delas, à exceção da que escrevera antes de partir comunicando-lhe a sua retirada de S. Paulo, ou porque fossem interceptadas em virtude de precauções tomadas pelo major, ou por qualquer outra fatalidade, pôde chegar às mãos de Adelaide. Esta também via-se na impossibilidade de escrever-lhe por não saber o que era feito dele, nem a que ponto dirigir suas cartas.
Assim se passaram perto de dois anos, sem que se desse alteração alguma na triste sorte de Adelaide, sem que ela pudesse obter a mais vaga, a mais ligeira informação a respeito do destino de Conrado. No fim desse tempo porém espalhou-se em S. Paulo a notícia de que Conrado, girando em negócio de muladeiro pela província da Bahia, havia falecido no Sincorá de uma febre perniciosa. Esta triste nova, que bem depressa chegou aos ouvidos de Adelaide, foi um golpe doloroso, que por muito tempo a acabrunhou, e apagou-lhe da alma toda a esperança de felicidade na terra. Mas Adelaide, se era de temperamento vivo e ardente, fácil de inflamar-se em paixões fogosas, não tinha essa sensibilidade profunda, que nem o tempo nem as circunstâncias podem obliterar, e que mesmo debaixo das ruínas de todas as esperanças conserva sempre vivaz e ardente o sentimento do primeiro amor, como o fogo debaixo das cinzas. Sua alma era, como seu corpo, robusta e resistente; os choques podiam prostrá-la, mas não a esmagavam. Amava com ardor e com todas as forças de sua alma ao amigo da infância, ao amante da juventude; suas lágrimas e sua saudade foram sinceras e pungentes, mas com o volver dos tempos foram-se mitigando, a resignação veio por fim, e Adelaide animou-se de coragem para viver.
A casa do major Damásio, que durante muito tempo se tinha tornado uma espécie de eremitério, foi gradualmente se fazendo mais acessível à sociedade e mais animada. A lembrança dos remoques e epigramas dos estudantes e das pretensões do capataz ia pouco a pouco se apagando. O major, que nunca perdia a esperança de achar para sua filha um noivo de alta hierarquia, começava a atrair de novo e convidar a jantar alguns amigos, não excluindo mesmo, mas com algum escrúpulo na escolha, alguns jovens da classe acadêmica. Adelaide nada havia perdido de sua formosura e atrativos apesar dos transes dolorosos, por que havia passado, sua robusta organização havia zombado dos trabalhos e contratempos, e a flor de sua beleza alardeava-se ainda tão esplêndida e viçosa como dantes. Somente os sofrimentos lhe haviam estampado na fisionomia e nas maneiras um ar mais grave e melancólico, que ainda mais realçava seus encantos.
Entre os moços que frequentavam a casa do major, havia um, que sinceramente apaixonado da beleza de Adelaide se fez notar por seus obséquios e homenagem e por sua assiduidade. Era um terceiranista de bela e agradável presença, de maneiras simpáticas, e posto que não fosse rico, tinha a fortuna de assinar-se com o apelido de Bueno de Morais, um dos nomes heráldicos de mais distinção na província de S. Paulo. Além disso, sendo aspirante ao pergaminho de bacharel em direito, tinha aberta diante de si a carreira das honras e grandezas, e o bom major podia bem nutrir a esperança de ter um dia um genro deputado, presidente, ministro, senador e por fim até mesmo visconde e marquês.
Damásio, que também assinava-se Bueno, descobriu logo entre ele e o futuro genro certo grau de parentesco, e o doce nome de primo e prima substituíram daí em diante os nomes próprios entre os dois namorados. Adelaide não se desagradou do moço, a qual na verdade, além de sua bonita figura e maneiras agradáveis, e insinuantes parecia ser dotado de boas e sólidas qualidades. É verdade que não concebeu por ele uma dessas paixões profundas e veementes, como a que Conrado lhe havia inspirado, mas votava-lhe essa estima calma, porém terna e afetuosa, que é a melhor garantia da paz e felicidade da vida conjugal.
Havendo pois comum acordo entre todas as partes interessadas, contratou-se e celebrou-se dentro de poucos dias o casamento da senhora Dona Adelaide Florbela Bueno de Aguiar com o senhor Francisco Ribeiro Bueno de Morais.
É quase escusado dizer que houve banquete profuso e baile esplêndido, aos quais foram convidados o compadre Tobias, o presidente da província, os lentes da Academia, as famílias mais gradas da cidade, e a nata da classe acadêmica.
Bueno de Morais era de inteligência um pouco menos que medíocre; tanto assim, que apesar de contar já os seus vinte e sete anos, apenas à custa de muito patronato e de muito alisar os bancos da Academia tinha podido içar-se até o terceiro ano. se já era por natureza algum tanto avesso às letras, a vida matrimonial, e a tal ou qual opulência, que entrou a fruir, acabaram de lhe tirar completamente o gosto pelo estudo. Perdeu o ano, e não pôde fazer ato. Declarou a seu sogro que não podia mais continuar no curso acadêmico; que já possuía instrução bastante para seguir a carreira que melhor lhe conviesse, e, conhecendo o fraco de seu sogro, apontou-lhe diversos exemplos de homens que sem possuírem pergaminho algum tinham atingido as mais altas posições sociais. O sogro, posto que bastante contrariado, não desesperava, e perguntou-lhe em que desejava empregar-se Morais respondeu-lhe que precisava adquirir por seus próprios esforços alguma fortuna, que é a primeira base de uma boa posição social, e que sentiu-se com decidida vocação para a carreira comercial, para a qual desde o berço propendiam todas as suas inclinações. O major, acedendo a seus desejos, aconselhou-lhe que começasse pelo negócio de muladeiro que no seu entender era o que mais depressa podia enriquecer, e para prova dava o seu próprio exemplo. Morais aceitou o conselho, e aproveitou-se da bolsa e dos largos abonos que o sogro lhe facilitava; mas como homem, que tinha ainda menos prática de negócios do que dos livros, em menos de dois anos deu literalmente com todos os burros n’água, e o sogro teve de sangrar sua burra em quantia considerável a fim de desempenhar o genro para com seus fregueses de Sorocaba e Curitiba.
Entretanto o luxo e a opulência continuavam a reinar na mesma escala no seio daquela família com aprazimento do major e muito especial agrado de Morais, cuja ocupação daí em diante cifrava-se em frequentar bailes e teatros, em alguns passeios com a família, ou em bródios de estudantes, a cuja classe ainda se julgava filiado, e cujos hábitos não tinha de todo perdido. Assim se passava o tempo, e entretanto a fortuna do major, que ele havia acumulado à custa de peníveis trabalhos durante uma longa vida de atividade e economia, lá se ia escoando de um modo rápido e assustador. Já alquebrado pelos anos o major não podia mais entregar-se à vida laboriosa e fragueira de outrora; sentiu no entanto a necessidade senão de aumentar, ao menos conservar e manter no mesmo estado por meio de alguma especulação vantajosa um patrimônio, de que dependia o futuro de sua descendência, e que seu genro, longe de fazer prosperar, só sabia dilapidar. Portanto para pôr um paradeiro ao desmantelamento de sua fortuna, lembrou-se de abrir no pavimento térreo da casa nobre, em que agora o encontramos com toda a família, um vasto armazém de secos e molhados, em que por cautela figurava como sócio de seu genro, em cuja gerência não confiava muito.
Ali, à testa de seu estabelecimento, o velho major, que para o comércio tinha bastante tino e aptidão, podia tudo superintender, e vedar que o genro comprometesse por suas imprudências os interesses da casa. Graças a esse expediente o major pôde se abrigar de uma ruína inevitável, e Morais achou uma ocupação digna e honesta, com a qual podia manter decentemente e mesmo assegurar o futuro da família sem meter a mão no patrimônio do velho.
Passaram-se assim alguns anos de vida folgada e tranquila, durante os quais a prole de Morais foi-se aumentando até a época a que somos chegados.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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