Universo da obra
Universo da obra
Do lado oposto ao portão, na extremidade do jardim, para o qual se desce também por alguns degraus de pedra, Adelaide, sentada em um banco à sombra de uma pequena latada de jasmineiro, se apavona negligentemente em toda a plenitude de sua formosura. Parece uma dríade entre moitas florecidas... mas não; não é exata a comparação. O traje de Adelaide nada tem de comum com a ligeira e indecente roupagem das ninfas da mitologia grega. Traz um vestido de seda furta-cores, cuja ampla roda um pouco arregaçada sobre a alva e rendada saia, se desdobra a um lado e outro, dando-lhe antes a semelhança de gigantesca borboleta com as asas de brilhante matiz abertas sobre a florente ramagem do jasmineiro.
Quando o portão se abriu, parecia distraída passeando pelo horizonte vagos e melancólicos olhares; mas a garrulice alegre e ruidosa em que vinham os estudantes, não lhe permitiu conservar por mais tempo aquele atitude cismadora, que aliás não deixava de ter seu tanto ou quanto de estudada. Levantou-se fingindo-se um pouco surpreendida, e deu alguns passos para estender a mão ao Azevedo, que por uma das ruazinhas do jardim, por entre ondas de verdura e flores, avançava direita e intrepidamente a cumprimentá-la. Colhendo elegantemente com uma das mãos os amplos tufos da saia, Adelaide dirigiu-se lesta e risonha para o estudante, e em breve as duas dextras se encontraram em afetuoso aperto.
Dona Adelaide, — disse Azevedo, — por muito favor lhe peço, deixe-se ficar onde estava. A senhora neste jardim é a rainha das flores; aquele assento é um trono que lhe convém divinamente, e dele não deve levantar-se para ninguém.
— Aí vem o senhor com suas costumadas lisonjas, — replicou Adelaide, com um requebro e um sorriso.
— O que diz o Azevedo, é a pura verdade, — acudiu Aurélio, animado pelo exemplo do colega. — Ao vé-la, minha senhora, julgo ter diante de meus olhos a Primavera fazendo com seu sorriso desabrocharem todas estas flores.
E assim vieram chegando um após outros a apresentar seus cumprimentos à formosa fada daquele jardim, obsequiando-a cada qual com um galanteio mais ou menos espirituoso. Belmiro foi o último. A beleza de Adelaide tinha produzido em seu espírito, mais do que no de seus colegas, viva e profunda impressão. Achava-se perturbado e como que deslumbrado pelos fulgores daquele astro radiante de mocidade, graça e formosura. Por isso nada lhe soube dizer, mas ao apertar-lhe a mão cravou-lhe um olhar tão penetrante e significativo, que não deixou de fazer impressão no ânimo da moça. Se essa impressão foi agradável ou desagradável, é o que não sei dizer por ora.
— Agora, — disse Azevedo, alçando bem a voz, — a senhora dona Adelaide há de permitir-nos que cada um de nós vá colher em seu jardim uma flor, que for mais do seu agrado, para termos a honra de ofertar-lhe.
— Oh! senhor Azevedo!... que quer dizer isto?... o senhor me confunde; não mereço
tantas honras, — murmurou Adelaide, baixando os olhos constrangida.
— Merece muito mais, — bradaram os outros, — há de aceitar as nossas flores.
Adelaide com um sorriso e um gracioso aceno anuiu à proposta dos estudantes.
— Bravo!... andem lá com isso! quero ver qual tem melhor gosto, — exclamou o major, que algum tanto afastado assistia todo risonho a este tiroteio de galanteria.
Imediatamente os rapazes se espalharam pelo jardim, e daí a instantes cada um veio entregar nas mãos de Adelaide uma flor de sua escolha. Azevedo ofertou-lhe um jasmim do Cabo, rico de viço e fragrância e alvo como neve, que ela colocou sobre o seio. Belmiro trouxe-lhe um lindo cravo caboclo, que ela recebeu quase sem olhar para a pobre flor, e entrançou negligentemente nos cabelos.
O major mui ancho e satisfeito assistia de parte a estas inocentes homenagens tributadas à formosura de sua filha, e predizia-lhe lá de si para si o mais esplêndido destino.
Depois o grupo se dispersou pelo jardim, e houve então tal colheita e oferta recíproca de flores, que era um nunca acabar. Adelaide de sua parte não se cansava na faina, e verdadeira borboleta esvoaçando de canteiro em canteiro, ela só fazia face aos sete, oferecendo a este um botão de rosa, àquele um não me deixes, a outro um suspiro ou uma saudade, e assim por diante, de maneira que no fim de alguns minutos os pobres rapazes já não sabendo onde acomodar tantas flores as iam atirando fora às escondidas.
Como Adelaide em compensação recebia outras tantas dos sete comparsas, já tinha na mão, não um ramalhete, mas um feixe de flores de tal sorte avultado, que forçoso lhe foi alijar a carga sobre o banco em que estivera sentada. Conservava todavia com cuidado as primícias daquelas oferendas; o alvo jasmim de Azevedo a balouçar-lhe sobre os seios ofegantes; o cravo caboclo de Belmiro ostentando-se vaidoso entre as negras e luzidias tranças: e as outras cinco flores juntas cuidadosamente em sua mão esquerda.
Enquanto eles se enlevam em tão frívola ocupação, vamos nós, caro leitor, tratar de conhecer mais de perto e de modo mais íntimo aquela que é alvo de tantas homenagens e adorações.
Não era Adelaide uma beleza completa e sem senão, mas tinha um rosto tão gentil e fisionomia tão sedutora, que a custo o mais hábil e delicado pincel poderia apanhar-lhe os traços e a expressão. Era um desses tipos singulares, que atraem e fascinam por sua encantadora originalidade. Era de porte alto; bem feita e garbosa; de feições era engraçada e bonita, como bem raras se encontraram. Grandes olhos de uma negridão e brilho incomparáveis abriam-se suavemente entre longos cílios da mesma cor, como dois lagos onde se espelhavam o amor e a voluptuosidade. A tez tinha a cor, que o leitor pode imaginar seria a da filha de gentil mulata e de um belo e robusto descendente dos Tibiriçás; era morena, mas de um matiz suave e transparente, através do qual via-se animar e colorir-lhe as faces o sangue ardente das duas raças de que procedia.
A farta madeixa, que ela deixava em parte cair como uma cascata espadanando pelas nédias e bem torneadas espáduas, não era nem por demais encaracolada, nem lisa e corredia, mas debruçava-se em largas e graciosas ondulações, que lhe desciam até abaixo da cintura. A boca não mui pequena mas admiravelmente delineada, era formada por dois lábios rubros e carnudos do mais voluptuoso relevo. Um tênue e quase imperceptível buço, que lhe sombreava o lábio superior, dava-lhe ainda um realce indefinível.
Um sorriso dessa boca era um presente do céu; um beijo... oh! isso seria uma ventura com que nem mesmo ousaria sonhar o mais audaz de seus adoradores.
Na bem proporcionada e delicada conformação das mãos e dos pés, bem como na finura do talhe e na elegância do porte, era ela também representante dos mais belos e genuínos tipos europeus. Dessa tríplice aliança de raças tão diferentes resultou esse misto singular e encantador, que teve o nome de Adelaide.
Sua natureza moral era também um composto inexplicável de qualidades opostas, que deveriam excluir-se umas às outras, ou andar em perpétua colisão. Fosse por índole ou por defeito de educação, era ela um misto incompreensível de desenvoltura e recato, de meiguice e esquivança, de ingenuidade e malícia. Nas maneiras, nos ademanes, nas palavras era às vezes de tal desembaraço, que degenerava em estouvamento; e outras vezes de tal timidez e acanhamento, que roçava pela imbecilidade. Rica, tendo consciência de sua formosura, e persuadida de que lhe corria nas veias o sangue da mais pura e antiga fidalguia paulistana em virtude dos preconceitos, que desde a infância o pai lhe imbuíra no espírito, não podia faltar-lhe altivez e vaidade em alta dose. O amor ideal alimentado pela leitura de romances e poesias, que sem escolha e sem critério lhe eram fornecidos, com todas as suas exaltações febris e romanescas aberrações, escaldava-lhe a imaginação já de si mesma viva e apaixonada, ao passo que os instintos sensuais se desenvolviam com não menos energia naquela organização exuberante de viço e cheia de ardente e vigorosa seiva.
A má direção dada à educação intelectual de Adelaide, que o major, ignorante e filaucioso como era, deixava correr à mercê das fantasias da filha, estragava os excelentes dotes daquele espírito vivaz e expansivo, e a falta absoluta de educação moral deixava adormecidos alguns bons instintos, que a natureza lhe havia plantado no coração.
Assim, o bom major, parte por ignorância e inexperiência, parte por um descuido e condescendência indesculpáveis, deixava desenvolver-se no seio daquela tenra e melindrosa planta fecundo gérmen para muitos transvios, decepções e amarguras pelo decurso da vida.
Adelaide tinha mestres de francês, de música, de desenho, e de italiano, e de tudo isso já sabia alguma coisa pela rama.
Nunca porém tivera uma aia, ou uma parenta velha, a quem consagrasse afeição e respeito, e que lhe dirigisse os passos nessa quadra crítica e delicada, em que a mulher passa da infância para a puberdade e entra, por assim dizer, em um mundo novo e desconhecido, cheio de atrativos e miragens enlevadoras, onde os abismos se ocultam por entre flores.
Entretanto já lia sofrivelmente o francês, dedilhava com agilidade e desembaraço o seu teclado, e cantava sem gaguejar sua àriazinha italiana; era porém mais forte em modinhas e lunduns, de que possuía um interminável repertório.
Quanto ao desenho, já sabia fazer dois corações traspassados por uma flecha, duas pombas beijando-se, e debuxava e coloria uma rosa com suas folhas e botões de modo a não confundir-se com outra qualquer flor.
Tinha então Adelaide dezesseis anos. Estava nessa época da vida em que a imaginação de uma moça rica e desocupada paira por mundos ideais só enxergando ouro e rosas no horizonte encantado do porvir, e em que o físico tendo atingido à plenitude de seu desenvolvimento, entrega-se indolente a vagas impressões de mórbido e voluptuoso sensualismo.
Enfim, Adelaide é como essa mimosa flor, que inconscientemente traz entrançada em seus cabelos, ofertada por Belmiro. É um lindo e viçoso cravo caboclo a espreguiçar-se voluptuosamente sobre a haste flexível, apresentando as macias e cheirosas pétalas ao sol da primavera. Essa flor faceira e peregrina que vaidosa se requebra sobre sua fronte dobrando-se indolente ao sopro de todas as virações, é a sua viva e fiel imagem.
Adelaide estava nesta interessante e encantadora quadra da existência, quando seu pai entendeu que devia abrir as salas de sua linda chácara, seu jardim e seus pomares à frequência dos estudantes. O diamante, em sua opinião, estava suficientemente lapidado, e podia exibi-lo sem receio na boa sociedade, certo de que produziria o mais completo e deslumbrante efeito.
Seria bom o seu cálculo? Andaria ele bem avisado com tal procedimento?
Não sei; a continuação desta história se encarregará de dar uma resposta a esta pergunta.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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