Universo da obra
Universo da obra
Ainda alguns caipiras ociosos e folgazões se achavam reunidos junto à porta da taverna do francês, uns conversando, outros cochilando, outros cantando e tocando viola sentados no patamar, quando viram despontar na volta da estrada pelo lado da cidade um cavaleiro, que vinha a grande galope, e que em poucos instantes veio esbarrar diante deles o seu lindo e garboso cavalo alazão, todo arquejante e coberto de espuma, Era um mancebo de trinta e tantos anos; de porte esbelto, de fisionomia nobre e simpática, e que trajava com primoroso esmero e elegância. Podem fazer-me o favor de mostrar-me onde mora por aqui uma pobre velha, que se acha muito mal, chamada Nhá-Tuca? — perguntou o cavaleiro, depois de ter saudado cortesmente a comitiva. Os caipiras fitaram sobre ele um olhar espantado, e o deixaram por alguns instantes esperando a resposta. Cada qual queria responder, mas revolvendo o chapéu entre as mãos, e olhando, ora para o elegante cavaleiro, ora uns para os outros, ora para o chão, ficaram como engasgados, esperando cada um que o seu vizinho o antecipasse na resposta. Se esses mesmos homens ainda há pouco estranharam altamente que Lucinda lhes pedisse novas de Nhá-Tuca, quanto maior não devia ser seu pasmo e surpresa, quando viram aquele nobre cavaleiro perguntar com tanto interesse e açodamento pela bruxa excomungada, que era objeto de asco e desprezo para todo o mundo por aquela redondeza. A este porém não ousaram responder com apodos e galhofas, como fizeram com a pobre crioula.
— Está ali mesmo à vista, patrão; é acolá,
— respondeu por fim um deles, apontando para o rancho de Nhá-Tuca. O cavaleiro agradeceu com um gesto, e tocou o cavalo a galope para o sítio indicado.
— Chê! que coisa, Deus do céu! um moço tão chibante e luzido, que terá que fazer na casa daquela velha tartaruga amaldiçoada? — disse um dos da roda, apenas o cavaleiro se distanciou.
— Quem sabe se é parente, nhô Tico?... ponderou outro. — A velha já foi rica, e diz que é filha de muito boa gente.
— Chê! que esperança, nhô Neco! Nhá-Tuca ter um parente daquela qualidade!... fora o irmão, que ela matou, nunca teve parente mais nenhum, que eu saiba.
— Não é nada disso, gente; o que eu estou lembrando é que aquele moço é alguém, a quem a velha fez alguma maldade, e que lhe vem pedir contas na hora da morte. Fora do que já anda aí na boca do povo, na casa daquela velha fazia-se muita coisa ruim, que até hoje ninguém sabe.
— Isso é que bem pode ser, Nhô Quim; mas já agora não arredo pé daqui, enquanto não ficar sabendo em que isto se para. Aquele moço de certo não há de ficar toda vida em casa da bruxa; há de voltar e por fim de contas sempre se há de saber alguma coisa.
— E eu também daqui não saio, enquanto ele não voltar; estou aflito por saber em que dá esta embrulhada.
— E eu também, — repetiram todos os outros. — Vamos ver em que isto dá.
Enquanto os caipiras iam discutindo e comentando neste gosto a visita de Conrado à casa de Nhá-Tuca, resolvidos a esperarem ali a pé firme o resultado da mesma, o mancebo apeara-se junto ao rancho da infeliz velha, e batendo palmas pediu licença em voz bem alta. A mísera mulher, que, segundo parecia, ali jazia há dois dias no leito da miséria e do sofrimento sem ouvir voz humana, estremeceu de prazer ao perceber que lhe batiam à porta.
— Quem é?... pode entrar, — respondeu de dentro uma voz fraca, trêmula e esganiçada. Foi bem difícil a Conrado dar com a entrada do rancho, a qual consistia em alguns paus a pique soltos, e que não se distinguiam bem do resto da parede. Era mister afastá-los para um e outro lado a fim de franquear uma estreita entrada. Conrado, que conhecia muito esse gênero de portas por tê-las muitas vezes em ranchos de roça, abriu-a e não sem custo penetrou no interior da choupana, esfregando o pano de sua fina casaca nos imundos paus daquela hedionda pocilga. Posto que não houvesse no rancho uma só janela ou fresta por onde penetrasse francamente o ar e a luz, contudo as paredes formadas de paus roliços mal unidos entre se deixavam entrar claridade bastante, para que Conrado, depois que se foi afazendo à meia luz que ali reinava, pudesse distinguir com facilidade os objetos. Era a palhoça dividida em dois compartimentos iguais por meio de uma esteira de taquara. No primeiro, para o qual dava a porta única da casa, por onde Conrado tinha entrado, via-se no chão um cinzeiro apagado, e junto dele um colchão esfrangalhado rodeado de algumas cuias e cacos de panela. Era sem dúvida a miserável enxerga, da qual há dois dias tinha sido transferida para a sepultura a última companheira e cúmplice da desgraçada velha. Achavam-se junto ao cinzeiro, quando Conrado entrou, um cãozinho mofino e coberto de gafeira, procurando no borralho extinto algum resto de calor, e um lagarto, que sem dúvida por ali rondava à caça de baratas e outros insetos, em que a choupana devia abundar. O lagarto esgueirou-se sutilmente, e desapareceu com a celeridade que lhe é própria; o cão porém levantou-se e abanando a cauda olhava para o visitante com olhos suplicantes, como quem lhe pedia pelo amor de Deus um bocado de alimento. Conrado não lhes deu atenção, e dirigiu-se para uma abertura que dava comunicação com o outro compartimento. O espetáculo, que ali se lhe ofereceu aos olhos, era indescritível pela sua hediondez, e capaz de fazer recuar de horror as almas mais corajosas e caritativas. Em um girau firmado sobre quatro toscas e grossas forquilhas fincadas no chão, estava estendida a mísera velha em cima de uma enxerga de palhas de milho, tão esfarrapada e poída, que mais parecia um montão de lixo. Ali agonizava ela há dois dias como um esqueleto embrulhado em andrajos asquerosos. Ao pé dela à cabeceira o único móvel que existia, era um tamborete estropiado, sobre o qual se via uma tosca tigela de barro, vazia!... Nem uma gota de água ali havia para a mísera enferma!... Em torno pelo imundo e estreito cubículo não se viam senão alguns trapos asquerosos espalhados pelo chão. A estes contristadores e repugnantes acessórios, se juntarmos a figura cadavérica e a fisionomia repulsiva da velha, teremos um painel, que nenhum pincel humano é capaz de reproduzir em toda a sua lúgubre e sinistra realidade. Para receber o hóspede desconhecido, que tão inesperadamente a vinha visitar, a enferma se reanimou um pouco, e conseguiu levantar algum tanto sobre um montão de roupas velhas, que lhe serviam de travesseiro, o busto lívido e descarnado. A magreza, a velhice e a doença ainda mais faziam ressaltar as linhas duras e angulosas de sua fisionomia ignóbil e repelente. Os olhos pequenos e extintos mal se podiam divisar por debaixo das arcadas superciliares proeminentes e ossudas. O que mais porém contribuía para dar-lhe ao semblante uma expressão de fealdade, que incutia terror e repugnância, eram os dentes, que ela ainda os tinha todos, grandes, salientes e amarelos. Como seus lábios finos e mirrados como duas tiras de velho pergaminho, contraídos pela macilência e pela febre, não podendo cerrar-se, conservavam-se entre-abertos, um certo sorriso fúnebre e sinistro parecia estar fixo sobre sua boca agonizante. Se não fosse o poderoso incentivo, que ali o levava, Conrado teria recuado diante de tão lastimoso e repulsivo quadro, e deixando uma generosa esmola à cabeceira da enferma ter-se-ia retirado imediatamente. Mas era instigado por um motivo imperioso, pelo qual afrontaria mesmo todos os transes e perigos, por mais temerosos que fossem.
— O senhor, quem quer que é, pode chegar, — disse com voz rouca e arquejante a infeliz velha, vendo Conrado parar ao limiar da entrada do quarto. — Não tenha susto; eu sou uma pobre velha desgraçada, que em castigo de meus pecados aqui vivo a penar desamparada por todos, e morrendo aos poucos no fundo desta cama... Senhor meu, tenha piedade desta pobre velha... foi Deus, quem o mandou aqui... Há dois dias, que aqui não vem criatura viva nem para me dar um gole de água pelo amor de Deus.
Apesar do exterior repugnante da velha, e do crime inqualificável, de que era responsável para com ele, Conrado não pôde deixar de apiedar-se do estado de profunda miséria e desamparo, em que jazia aquela desgraçada criatura, e exprobrou no íntimo d’alma a dureza dos vizinhos que tão desumanamente assim a deixavam perecer.
— Sim, minha velha, respondeu ele avizinhando-se do leito; — eu me compadeço sinceramente de sua desgraça, e é por isso que venho hoje. aqui com disposição de procurar alívio a seus sofrimentos, e prestar-lhe todos os socorros de que necessitar.
— Ah! meu senhor! Deus lhe dê muita saúde e largos anos de vida! Eu estou já com os pés na sepultura, e bem pouca coisa posso precisar neste mundo. O de que mais preciso é que Deus me perdoe os muitos e enormes pecados que cometi em minha vida. Ah! meu Deus!... quem me dera um padre para me confessar!
— Por esse lado sossegue seu coração; hoje mesmo lhe hei de trazer um padre, e estou pronto a fazer tudo o mais que a senhora exigir para alívio de seus sofrimentos e sossego de sua consciência.
— Oh! meu senhor!... meu benfeitor!... Deus lhe dará o pago por essa obra de caridade.
— Sim, mas quero também da senhora uma recompensa, que lhe é muito fácil, e da qual depende todo o sossego e felicidade de minha vida. Quero lhe pedir um favor...
— A mim, meu senhor!... que favor! posso eu fazer, eu pobre velha desvalida, com os pés na sepultura?...
— Eu lho vou dizer já sem mais rodeios, porque não devemos perder tempo. A senhora cometeu na sua vida um ato altamente criminoso, cujo segredo não pode levar para a sepultura sem causar a desgraça de toda a minha vida e a da inocente vítima desse ato execrando. Não se lembra?
— Ah! meu Deus!... eu pratiquei tantas ações ruins!... qual delas será!...
— Eu lhe vou avivar a memória. Não se lembra de que na noite de vinte e quatro para vinte e cinco de novembro, fazem agora justamente quatorze anos, — amanheceu exposta na porta de sua casa uma menina recém-nascida?...
— Oh! se me lembro! meu Deus! meu Deus! e com que remorsos!... é por essa e por outras muitas maldades, que pratiquei, que hoje me acho aqui penando desta maneira, ai! meu Deus, e sem ter um confessor!...
— Tenha paciência; o confessor há de vir. Agora conte-me com franqueza e verdade o que é feito dessa criança? A justiça humana já nada tem que ver com a senhora; é perante o tribunal divino que em breve talvez terá de responder. Se não confessa o seu crime a fim de remediar o mal imenso que fez, e que até hoje pesa sobre essa infeliz criatura, não pode esperar salvação para sua alma.
— Graças, meu Deus! mil graças vos sejam dadas! — exclamou a velha, levantando ao céu as descarnadas mãos, e exalando um forte suspiro, com que parecia aliviar o coração de um peso enorme, que o oprimia. — Graças a Deus que em minha última hora me permite desmanchar o mal que fiz. Meu senhor, pelo amor de Deus, perdoe-me; minha vida foi toda um tecido de perversidades. Essa menina não morreu, como eu fiz acreditar. Nessa mesma noite em que ela apareceu enjeitada à porta de minha casa, uma mulata, minha escrava, tinha tido uma criança, que morreu logo depois de nascida, e eu... meu Deus!... que vergonha! que abominaçao!...
— Diga, diga tudo, senhora, — instou Conrado. — É preciso que não oculte nada para descargo de sua consciência e para se poder remediar o mal que fez.
— E eu fiz batizar a enjeitada como filha da escrava, e fiz constar que a enjeitada é que tinha morrido.
— E que nome deu à menina?
— Rosaura.
— E depois vendeu-a, não é assim?
— É verdade, meu senhor.
— E a quem vendeu-a?
— A um senhor Basílio, morador na rua do Tabatinguera.
— Justamente! é ela! — exclamou Conrado com íntimo e profundo júbilo. — Não se pode mais opor a mínima dúvida a respeito da origem de Rosaura. Estou satisfeito, senhora; eu vou neste mesmo instante buscar um padre para ouvi-la de confissão, e também mandar-lhe alguns meios de tratar-se. Em menos de duas horas estarei de novo aqui com o padre e mais duas pessoas, porque me é de absoluta necessidade, que a senhora repita diante de testemunhas a confissão que acaba de fazer-me em particular, para conseguir a liberdade da menina, que a senhora condenou à escravidão. Está disposta a isso, minha senhora?
— Por que não, meu senhor!... nem há coisa que eu mais deseje. Prouvera a Deus que eu pudesse desfazer assim todas as outras maldades que pratiquei!... ah! meu Deus! perdão!... misericórdia!...
— Pois bem; até breve.
— Deus o acompanhe, e o traga a salvamento, meu senhor. Ao sair fora da palhoça, Conrado consultou o relógio; eram quase duas horas.
— Temos ainda muito tempo, — pensou ele; — ás quatro horas posso estar de volta aqui com o padre; os dias são grandes; das quatro até a noite tudo pode ficar arranjado, salvo se a velha expira antes disso. Durante a visita, apesar da preocupação que lhe dominava o espírito, ou em razão dessa mesma preocupação, Conrado tinha examinado com atenção o estado da enferma e apesar de não ser médico, compreendeu que ele era gravíssimo, e que naquele caso não havia mais cura possível. Todavia refletiu que o estado de prostração em que a via, podia ser resultado não só da moléstia, como também da inanição a que a tinha reduzido o abandono e privação absoluta, há que a dois dias se achava condenada. Se a deixasse naquele desamparo, em que a tinha encontrado, corria risco de achá-la na volta senão morta, pelo menos impossibilitada de fazer de modo inteligível a declaração que era o alvo de todos os seus esforços. Montou a cavalo e parou de novo à porta da taverna do francês. Os fregueses, que ali encontrara, ainda lá se achavam a pé quedo, esperando a sua volta.
— Então, meu amo, como vai a velha tinhosa? ainda o diabo não a carregou? — ousou perguntar um, a quem as excessivas libações tinham tornado por demais desembaracado. Conrado franziu o sobrolho, e sem responder diretamente a tão brutal pergunta, dirigindo-se a todos exprobrou-lhes sem aspereza nem grosseria, mas em termos enérgicos e severos, sua deshumanidade para com aquela desgraçada mulher, fazendo-lhes ver que não era próprio de cristãos deixar morrer à míngua e ao desamparo uma criatura humana, por mais perversa que tenha sido em sua vida. A moléstia, a idade, o sexo e a extrema pobreza em que vivia e ia morrer, eram bastantes para seu castigo, e a tornavam digna da comiseração de todo o mundo. Aqueles que assim a maltratavam, tornavam-se tão bons como ela e dignos da mesma sorte.
Os caipiras, ouvindo as palavras severas, mas cordiais e sensatas do mancebo, sentiram mais compunção e arrependimento do que se tivessem escutado as ameaçadoras vociferações do mais rochonchudo e atrabiliário capuchinho. Procuraram desculpar-se com a reputação de que gozava a velha, de ser bruxa, feiticeira, e de ter pacto com o diabo; mas enfim todos voltaram-se às boas com o gentil e generoso cavaleiro, que os afagou com uma generosa molhadura, pedindo-lhes que não continuassem a ter em tão má conta uma pobre mulher velha, que estava às portas da morte. Todos protestaram que não continuariam a ter o mesmo procedimento, declarando-se prontos a fazer tudo que Conrado determinasse.
Conrado chamou de parte o francês, dono da taverna, e dando-lhe uma soma de dinheiro mais que suficiente, pediu-lhe que acudisse de pronto à doente com algum cordial ou algum caldo, que a confortasse, visto que ela estava morrendo mais de fraqueza e inanição do que mesmo da doença. Recomendou-lhe também que mandasse imediatamente varrer e assear a imunda pocilga, em que jazia a mísera velha, e colocar lá duas outras cadeiras ou tamboretes, porque dentro de duas horas ao mais tardar tinha de voltar com um padre para ouvi-la de confissão.
— Tenha paciência, — disse ele ao taverneiro; — não se poupe a despesa nem a trabalho, que tudo hei de remunerar generosamente, e além disso lhe ficarei tão agradecido por tudo que fizer por essa mulher, como se fosse um serviço feito a mim próprio. O francês comprometeu-se de bom grado a cumprir tudo que Conrado lhe recomendara. O interesse que aquele rico e distinto cavaleiro tomava pela pobre e desgraçada velha, lhe excitando altamente a curiosidade, os dispunha também a secundá-lo em tão louvável e caridoso empenho. Conrado agradeceu, e tocou a galope para a cidade.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.