Universo da obra
Universo da obra
O major, grande e apaixonado cultor de Flora, também contribuía com seu contingente para entreter os estudantes, porém de um modo que não deixava de ser bastante desagradável e enfadonho para eles. A cada passo colhia um botão, uma flor, uma semente, que apresentava a qualquer deles, contando por miúdo donde lhe viera a semente, os cuidados que exige, em que tempo se deve plantar, etc., não se esquecendo do nome científico, que leva no catálogo, não lhes deixando tempo para se entreterem com a moça. Vendo esta importuna mania do velho, os estudantes, que até ali tinham suportado com impaciência a defensiva, resolveram tomar a ofensiva, e colhendo de sua parte também aqui e acolá botões, folhas e flores a granel, as iam apresentar ao major, a quem não deixaram mais respirar aturdindo-o com as mais cerebrinas e esdrúxulas explicações botânicas. O estratagema surtiu o desejado efeito.
— Enfim, meus amigos, — exclamou por fim o major já atordoado com tanta ciência, basta de flores; vamos aos frutos, que já é tempo.
— Apoiado, major! — bradou o Silva. — A elas! às jabuticabas!...
— É justo, — acudiu o Aurélio, — as flores voam nas asas do vento, e são somente cor e perfume; mas os frutos têm também a polpa e o sabor. As flores duram um momento, e são como a beleza, de que fala o poeta:
Et rose ele a vécu ce que vivent les roses,
L’espace d’un matin.
(E rosa ela viveu da rosa a vida,
O espaço de uma aurora.)
— Outro tanto se pode dizer dos frutos, — replicou Belmiro; — e a estrofe de Malherbe pode também se traduzir pela seguinte maneira:
Jaboticaba ela viveu somente
Como a jabuticaba;
Foi comida e deixou só a semente;
Assim tudo se acaba.
Esta paródia, que foi aplaudida com estrondosas gargalhadas, não agradou muito a Adelaide, e nem ao Azevedo.
— Ora, Belmiro! disse este enfadado. Para que estragar com tua tradução sacrílega e picaresca a linda estrofe do poeta. Lembre-se de que há também flores perpétuas e sempre vivas; e aqui mesmo neste jardim posso mostrar-te uma, — acrescentou olhando significativamente para Adelaide.
E não é como a rosa, que de vida,
Só tem uma manhã;
De dia em dia surge mais crescida,
Mais bela e mais louçã.
— Bravo, Azevedo! bonito madrigal! exclamou o Oliveira. — Mas em fim de contas, depois das flores do jardim de Armida, vêm as flores da poesia, e nunca chega a vez dos frutos!... Soldados! continuou ele em tom solene parodiando Bonaparte no Egito, — do alto daquelas jabuticabeiras quarenta mil jabuticabas nos contemplam! a elas, meus bravos!...
— A elas! bradou o major, abrindo uma cancela, por onde por alguns degraus se descia para o quintal de legumes e hortaliças, no fim do qual se estendiam densas e copadas filas de jabuticabeiras, pelas quais os estudantes se enfiaram de tropel.
— Venham cá, meus amigos, — gritou o major, procurando arrebanhá-los. — Agora, sentemo-nos aqui à sombra, enquanto o moleque nos vai apanhar as frutas, que estão caindo de maduras.
— Oh! meu major! — exclamou o Oliveira, — nisso não consentimos nós; seria privar-nos do melhor da festa.
— Não, senhor! — acrescentou o Aurélio; — nada de cerimônias, meu major, nós mesmos queremos colher as jabuticabas, que havemos de comer; queremos chupá-las, como fazem os passarinhos, em cima da árvore gorjeando e saltando de ramo em ramo; aí é que está todo o chiste e poesia do negócio.
— Mas isso não pode ser, — interveio Adelaide, que nesse momento entrava no pomar, acompanhada pelo Azevedo. — Os senhores vão se pisar, amarrotar e rasgar a roupa, e mesmo podem cair... Nada! é melhor, que o moleque vá apanhar as frutas; ele já está acostumado.
— E nós também, minha senhora, — atalhou Belmiro; — qual é de nós aqui que não terá trepado em uma jabuticabeira?
— Eu, que aqui estou, — acudiu o Azevedo; nunca trepei e nem quero trepar; não sou macaco.
— Não és dos grimpantes, e antes queres pertencer à família dos répteis! tanto pior para ti: não podes elevar-te como nós, que vamos nos avizinhar das regiões celestes. Se o Senhor major nos dá licença, tiramos as sobrecasacas, e vamos acima.
— Façam como entenderem, meus caros, todo este pomar hoje lhes pertence; estejam em plena liberdade. Mas olhem cá; reservei para os senhores aquela jabuticabeira, que ali está; ainda ninguém apanhou nela uma só fruta; está carregadinha, e são doces como favo de mel.
— Obrigado pela fineza, meu caro major; mas há de permitir-nos que ofereçamos à senhora sua filha as primícias desses frutos deliciosos.
Dito isto, desembaraçaram-se lestamente de suas sobrecasacas, e dirigiram-se para a árvore indicada, exceto o Azevedo, que deixou-se ficar sentado sobre a relva à sombra de uma laranjeira, em companhia do major e sua filha.
— Pior está o caso, — murmurou o Azevedo, depois que os outros se afastaram.
— Qual caso... perguntou Adelaide surpreendida.
— É que a senhora está aqui como que representando o papel de Eva no Paraíso, e está me parecendo que aquela é a árvore do fruto proibido.
— Ora! ora esta, homem! — exclamou o major, rindo-se muito. — Esta nem ao diabo lembrava. Mas, meu doutor, acho que nenhum daqueles bons moços se parece com a serpente que enganou Eva.
— Pois eu acho-lhes toda a semelhança; conheço bem aqueles maganões, principalmente o tal senhor Belmiro; debaixo daquele ar apalermado esconde-se um verdadeiro Mephistopheles.
— Mephisto.... como se diz... quem é esse sujeito? — perguntou Adelaide, sorrindo.
— É uma das personificações do diabo, minha senhora; foi nessa figura, que ele tentou Fausto, para que este tentasse Margarida, como tentou a Eva na figura da serpente. É uma galante história; se a senhora quiser lê-la...
— Oh! pois não; gosto muito de ler romances,... foi o senhor mesmo que compôs
— Não, minha senhora; quem me dera; foi um famoso pândego alemão, chamado Goethe.
— Goethe!... que nome extravagante!... mas o senhor fala muito mal dos seus camaradas...
— Oh! Dona Adelaide; é pura brincadeira; são excelentes rapazes; muito folgazões e nada mais...
— Sim, minha filha, — disse o major; — está claro, que o senhor Azevedo não podia trazer à nossa casa senão pessoas de distinção.
De distinção bem podiam ser eles; mas, à exceção talvez desse pobre Belmiro, contra o qual tanto se assanhava o humor satírico de Azevedo, não podemos asseverar, que tivessem a consciência muito escrupulosa, e devemos antes crer, que se não eram dos mais devassos e libertinos, qualquer deles era bem capaz de levar um namoro ou uma intriga amorosa até as últimas consequências.
Entretanto o major se havia retirado de junto de sua filha e de Azevedo, e sem perdê-los de vista, tinha ido percorrer o quintal de hortaliças e dar algumas ordens aos escravos, que nele trabalhavam. Enquanto Adelaide e Azevedo se entretinham na frívola conversação que acabamos de ouvir, os outros estudantes grimpavam pelos galhos da jabuticabeira como verdadeiras saguis, e enchiam a copa dos chapéus dos mais doces e sazonados frutos.
Dentro em cinco minutos estavam de volta, e rodeavam Adelaide, trazendo-lhe em oferenda as primícias dos deliciosos frutos que acabavam de colher. A moça viu-se em sérios embaraços diante de seis chapéus, que eles, cada qual mais sôfrego e pressuroso, lhe apresentavam ao nariz. Para tirar-se de dificuldades foi metendo indistintamente ambas as mãos em todos os chapéus e tirando punhados de frutas até encher um grande alguidar com água, que uma escrava tinha colocado ao pé dela. Foi Belmiro o último que se apresentou, depois que viu Adelaide inteiramente desembaraçada da obsessão de seus companheiros. Esta, ou fosse por não ter mais onde acomodar as frutas, ou por um mero capricho de moça, escolheu uma dúzia delas no chapéu de Belmiro, e depois de as ter limpado apenas com o seu lenço de fina cambraia, ali mesmo as estalou entre os alvos dentes, saboreando-as com certo arzinho faceiro de satisfação, que fez sofrer todas as torturas da inveja a seus companheiros, principalmente ao Azevedo, cujas faces naturalmente pálidas se fizeram esverdinhadas de desapontamento e despeito.
Belmiro com efeito parecia triunfar, e cheio de prazer, esperança e ufania, pondo de lado seu natural acanhamento, pôs-se a chasquear com Azevedo.
— Então, Azevedo, que quer dizer isto?... dizia-lhe ele em pé, de braços cruzados diante do colega, que se achava reclinado sobre a relva ao lado de Adelaide. Que vieste cá fazer?... ou és um grande preguiçoso, ou um moleirão sem préstimo algum. Se não fosses tu, quem nos veio abrir as portas deste paraíso, não provarias uma só fruta; quando muito te daríamos as cascas. Ora, não faltava mais nada!... nós a esfolarmos as mãos e a torcermos o pé nos galhos da jabuticabeira, e tu estendido aí à sombra, sobre a fresca relva, ao lado da Senhora...
Tu, Títiro, lentus in umbra...,
— Formosam resonare doceo Adelaida silvas.
Respondeu prontamente o Azevedo.
— Adelaide da Silva, não senhor, — atalhou a filha do major; esse não é o meu nome, senhor Azevedo; chamo-me Adelaide Celestina Bueno de Aguiar.
— Oh! esplêndido nome! — murmurou Azevedo, voltando o rosto para abafar ou exalar o riso, que lhe inchava as bochechas e ameaçava fazer explosão, e começou a tossir fingindo-se engasgado com a fumaça do charuto.
Os outros estudantes também de sua parte faziam supremos esforços para não se rirem abertamente da ingênua e singular interpretação que a moça havia dado ao verso de Virgílio, onde Azevedo com tanta habilidade soubera encaixar de improviso o nome de Adelaide. Nada disseram, mas Adelaide, pelos olhares maliciosos que trocaram entre si, logo compreendeu que havia dito alguma tolice; corou muito, mas não se enfadou nem se mostrou desapontada.
— Oh! meus senhores!... exclamou ela entre risonha e enfadada; — se continuam a falar francês, eu não sou mais da companhia, e peço licença para me retirar.
Foi Belmiro quem primeiro acudiu em seu auxílio.
— Desculpe-nos, minha senhora, — disse ele — Fomos eu e o Azevedo, que tivemos a lembrança de citar uns versos de Virgílio, que parecem ter sido feitos de propósito para a senhora na presente situação. A única diferença é que aqui o meu amigo habilmente substituiu o nome de Amaryllis pelo de Adelaide.
— É verdade, minha senhora, — replicou Azevedo, olhando de revés para Belmiro, — e por sinal que esses versos diziam respeito a certo invejoso, que levava a mal que o amante de Amaryllis repousasse à sombra ensinando aos ecos o nome de sua amada.
— Ah! já compreendo, — replicou Adelaide. — Agora o que peço aos senhores é que daqui em diante, se quiserem fazer ou recitar versos, seja em língua que eu possa entender.
— Muito bem! Dona Adelaide tem toda a razão, — acudiu Aurélio, — e daqui em diante juramos que não havemos de proferir em sua presença uma só palavra francesa nem latina. O diabo que consuma essas duas línguas; uma, porque mora a alguns milhares de léguas distante de nós; outra, porque já morreu há mais de mil anos.
— Pois seja assim, que lhes ficarei obrigada... mas olhem: as frutas vão se acabando; é preciso novo sortimento.
E tinha razão a moça, pois não se pense que aquele grupo se ocupava só em falar; ao passo que engoliam a polpa da jabuticaba, deitavam fora também cascas e caroços de mistura com toda essa torrente de toleimas e disparates que acabamos de ouvir, além de outros muitos, que omito por brevidade. Em vista daquele pedido, ou antes ordem da filha do major, parte do grupo que a rodeava, se afastou, ficando junto dela somente o Azevedo e mais dois colegas.
Belmiro não podia tolerar de sangue frio que Azevedo continuasse a ficar a sós com a filha do major; achava isso revoltante e escandaloso. O pequeno sinal de predileção que ela lhe havia dado, provando em primeiro lugar das jabuticabas que tinha colhido,
Lhe enchera com grandes abundanças
O peito de desejos e esperanças, como acontecera ao Adamastor de Camões, e em consequência tinha-lhe superexcitado o ciúme, que já nutria contra o Azevedo. Logo que se distanciou algum tanto com os três companheiros, que o seguiram, parou, e formando com eles uma espécie de conselho deliberativo:
— Antes de tornarmos a subir à jabuticabeira, vamos conversar aqui um pouco, — disse-lhes em meia voz. — Não acham vocês que é um desaforo da parte do Azevedo, e da nossa uma toleima inqualificável deixarmos ali ficar tranquilamente aquele maganão a sós com a moça, enquanto nos estamos a amofinar para regalá-los a um e à outra.
— Tens razão, Belmiro, replicou o Oliveira. — E como lá fica ele tão ancho e cheio de si a dar boas gargalhadas, talvez zombando de nós, e fazendo-a rir a nossa custa?... isto com efeito é custoso de aturar-se.
— Também a culpa é mais do velho, — ponderou judiciosamente o Silva. — Porque deixa ele assim a filha sozinha em companhia de um Mephistopheles daquela ordem?... ah! se ele soubesse de que têmpera é aquele.
— Ora, deixem-se disso, meus caros, — interrompeu o Dias, com uma fleuma que fez raivar a Belmiro. — Para que essas ciumadas?... e que temos nós com o namoro do Azevedo? deixá-los; já são conhecidos antigos, e se ela lhe dá preferência, é fortuna dele. Viemos nós aqui para nos divertir, passear e comer jabuticabas, ou para namorar a filha do major, e disputá-la ao Azevedo?
— Ora bravo, meu Dias! — essa é impagável! — exclamou Belmiro com azedume. — Pelo que vejo, viemos aqui como cortesãos de um rei para o servirmos e rendermos homenagem a ele e à sua dama?... De certo cá não viemos para requestar a filha do major, mas também hás de compreender que não nos fica muito airoso dar azo e proteção ao namoro do Azevedo.
— E o que queres que façamos não me dirás? — redarguiu vivamente o Dias.
— Impedir esse namoro.
— Como?...
— Ora, como!... nada mais fácil. Somos seis contra ele, e nada custa dividirmo-nos em dois grupos, que se revezem de maneira que ele nunca tenha ocasião de achar-se a sós com ela. Assim uns ficarão fazendo-lhes companhia, enquanto outros trepam às jabuticabeiras...
— Pois eu cá, — disse o Oliveira, — quero ser um dos que ficam; a falar com franqueza, prefiro mil vezes ficar conversando com a menina a ir apanhar, e mesmo comer, as mais doces jabuticabas do mundo.
— E eu também, — retrucou o Dias; não porque me importe com o namoro do Azevedo, nem com os encantos e faceirices da menina, mas porque já estou com as mãos esfoladas e as botinas escalavradas.
— Mas isto não pode ser, meus amigos, — exclamou Belmiro com impaciência. — Dona Adelaide está à espera de frutas, e nós aqui a turrar como crianças por uma ninharia!...
— Ah! já achas uma ninharia! — murmurou o Dias. — Ainda há pouco sustentavas o contrário.
— Vamos nós, Oliveira, — continuou Belmiro; — vamos trepar à jabuticabeira, e deixemos estes bobos, estes Hércules ridículos aos pés da sua Ônfale...
— Também não vou, visto que todos ficam, — respondeu secamente o Oliveira. — Não sei qual será mais bobo, se quem lá sobe, ou quem cá fica embaixo. Já cumprimos para com a filha do major o dever de cavalheiros delicados. Agora os moleques do major que apanhem frutas para nós todos.
Assim o pobre Belmiro achou-se isolado em seus planos de embaraçar o namoro de seu rival. Os dois outros companheiros, que tinham ficado com Azevedo, também não se arredavam de junto de Adelaide, e deste modo ou ele só iria apanhar jabuticabas para ela e para todos aqueles malandros, ou deixaria de obsequiá-la com os saborosos frutos, de que ela tanto havia gostado. Horrível conjuntura!
Cumpre reconhecer que era mui natural e justificável o procedimento dos outros estudantes para com Belmiro. Este, bem como Azevedo, já tinham merecido de Adelaide sinais de predileção, próprios para inspirar-lhes sonhos fagueiros e esperanças cor de rosa. O mesmo não acontecia aos outros, os quais, à exceção talvez do Silva, que tanto na figura como no temperamento parecia um batavo pouco sensível aos encantos da beleza, e do Dias, filósofo pachorrento, para quem o mais simples galanteio era coisa incompreensível, os outros todos sentiam também a magnética influência dos sedutores atrativos da gentil paulista. Não era pois de esperar que se prestassem de bom grado a favorecer aqueles a quem a sorte já se ia mostrando tão propícia e risonha.
Este estado de colisão e perplexidade não durou muito tempo; veio pôr-lhe termo o incidente inesperado, que vamos ler no capítulo seguinte.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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