Leia agora
Rosaura, a Enjeitada

Universo da obra

Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 7 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo VII: Sem título

7 de 45 ≈ 7 min de leitura

— Olé! meu sonso!?... então como vais desse pé?! — disse Azevedo, sentando-se à beira da cama. Anda lá! bem feito!... quiseste ficar assim uma espécie de acrobata para agradar às meninas, e eis o que te aconteceu!... objeto de riso e compaixão... deves reconhecer que estás fazendo uma triste figura!...

— É verdade, Azevedo, bem triste... ai... meu pé...

— Manhoso!...

— Oh, não! está doendo deveras...

— Não dóe nada, maganão... pensas que não te compreendo? tu te deixaste cair para te tornares objeto de atenção, visto que a tua figura não é, — aqui entre nós, não te agastes comigo, — não é das mais atrativas.

— Ah! meu Deus... eu deixar-me cair! e esta!... que lembrança!... só tu poderias ter ideia tão mefistofélica. Mas juro-te que se essa ideia me viesse ao espírito, e eu adivinhasse que produziria tão bons resultados, eu era bem capaz de pô-la em prática.

— Resultados... que resultados, pateta... inspiraste compaixão e nada mais. Se visses como na mesa nos divertimos todos à tua custa!... e na verdade... sem o episódio de tua queda, a função não teria corrido tão divertida. Ela veio dar-lhe um sainete admirável...

— Deveras... muito estimo.... ao menos a minha queda serviu para alguma coisa.

— Quando te levantaste todo sarapantado, vermelho como camarão e cheio de folhiço, não fazes ideia da figura que fizeste... parecias um jacaré. Uma das moças disse que ficaste com cara de laranja azeda...

— Ora!... — que me importam as sandices daquelas saloias... uma vez que Dona Adelaide...

— Oh!... Dona Adelaide,... essa foi quem mais rio-se...

— Que me importa!... essa pode rir-se de mim, ou para mim. Em tudo me dá gosto. Adoro-a, porque é uma divindade. Só a presença dela é para mim um gozo inefável. Mereço-lhe compaixão? é quanto me basta.

— Ah!... e por isso caíste... mas não penses que cá hás de pernoitar sozinho para te entreteres a teu gosto com a tua divindade. Já tomei minhas medidas. Cá fico para te fazer companhia. Já falei ao major, que aprovou a minha ideia, e assim ficas tu, e eu também fico; tu aleijado e desprezado, e eu querido, são, e idolatrado...

— Ficar?... que bom... rendo-te também da minha parte infinitos agradecimentos. Que noite terrível eu teria de passar sozinho neste quarto... mas, dize-me cá uma coisa. Se, como dizes, ela me despreza e nenhum caso faz de mim, porque é que assim te mostras meu rival, e rival enraivado e ciumento?...

— Ciumento... eu ter ciúmes de ti,?... que fatuidade!... Não compreendes que tua enfermidade é apenas um pretexto, de que me prevaleço, para ficar também junto dela?... À noite terás ainda o prazer de presenciar nosso namoro, como já presenciaste de dia. O primeiro foi talvez a causa de perderes o equilíbrio e destroneares o pé. O segundo te há de curar; é cura homeopática.

— E tens certeza de que ela te corresponde sinceramente, Azevedo?...

— Oh... se tenho... pois não viste?... e se queres uma prova, aqui está, — disse Azevedo tirando do bolso um cravo caboclo, que apresentou bem perto dos olhos de Belmiro.

— Conheces esta flor?...

— Oh! se conheço!... respondeu Belmiro, desorientado e querendo orientar-se. Ofereci à Dona Adelaide um cravo semelhante a este, quando estivemos no jardim; será o mesmo?

— O mesmíssimo, meu palerma. Como tiveste a imbecilidade de oferecer à Dona Adelaide semelhante flor?...

— Pois que tem de mau essa flor?... é tão bonita, e parece-se tanto com ela!...

— Pois é por isso mesmo, pateta!... fizeste-lhe um terrível epigrama.

— Epigrama!... como assim! — replicou Belmiro embasbacado.

— Fica sabendo, meu simplório, já que não tens penetração para coisa alguma, que Dona Adelaide, a despeito de sua cor sofrivelmente tisnada, tem fumos de branquidade e fidalguia; acredita piamente que seu sangue não tem mescla alguma de africano nem caboclo... Se não és de todo idiota, bem podes compreender que só a palavra — caboclo — lhe dói mais nos ouvidos do que... dói-te esse pé...

— Ah!... não sabia disso.

— Não sabias, mas bem o sei eu, e não há em S. Paulo quem o ignore. Vou agora pôr-te ao fato da linhagem do nosso Anfitrião. O major é caboclo quase puro sangue, como bem está revelando o seu todo. A respeito de sua procedência só se sabe que é natural de Curitiba, e filho de um cigano, e nada mais. Quanto ao lado materno a estirpe de Dona Adelaide procede ainda de mais baixa estopa. A mãe dela, de que o major há muito tempo é viúvo, segundo a voz geral, não passava de uma linda mulata, filha de uma negra mina, e foi alforriada na pia batismal.

— O que estás a dizer, Azevedo?! não é possível. Tudo isso pode ser mera invenção de alguns desafeiçoados.

— É a pura verdade. Todo o povo de S. Paulo sabe muito bem disso, se o major não quer que isso assim seja. Quanto à filha é bem possível que realmente ignore sua ilustre genealogia, que o pai terá tido todo o cuidado de ocultar-lhe. O major pretende ser descendente de Bartolomeu Bueno e parente chegado dos Andradas. Hás de reparar, que não fala neles sem dizer — o primo José Bonifácio — o primo Antônio Carlos, etc. Essa balda de fidalguia é nele de tal melindre, que ai daquele que com a mais ligeira alusão, mesmo sem querer, a tenha ofendido!...

A estas palavras Belmiro a principio ficou aterrado; mas imediatamente lembrou-se que Adelaide com delicada generosidade já lhe tinha perdoado a involuntária ofensa, e recobrou toda sua seguridade.

— Esta balda, — continuou Azevedo, — ele a comunicou, ou antes a inoculou no espírito de sua filha, quer pelo sangue, quer pela educação. Eis aí porque com o teu desastrado cravo caboclo, sem querer vibraste contra ela o mais acerado epigrama.

— Ora esta!... e eu pensava lisonjeá-la!... Se tivesse de fazer-lhe uma poesia, infalivelmente havia de compará-la ao jambo, e à rola dos pomares, e colocá-la a par de Moema ou de Lindóia.

— Pois, que lhe conheço a balda, a comparo sempre ao lírio, à neve, ao marfim, e creio que se lhe desse mesmo beiços e olhos brancos, não se enfadaria tanto, como com essas tuas cores amorenadas.

Belmiro sacudiu os ombros, como quem diz — que me importa!...

— Mas escuta, Azevedo, — disse ele olhando de esguelha para seu interlocutor; — ainda há pouco vi de relance Dona Adelaide passar por ali rapidamente, e pareceu-me que trazia na cabeça uma outra flor... uma rosa, se não me enganei.

— Justamente!... uma rosa mal aberta; é símbolo que escolhi para ela, e dei-lhe em troco do teu mal-aventurado cravo caboclo.

Aqui Belmiro a muito custo pode conter o riso, e contentou-se com rir-se mentalmente à custa da mentira do Azevedo.

— Bem; — disse ele, — quem me avisa, meu amigo é; daqui em diante serei mais acautelado.

— Perdes teu tempo, — replicou Azevedo. Uma paulista e sobretudo uma paulista da têmpera de Dona Adelaide nunca perdoa um desacato destes.

— Máo é isso! — murmurou Belmiro, fazendo ainda extremos esforços para não rir-se, e teria desatado uma gargalhada às bochechas de Azevedo, se subitamente o quarto não fosse invadido pelo resto da companhia, que ali se instalou alegre e folgadamente em uma tagarelice nunca interrompida até o pôr do sol, hora, em que os estudantes se despediram, ficando o Belmiro e o Aurélio. O major fez-lhes os mais obsequiosos oferecimentos, e disse-lhes modestamente que quando quisessem passar mal uma tarde, viessem à sua casa, que lhe dariam muito prazer. A família do tenente André, como era da vizinhança, ficou ainda.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

Rosaura, a Enjeitada

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Rosaura, a Enjeitada

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Rosaura, a Enjeitada Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 7 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Rosaura, a Enjeitada

Capa de Rosaura, a Enjeitada
Continue a leitura Parte I — Capítulo VII: Sem título Capítulo 7 · 7 de 45 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir