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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 8 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo VIII: Influência de um violão

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A rivalidade, nascida nessa tarde entre os dois estudantes, era efêmera e frívola, como de ordinário são todas as ideias e sentimentos que se geram no cérebro escaldado e no coração bandoleiro dessa espécie de gente. Fundava-se ela por um lado na caprichosa veleidade de Azevedo, que mais por vaidade do que por amor e em razão de suas antigas relações na casa, se julgava com uma espécie de direito adquirido à predileção da moça; e por outro na imaginação impressionável e mórbida sensibilidade de Belmiro. Este, — natureza ardente e apaixonada, nutrida na solidão entre sonhos de volúpia infinda, ficara profundamente impressionado pela provocadora beleza de Adelaide, e julgava ter encontrado nela a encarnação do ideal de seus sonhos. Acoroçoado pelas provas de afeição, que ela lhe dera, já ousava alimentar na fantasia as mais rosadas esperanças. Adelaide era formosa, rica e filha única, e parecia disposta a amá-lo; a ideia do casamento lhe esvoaçava já pela mente com suas asas de ouro e azul, e o fazia entontecer de contentamento. Oh! era um sonho brilhante!... se tal sonho se realizasse, a poesia, de mãos dadas com o amor feliz, as artes, as letras, as ciências, lhe iam abrir de par em par as portas de ouro de seus templos magníficos, e então adeus pobreza, adeus Academia, adeus enfadonhos e empoados livros de direito! Que importava que na genealogia de sua amada houvesse, como dizia o Azevedo, mescla de sangue caboclo e africano?... se realmente ela participava das duas raças, era evidente que deixara com seus ascendentes o que nelas há de ruim, grosseiro e imperfeito, e só herdara o que por ventura nelas há de bom, de belo e de perfeito. Por fim, que significava aos olhos de um jovem poeta e filósofo, sectário de J.-J. Rousseau, alguma gota de sangue servil que circulasse nas veias de Adelaide?... A divisa do filósofo de Genebra, — liberdade, igualdade, fraternidade, não admite tal mácula.

Azevedo, que já há muito entretinha relações com o major, e fazia a corte à filha que sempre acolhera com fagueira amabilidade suas homenagens, não tinha hesitado em levar seus amigos a casa deste sem o menor receio de encontrar em nenhum deles um rival, que lhe pudesse fazer sombra. Foi portanto com bastante descontentamento e despeito, e mesmo com ciúme, que notou o interesse e atenção que começava a merecer da moça aquele de seus colegas de cuja concorrência menos tinha que recear.

Por isso procurava por todos os meios expor ao ridículo a pessoa e a queda de Belmiro, a qual com grande desgosto seu o ia tornando cada vez mais o objeto da atenção e solicitude de Adelaide. Foi pois com esse fim que o maligno estudante, pungido pelo despeito e pelo ciúme, teve a satânica ideia de não deixá-lo pernoitar só em casa do major.

O feitiço porém ia saindo contra o feiticeiro. Retirados os mais estudantes, e depois de noite fechada, reuniram-se de novo as famílias do major e do tenente André no quarto em que se achavam Azevedo e Belmiro. Depois de muita palestra banal, aconteceu cair a conversação sobre a música.

— Adelaide toca piano e canta sofrivelmente — disse o major — se não fosse a doença do pé aqui do amigo, poderíamos ir à sala, para ouvirmos um pouco..

— Qual piano, papai! — atalhou Adelaide com modéstia. — Há que tempo eu nem abro o meu piano!... nem sei mais como se toca. Cantar!... nem falar nisso!... há quinze dias ando tão endefluxada, que me não é possível levar de vencida dois compassos sem tossir... Aqui ela provocou uma tossezinha manhosa para justificar-se.

— Mas, — prosseguiu ela, — o Sr. Azevedo, que é da corte, deve de certo saber bastante música, e talvez queira tocar alguma coisa.

A estas palavras Azevedo, que não obstante sua brilhante imaginação e inteligência superior, nada petiscava de música prática nem teórica, mudou de cor, e apesar de seu grande desembaraço e presença de espírito, sentiu-se algum tanto desapontado. Quanto não daria ele naquele instante para saber dois dedos de música e piano!... com que prazer não deixaria Belmiro sozinho no quarto com o seu pé destroncado, em quanto ele iria para a sala divertir-se com a companhia. Mas não tinha ainda perdido as esperanças; contava ainda a poder de instâncias e rogos reduzir Adelaide a ir para a sala sentar-se ao piano.

— Eu, minha senhora, — respondeu ele com alguma hesitação, — não deixo de apreciar a música, mas nunca me apliquei a esse estudo, nem tenho jeito algum para semelhante arte. Gosto muito da música dramática nos teatros da corte. Isso é bom aqui para o amigo Belmiro, que é o menestrel obrigado e indefectível em todos os pagodes e serenatas de estudantes. Canta, que nem um besouro, mas infelizmente não sabe tocar senão o clássico violão.

— Bravo! que bom! — exclamou Adelaide, batendo palmas de contentamento.

— Então o senhor toca violão?

— Algum tanto, minha senhora, — respondeu Belmiro.

— Pois temos aí um muito bom e novo, que papai comprou para mim... gosto muito do violão... acho mais bonito do que o piano. Tenho também o método; só me falta um mestre O senhor toca por música?...

— Sim, senhora, — Oh!... eu também desejo aprender por música... Lucinda, vai buscar meu violão. Que belo! é escusado irmos à sala... para tocar violão não é preciso o senhor mover-se daí, não é assim, senhor Belmiro?...

— Às mil maravilhas! — exclamou o major também contentíssimo.

— A Adelaide já me tem quebrado os ouvidos com tanto piano que já ando aborrecido. Vamos lá; tragam já o violão. O senhor de certo canta também suas modinhas... Estas moças também cantam, e o senhor pode acompanhá-las.

O Azevedo foi pelos ares com esta nova fase, por que ia passar, — por culpa sua! — aquela reunião. Dava a mil diabos o momento em que se lembrara de falar em violão. Ia ficar esquecido a um canto, ao passo que seu rival, que já era alvo de tantas atenções, ia tornar-se com mais esta exibição o verdadeiro herói da festa, pois bem sabia que Belmiro tocava magistralmente o violão e possuía excelente voz, sonora e apaixonada. Oh! mas ele não adivinhava que na casa havia um violão. Assim, querendo deprimir o seu rival, pôs-lhe nas mãos a arma com que iria acabar de suplantá-lo.

A escrava apareceu trazendo um rico violão, encordoado de novo, que Adelaide tomou e foi pessoalmente entregar a Belmiro, que o recebeu com ares de um verdadeiro trovador. Daí a momentos o quarto retumbou ao som dos mais harmônicos e maviosos acordes. O major, Adelaide, o tenente André e suas filhas vieram logo em frente da cama, onde Belmiro como um Apolo em seu carro triunfal empunhava o melódico instrumento. Os próprios escravos vieram apinhar-se à porta do quarto para escutarem. Azevedo sentia calafrios, e procurava em vão provocando conversações banais distrair a atenção das moças dos magníficos e melodiosos arpejos, enquanto Belmiro deixava os dedos errarem como a descuido pelas cordas do instrumento.

— Não nos há de dar o gosto de cantar também alguma coisa? — perguntou Adelaide.

— Oh! minha senhora! tenho péssima voz; o Azevedo, quando lhe disse que canto como um besouro, disse a pura verdade.

— Não acredito, perdoe-me; apesar de o dizer o senhor Azevedo, que bem sei como gosta de caçoar. Cante sempre; do contrário nenhuma destas minhas amigas terá ânimo de cantar.

— Pois bem! não me farei rogado; obedeço, porque em fim de contas o zumbido de um besouro não é lá das coisas mais desagradáveis de se ouvir. Espero que as senhoras com suas vozes suaves destruirão depois o mau efeito do meu canto. Belmiro limpou a goela, harpejou um pouco com os olhos fitos no teto, baixou-os depois, e com voz sonora, expressiva e apaixonada, cantou uma dessas modinhas lagrimosas, repassadas de queixas, ais e suspiros, que então, como até hoje, estavam em voga.

Ao terminar, bravos e palmas acolheram o cantor. Adelaide ficou enlevada, e depois dirigindo-se a Azevedo: — Então?... que tal acha?... confesse, que se os besouros cantam assim, vale bem a pena tê-los na gaiola à nossa janela.

— De certo, minha senhora, — respondeu Azevedo algum tanto desconcertado, — principalmente este, que é já um besouro domesticado. Eu já sabia que o Belmiro não canta mal; mas se a senhora ouvisse um meu patrício e colega, chamado Couto... Oh! que rapaz prodigioso!... aí é que era ver o que é perícia, habilidade e perfeição. Se eu soubesse que a senhora é tão apaixonada pela música, e especialmente pelo violão, já o tinha trazido aqui. Mesmo no Rio passa por uma notabilidade. Se o major permite...

— Porque não, — atalhou o major.

— Pode estar certo de que todo aquele que aqui for apresentado pelo senhor, será sempre bem recebido.

— Não duvido, disse Adelaide, — que esse senhor Couto seja o que o senhor diz; mas enquanto cá não vem, vamos ouvindo aqui o senhor Belmiro. Que dizem, minhas amigas?

— É exato, — respondeu uma delas.

— O senhor Belmiro tem uma voz bem bonita. Cante mais uma modinha; agora sou eu, quem lhe pede.

O Belmiro não teve mais descanso; cantou até às dez horas da noite, e quase esgotou seu repertório de modinhas e lundus. Azevedo, para quem aquele sarau musical ia-se tornando o mais abominável dos suplícios, colocado entre Adelaide e as filhas do tenente André, não cessava de importuná-las com chacotas e epigramas contra o pobre Belmiro, procurando distrair-lhes a atenção.

— Se ao menos ele não fizesse aqueles trejeitos de mono velho, — ia ele cochichando à direita e à esquerda.

— Minha senhora, por quem é não lhe olhe para a cara, porque assim destrói-se todo o efeito da audição. Eu achava mais prudente, que o tivessem feito cantar atrás de alguma porta... Que berro desentoado deu ele agora!... nem um touro a bramir... e agora... ouçam... que melúria! eu me derreteria em pranto, se não fosse a figura do cantor.

As filhas do tenente, que não tinham o mesmo espírito, nem nutriam os mesmos sentimentos da filha do major, não deixavam de aplaudir o Azevedo com risotas abafadas e momos mofadores. Como não seria assim?... desejavam captar as atenções do estudante, de certo para indenizá-lo da indiferença de Adelaide, que lhe respondia umas vezes com o silêncio, e outras com um — Ora!... deixe-me ouvir.

— E então?... é chegada ou não a sua vez, minhas ricas?., disse o major dirigindo-se às filhas do tenente André.

— Também queremos ouvi-las. O senhor Belmiro, além de doente, já deve estar cansado.

As filhas do tenente, depois de muito instadas e rogadas, foram-se como que deixando arrastar para junto de Belmiro entre momos e caídos, e cada uma esguelou como pode a sua modinha, que graças à desafinação e falta de compasso puseram os ouvintes em debandada, e o acompanhador em torturas. Todavia obtiveram de Azevedo entusiásticos aplausos, que por cortesia foram confirmados por todos.

Chegou a vez de Adelaide.

— Agora, — disse Azevedo, dirigindo-se a ela, — compete à senhora fechar esta filarmônica com chave de ouro.

— Nesse caso deve ser com a mesma com que foi aberta, retorquiu ela, olhando para Belmiro.

— Não, senhora, — acudiu este; — já é tarde, e ser-nos-ia muito agradável adormecer aos acentos da voz de um anjo. Adelaide não podia recusar-se; foi sentar-se no leito ao pé de Belmiro. O pudor virginal radiava encantador em toda sua figura; os olhos baixos nadavam em luz meiga; as faces ardiam em rubor; os seios empolavam-se a ofegarem de enleio e timidez. Quando, sentada bem junto de Belmiro, falava-lhe em voz baixa, quando seus hálitos se confundiam, e suas faces quase se tocavam, enquanto Belmiro apalpava de leve as cordas do instrumento, ensaiando e cantarolando com ela à meia voz a canção, que ia executar, Azevedo quase estourando de inveja e de ciúme não pode conter um de seus costumados remoques.

— Deixa-te de charlatanices musicais, meu Belmiro! — exclamou ele.

— Faze a senhora cantar. Se não te atreves a acompanhá-la, fica-te aí em paz, e nós iremos ouvi-la ao piano.

— Não, senhor, — redarguiu Adelaide, — há de ser aqui mesmo. Não estou acostumada a acompanhar-me ao piano, e o senhor Belmiro acompanha maravilhosamente no violão.

Azevedo amuou-se e não disse mais palavra. Adelaide cantou uma linda cançoneta, em que brilhou mais pela beleza de sua figura e pelo timbre fresco e argentino de sua voz, do que pelo bom gosto e maestria da execução.

— Naturalmente, disse ela a Azevedo, apenas terminou, — o senhor, que comparou o senhor Belmiro a um besouro, agora lá em sua mente me está comparando a uma cigarra.

— Oh! pelo amor de Deus, minha senhora!... não profira mais tal blasfêmia. Não há o menor paralelo. A senhora dispõe de uma voz deliciosa; o que lhe falta é escola. Se a senhora quisesse tomar algumas lições de canto com o meu amigo Couto, de quem há pouco lhe falei, em pouco tempo estaria cantando de modo a fazer inveja a qualquer prima-dona...

— Oh! obrigada! — interrompeu Adelaide, — não tenho essas pretensões. Se meu pai consentisse que o senhor Belmiro me desse algumas lições de violão...

— E porque não, minha filha; a dúvida é o senhor querer tomar esse incômodo.

— Com muito prazer, — acudiu Belmiro.

— Não tardamos a entrar em férias, e como não vou à província, pouco me custa vir cá algumas vezes.

— Aceitamos, — disse o major com mostras de satisfação.

— Toda vez que quiser dar um passeio a esta casa, nós o receberemos com muito prazer.

Não é preciso dizer, em que deplorável estado este ajuste final deixou a pobre alma do Azevedo. Se Belmiro adormeceu entre visões de ouro e rosas, Azevedo apenas dormiu sono agitado, com o peito comprimido pela pesada manopla do despeito e do ciúme, meditando torvas e sinistras vinganças.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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