Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte Belmiro apresentou-se na Academia coxeando e quase arrastando uma perna, dependurado ao braço do Silva, um de seus companheiros de casa. Estava-se no fim do ano letivo, e, crivado de pontos como se achava, o pobre jogral não podia dar mais falta sem arriscar-se muito a uma reprovação. Eis a razão por que, apesar da viva oposição do major e sua filha, viera ao romper do dia para a cidade em companhia de Azevedo, e resignara-se a apresentar-se na Academia naquele lastimoso estado atraindo a atenção de seus colegas e de toda a classe acadêmica. Bem desejara ocultar os acontecimentos; pretextando algum reumatismo, calo, pereba ou qualquer outro incômodo; mas ali estavam o Azevedo e os mais companheiros de pagode que não deixariam de divulgar todo o acontecido e com todas as minudências. Imediatamente Belmiro e o seu Cirineu se viram rodeados de uma turba curiosa e investigadora.
Azevedo ao voltar da chácara do major, depois de ter levado seu companheiro até a porta de sua casa na rua da Constituição, dirigiu-se para a sua, depois de lhe ter aconselhado e recomendado muito que não faltasse à aula. Nesse dia Azevedo foi para a Academia mais cedo do que lhe era mister; ia de ânimo a por em prática a vingança que de noite havia premeditado. Consistia ela em arrebanhar e prevenir uma súcia de garotos seus conhecidos a fim de expor o Belmiro em plena Academia a mais solene e cruel das caçoadas. Pretendia assim tomar cabal desforra da derrota, por que passara na véspera, e burlar para sempre o recente namoro de seu colega.
Logo que viu Belmiro entrar no largo da Academia, adiantou-se a ir oferecer-lhe também o seu braço, aparentemente com mostras de cuidado e interesse, mas realmente tomá-lo a sua conta, e levar a efeito seus satânicos desígnios.
Para logo uma nuvem de estudantes, que cada vez mais ia se condensando, formou-se em derredor deles, e quase os abafavam debaixo de um chuveiro de exclamações, chufas e perguntas.
— Que diabo tem o Belmiro no pé? levou alguma estrepada?...
— Ah! coitado! não vá ser algum reumatismo.
— Ora! qual reumatismo! isso há de ser algum coice, ein, Belmiro?
— Nada! dá cá o pé, deixa ver; quem sabe se é algum bicho apostemado.
A tantas perguntas, que se atropelavam sem dar tempo à resposta, Belmiro conservava-se silencioso, e Azevedo com um riso sardônico e certo piscar de olhos dava a entender, que ali andava qualquer coisa de misterioso. Conservou-se de propósito calado por muito tempo, até que se aumentasse consideravelmente a roda dos curiosos. Então como para se ver livre de tantas importunações, começou a desenrolar a história da função da véspera, e do tombo de Belmiro.
— Cá o maganão,
— dizia ele,
— quis-se fazer de menino para dar nas vistas e agradar às belas, e tentando trepar aos últimos galhos de uma jaboticabeira... ai! coitado!... pobre cavaleiro da triste figura!... no melhor da festa faltaram-lhe as pernas, e desabou lá de cima como um pedaço de céu velho, ou antes como um mono mal atirado e veio cair redondamente a meus pés e de Dona Adelaide, que quase morreu de susto com tal brincadeira.
Entre estrondosas gargalhadas, o Azevedo foi continuando neste gosto a narrar e comentar os acontecimentos da véspera.
Belmiro, que quando se achava entre seus íntimos sempre tinha algum espírito e desembaraço, achava-se completamente tolhido no meio daquela saraivada de ditos e apupadas de tanta gente, que mal conhecia. Debalde invocava a imagem da formosa Adelaide, lembrando-se da preferência com que no dia antecedente o havia distinguido; debalde forcejava por mostrar-se calmo e sobranceiro às chufas e motejos dos acadêmicos. Cada vez mais perturbado, suando e rubro como lacre, não sabia articular a mínima réplica. Para cúmulo de males seu pé doente não lhe permitia efetuar uma pronta fuga, único meio de esquivar-se ao fogo cruzado de tantos olhares petulantes, de tantos risos galhofeiros: forçoso lhe era suportar a pé firme toda essa mortificante metralhada.
— Mas isto ainda não é tudo,
— continuou Azevedo, cujo despeito não se limitava só à pessoa de Belmiro, e estava talvez ainda mais íntimo e profundo contra a inocente Adelaide;
— há ainda mais uma coisa... coisa assombrosa, a que decerto vocês não quereram dar crédito!...
— Mas que coisa?... fala, Azevedo.
— Coisa, que a mim mesmo custa acreditar, posto que meus olhos vissem, meus ouvidos ouvissem!...
— Mas que coisa? fala com mil diabos, Azevedo.
— Eu já lhes digo; tenham paciência. O caso é que a pobre da moça, mordida não sei de que gosto depravado, mostrou-se toda apaixonada por este mono, que aqui vedes!...
— Deveras! não é possível! ou tu estás caçoando conosco, ou então ela o debicava.
— Não é caçoada, sou eu que vos afianço, e juro...
— Qual! qual! não é possível, queres nos debicar também, Azevedo.
— É a pura verdade. Tratou-o com todo o mimo, e à noite, como lá havia um violão, o pôs a cantarolar, o que acabou de embasbacá-la.
— Não, não, não é possível; não posso acreditar,
— insistiram quase todos.
— E porque não?
— exclamou do meio da turba um segundanista quase imberbe, puxando as pontas de uns bigodinhos ainda em embrião.
— Nisso nada há que admirar. Conheço perfeitamente a tal Dona Adelaide e a sua procedência. É na verdade uma bonita mocetona; mas tem os instintos da raça; o sangue africano, que lhe gira nas veias, faz com que não tenha lá muito bom gosto na escolha dos amantes. O ano passado entrei em relações com o major Damásio, pai da sobredita, e um dos mais extravagantes originais que tenho conhecido, e comecei a apaixonar-me realmente pela filha. Mas logo percebi que com ela perdia meu tempo e minhas finezas. Talvez vocês vissem por lá um sujeitinho vivo, esbelto, um caboclo de olhos cintilantes, assim à maneira de gaúcho...
Azevedo e Belmiro olharam um para o outro de um modo significativo, e de feito se lembraram de que viram por vezes de relance girando pela casa do major um caipira ainda moço, esbelto e de bonita presença, a que não deram muita atenção, e julgaram ser algum hóspede de pouca importância, ou algum arrieiro do major. Entretanto não deixaram de refletir que durante sua estada na chácara o tal moço aparecia e desaparecia a miúdo com certo ar desconfiado e sombrio.
— E é verdade,
— disse Belmiro,
— não te lembras, Azevedo, de ter visto lá esse sujeito.
— Perfeitamente, e por sinal que nos não olhava com bons olhos. Mas que tem esse sujeito, capataz ou arrieiro, como me parece, com Dona Adelaide,
— continuou Azevedo, dirigindo-se ao supramencionado segundanista.
— O que tem?... respondeu este,
— nada; é simplesmente o seu amante.
— Não creias tal,
— replicou visivelmente molestado por esta revelação o Azevedo, que ao menos até à véspera daquele dia se julgara na posse exclusiva da afeição de Adelaide, e não podia acreditar na existência de um rival de tão baixa extração.
— Quem te disse isso?..,
— Ninguém, meus olhos viram. Não sou tão asno que não perceba o amor, onde ele existe. Afirmo-lhes; esse capataz é o amante de Adelaide, e o que mais é, amante amado.
— Mas quem é ele! será algum primo?
— Qual primo!... é um domador de burros, que o major trouxe de Curitiba. Mas isso que importa: se o rapaz é caboclo, o major também o é, e demais disso é cigano de pura raça, como todo mundo sabe: lé com lé, cré com cré.
— Cuidado com tua pele, meu Belmiro!
— exclamou um da turba,
— repara em quem pretendes tirar do lance... tens um valentão pela proa; estes curitibanos não são para graças.
Assim continuaram por algum tempo os motejos daquela turba desalmada à custa do major, de sua filha e do curitibano, motejos, de que o próprio Azevedo já não estava gostando muito. Quanto a Belmiro, esse com o coração ainda a palpitar com a terna recordação dos mimos de Adelaide, sentia revoltarem-se-lhe as entranhas, e estava a ponto de sair em campo para desafrontar a reputação da gentil paulista, tão pública e atrozmente atassalhada por aquela horda de maldizentes. Conteve-se porém nos recantos de seu natural acanhamento, refletindo que aquilo bem podia ser o começo de uma aventura, em que, sem o pensar e sem o querer, iria representar uma das principais figuras, e envolver-se talvez em bem maus lençóis. Obedecendo pois não só à reflexão como à sua própria índole, entendeu que melhor seria não tomar parte alguma na discussão, e nem sair a campo qual novo D. Quixote a romper lanças por uma Dulcinéia, que apenas conhecia da véspera.
Uma palavra de Azevedo, palavra calculada e adrede insinuada nos ouvidos de Belmiro para os devidos efeitos, o fez subitamente mudar de deliberação.
— Covarde!
— disse-lhe ele, ao ouvido
— pois deixas assim ser profanado e atassalhado por esta corja de biltres o nome daquela que ainda ontem, vendo-te pela primeira vez, tratou-te com tanta distinção e carinho?... ah! se ela o souber!...
Belmiro corou até os olhos; compreendeu que era mesmo desairoso e até ignóbil da sua parte não dizer uma só palavra em desafronta daquela que lhe havia testemunhado tanto afeto e predileção, e chamando em seu auxílio a pouca presença de espírito que ainda lhe restava:
— Meus amigos,
— disse,
— não devemos fazer juízos temerários...
— Aí temos moralidade! fora o pregador! fora o namorado sermonista!... por aí não vai bem!
— Com estas e outras exclamações abafaram a voz de Belmiro.
— Deixem-no falar, com mil diabos!... gritou o Azevedo zangado.
— Atendam, que até agora ainda não proferiu palavra.
— Pois bem, meus senhores! exclamou Belmiro um pouco animado com o auxílio, que Azevedo parecia prestar-lhe.
— Posso afiançar-lhes que todos esses ditérios, que andam assoalhando contra o major e sua filha, não passam de miseráveis e indignos aleives. Se o senhor duvida,
— acrescentou dirigindo-se ao moço do bigodinho,
— pode ir conosco lá no domingo; o major autorizou-nos a convidarmos quem quisermos; e terá ocasião de reconhecer que tudo isso não passa de um desprezível embuste, filho talvez do despeito de alguém, que tomou tábua.
— Oh! oh! como está arrogante o malandro!
— retorquiu o mocinho do bigode, tomando para se a carapuça.
— Havemos de ir sem dúvida, e para isso não preciso de sua apresentação; eu também conheço o major, e não é de ontem. Juro que hei de disputar palmo a palmo o terreno, não só aqui ao amigo Belmiro, como também ao tal mequetrefe de capataz. Meu Belmiro, emprazo-te para domingo!
— terminou batendo-lhe no ombro.
Nesse momento a sineta da Academia batia um quarto depois de dez horas; era tempo de Belmiro, Azevedo e muitos outros, que ali se achavam, entrarem para as aulas, pelo que dissolveu-se naturalmente aquele ajuntamento, que já ia tomando um caráter tumultuário.
Terminadas as aulas, enquanto Belmiro se retirava lentamente para casa ao braço de seu companheiro, o infatigável e maligno Azevedo contentíssimo com o resultado do seu trama, que excedera mesmo à sua expectativa, deixou-se ficar na Academia, combinando com alguns companheiros os meios de pregar outra caçoada ainda mais cruel ao Belmiro no domingo próximo na própria casa do major.
Cumpre notar que o despeito de Azevedo não tinha só por alvo o seu colega, estendia-se também a Adelaide, ao major, ao curitibano, e a todos aqueles que tivessem concorrido para perturbar os horizontes até ali tão serenos de seu tranquilo namoro. Projetava promover, senão um escândalo, na casa do major, ao menos um tal desaguisado, que havia de perturbar todas as suas relações, e desarranjar por muito tempo todos os namoros presentes, passados e futuros de Adelaide. Para esse fim não podia contar muito com a cooperação dos companheiros de casa de Belmiro, quase todos amigos e comprovincianos deste, e demais pouco próprios para empresas desta ordem. Convidou portanto outros companheiros mais apropriados, entre os quais figuravam o Couto
— o violonista notabilidade,
— e o moço dos bigodinhos. Não se esqueceu também de recomendar muito ao Belmiro que por maneira alguma faltasse à função de domingo.
Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.
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