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Rosaura, a Enjeitada

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Rosaura, a Enjeitada

Capítulo 14 · Rosaura, a Enjeitada

Parte I — Capítulo XIV: Cai de todo a venda

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Eram de todo infundados por este lado os receios de Conrado. Adelaide, saindo do quarto de seu jovem camarada, correu imediatamente para seu aposento a fim de coordenar suas ideias agitadas, cobrar alguma calma e refletir sobre o meio que empregaria para ter pleno conhecimento da verdade a respeito de sua genealogia, que agora via ameaçada de ser de súbito arrojada do solar da mais alta fidalguia à pocilga das senzalas. Tinha toda a confiança em Conrado, e dava inteiro crédito às suas palavras; mas no caso melindroso, de que se tratava teve certos motivos para desconfiar e tornar-se incrédula. Cismou que o moço, não podendo elevar-se até ela pelo lado da geração, levado talvez também por ciúme e despeito, queria rebaixa-la até a se.

Adelaide não levou muito tempo a refletir; veio-lhe logo à lembrança a preta Lucinda, a escrava mais antiga do major, cozinheira, copeira e quase mordoma da casa desde de tempos imemoriais, e que impreterivelmente devia saber a genealogia dos progenitores de sua sinhá moça. Foi logo procura-la e depois de uma breve conversação e rodeios preliminares começou o interrogatório.

— Você conheceu bem mamãe, não é assim, Lucinda? — Como não, sinhá? por sinal que era uma mocetona bonita mesmo; sinhazinha é o retrato dela.

— E minha avó, a mãe de mamãe, você também conheceu?...

— Ah! essa conheci também... era...

A preta hesitou e calou-se.

— Quem era?... fala. Não sabes de que família era, insistiu Adelaide.

— Não sei, não, sinhazinha; branco é que sabe dessas coisas.

— Nem sabes me dizer se era de boa gente?...

— Ah! sinhazinha!... pois o sinhô velho havia de casar com gente ruim?...

— Pois escuta, Lucinda; eu já ouvi dizer, que papai é filho de um cigano, e que a defunta mamãe foi forra na pia.

— Cruz! Ave Maria! — exclamou a preta arrepiando-se toda, mas com certo risozinho expressivo, que a seu despeito significava muito. — Quem é que anda contando essas candongas a sinhazinha?... não sei disso não; cruz!...

— Você bem sabe, Lucinda; é porque não quer me contar.

— Qual, sinhazinha; isso é mexerico de gente que não tem que fazer. E sinhazinha que importa com isso agora?... deixa a boca do mundo falar. Sinhô é rico, não é assim?... sinhazinha é bonita, prendada, e eu não vejo aí na cidade moça nenhuma que lhe chegue aos pés. Tira isso da imaginação, sinhazinha.

Adelaide era de espírito fino e atilado; compreendeu perfeitamente as respostas evasivas e o riso ligeiramente sardônico da velha escrava; para ela não existia mais dúvida alguma; o que o povo assoalhava a respeito de sua ascendência, era a pura verdade. Foi violento e profundo o desgosto, que sentiu ao ter a certeza da humildade de sua procedência, mas não foi de muita duração. O major também ficou sumamente acabrunhado com a chacota dos estudantes e jurou pelas cinzas de seus antepassados nunca mais abrir sua porta a nenhum deles, nem mesmo que viesse recomendado pelo compadre Tobias. O pobre Conrado estava como esmagado sob o peso da nova e tormentosa crise, por que passara a casa do patrão, crise ocasionada a princípio pelo pasquim dos estudantes, e agravada depois pelas indiscretas revelações que fizera à patroa. Ouvia os passos do major a passear de um para outro lado pelas salas e corredores da casa e a resmungar com voz carregada frases de indignação, que não podia bem ouvir, e esperava aterrado as consequências do despeito e da cólera do pai e da filha. Adelaide também deixara de aparecer, e se havia recolhido triste e amuada a seu aposento, a fim de chorar a sós a injúria e humilhação, por que passara. Tudo isto vinha avivar a inquietação do mancebo que apesar de lhe ter Adelaide asseverado, que não estava mal com ele, nem por isso deixava de nutrir as mais aflitivas apreensões.

Os leitores notaram por certo o desplante e seguridade com que Adelaide pedira a seu pai que deixasse por sua conta o negócio dos estudantes; viram também como esse espírito de vingança achou-se desapontado e encolheu as asas com as revelações de Conrado e as respostas evasivas de Lucinda.

— Então, minha filha?... que fizeste?, perguntou o major no dia seguinte à sua filha, vendo que ela nem tocava em semelhante assunto. — Não me pediste que deixasse por tua conta o castigo dos biltres, que te insultaram?

— É verdade, papai, respondeu a moça com ar constrangido; — mas depois refleti que mexer nessa porcaria era dar-lhe vulto e importância que ela não merece. Tranquemos a porta a essa canalha, fiquemos em nosso canto e deixemos o mundo falar. Tudo o mais é desafiar escândalos, que nos viram encher de maior vergonha ainda.

— Como?! — replicou o major empertigando-se; — eu amuar-me a um canto e consentir que vivas também sepultada na obscuridade, a ti, que por teu nascimento, tua formosura e tuas prendas nasceste para brilhar no mundo! Não faltam homens de todas as classes e de todas as condições, que até se darão por muito honrados em frequentar nossa casa; homens sisudos, doutores, médicos, militares, e não essa corja de farroupilhas e pelintras, libertinos sem moral nem religião. Não! nunca! nunca!... e tudo isso só por causa de um biltre insolente, que nos mimoseou com um papel sujo!... oh! não, não, mil vezes não!... quem não conhece o major Damásio Augusto Bueno de Aguiar e Andrade!?

— Sim, meu pai; não duvido do que diz; mas todos esses figurões serão também capazes de nos atirar lama à cara no dia, em que não quiser corresponder à... oh! meu pai, deixemos de nos intrometer com estudantes, ou com fidalgos; fiquemos sossegados em nossa casa, e deixemo-nos de bazófias; cada um deve conhecer o seu lugar; não há coisa pior do que andar alardeando fidalguia, mesmo para quem a tem.

Estas palavras penetraram como lâminas de gelo no coração do major, que encarou a filha de alto a baixo, cheio de espanto e confusão. Era a primeira vez que a ouvia falar com tanto desembaraço, tendo em pouca conta e como que pondo em dúvida a nobreza de sua linhagem. Quem teria transtornado assim as ideias da menina? não podia capacitar-se de que a simples leitura de um miserável pasquim a levasse a descrer da alta procedência de sua genealogia. Entretanto percebeu que a ilusão, em que pretendia mantê-la, tendia evidentemente a desvanecer-se, e isto era a mais horrível das provações por que podia passar a fatuidade do major.

— Então desconheces a nobreza do teu nascimento? — perguntou ele, querendo sondar o espírito da filha.

— Não desconheço, e nem conheço, meu pai; e o melhor seria mesmo nada saber.

A esta réplica curta e incisiva o major nada ousou objetar, e embuchou todo amuado e de mau humor.

Desde esse dia a casa do major mudou completamente de aspecto; a alegria, o movimento e a vida, que até então ali reinavam, foram substituídos por um silêncio monástico, por uma solidão quase absoluta. A porta da entrada estava sempre trancada, e não se via mais às tardes o bom do major emoldurado em seu alpendre de trepadeiras fumando tranquilamente o seu havana, esperando a chegada de algumas dessas visitas que com sua conversação costumavam suavizar-lhe as horas do quilo.

Assim passou-se cerca de um mês, durante o qual a chácara do major parecia jazer em muda e apática inação, e quem por ali passasse, pensaria que os habitantes dela estavam de nojo pela morte de algum dos membros da família.

O autor e os cúmplices do insolente e horrível atentado que pôs por terra a aristocrática prosápia do major, nunca mais lhe puseram os pés em casa; outros estudantes, porém, alheios a esse trama satânica, mas adoradores apaixonados de Adelaide e pretendentes às suas boas graças, lá lhe foram bater nos ferrolhos. Mas Adelaide não lhes apareceu, e o major os tratou com tão cerimoniosa frieza, que saíram com a firme resolução de nunca mais lá voltarem.

Belmiro também, que seduzido por falazes aparências ainda nutria algumas lisonjeiras ilusões, lembrando-se do convite que tivera para dar lições de violão à menina, animou-se a ir um dia à casa do major. Não foi mais bem sucedido que os outros. Adelaide foi também invisível para ele, e o pai só apareceu para declarar-lhe positivamente, que a filha não queria mais estudar violão, e que de mais a mais estava resolvido a cortar todas as suas relações com estudantes. Belmiro, que estava ao fato das ocorrências, mas que realmente não tomara parte nelas, antes reprovara alta e categoricamente o procedimento de seus colegas, começou a balbuciar algumas frases tentando em vão justificar-se; seu discurso foi atalhado in limine, e teve de retirar-se como os outros, inteiramente desapontado e desencantado. No dia seguinte compôs e atirou às auras da publicidade algumas estrofes descabeladas, repassadas de fel e desespero, em que prometia suicidar-se. Mas não consta que cumprisse a promessa, nem tão pouco que seus versos fossem lidos por Adelaide.

Antes de terminar este capitulo, é indispensável declarar que assim como Belmiro, nenhum dos outros seus companheiros, que no começo desta história achamos reunidos na casa da rua da Constituição, tiveram parte na cruel vindita com que alguns desalmados procuraram desforçar-se dos desdéns da filha do major.

O Azevedo também não foi entrado nessa trama, pois quando ele se deu, já se achava ausente, em férias.

— Então, como vai a tua Adelaide? — perguntou ele em março do ano seguinte a Belmiro, com quem se encontrou na Academia.

— A minha Adelaide!... tão minha, como tua.

— Sim?! então não prosseguiste com o teu namoro?... pois é pena; ias tão bem encaminhado!...

— Ora deixa-te disso, Azevedo! se foste tu mesmo que atrapalhaste tudo!...

— Como!... eu!...

— Ora, como!... apresentando lá o Couto.

— Pois que tinha o Couto?...

— Que tinha?!... não te faças assim desentendido.

— Ah!... é verdade! agora me lembro; o major, que é todo afidalgado, não gostou...

— Pois bem; hás de também estar lembrado de que no primeiro dia, que lá fui, dei a Dona Adelaide um cravo caboclo, caso de que muito te aproveitaste para meter-me à bulha.

— Isso é verdade.

— Pois sim; tu fizeste pior; eu dei-lhe flor cabocla, mas mui linda e mui cheirosa, e tu lhe ofereceste um verdadeiro caboclo de carne e osso, que, a dizer-te a verdade, não é dos mais lindos, e para que?... para seu mestre de música !... confessa que fizeste aquilo por despeito e de propósito para achincalhar a moça.

— Não, meu Belmiro, acredita-me; como vi que ela gostava muito de música, foi só para tirar-te essa vantagem, que apresentei o Couto, compreendes?... eu queria reconquistar a posição, de que ias me desalojando.

— E com isto produziste a mais temível das crises. O meu cravo caboclo foi o prólogo desse drama; o teu violonista caboclo produziu o entrecho; o pasquim dos estudantes trouxe o terrível desenlace.

— Qual pasquim?... conta-me isso.

Belmiro contou então a historia do abominável epigrama e da ruptura completa de relações, que produziu entre a família do major e os estudantes.

— Agora é escusado lá ires mais, — terminou. — Nem o major nem Adelaide querem ver mais estudantes nem pintados.

— Melhor! — disse friamente Azevedo — também aquelas viagens já me iam enfadando, e roubavam-me muito tempo.

Assim pois, tanto o major e sua filha, como eu e o leitor daqui em diante, ao menos por muito tempo, vamos nos ver livres de estudantes.

Rosaura, a Enjeitada

Sinopse

Romance de Bernardo Guimarães que atravessa duas gerações, segredos familiares, relações de poder e a violência da escravidão no Brasil oitocentista. Esta edição integral apresenta ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, com base nos dois tomos da edição Garnier de 1914 preservados pela Biblioteca Digital da UFSC.

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